A reconstrução de Vinicius

A luta de um adolescente para se reerguer após sofrer abusos que quase o levaram ao suicídio

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Às 23h38 do domingo de Páscoa o celular tocou como um sino eletrônico, ressoando cinco vezes. Era Vinícius disparando várias mensagens. Ele tinha passado a noite anterior com um punhado de amigos cantando, dançando e se divertindo em uma festa que não tinha hora para acabar. Até que teve.

“Atualizando você"

"Tive uma tentativa de suicídio hoje novamente”

Quem está preparado para receber esse tipo de notícia? Eu posso ler sobre suicídio, conversar com profissionais que o estudam do ponto de vista da psicologia, da filosofia, da medicina, se debruçar sobre as estatísticas, os dados oficiais, as reportagens. Mas como transformar esse conhecimento em ação quando uma pessoa de carne e osso avisa que acabou de tentar se matar?

“Meu pai me tratou muito mal", continuava Vinicius, "esquecendo que eu ainda estou doente da ansiedade. Acabamos saindo na agressão física e tentei me matar pelos pulsos.”

Essa tinha sido a terceira tentativa em cinco meses. Depois de me contar a história e dizer que estava fora de perigo, ainda com o pulso aberto pelo ferimento que poderia ter sido fatal, Vinicius me convidou para a próxima festa que seus amigos dariam.

“Vamos te agregar ao nosso grupinho”

“Hahahaha.”

DO BULLYING À DEPRESSÃO

Para entender como a vida de Vinicius chegou a esse ponto, é preciso voltar no tempo.

Com a cabeça sob um “bombardeio de pensamentos”, conforme descreveria depois, tentou se matar pela primeira vez em dezembro do ano passado. A alta dosagem de calmantes se transformou em veneno. Depois de tomar tudo, deitou na cama dos pais e dormiu. Sua mãe, com quem tinha estado minutos antes, não demorou a perceber que aquele não era um sono normal.

“Ele passou o fim de semana inteiro dormindo”, disse ela. Por sorte, a dose não foi suficientemente fatal, e Vinicius eventualmente acordou.

Em fevereiro, ele tentaria de novo. O corte deixou uma cicatriz no pulso esquerdo. Depois de muita conversa e reflexão, Vinicius e seus pais foram buscar em seu passado as razões que pudessem ter relação com a doença mental que ele desenvolveria depois.

ALGUMAS RAZÕES

Tinha sido uma vida inteira de piadas sobre seu peso e sua sexualidade. Ainda criança, cansou de ser comparado a um elefante na escola. As piadas viraram ameaças, e as ameaças, agressões. Por só andar com meninas, virou a vítima dos meninos, que o perseguiam tentando lhe acertar boladas na cabeça durante a aula de educação física. Adolescente, se tornou chacota por um vídeo íntimo que circulou no colégio.

Sua primeira relação sexual foi abusiva. Sofreu com a pressão familiar por resultados na escola e no vestibular. Com a autoestima em frangalhos, começou a se automutilar, fazendo cortes nos braços e nas pernas. No primeiro ano de faculdade, teve uma desilusão amorosa que lhe pareceu razão para dar fim à vida.

Mas o que parecia ser o fim de Vinicius marcou o começo da luta contra os traumas de seu passado. Essa é a história de como amigos, família, remédios e profissionais de saúde podem ajudar uma pessoa com depressão a encontrar um caminho para longe de seu sofrimento. Ou ao menos uma forma de conviver com ele.

Essa é a história de um sobrevivente que quer ajudar outras pessoas a se salvarem.

“Tudo que eu passei formou a pessoa que eu sou hoje”, disse Vinicius sentado no sofá de sua casa. Cinco meses depois de tentar se matar pela primeira vez, ele fazia planos em longo prazo. Mas, para quem sofre de depressão e ansiedade, a paz de espírito e o desespero podem estar separados por um intervalo de apenas algumas horas.

Para entender seus motivos é preciso vê-lo dançando e cantando ao som de divas do pop em uma festa com seus amigos mais próximos. Tudo parecia bem. Era sábado à noite em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. Eu estava lá.

NASCE ENGEL DÜRST

Sentado à mesa da cozinha de uma casa perto da divisa de Santo André com São Bernardo do Campo, Vinicius Basilio não era a mesma pessoa que eu havia conhecido dois dias antes.

Com uma peruca de cabelos lisos e louros, uma maquiagem pesada que deixava seu rosto ainda mais claro, cílios postiços e batom preto, Vinícius tinha virado Engel Dürst, a personagem drag queen que ele criou para turbinar sua autoestima. “Resolvi dar um nome para criar uma historinha pra ela”, explicou enquanto retocava a maquiagem.

Esperando os convidados, ele fazia um resumo de sua vida escolar. Mantinha o olhar sereno e a voz firme, sem muita variação de tom. Seu relato foi o seguinte:

Para tentar fazê-lo mais masculino, os pais o colocaram no judô, mas todo o tempo que ele passava no tatame pensava em como seria legal dançar balé.

Aos dez, começou a gostar de um menino, e logo depois foi chamado de bicha pela primeira vez durante um ensaio do coral de Natal. Ele achava que era gay, e decidiu contar para Angélica, sua melhor amiga. Ouviu que estava tudo bem. Quando fez a revelação para outra amiga, ganhou em troca uma expressão de nojo e o pedido para se afastar.

Começou a ouvir o apelido que o marcaria mais que todos: “dumbo branquelo”, uma referência a seu sobrepeso e à brancura de sua pele. Chegava em casa, se olhava no espelho e via refletido um elefante branco. Alguns garotos se reuniam em volta dele para beliscar a gordura em sua barriga, e a dor só não era maior do que a vergonha provocada pelas agressões.

Na adolescência, depois de sofrer abuso sexual de um rapaz mais velho, foi se refugiar na internet e conheceu vários caras. Exibia-se na webcam e em janelas de bate-papo e encontrou nisso uma forma de reconstruir sua autoestima.

Até que começou a gostar de um desses caras com quem interagia. Ele tinha se aproximado se dizendo gay, e convidou Vinicius a ficar nu na frente da câmera. Vinicius estava acostumado e fez. Depois ficou sabendo que o rapaz tinha filmado com um celular seu corpo nu e espalhado o vídeo para todo colégio.

Vinicius mudou de escola no fim do ano.

Passou a se impor e responder com agressividade ou ironia os comentários pejorativos sobre sua sexualidade. Brigou com a direção pelo direito de andar de mãos dadas com um namorado, assim como faziam os casais heterossexuais. Seus pais compraram a briga. No entanto, a coordenação pedagógica decidiu proibir demonstrações de afeto entre qualquer casal, gay ou hétero.

Com o apoio da família e de amigos, passou a lidar melhor com a sexualidade, mas a perseguição a seu sobrepeso ainda incomodava. De tanto ser chamado de gordo, decidiu fazer uma dieta radical. Passou a comer apenas três maçãs por dia. No quarto dia, desmaiou no pátio da escola.

Em 2016, calouro na faculdade, começou a notar os primeiros sinais de transtorno de ansiedade e síndrome do pânico. Uma amiga avisou que ele poderia começar a querer se automutilar e implorou para que ele não fizesse o primeiro corte. Ele não conseguiu evitar e se cortou.

No fim do ano, sofrendo de depressão, teve uma desilusão amorosa. Um cara por quem se apaixonou preferia estar com homens mais musculosos, e Vinicius não se encaixava no padrão. Os anos de vergonha voltaram à tona, e ele tentou se matar pela primeira vez.

Depois da segunda tentativa, seus pais o levaram ao psicólogo, e depois ao psiquiatra, e ele experimentou cinco fórmulas e doses diferentes antes de acertar o remédio que lhe traria mais estabilidade. Como muitas pessoas que tentam ou pensam em suicídio, Vinicius dava sinais de seus problemas, e fazia isso em posts no Facebook.

HORA DA FESTA

Quando o tratamento psiquiátrico começou a mostrar resultado, ele se viu confiante a voltar a se divertir. Festas com amigos voltaram a fazer parte de sua rotina. Quando cheguei a uma delas, logo conheceria Matheus, um rapaz alto que já viveu um breve romance com Vinicius.

Os dois compartilham dramas parecidos. A homossexualidade de Matheus não é aceita por sua família, que prefere ignorá-la. Ele mesmo já havia tentado suicidar-se quatro vezes e vivia nessa batalha diária contra a depressão.

Em um canto da cozinha, Angélica abraçava a namorada.

Um gato passeava pelos armários da cozinha testemunhando o encontro entre nove amigos – gays, lésbicas ou transexuais. Todos tinham suas próprias histórias sobre bullying, preconceito, depressão e não aceitação. A maioria falava abertamente delas, como se a naturalidade da conversa pudesse tirar o peso dos traumas que viveram. Alguns começaram se automutilar. Ao menos cinco, em algum momento, tentaram se matar.

PERDÃO?

AQUILO QUE NINGUÉM VÊ

Naquela noite, como em muitas outras, Lucas estava gay na acepção original do adjetivo inglês se você pensar no que ele significava antes do século 20: alegre, luminoso, brincalhão, descuidado.

Mais tarde, a conversa ficou séria. “Quem me vê assim brincando”, contou ele, o sorriso desfeito pela primeira vez, “não tem ideia que muitas vezes eu chego em casa e fico chorando sozinho no meu quarto por dias. Você não sabe como é difícil não ser aceito.”

Seu namorado Douglas, cuja homossexualidade quase não se revela nos primeiros contatos, disse que morre de medo quando Lucas sai na rua sozinho. Entre amigos, ele podia ser do jeito que quisesse: expansivo, desbocado, afeminado. Mas fora dali, como controlar a reação das pessoas?

“Eu fico em cima dele pra ele se controlar mais”, comentou Douglas. Ele mesmo já tinha sofrido com a não aceitação do pai, com quem brigou no dia em que contou que era gay. Em outra ocasião tentou se matar tomando remédios. Hoje, encara e responde no mesmo tom de quem questiona ou faz piada com sua orientação sexual.

Também estavam na festa Thomaz, um rapaz transexual de sorriso tímido, e sua namorada Raquel, estudante de psicologia que pesquisa a mente das pessoas trans. Voluntária do CVV, o Centro de Valorização da Vida, uma instituição que oferece atendimento a pessoas com depressão, ela estava bastante preocupada com o aumento de pensamentos suicidas entre a população nos últimos anos. “Às vezes, apenas estar disposto a ouvir o que uma pessoa precisa dizer já faz grande diferença na diminuição do sofrimento pelo qual ela passa”, disse ela.

Pouco depois das 2h da manhã, algumas pessoas já tinham ido embora, mas os sobreviventes pareciam ainda animados. Enquanto me despedia, Lucas disse: “Agora é que vamos começar a festa de verdade.”

No dia seguinte à tarde, Vinicius me mandou uma mensagem pedindo as fotos que eu tinha tirado. Comecei a escrever este texto. Minha ideia era mostrar como um grupo de amigos conseguiu superar o bullying, a depressão e a homofobia e levar uma vida normal, se divertindo, brincando e bebendo como qualquer pessoa saudável.

Mas enquanto eu escrevia, Vinicius estava tendo um surto, brigando com o pai, cortando o pulso e quase morrendo.

DE PAI PARA FILHO

Depois da festa, ele chegou em casa, subiu a escada de mármore e foi dormir no seu quarto. Ele não tinha bebido álcool, mas fumara maconha e carvão de narguilé com gosto mentolado. Porque era Páscoa e eles esperavam que a família estivesse reunida, seus pais tentaram acordá-lo. Vinicius tem 19 anos, abriu os olhos, mas não quis se levantar. Alexandre, o pai, que admite ser “um cara estourado”, não gostou.

Os dois subiram a voz e começaram a discutir. Alguma ferida não cicatrizada foi reaberta no coração de ambos. Depois partiram para as agressões físicas. Vinicius deu socos no pai caído no chão. O pai disse que não o considerava mais um filho e ameaçou interná-lo, “que ficasse lá até morrer”. O filho saiu de casa quase sem roupa para denunciar o pai à polícia. Vera, sua mãe, conseguiu demovê-lo. O pai gritava, o filho respondia. Em algum momento, Vinicius resolveu fazer um corte nos pulsos. O corte foi tão profundo que continuaria visível dias depois. Vera conseguiu impedir o pior.

Foram todos ao hospital para interná-lo. Na espera, pai e filho tiveram a chance de conversar. O médico de plantão achou melhor Vinicius se recuperar em casa. O adolescente foi medicado, se acalmou, fez as pazes com o pai e se preparou para dormir. Passou o dia seguinte deitado vendo filmes na TV.

Mais tarde, ele consideraria que ter fumado maconha na noite anterior teve relação com o ataque e decidiria parar de fumar enquanto estivesse em tratamento. Mas como esse surto suicida se encaixaria na narrativa de sua história?

MAIS UM DIA

Conforme eu aprenderia conversando com psicólogas e sobreviventes, a abordagem da “superação” seria uma abordagem inadequada. “O que é sucesso para você?”, retrucou dias depois a psicóloga Fernanda Rezende quando perguntei se ela podia citar histórias de sucesso de pacientes que conseguiram afastar para sempre a depressão e a vontade suicida.

A própria noção de sucesso, de vitória, da necessidade de felicidade, disse a psicóloga, pode aprofundar a angústia que pesa sobre essas pessoas. A luta contra o sofrimento interno pode levar anos, décadas, a vida inteira. Embora muitos pacientes consigam em algum momento ter uma vida saudável, quem entende do assunto evita usar a palavra cura quando falam de depressão.

“Ao menos mais um dia”, é a frase que Fernanda usa para ajudar seus pacientes que se veem no limite.

Especializada em tanatologia, a ciência da morte, Fernanda costuma atender pessoas com depressão e pensamentos suicidas. Ela não conhece Vinicius, mas um detalhe no corpo dela ajuda a vislumbrar o drama vivido por ele e por outros. Em dos pulsos, a psicóloga tatuou um pequeno ponto e vírgula, um sinal de pontuação que significa a continuidade e não o fim de uma sentença.

JANTAR EM FAMÍLIA

Vinicius habita com os pais e um irmão uma casa confortável numa rua pequena e tranquila de Santo André: dois andares, dois carros na garagem, uma TV de tela plana na sala e uma cadela, Moleca, que se entrega ao colo de desconhecidos sem muita cerimônia. Uma quinta-feira recente, véspera de feriado, era dia de esfiha.

À mesa Vera e Alexandre contavam sobre as mudanças de humor do filho, as brigas inúteis nas quais ele se metia com parentes que não entendiam o universo LGBT, as frustrações com as quais não sabia lidar, seus problemas de autoestima e a necessidade de se sentir querido e admirado pelos outros.

O garoto se assumiu homossexual por volta dos 14 anos, e isso nunca foi um problema dentro de casa até porque Alexandre tem um irmão que também é gay. O filho sempre se sentiu à vontade para levar namorados para o quarto.

Mas a história mudou quando Vinicius virou drag queen. Seus pais entendem que ele goste de outros homens, mas não conseguem digerir o fato de ele não se considerar nem totalmente homem nem totalmente mulher.

“Eu já expliquei várias vezes”, disse Vinicius no meio do jantar, como quem vai passar uma lição. “Em uma escala de zero a dez, zero é o estereótipo do homem hétero, o Caio Castro, por exemplo. Dez é a mulher mais feminina que existe, a Gisele Bündchen. Tem dias que eu acordo no dois e quero sair de casa com barba por fazer. Mas tem dias que eu acordo sete, oito, aí me monto e passo maquiagem, visto a peruca.”

Gênero fluido é nome que se dá a essa identidade de gênero. Vinicius tem passado os últimos meses tentando explicar isso a seus pais. Não tem sido fácil.

“Eu sei que tenho que respeitar”, disse Alexandre, o pai. “Mas com quase 50 anos, não sou obrigado a achar isso normal. Não consigo entender e nem quero. A vida é dele, mas se eu pudesse, preferiria que ele fosse um gay normal”, completa. Mas para Vinicius ter se descoberto drag turbinou a própria autoestima e o ajudou no tratamento da depressão. “Eu me vejo linda de cabelão e maquiagem”, disse ele.

Alexandre e Vera relutavam em chamar os surtos pelos quais o filho passou de tentativas de suicídio. Para eles, quem quer se matar se mata. No fim do ano passado, Vinicius pesquisou na internet a quantidade de calmantes necessária para morrer antes de tomar as pílulas. “Quando eu soube o que ele tinha feito”, contou o pai com a voz calma, “fui bem direto: ‘Ele está vivo? Se estiver deixa ele dormindo que uma hora vai acordar’.”

No meio de uma conversa franca e amistosa durante a qual nos permitimos até dar algumas risadas, a marca de um corte profundo em um dos pulsos de Vinicius era um lembrete constante do que havia acontecido dias antes.

Quando os pais descobriram que Vinicius sofria de depressão, se engajaram no tratamento e não economizaram para lhe oferecer o que de melhor a medicina e a psicologia dispõe para ajudá-lo.

Quando perguntei aos dois quais eles acreditavam terem sido as principais causas que levaram o filho a desenvolver a depressão, eles apontaram a genética (há outros casos na família), o bullying sofrido na escola, a pressão por resultados acadêmicos, e a internet.

“O Vinicius fica sabendo de um caso de homofobia na Rússia, e isso acaba com o dia dele. As pessoas não o entendem, e ele quer brigar, discutir, levantar bandeira. Se irrita até com a gente, não tem paciência para ver que o mundo dele é muito diferente do nosso e precisamos de tempo para digerir todas essas mudanças”, afirmou Vera.

Passei a semana trocando mensagens com Vinicius e alguns de seus amigos. Ele dizia estar cada dia melhor. Enviei finalmente suas fotos na festa. Montado, de peruca e maquiagem pesada, ele fazia caras, bocas e poses à câmera. Um dia depois de tentar se matar, ele postou no Facebook duas delas. Recebeu reações animadas, curtidas, corações e rasgados elogios.

Na legenda de uma das fotos, escreveu: “Vou te confessar que às vezes nem eu me aguento”. Ao lado, a imagem de unhas pintadas e uma coroa de princesa.

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