A voz delas

As mulheres do sertanejo invadiram um reduto machista. Resta saber se não é mais uma modinha

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As milhares de pessoas que acompanhavam a gravação do DVD de Maiara & Maraisa no estacionamento de um shopping de Campo Grande (MS) fugiam do uniforme fivela-botina-chapéu, visual já desatualizado do mundo sertanejo. Eu estava lá, atrás de respostas sobre o atual sucesso das mulheres num estilo musical no qual a voz vinda do palco é quase sempre masculina.

Artistas e fãs dizem que a ascensão vista em 2016 representa a chance da mulher ser e fazer aquilo que quiser. A nova geração de sertanejas quer encher o pulmão para cantar que manda embora quem as fez de palhaças e que vai ter bebedeira, sim. Pode surgir a dúvida do quanto esse comportamento tem relevância no contexto do novo feminismo. A certeza é que, se alguém reclamar, elas compram o bar e bebem até a hora que quiserem, como cantam Maiara & Maraisa em “Sob Nova Direção”.

Na moda

A verdade é que elas não chegaram ao topo da parada sertaneja fazendo apologia ao copo. Tem também muito modão romântico, relato de saudade, de pegação, expectativa sobre um novo amor, diversão “cazamigas”, basta em relacionamento abusivo e outros temas já explorados. Na pista, onde se ouve a voz do povo, a percepção é que elas cantam a vida e os sentimentos das mulheres, trazendo uma resposta às canções dos homens e levando aos palcos a representação da igualdade entre os sexos.

Com esses temas, as mulheres estouraram numa categoria já chamada de "feminejo" (sim, difícil). Mas, devido ao nicho e à velocidade com que tudo aconteceu, ainda há quem pergunte se Marília Mendonça é uma artista solo ou nome de dupla – repetindo um movimento que seguiu a morte de Cristiano Araújo, “o cantor que ninguém conhecia, exceto milhões”.

Já houve cantoras de destaque nesta área, claro - inclusive Inezita Barroso, que lá nos anos 50 relatou um porre em “Marvada Pinga”. Mas nunca tantas juntas e cantando de forma tão abrangente o que, na visão delas, é ser mulher. Com a palavra, as Irmãs Galvão, há 70 anos na ativa. “Também fizemos isso, mas era preciso muito, muito cuidado. Não podia falar nada, senão era puta. Agora a mulher pode falar e se apresentar da forma como quiser: está tudo mais aberto, mais livre”, comemora Mary Galvão.

FEMINISTA, EU?

Tantas “evidências” levam à associação entre o fortalecimento do feminismo com o sucesso dessas mulheres. Mas as próprias estrelas não se assumem feministas - ao menos por enquanto - e até rejeitam o rótulo, mesmo cantando e agindo como outras artistas assumidamente engajadas. Tá dominado, mas ainda sem a bandeira do movimento que isso representa.

“Sinceramente, nunca pensei nisso [feminismo nas letras]. Cantamos a verdade, o que sentimos. Se agradamos as meninas que gostam do movimento, estamos juntas. É parceria total, estamos aqui para defender as mulheres”, disse Simaria. No “Domingão do Faustão”, Marília Mendonça contou a história de suas composições, muitas feitas enquanto “tomava uma”. Falou de machismo – “não é só o sertanejo que é machista, é o Brasil inteiro, o mundo inteiro” -, mas não mencionou a palavra “feminismo”. Parte do conceito, no entanto, estava ali: “Eu escutava músicas e ficava querendo ouvir minha história, mas não encontrava. E quando a mulher cantava, era uma vida de princesa, que eu nunca tive. Nunca fui princesa, meus relacionamentos nem sempre deram certo. E eu precisava ouvir alguém falar [disso]”.

Em Campo Grande, durante conversa com o TAB sobre como “a mulher é forte, guerreira, vai para cima e acredita em seu talento”, Maiara declarou não ser feminista (na sequência, Maraisa ainda ironizou, dizendo que esse discurso de empoderamento era machista). Na plateia desse mesmo show, houve quem fosse além: “Não tem feminismo, de forma alguma. Tanto que elas tomam a cervejinha delas”, disse uma das fãs.

MANUAL DE INSTRUÇÕES

Segundo especialistas, há feminismo, sim, nessa onda sertaneja. O que falta – e, segundo os mesmos, pode nem fazer falta - é o rótulo hoje tão propagado, por exemplo, nas redes sociais. Mas olha só. Cynthia Semíramis, pesquisadora sobre história dos direitos das mulheres e doutoranda em direito na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), reconhece a importância dessa identificação, pois amplia a força e a capacidade de mudança. Porém, entre conceito e rótulo, deve prevalecer o primeiro. “O que importa é a mensagem de autonomia e liberdade passada para o público, pois estimula que mulheres sejam independentes e donas das próprias escolhas, sendo admiradas e respeitadas por isso”, afirma. Ela explica que ainda existe muita confusão em torno do que é feminismo, dificultando essa compreensão mesmo quando se defende direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres.

Na prática, acontece o seguinte. Durante mais de uma hora no trajeto até o aeroporto de Guarulhos (SP), a caminho do festival Caldas Country Show (Caldas Novas, GO), a conversa com o motorista Valdir Cassiano girou em torno da música sertaneja que ele ouvia quando entrei no carro. Falamos dos modões. Das mulheres. Dos modões cantados por mulheres, hoje os favoritos de Valdir, que se orgulha de conhecer as coleguinhas Simone & Simaria desde quando faziam coro para o forrozeiro Frank Aguiar. Nos últimos meses, comprou CDs e DVDs de quatro sertanejas. Jura não pular nenhuma música e diz apreciar especialmente a forma como elas cantam a sofrência. Gosta das letras, dos shows. Nossa conversa seguia animada até eu perguntar se ele as considera feministas. Foi quando perdi Valdir por alguns instantes, que respondeu com um murmúrio qualquer. Mas foi um sinal da irrelevância de um manual de instruções sobre os conceitos que essas mulheres levam ao cenário sertanejo.

“Às vezes, mercadologicamente não é interessante usar algum rótulo em determinado nicho. Cada gênero musical tem negociações específicas com seu público, com a cena e até com o tratamento da mídia. Estrategicamente, pode ser mais interessante elas trabalharem da forma como estão fazendo, comendo pelas beiradas”, afirma Adriana Amaral, professora de pós-graduação em comunicação na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e pesquisadora de cultura pop. Não há insinuação nem evidências de que esta seja uma estratégia pensada, mas é a forma como esse movimento se desenvolve.

VOZ A MUITAS VOZES

As sertanejas apresentam pontos de vista distintos sobre diferentes realidades da mulher, fugindo muitas vezes do feminismo considerado “tradicional”, como afirma Simone Pereira de Sá, doutora em comunicação e cultura, que desenvolve na UFF (Universidade Federal Fluminense) um estudo sobre cenas musicais pop periféricas do Brasil com foco na performance feminina. “Nos últimos anos, houve uma reconfiguração no discurso feminista, que ao longo do século 20 era mais organizado. Havia uma pauta e objetivos muito claros, mas há críticas de que era composto por mulheres brancas, de classe média. Essas múltiplas vozes [das cantoras] nos obrigam a pensar de uma forma mais plural. Feminismo não é só lutar por direitos civis e votos, mas também falar sobre questões cotidianas na vida da menina do interior, da favela, da balada country”, explica Simone.

Deixando de lado as especificidades de cada gênero, as sertanejas estão fazendo, de uma maneira mais sutil, o que as funkeiras vêm fazendo há alguns anos. É hora, então, de saber o que pensa Valesca Popozuda, cantora feminista da categoria “pronta para o combate”. “Estou acompanhando e curto muito, as letras têm tudo a ver com o que elas passam. Este é o momento delas, de ficar e bater de frente, porque elas têm este poder”, diz a funkeira.

Tal poder também se manifesta comercialmente, pois leva público aos shows e gera vendas – de CDs e DVDs a streaming, passando por bonés, camisetas e copos personalizados com o nome dos artistas. Atento ao movimento, Luan Santana gravou com seis cantoras o DVD “1977”, ano em que o Dia Internacional da Mulher foi adotado pela ONU (Organização das Nações Unidas). Wanessa Camargo abandonou o pop e voltou às origens. Nunca na festa do peão de Barretos (SP) tantas mulheres subiram ao palco como em 2016: foram nove. No Caldas Country, definido pelo motorista Valdir como o “Lollapalooza sertanejo”, os entrevistados deste TAB disseram estar lá para ver ao menos uma das duas duplas femininas - da jovenzinha com discurso empoderado ao homem mais velho, fã declarado de Chitãozinho & Xororó.

Falando sobre as duplas mais clássicas, vale uma comparação com o que fizeram no passado, abordando preocupações sociais então pertinentes – equivalente hoje ao feminismo. Professor de comunicação social na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e autor do livro "Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira", Gustavo Alonso lembra que nos anos 1990 Chitãozinho & Xororó cantaram sobre ecologia e meio ambiente em "Natureza Espelho de Deus", enquanto Zezé Di Camargo & Luciano fizeram as músicas "Bandido com Razão" e "Garoto de Rua", sobre menores abandonados. “As temáticas de vanguarda que encantam crescentemente a sociedade não são mais as grandes mobilizações sociais e ideológicas do passado, mas especialmente questões relativas ao chamado micropoder, a luta por liberdades cotidianas. A luta dos diversos feminismos insere-se nessa pauta e seu crescimento na música sertaneja ilustra um desejo destes grupos sociais de participar deste debate”, explica Alonso.

Ainda segundo o autor, as mulheres não transformam, mas sim amplificam a temática do chamado sertanejo universitário. Esse ciclo iniciado em 2005 mistura sertanejo com outros gêneros, como forró, e trouxe uma mudança nos discursos poéticos. Foi quando o distanciamento e a solidão (“dor de corno”, se assim preferir) passaram a dividir espaço com o amor afirmativo (aquele que vai dar certo), a pegação e o individualismo (chave para a felicidade contemporânea). Dá-lhe, portanto, bar, balada e motel. 

DANDO A LETRA

“Essas cantoras que estão hoje dominando escreveram a maioria dos sucessos dos últimos quatro anos de duplas masculinas”, afirma o produtor musical Eduardo Pepato, que trabalha com Maiara & Maraisa, Marília Mendonça e Paula Mattos. “A mulher conseguiu fazer um repertório que falasse para a própria mulher. Nos shows, a gente vê que elas cantam como se fosse um grito, aquilo que gostariam de dizer. Foi isso que deu o boom”, completa.

Como ainda é tudo muito novo, não existe consenso se a mensagem dessas músicas é a mesma quando cantada por homens ou mulheres – como feminismo é igualdade, faria todo sentido que fosse. Nas entrevistas com fãs, ficou clara uma percepção bem diferente sobre a voz da mulher: a imagem, o timbre e a interpretação tocam o público de uma forma supostamente mais profunda. Saquei a teoria, mas só entendi isso na prática quando me apeguei com muita intensidade a “Eu Sei de Cor”, de Marília Mendonça. Também há muita empolgação, mas certamente menos identificação, ao ouvir Gusttavo Lima cantando que tirou o som do carro quando o cachaceiro virou homem de família, trocando a noite pelo dia e o bar pela sorveteria.

Em sua dissertação de mestrado na área de linguística aplicada da Unicamp (Universidade de Campinas), Amanda Ágata Contieri estudou 17 músicas para analisar a representação da mulher no sertanejo de décadas passadas. Sua pesquisa indicou que a mulher era colocada em posição inferior, mas Amanda ressalta que essas canções estão inseridas em uma sociedade que aceita o machismo. Sobre a transformação atual, ela diz: “O mais importante é justamente as mulheres ganharem voz em um universo predominantemente masculino e tradicional. O fato de o que é dito ser enunciado por uma mulher, a partir de sua voz, é muito relevante, principalmente se é o próprio ponto de vista dela que molda seus discursos. Algumas letras não são tão diferentes do que é cantado pelos homens, mas a novidade está em ela contar essas histórias”.

AMIGA DA AMIGA

Assim como acontece há tempos com eles, a explosão aumenta quando as sertanejas unem forças, compondo e cantando juntas ou interpretando as músicas umas das outras.  “A gente também escreve com eles, mas nada se compara à nossa parceria com a mulher, como foi com a Marília Mendonça. Quando junta nós três, não tem igual”, contou Maraisa, da dupla que aparece no bombado vídeo “50 Reais”, ao lado de Naiara Azevedo, entre muitas outras parcerias. A parceria também se estende ao público e está presente em letras como “Infiel” e “Ex do Seu Atual”, com alertas sobre a roubada que é se relacionar com determinado cara. No “feminês”, a união entre mulheres chama sororidade – termo que você dificilmente verá por aqui, mas que já se apresenta na prática.

A mudança é grande, se considerado que no passado as próprias mulheres tinham preconceito. “Muitas não deixavam seus parceiros comprarem discos das cantoras nem irem aos nossos shows. Mas elas podiam gostar dos cantores”, lembra Mary Galvão.

Na busca por explicações para o sucesso das moças, outro motivo recorrente é o fato de essa nova geração não seguir padrões de beleza. Sério que numa reportagem sobre mulheres precisamos falar sobre estética? Sério! Porque na conversa com especialistas e com o público dos shows, ficou claro que visual delas aumenta a identificação com as fãs – fossem elas mulheres mais velhas, mais novas, maquiadas, deboístas, de saltão ou sapatilha (escolha recorrente de Marília Mendonça). É a ideia de que aquelas cantoras poderiam estar na plateia, assim como a fã poderia estar no palco. Simpático, mas ainda assim um argumento cruel, que associa o visual da artista à forma como ela atinge o público – dificilmente o mesmo seria dito sobre o peso do cantor César Menotti.

O cenário parece muito favorável, sem uma voz que se manifeste publicamente para criticar a chegada ou participação das mulheres nesse segmento – algo que realmente poderia pegar mal, considerando a força do novo feminismo. André Piunti, que criou em 2007 o blog “Universo Sertanejo”, diz ainda existir uma rejeição no mercado. “Todos os escritórios hoje têm uma cantora na manga, mas ainda há pessimismo e resistência em relação ao sucesso delas. Há quem fale em casos isolados e não em um novo movimento da música sertaneja”, afirma, sem revelar quem pensa assim. “Não acho que seja uma modinha e creio que elas devem atropelar todo mundo no ano que vem. Mas é importante saber que não aparecerão talentos como os de Marília Mendonça e Maiara & Maraisa toda hora”, completa Piunti.

Resistência também enfrentaram as Irmãs Galvão, que viveram o preconceito escancarado e sentiram, claramente, a diferença que as gravadoras faziam ao promover as músicas de homens e das mulheres. Hoje acreditam que toda a luta, antes mais solitária (muitas trocavam a música pelo casamento), valeu a pena: “Plantamos uma semente forte e ficamos muito felizes com o sucesso e progresso dessas meninas. Torcemos muito por elas”, afirmou Mary Galvão. Seu conselho para a nova geração sertaneja é ter respeito pelo talento, não se deixar dominar, batalhar e mostrar que as mulheres têm garra. “Essa é a hora certa para elas fazerem isso pelas mulheres.” Rende ou não rende um modão?

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