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Ser Sonoro: da fogueira à rave, podcast de TAB faz viagem pelo mundo do som

Podcast Ser Sonoro será distribuído aos sábados por TAB UOL - Arte/UOL
Podcast Ser Sonoro será distribuído aos sábados por TAB UOL Imagem: Arte/UOL

Do TAB

07/01/2021 04h00

"Espera aí que eu vou colocar um fone para ouvir melhor." Essa é a primeira coisa que Fernando Cespedes diz quando atende à ligação para contar um pouco sobre o Ser Sonoro, podcast que passa a ser distribuído por TAB no próximo sábado, 9 de janeiro — toda semana você acompanha um novo episódio sobre sonoridades, barulhos e cultura. E é assim que Cespedes sonha que os ouvintes vão escutá-lo: atentos, com fones de ouvido.

Dos encontros em volta da fogueira há milhares de anos à música eletrônica das baladas e àquela produzida por máquinas, Ser Sonoro pretende nos deixar mais atentos ao que ouvimos e prestarmos mais atenção aos sons que produzimos. Viajamos pelo tempo e pelo mundo durante os episódios, que contam a história do som através do próprio som (você pode ouvir o primeiro episódio no final deste texto). Fruto de uma década de pesquisa acadêmica, o que ouviremos no podcast nos ajudará a entender um pouco melhor como nos comunicamos e nos expressamos, seja com a fala, com "barulhos" ou com música.

Cespedes, que já passou por trabalhos no Google, no YouTube e hoje é professor, conversou com TAB para contar um pouco mais sobre esse trabalho e dar uma prévia do que podemos esperar ouvir a cada sábado por aqui.

Fernando Cespedes, criador e apresentador do Ser Sonoro - Fernando Cespedes/Acervo pessoal - Fernando Cespedes/Acervo pessoal
Fernando Cespedes, criador e apresentador do Ser Sonoro
Imagem: Fernando Cespedes/Acervo pessoal

TAB: Como você começou a pesquisar sons?
Fernando Cespedes: Eu sou da comunicação, estudei comunicação social, e sempre curti música. No meu TCC lá na faculdade já tinha vontade de fazer alguma coisa com música, e fiz um guia para as pessoas aprenderem a escutar música eletrônica. Eu queria tentar traduzir o que é a música eletrônica para as pessoas que ouvem MPB, música clássica... Depois, eu estava trabalhando como produtor de shows, de lives musicais no YouTube, e ficava muito tempo vendo os comentários nos vídeos. Comecei a compilar aquilo, e via que era muito parecido -- as pessoas se xingavam, se ameaçavam de morte, elogiavam umas às outras, era muito dramático, sabe? Percebi que isso rolava em música clássica, no pagode, no sertanejo, no rock, tinha um padrão ali. Aí voltei para USP para fazer mestrado e fiz o doutorado nessa ideia de tentar entender como as pessoas se comunicam através do som, como a música é usada para gente criar comunidade, contar histórias e criar nosso próprio mundo. O podcast é uma consequência desse projeto de mais de dez anos. Foi uma pesquisa mais formal e acadêmica, mas senti falta de transformar isso em som, criar uma coisa que as pessoas pudessem escutar e falar "poxa, isso faz sentido".

O Ser Sonoro é diferente da maioria dos podcasts, principalmente na questão da sonorização. Como você define hoje esse trabalho?
FC: Eu diria que é um podcast sobre sons, música e o mundo da escuta. Aí eu desdobro isso um pouco pensando que os sons e as músicas traduzem o mundo. A gente vive em um mundo em que existem paisagens visuais, mas que existem também paisagens sonoras. Do útero da nossa mãe até a hora que a gente morre -- na verdade até um pouco depois que a gente morre -- a gente está escutando, o tempo todo. E eu gosto de explorar como a gente transforma esses sons que a gente escuta em novos sons. Como a gente traduz as nossas experiências, emoções e tudo mais, através desses sons. Eu falo que o podcast é uma exploração do sons do mundo que viram música, e das músicas que também criam um novo mundo. Quando a gente transporta essas músicas para outros lugares, outros cenários, a gente transporta também a paisagem sonora.

Quais os desafios de se fazer um podcast sobre sons, de falar sobre sons em um meio sonoro?
FC: Eu sempre pensei que tudo que eu estava pesquisando era para ser ouvido da forma que é hoje, então por um lado foi super fluida essa adaptação. Por outro, podcast é uma mídia que está muito associada a outras funções. Você está lá dirigindo, lavando a louça, lavando a roupa, fazendo exercício, correndo, e você coloca alguma coisa para tocar, que às vezes fica um pouco como um som de fundo. E eu não queria que o Ser Sonoro fosse desse jeito. Eu queria muito chamar atenção das pessoas, que elas tivessem uma escuta mais atenta. São episódios curtos, e eu penso muito no ritmo e na qualidade dos arquivos, na fidelidade, na edição, justamente para estimular essa escuta mais atenta. Acho que é o mínimo que eu posso fazer, como estou trabalhando com esses temas. Não dá para gravar de qualquer jeito ou fazer uma mixagem que não vai funcionar. Eu acabo gastando bastante tempo tentando honrar esses temas com uma produção técnica mais cuidadosa.

Você até brinca no primeiro episódio que o ouvinte deveria estar usando fone para escutar o podcast. Como você preferiria que as pessoas escutassem o Ser Sonoro?
FC: Se eu puder escolher uma forma, eu vou falar que é de fone. Se puder, escutar de olhos fechados, antes de dormir ou na hora que você acordou... Tentar não usar tanto a visão enquanto a gente está ouvindo, porque são sentidos que competem muito. Eu crio o podcast para as pessoas ouvirem de olhos fechados. Como eu sei que isso pode ser demais para pedir, eu acho que um fone ou caixinhas de som melhores seria o ideal. Mas é aquilo, se tiver que ouvir no ônibus, no metrô, num radinho, ouça mesmo assim.

Como a sua experiência com a música e referências de outros podcasts influenciam o Ser Sonoro?
FC: Vejo que não tem tanta diferença da música com a fala. A gente tem entonação, a gente tem ritmo, a gente cria melodias, a gente passa a sentir a história. Acho que tem muito dessa construção musical para chegar num episódio que prende. Eu tenho até uma ou outra referência de podcast, mas não posso dizer para você que eu faço podcast pensando nos que eu ouço.

O que os ouvintes podem esperar da temática dos episódios?
FC: Esse arco que eu criei pretensamente tenta cobrir centenas de milhares de anos desde que a gente começou a escutar -- desde que o Homo sapiens surgiu, na verdade até antes disso, porque os seres vivos, os peixes, por exemplo, já escutavam muito antes disso. Eu tento pegar o começo dessa escuta, o que significa escutar, e vou até a música feita com, sei lá, robôs e inteligência artificial. No primeiro episódio, por exemplo, a gente senta em volta de uma fogueira há dezenas de milhares de anos, e escuta os primeiros sapiens brincarem com os sons -- com pedras, com paus, quebrar galhos, sacudir árvores, bater no próprio corpo, tentar entender o que aqueles sons causavam neles e em quem estava em volta da fogueira. E aí eu passo pelo surgimento da música como uma forma de adaptação evolutiva mesmo, a questão das paisagens sonoras -- o que a gente escuta em todos os lugares do mundo, a paisagem sonora do campo, da cidade, da Revolução Industrial, digital, das praias... Eu uso essas ideias sempre passeando pelo mundo. Nos primeiros episódios a gente vai escutar tambores do Congo, a trilha do "Psicose", o haka dos Maori, heavy metal, os sons que o Pixinguinha escutava na infância dele.

Tem mais alguma coisa que você gostaria de dizer para os ouvintes aqui de TAB?
FC: A gente vive num mundo que é muito visual. A gente está com a cara na tela o tempo todo, é muito estimulado visualmente. Tanto que a gente deixou de lado o som. Acho que isso faz com que a gente pare de escutar, com que nossa escuta vá se atrofiando, sabe? A gente vai escutando menos, deixando de prestar atenção nos sons, deixando de ouvir as outras pessoas, a gente entra numa crise ecológica -- não ouve os sons do mundo -- e numa crise política porque não se escuta mais. Então eu gosto de pensar que o que eu estou fazendo é uma tentativa de fazer as pessoas ligarem o ouvido de novo, dar uma chance para um sentido que está com a gente desde antes de a gente nascer e até depois de a gente morrer. Nós somos todos seres sonoros, essa é a ideia.

Os podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts e em todas as plataformas de distribuição. Você pode ouvir Ser Sonoro, distribuído por TAB, em plataformas como Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e Amazon Music, entre outras.