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Bug do WhatsApp empata primeiro encontro e limita oferta de cerveja

O porto-alegrense Tiago Braga, que veio a São Paulo para a Feira na Rosenbaum - Felipe Pereira/UOL
O porto-alegrense Tiago Braga, que veio a São Paulo para a Feira na Rosenbaum
Imagem: Felipe Pereira/UOL

Felipe Pereira

Do TAB, em São Paulo

05/10/2021 08h14

Havia cinco meses que Lara Pacheco, 20, estava de papinho com um boy. Interesse mútuo escancarado e nesta segunda-feira (4), finalmente, ia rolar o date com combo cinema e jantar. Acontece que Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, anulou quase meio ano de preparação.

"Meus amigos não pararam de rir por um minuto, ficamos conversando aqui pela DM [mensagens diretas do Twitter] e me zoaram, porque pós cinema eu ia pela primeira vez ao Paris 6. Então, além de perder o boy e o cinema, perdi a oportunidade de comer em um restaurante que queria".

O Paris 6 é um restaurante que boleiros que jogam na Europa frequentam quando estão em São Paulo. Nestes tempos em que jovens usam telefone para tudo, menos para telefonar, o bug do WhatsApp interrompeu a comunicação.

"Era uma pessoa com quem eu converso há um bom tempo, porém, por questão de agenda, fica meio complicado da gente se ver? Marcamos de ir ao cinema, porém, com a queda do WhatsApp, acabou que ambos sumiram e o date automaticamente foi cancelado (hahahah). Me sinto completamente triste e sabotada!!!"

Num país que produz memes em escala industrial e faz piada de si mesmo, é natural Lara rir com os amigos da própria desgraça. Mas quando o WhatsApp voltou a funcionar, ela teve uma surpresa boa. Encontrou 10 áudios do boy e a certeza de que o interesse se manteve. Falta conseguir realinhar as agendas de novo.

Se levar outros cinco meses, ficará para o ano que vem. Em época de apps de pegação, talvez a melhor tradução dos amores líquidos, Lara e o boy têm prazos de namoro à moda antiga.

Ainda assim, a garota ficou "um pouco brava". Já Mark Zuckerberg ficou mais pobre. O fundador do Facebook e homem por trás do Instagram e do WhatsApp viu seu negócio perder US$ 6 bilhões (R$ 32,7 bilhões) em valor de mercado. Mas a montanha de dinheiro dele é imensa. Sobraram US$ 121,6 bilhões (R$ 663,3 bilhões) — é a quinta maior fortuna do mundo, de acordo com a Bloomberg.

O barbeiro e bombeiro Wellington Diego da Silva - Felipe Pereira/UOL - Felipe Pereira/UOL
Wellington Diego da Silva: 'nem lembro a última vez que liguei para minha mulher'
Imagem: Felipe Pereira/UOL

Bug ressuscitou telefone

O barbeiro e bombeiro Wellington Diego da Silva demorou a entender o que estava acontecendo. Achou que o problema era o celular dele e reiniciou o aparelho algumas vezes enquanto almoçava. Nada. Lembrou da atualização do sistema que deixara de fazer. Pediu a senha do wi-fi e, mastigando, fez o que já deveria ter feito.

Continuou sem WhatsApp. Foi numa sorveteria que soube do apagão. Wellington precisava avisar a esposa que mandara o dinheiro para comprar coisas para a filha e fez o que não fazia havia tempos. "Não lembro a última vez que eu tinha ligado para minha mulher."

O Instagram foi outro aplicativo que atrasou a vida das pessoas. Tiago Braga se abalou de Porto Alegre até São Paulo para participar da Feira na Rosenbaum, espaço criado por Cris Rosenbaum, onde artistas e designers vendem seus produtos de decoração.

Tiago trabalha com fibras naturais, fibras recicladas da indústria têxtil e segue o conceito de lixo zero. Em vez de cartão de apresentação, o diretor criativo de uma empresa de decoração colou um QR code na parede que leva direto para o Instagram da marca para qual trabalha.

"O Instagram é hoje minha principal ferramenta, minha loja, meu portifólio."

A Feira na Rosenbaum dura exatos sete dias e um deles foi perdido por causa do apagão. Tiago tinha preparado uma escala de posts e stories para a semana toda. Vai precisar refazer a programação. O diretor criativo explica que, além de principal canal de vendas, o Instagram é uma ferramenta de marketing. Os clientes enxergam amigos na feira e resolvem ir até lá para conferir o que os outros colocam nos stories.

Apagão limitou oferta de cerveja

Elenice Bernardes toca um bar com o marido na Vila Madalena, em São Paulo, que tem a banda Ramones e Renato Russo desenhados na parede externa. As pinturas estão bastante descascadas e sugerem que os artistas estão ali desde antes de grafite virar moda.

A dona do bar conta que segunda-feira é dia de reabastecer as geladeiras. Mas, sem WhatsApp, não houve como fazer os pedidos. Resultado: às 19h30 saiu a última Original. Serramalte e Heineken já haviam acabado.

Os quatro clientes em pé à frente do balcão só tinham marcas mais populares à disposição. Por sorte da comerciante, eram homens de hábito. Pediram outra garrafa, mesmo que não fosse o rótulo preferido.

Francisco Almeida é gerente de um restaurante de PFs na mesma rua e lamentava ter vendido 40% a menos no delivery do meio-dia. Foi o WhatsApp sair do ar e os pedidos minguaram. Ele e o filho também cuidam de uma pizzaria no Brás e deram folga para os três funcionários e para o motoboy.

Com o bug, acharam que não iam tirar féria para as despesas. Francisco partilhava uma teoria da conspiração que envolvia o Google, Jair Bolsonaro e o governo norte-americano quando o ouvido reconheceu aquele "plim" tão familiar.

Bateu o olho na tela do celular e confirmou que o bug fora contornado. Fez cara de quem diz "já era hora" e, na sequência, contou o que achava do retorno do aplicativo, depois de sete horas de apagão.

"Voltei a ser refém do WhatsApp."