Compartilhar o quê?

Depois do boom, a economia da colaboração ainda tenta equilibrar lucro e idealismo

Gerson Miguel, 29, saiu de casa às 2h de uma segunda-feira qualquer. Técnico em telecomunicações, ele fala com orgulho que sua profissão agora é outra. “Sou motorista. E tenho metas na carreira”, avisa. Há menos de um ano, Gerson resolveu dirigir para o Uber.

Primeiro, alugou um carro, aproveitando-se de uma parceria da empresa com uma locadora de veículos. Depois, comprou um carro. Naquela segunda-feira, Gerson trabalhou das 2h às 21h. Em sua primeira pausa, lá pelas 10h, foi para as proximidades do aeroporto de Guarulhos. A ideia era descansar enquanto aguardava o próximo cliente.

Na atual situação do país, não tem como reclamar. Para valer a pena, tem que trabalhar bastante. É o que eu faço. Acho que a maioria dos motoristas do Uber e outros aplicativos são como eu, alugam ou compram carros para fazer o serviço. Ninguém compartilha o carro que já tinha. Até porque estraga o carro

Gerson Miguel, técnico em telecomunicações e motorista

A breve história de uma segunda-feira rotineira para Gerson, com quase 20 horas fora de casa, nos dá uma ideia dos problemas e soluções da “nova economia”.

Ele não era o profissional mais feliz do mundo em sua área, mas adora dirigir e, como a maioria dos mortais, quer ganhar dinheiro. Passou a determinar o seu horário. Por outro lado, não tem nenhuma garantia, direito a férias, 13º salário, seguro em caso de acidente. Trabalha em média 88 horas semanais. Ganha por mês entre R$ 6.000 e 7.000 - mas gasta em torno de R$ 4.000.

Há quem diga que a “economia compartilhada” mal nasceu e já está morta. Entre outras coisas, pelo que Gerson acaba de nos contar. Quem, na real, está compartilhando o quê?

SEM OBA OBA

A conversa já começa no nome a ser dado para a tal nova economia. Será que os termos “economia compartilhada” ou “economia colaborativa” – usados na primeira edição do TAB, em outubro de 2014 - ainda valem? Alguns críticos gostam de chamá-la de “economia dos bicos”, uma alusão aos empregos informais gerados.

A onda que ganha cada vez mais força é chamar o movimento de “on demand economy”. A economia da demanda, gerada por empresas de tecnologia e que, em alguns cliques, pode atender as necessidades imediatas do consumidor.

“Quando falamos disso dois anos atrás, eu tinha um imenso entusiasmo. Hoje minha visão é mais cuidadosa. Há um lado sombrio dessa história que não estava claro: a revolução digital, e isso envolve a economia colaborativa, tornou-se um dos mais importantes fatores de concentração de renda e poder”, afirma Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo).

O economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), diz que aprendemos duas coisas até agora: há um imenso potencial para novas práticas econômicas, mas elas demandam mudanças organizacionais importantes. “O capitalismo tem dois séculos de estruturas piramidais. Isso aqui é completamente diferente. Cinco anos não são nada na cultura geral. O entrave é sair do oba oba inicial para pensar em formas mais articuladas de organização”, analisa.

Novos problemas

Podemos considerar que a maioria dos negócios da “nova economia” se encaixam em um desses três modelos: impulsionado pelo lucro, negócio orientado por uma missão social e um misto das duas coisas. Na turma do primeiro grupo estão Uber e Airbnb, os dois gigantes da economia compartilhada.

O Airbnb atingiu a marca de 1 milhão de hóspedes no Brasil no ano passado, um crescimento de 140% em relação a 2015. Os críticos apontam a plataforma como “a maior rede hoteleira do mundo”, sem ter que arcar com as taxas e impostos que os hotéis pagam.

A atuação do Airbnb também seria geradora de incômodo e insegurança a vizinhanças, além de aprofundar a escassez de habitações. A empresa rebate. Afirma que não está aberta para “grandes operadores de múltiplas unidades e padronizadas” – ou seja, donos ou administradores de prédios, condomínios e similares -, além de propor negociar com cada cidade ou comunidade regras compatíveis com os tempos atuais. Uma postura, pelo menos no discurso, diferente da adotada pelo Uber nos conflitos que enfrenta mundo afora.

 

É EMPREGO?

Nos habituamos a ver batalhas, físicas, inclusive, entre o Uber e a classe de taxistas. Mas a próxima grande guerra dos aplicativos de transporte pelo mundo é outra. Afinal, o motorista pode ou não ser considerado empregado do Uber?

Em fevereiro de 2017, a 33ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte (MG) reconheceu vínculo empregatício entre o Uber do Brasil e um motorista, condenando a empresa a pagar horas extras, adicional noturno, verbas rescisórias e restituição de gastos com combustível e água. A decisão contradisse outra anterior, da 37ª Vara do Trabalho também da capital mineira. Em outubro do ano passado, um tribunal trabalhista de Londres (Reino Unido) havia determinado que os condutores do Uber eram funcionários da empresa, e não profissionais autônomos.

O Uber argumenta que é apenas uma empresa de tecnologia, que os motoristas são clientes que pagam para usar o serviço, têm liberdade para transportar quem quiserem e quando quiserem, inclusive usando outras plataformas.

“Para dominar o mercado, o Uber impõe preço abaixo do custo e abre uma competição de todos contra todos sem respeitar regra nenhuma. É o capital se reinventando para lucrar, reaparecendo como intermediário sob uma capa de novidade. Nem mais o carro é compartilhado. A ideia de economia colaborativa vem sendo apropriada por grandes empresas que estão deturpando a ideia original”, diz Rodrigo Carelli, procurador do trabalho no Ministério Público do Rio e professor de direitos do trabalho na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). No ano passado, seu grupo de pesquisas focou na atuação do Uber.

“A empresa controla os motoristas por meio de algoritmos, com a avaliação das estrelinhas. Se o cara não tiver nota 4.6, 4.7, ele é eliminado do sistema. Esse controle por programação é baseado em punições e premiações. O RH do Uber somos todos nós. Aquele que tem boa nota recebe bônus. Isso caracteriza o vínculo de emprego, é o controle. Existe um artigo da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] que diz que os meios telemáticos de controle se equiparam aos meios diretos de subordinação”, explica o procurador.

Muitas dessas plataformas se colocam como canais entre pessoas, sem assumir qualquer responsabilidade pelo serviço em si. Os prestadores se submetem às regras sem uma rede de proteção social. Alguns chamam o modelo de “Escravidão 2.0”. “Ao suprimir intermediários, suprimiu um conjunto de instituições que eram capazes de assegurar alguns direitos a trabalhadores”, explica Ricardo Abramovay.

Por um lado, a tecnologia abriu caminho para flexibilizar trabalho e até empreender. Para a produção intelectual, significa mais liberdade. Mas, para determinadas categorias, o fim do emprego tradicional pode significar fim de direitos. Ser chefe de si mesmo não significa que a pessoa não vá ficar dependente de outra empresa.

É um debate que vai além do Uber. Mas é tão latente na gigante dos transportes que o problema da precarização do emprego e perda de direitos vem sendo chamado de “uberização da economia”.

O capitalismo se adapta a tudo o que está externo ao sistema estabelecido. Está sendo criado um gigantesco “cada um por si” para conseguir renda. E estrelinhas.

Uma vez fui para o estádio do Morumbi pegar uma boa corrida após um jogo do São Paulo. Eles haviam perdido o jogo. Como sou corintiano, estava feliz da vida. Mas não podia demonstrar isso. Se eu falasse que sou corintiano, tenho certeza que seria mal avaliado. Até cantei o hino do São Paulo com eles no carro! Tudo isso para ser bem avaliado

Gerson Miguel, técnico em telecomunicações e motorista

TURMA 'RAIZ'

Ao mesmo tempo em que Uber e Airbnb viraram empresas de valor bilionário, com estruturas imensas e focadas em práticas de mercado, muitos projetos de impacto baseados no conceito da economia compartilhada simplesmente acabaram, apesar de aportes e incentivos.

Nos EUA, muitos sites criados no fim da década passada e que buscavam o incentivo à troca deixaram de existir. Adam Berk, fundador do Neighborrow, concluiu: “Tudo fazia sentido, exceto que ninguém dava bola. Em vez de ir atrás de uma furadeira emprestada, a pessoa simplesmente comprava a furadeira”.

No Brasil, uma iniciativa chamada Recomind acreditava na troca de serviços domésticos através de uma plataforma na qual os usuários recomendassem profissionais de qualidade ou confiança.

“As pessoas não usavam como imaginávamos, ninguém recomendava profissionais. Foram diversos os fatores que fizeram o produto estagnar. Erros estratégicos. Não consigo dizer se foi apenas o comportamento”, conta Rodrigo Vitulli, um dos idealizadores da start-up.

Daniela Leite, advogada e entusiasta das colaborações por uma sociedade melhor, criou o Squimb com uma amiga. Um site de troca de coisas. Também fechou. Mas ela segue confiante no conceito, tanto que já colocou na praça um novo projeto, cujo foco é combater o desperdício de alimentos.

Comidas Invisíveis

“Acho que o Brasil não estava maduro para trocas cinco anos atrás. Ainda acho muito cedo para tirar conclusões sobre o ‘fim’ da economia colaborativa. Esses grandes movimentos, tipo Uber e Airbnb, mesmo com os problemas que trazem, são inspiradores para movimentos menores. Já sei de um condomínio em Belém, por exemplo, em que foram comprados carros e colocados à disposição para moradores usarem. Acredito muito no ser humano e neste movimento para mudar os hábitos de consumo”, opina Daniela.

Para o advogado e professor Ronaldo Lemos, mais até do que maturidade, a melhor explicação é o custo de transação elevado, isto é, o custo inevitável de ter de operacionalizar a troca ou o compartilhamento de bens de pouco valor. “Para compartilhar uma roupa é necessário enviá-la pelo correio. Esses custos de transação somados acabaram inviabilizando esses serviços. Na medida em que a logística urbana e o design para redução de custos vão avançando, novas formas podem surgir e se tornarem viáveis”, explica.

 

Braços Abertos

Um estudo feito pela IE Business School, de Madri, em associação com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) aponta que o Brasil é, de longe, o país latino-americano com mais iniciativas de economia colaborativa. É onde estão 32% dos negócios. E os modelos internacionais não param de chegar aqui.

Há pouco mais de um ano, entrou no país o Bla Bla Car, uma plataforma de caronas criada por um francês em 2003.

O Bla Bla Car tem 40 milhões de usuários no mundo. São criadas rotas intermunicipais (já são 25 mil no Brasil) e a plataforma faz um cálculo de quanto o motorista deveria cobrar por passageiro. Ele pode até subir o preço, mas nunca além de 50% do valor sugerido. A ideia não é que ele tenha lucro, mas apenas que custos sejam abatidos.

No Brasil, o Bla Bla Car ainda é gratuito. Em outros países, cobra cerca de 10% do valor da transação. De qualquer modo, é uma plataforma daquelas mistas, que busca o lucro, mas não perde de vista a missão de colaboração e melhor uso dos recursos disponíveis.

O My Open Closet, que começou a operação no ano passado, é uma plataforma na qual aqueles vestidos caros que ficam guardados no armário são oferecidos para aluguel. A maior parte dos vestidos fica fisicamente com as duas sócias que criaram a iniciativa. A empresa leva 50% do valor do aluguel.

O Bliive é uma enorme rede colaborativa em que a moeda é o tempo. Você conquista “TimeMoney” ao dividir sua experiência e habilidades com outras pessoas. E gasta seu “dinheiro” aprendendo algo com alguém. É uma rede de troca de conhecimentos. “Eu não fundei essa empresa para ganhar dinheiro. Fundei para mudar o mundo”, disse Lorrana Scarpioni, fundadora da rede, ao “Huffington Post”.

Lorena Barreto, 31, uma das sócias do My Open Closet, tem visão diferente. “Acho utópico compartilhar porque é bacana, porque faz bem”, afirma. "A gente vê algumas coisas que não vingam. Existe esse enfoque de comunidade, mas tem que ter contrapartida financeira”, completa a empresária.

São modelos de negócios que não ganharam (ainda) o tamanho astronômico de um Uber ou um Airbnb, mas que cada vez mais fazem parte da realidade econômica.

No estudo realizado em 2016 sobre a economia colaborativa na América Latina, o professor espanhol Ricardo Pérez identificou que, no Brasil, “deram certo” as iniciativas que tratavam de serviços já conhecidos - como aluguel e transporte.

“As pequenas iniciativas têm como objetivo trazer valor social para as comunidades, mais que lucro. Mobilizar recursos, que a economia seja mais justa. Por que não crescem mais? Segundo os empreendedores, porque os clientes não conhecem nem confiam nesse tipo de modelo. O que eles pedem: nos ajudem a ter nossos modelos mais conhecidos”, disse, na apresentação do relatório.

A colaboração é mais produtiva que a competição, isso muda as regras do jogo. Expandir o consumo indefinidamente em um planeta limitado só pode ser ideia de um idiota. A janela do tempo está se fechando, e esse novo movimento precisa mudar nossos hábitos

Ladislau Dowbor, economista e professor da PUC-SP

“O Brasil é um ótimo consumidor de novidades e um péssimo produtor delas. Nesse sentido, como consumidores, não tenho dúvidas de que haverá cada vez mais serviços novos disponíveis para os brasileiros. No entanto, o país deveria se concentrar no esforço de se tornar produtor", diz o professor Ronaldo Lemos.

O detalhe disso tudo, claro, depende de um fator primordial: combinar com o capitalismo e sua inesgotável capacidade de se adaptar a qualquer nova circunstância, inclusive num momento como o atual, de crise e desconfiança generalizada em todo o mundo.

“Um dos desafios agora é repensar as instituições com imaginação e ousadia. Acredito que as ferramentas tecnológicas podem ajudar nesse processo, mas não é algo natural ou inevitável. Para a tecnologia ser positiva e melhorar a vida das pessoas é necessário muito esforço e trabalho. Ao contrário, o resultado pode ser na verdade muito negativo”, completa Lemos.

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