Amor à camisa

Como a amarelinha se tornou o maior símbolo político nacional e, após unir, ajudou a rachar o Brasil

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A camisa amarela da seleção brasileira virou há décadas símbolo e até um passaporte informal do Brasil pelo mundo. Mas nos últimos anos ela ajudou a dividir o país ao ser tomada como uniforme de grupos políticos e seus simpatizantes nas manifestações em 2015 e 2016 pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Oportunistas se apoderam da camisa como se ela fosse uma representação deles, mas ela não é ligada a partido ou movimento algum”, critica Walter Casagrande Júnior, que vestiu a “amarelinha” na Copa do Mundo de 1986 e hoje é comentarista da TV Globo. “Todo mundo que faz isso é oportunista”, completa. Este ano, a peça deve voltar aos holofotes, com a Copa da Rússia e as eleições – entre elas a presidencial –, que prometem ser as mais tensas desde a redemocratização. Nesse ambiente de polarização, a camisa amarela ainda pode representar todos os brasileiros, minimizando o racha político?

“Desde que comecei a participar da política brasileira, nunca separei a camisa da seleção da política. Independentemente de qualquer situação, a camisa da seleção é política”, afirma Casagrande. De fato, entre os símbolos nacionais brasileiros, oficiais ou não, nenhum é tão popular como a camisa amarela da seleção. É raro achar quem tenha em casa uma bandeira ou gravação do Hino Nacional, mas a camisa está nas gavetas e no inconsciente patriótico da maioria.

Mesmo quando a camisa da seleção não está presente fisicamente, sua simbologia pesa na construção da identidade de muitas manifestações populares no Brasil. Nas Diretas Já, movimento pelas eleições diretas para presidente em 1984, o amarelo deu cor para os milhões que foram à ruas, mas não havia futebol ou brasão da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). “Não há qualquer semelhança entre os movimentos (Diretas Já e impeachment de Rousseff). Eu não lembro de uma camisa da seleção na Praça da Sé ou no Anhangabaú (locais do centro de São Paulo e palco de manifestações), movimentos que reuniram mais de um milhão de pessoas. As pessoas vestiam a camisa do Brasil (roupas com motivos do país, amarelas ou verde e amarelo)”, lembra Casagrande, um dos jogadores que participaram daquele momento.

ORIGEM DO MITO

Entre rótulos sobre quem veste amarelo é “coxinha”, quem é contra a camisa da CBF é “petralha”, nacionalistas ou patriotas de primeira viagem à direita e fãs de Cuba à esquerda, primeiro é preciso entender como se formou a mitologia da camisa amarela. “Depois da primeira conquista da Copa do Mundo, em 1958, a camisa da seleção brasileira passou a incorporar valores de um Brasil vencedor, capaz de mostrar sua grandeza ao mundo. Exatamente o oposto do sentimento que surgiu após a derrota de 1950 (quando a camisa era branca)”, afirma Maurício Barros, jornalista, mestre em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo) e comentarista dos canais ESPN. “Quem elevou ao grau máximo a identificação da vitória no futebol com o amor a pátria foi a ditadura militar, especificamente o general [Emílio Garrastazu] Médici, um fã de futebol, que ia ao estádio e levava seu radinho de pilha, em 1970”, completa Chico Alencar, historiador, escritor e deputado federal (PSOL-RJ).

Coincidência ou não, só depois que veio o amarelo fez-se luz no futebol brasileiro. O responsável por essa iluminação ainda vive, e bem, no interior do Rio Grande do Sul. O escritor gaúcho Aldyr Schlee tinha 18 anos em 1953 quando venceu 201 candidatos em um concurso do jornal carioca “Correio da Manhã” para a escolha do novo uniforme da seleção brasileira – que entrou em campo pela primeira vez em janeiro do ano seguinte. Ele ganhou um prêmio em dinheiro, equivalente ao valor de um carro popular hoje, e um estágio no jornal. Schlee escreveu e traduziu mais de uma dezena de livros, mas sempre é consultado sobre o mesmo assunto – tanto que, quando me apresento como jornalista, a reação dele é: “Nossa, uma matéria sobre a camisa da seleção, que surpresa...”.

Schlee afirma que ficou bem irritado com o que viu nas passeatas pró-impeachment. “Aquilo foi uma canalhice, uma ignorância, e a camisa desapareceu, parte da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) desapareceu, não estão mais na rua (protestando)”, reclama. Sobre a sensação de ver sua criação associada àquele movimento, a reação é ainda mais forte. “Que pergunta é essa? Você acha que eu ficaria encantado, maravilhado de ver a camiseta servindo para a exploração política durante um golpe? Eu não fiquei decepcionado, eu estou decepcionado. Quero que se arrebentem, a camisa e os canalhas que a usaram dessa maneira.” Uma pergunta costuma ser apenas uma pergunta.

NAÇÃO & PÁTRIA

Pesquisadores estrangeiros que estudam o país, os chamados “brasilianistas”, trazem visões peculiares sobre a apropriação da camisa por um grupo político. O norte-americano James N. Green, professor de História do Brasil na Brown University e diretor executivo da Associação de Estudos Brasileiros da instituição, tem posição clara a respeito. “Acho que eu e quem mais estava contra o impeachment sentimos um patriotismo falso e hipócrita das pessoas que se vestiam de verde e amarelo como se fossem os legítimos donos do país”, afirma. Já o anglo-americano Anthony W. Pereira, diretor do Brazil Institute do King’s College London, enxergou elementos perigosos na turma de amarelo. “Alguns manifestantes que vestiram a camisa da seleção tanto em 2013 quanto em 2015 e 2016 buscaram expressar seu desencanto declarando ‘meu partido é meu país’, o que não é um sentimento democrático”, diz. “Democracias são feitas de partidos políticos. Associar um único projeto político a uma nação é uma ideia autoritária”, completa Pereira.

Muitos são os escritos sobre nacionalismo e patriotismo. Uma das visões mais marcantes é a do escritor inglês George Orwell. Em seu texto “Notas Sobre o Patriotismo”, publicado em 1945, ele estabelece, com a habilidade e a graça que fizeram célebres obras como “A Revolução dos Bichos”, a diferença entre os conceitos (a tradução é de Aluízio Couto):

“Por ‘nacionalismo’, em primeiro lugar, entendo o hábito de assumir que humanos podem ser classificados como insetos e que grupos inteiros de milhões ou dezenas de milhões de pessoas podem com segurança ser rotulados como ‘bons’ ou ‘maus’. Em segundo lugar — e isso é o mais importante —, entendo o hábito de se identificar com uma única nação ou outra unidade, colocando-a além do bem e do mal, sem reconhecer qualquer outro dever que não seja o de promover os seus interesses. O nacionalismo não deve ser confundido com o patriotismo. Ambas as palavras são normalmente usadas de uma maneira tão vaga que qualquer definição é passível de ser disputada, mas é preciso estabelecer uma distinção entre elas, uma vez que duas ideias diferentes e até mesmo opostas estão envolvidas. Por ‘patriotismo’ entendo a devoção a um lugar e um modo de vida particulares, tidos por alguém como os melhores do mundo, mas sem o desejo de impô-los às outras pessoas. A natureza do patriotismo é defensiva, tanto militar como culturalmente. O nacionalismo, por outro lado, é inseparável do desejo de poder. O propósito permanente de qualquer nacionalista é garantir mais poder e mais prestígio não para si próprio, mas para a nação ou unidade em nome da qual escolheu anular a sua individualidade.”

Para o professor e deputado Chico Alencar, os dois conceitos têm pontos de conexão e fronteiras, ainda que estejam associados com espectros políticos diferentes. “O nacionalismo está identificado, na minha percepção, como uma concepção política, de defender a soberania nacional, com um viés mais à esquerda aqui, enquanto o patriotismo, a valorização do lugar onde se nasceu, mais historicamente associado à direita. Tanto que o integralismo nos anos 1930, que estava associado ao crescimento do nazi-fascismo, tinha como slogan ‘Deus, pátria e família’”, afirma.

Um dos clichês sobre essa relação diz diretamente respeito à camisa amarela: o brasileiro só é patriota na Copa do Mundo. “Não faz sentido isso. As gigantescas manifestações de junho de 2013, por exemplo, foram patrióticas e nada tinham a ver com o futebol. As Diretas Já também representaram um movimento extraordinário de amor ao Brasil, que tinha o amarelo como cor simbólica, e não teve nada a ver com seleção brasileira. Uma coisa é a paixão pelo futebol, outra é a expressão generalizada de descontentamento, como em 2014, ou a defesa intransigente de uma ideia, como em 1983 e 1984”, diz Rubens Figueiredo, cientista político pela USP e consultor. O diretor do Brazil Institute da King’s College engrossa o coro: “Eu não acredito nisso. Trabalho com brasileiros em Londres e os ouço expressar o orgulho pelo país por variadas razões, a seleção é apenas um aspecto da expressão do patriotismo”, diz Anthony W. Pereira.

No fim, é possível que as representações sejam mais simples do que parecem. A camisa transcendeu o futebol por uma razão prosaica: como o futebol é parte fundamental do nosso cotidiano, ela acaba sendo invariavelmente o único símbolo pátrio que as pessoas têm em casa. “Faz total sentido que a camisa da seleção saia do armário quando se quer demonstrar um sentimento de nacionalidade, porque, como símbolo, ela dá de goleada na própria bandeira brasileira. O sujeito vai até a gaveta para ver o que tem de verde-amarelo, abre e o que encontra é a camisa da seleção. E ela basta, nada é mais forte”, explica Mauricio Barros.

O FATOR CBF

Quantas vezes você ouviu que parecia no mínimo hipócrita que as pessoas vestissem a camisa da CBF para protestar contra a corrupção no Brasil? Certamente algumas. De fato, a situação política da entidade é complicada. Mas a imagem dela respinga na camisa amarela?

“Nas manifestações na Avenida Paulista, a patuleia branca de camisa da CBF era uma contradição estupenda do ponto de vista simbólico”, relembra Juca Kfouri, jornalista e blogueiro do UOL. “Era um brado contra a corrupção, mas só por quem não participava da festa, porque a corrupção dos de sempre é aceita, tanto que não há ninguém na rua ou batendo panela contra algo muito mais escancarado hoje”, conclui.

Mas a camisa é mesmo da CBF? “Ninguém, de direita, esquerda, centro ou mesmo que não pense em política, vê a camisa amarela como um símbolo da CBF. O uniforme é um símbolo que representa o país como um todo, não a confederação que está no escudo. A contradição é boa para quem discorda dos protestos e quer criticar quem estava se manifestando, mas não faz sentido na prática”, analisa Daniel Buarque, jornalista, escritor, doutorando e mestre em relações internacionais pelo King's College de Londres e blogueiro do UOL.

Eu nunca vesti a camisa da CBF nem a da CBD, eu vesti a camisa do Brasil

Walter Casagrande Júnior, jogador da Copa de 1986 e comentarista esportivo

Mas, por maiores que sejam as vitórias, e seja lá de quem for a camisa, é um fato que ela traz o emblema de uma entidade cujo presidente anterior está preso nos Estados Unidos e cujo atual não pode comparecer a compromissos internacionais sob o risco de também ser preso. Deve ter algum peso carregar um símbolo desses no peito.

“Os escândalos envolvendo os cartolas da CBF e suas tramas de corrupção subtraem, sim, valor da camisa da seleção. Mesmo a Nike, fabricante atual do uniforme oficial e parceira de longa data da Confederação, sofre com prejuízo em sua imagem. Quanto à seleção em si, o time propriamente dito, depende de quem está no comando e em campo”, afirma Maurício Barros.

CARTÃO AMARELO

A final da Copa do Mundo está marcada para 15 de julho. Uma expectativa possível, mas apenas no Brasil, é sobre como a camisa amarela será vista e usada pelo país um mês depois, em 16 de agosto, quando começa a propaganda eleitoral. Símbolos nacionais costumam ser apropriados por grupos nacionalistas radicais em todo o mundo, e eles estiveram muito em evidência nos últimos anos, especialmente diante da guerra na Síria e da crise migratória na Europa que ela provocou.

Não à toa, a Comissão Contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa manifestou ano passado preocupação com o "forte aumento do populismo nacionalista" no continente. Líderes como Marine Le Pen, na França, e Horbert Hofer, na Áustria, não chegaram ao poder, mas tiveram votações expressivas. Sem mencionar, claro, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016. Será que um movimento nacionalista extremo, devidamente vestido de amarelo, teria algum espaço no Brasil atual?

“Se o nacionalismo extremo surgisse no Brasil, contra quem ele se levantaria? Os chineses? Os imigrantes da Venezuela, Haiti, Bolívia, Síria? Não vejo razão nem espaço para isso. Seria possível uma forma racista de nacionalismo, como os apoiadores de Trump nos Estados Unidos professam? Não vejo muito como, na medida em que boa parte da população brasileira tem raiz africana”, reflete Anthony W. Pereira.

Neste momento de pré-candidaturas presidenciais, apenas um nome se levanta como nacionalista, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que se coloca no espectro da extrema direita. “Acho que Bolsonaro tem uma força grande entre setores do eleitorado, que é muito perigoso. Acho seria um atraso se o Brasil voltasse ao nacionalismo do governo Médici”, analisa James N. Green. Já Mauricio Barros desconfia do papel do deputado nesse campo ideológico. “Suspeito que as ideias que ele representa estejam muito mais ligadas a concepções nefastas e sectárias de sociedade do que a sentimentos de nação”, afirma.

Por via das dúvidas, busque inspiração no samba de Chico Buarque: quando você vir todo mundo de blusa amarela, considere que não há muito com o que se preocupar - talvez o seu maior estresse com essa cor em 2018 seja um possível cartão a ser tomado por Neymar logo na estreia do Mundial.

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