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OPINIÃO

Em 'Don't Look Up', somos responsáveis pelas ficções em que acreditamos

Cena do filme 'Don't Look Up' Imagem: Niko Tavernise/Netflix
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Lidia Zuin

Colunista do TAB

29/12/2021 04h01

(contém spoilers)

Lançado no começo de dezembro, o filme da Netflix "Não olhe para cima" ("Don't Look Up") já estava chamando atenção antes mesmo de chegar à plataforma de streaming. Um dos motivos era o elenco, repleto de celebridades. Além disso, o fato de o filme dirigido por Adam McKay ser uma comédia ácida também impactou bastante a recepção. McKay tem experiência diversa como diretor, especialmente no que diz respeito à sua abordagem: ele esteve à frente de filmes como "O Âncora" e "Vice". Em "Não olhe para cima", o norte-americano repete sua poção alquímica de sátira, crítica e drama.

Entre meus colegas escritores de ficção científica e fantasia, é comum desabafarem que, muitas vezes, suas histórias são criticadas por não parecerem verossímeis. Isso ocorre também entre escritores de outros gêneros. Parece que, para escrever ficção hoje, é necessário ser mais realista que a própria realidade.

"Não olhe para cima" é um desses casos em que a obra trafega entre dois limiares, ao trabalhar com estereótipos sem, necessariamente, deixar explícito quem aquele personagem estaria parodiando. Talvez tenha passado batido, mas McKay também já trabalhou em outro gênero cinematográfico bastante popular — o norte-americano foi roteirista de "Homem-Formiga", filme de super-herói da Marvel.

Enquanto alguns críticos acreditam que esse tipo de filme infantiliza a audiência, títulos como "Os Vingadores" ou o mais recente "Homem-Aranha" têm se caracterizado por mostrar problemas reais, mas, como se trata de um filme de herói, é óbvio que vai dar (quase) tudo certo no final. É um respiro no cotidiano de crises que se sobrepõem, de vírus que ganham novas variantes, de desastres ambientais e de aquecimento global.

Na vida real, (in)felizmente não temos uma Capitã Marvel ou um Doutor Estranho para fazer o impossível possível.

Que Hollywood ama catástrofes, também já sabemos ("2012", "Armageddon", "Terremoto: a falha de San Andreas"). Mas apocalipses também fazem parte do catálogo "cult": "Melancolia", de Lars Von Trier (2011), tem enredo semelhante ao de "Não olhe para cima": um planeta se aproxima rapidamente da Terra e coloca a humanidade em perigo de extinção. Enquanto "Melancolia" é muito mais metafórico, ao abordar o planeta Melancholia como uma alegoria da depressão ou da finitude humana, "Não olhe para cima" traz uma discussão muito mais assertiva.

Ainda que alguns interpretem o corpo celeste de "Não olhe para cima" como uma metáfora sobre aquecimento global (Leonardo DiCaprio, o protagonista, é ativista ambiental), o real tema abordado por McKay é o negacionismo e as demais mecânicas corruptivas da sociedade. Isso aparece claramente no núcleo presidencial, mas também transparece quando vemos o personagem de DiCaprio, o cientista Randall Mindy, ceder às dinâmicas de poder e, com isso, tornar-se uma figura cada vez mais presente na mídia.

No caso da personagem de Jennifer Lawrence, a doutoranda de astronomia Kate Dibiasky, são discutidas desde sua aparência (seu cabelo colorido, piercings e tatuagens) até o fato de ela ser uma cientista jovem e mulher. Enquanto ela e Dr. Oglethrope (Rob Morgan) resistem, ao máximo, à corrupção, Mindy, o homem branco, cede até o ponto de suas decisões aventureiras se tornarem puro mau-caratismo.

À medida que os cientistas organizam manifestos online para que as pessoas "olhem para cima" e vejam o cometa se aproximar, é o governo liderado pela presidente Orlean (Meryl Streep) e a empresa BASH que decidem organizar uma contrarreação, convidando as pessoas a não olharem para cima. O que aprendemos ao longo do filme é que a contrarreação governamental e corporativa não é guiada por ignorância científica, mas por interesses políticos e econômicos — descobre-se que o cometa possui grandes reservas de metais.

Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence em cena do filme 'Don't Look Up' Imagem: Niko Tavernise/Netflix

Esse é exatamente o argumento usado tanto por nomes do Vale do Silício, como Peter Diamandis, mas também pela esquerda, quando pensamos em Aaron Bastani e seu comunismo de luxo totalmente automatizado. No cinturão de asteroides próximos à Terra encontra-se uma abundância de matéria-prima avassaladora. Já se sabe que a mineração espacial seria capaz não somente de acabar com a miséria, mas de possibilitar que todos vivessem como os ricos de hoje.

O personagem de Mark Rylance, o empresário Peter Isherwell da corporação BASH, faz uma caricatura que mescla Elon Musk e Jeff Bezos, ao oferecer soluções super-tecnológicas (que, obviamente, envolvem nanotecnologia), mas que, no entanto, não funcionam como deveriam. Seria uma alfinetada nas diferentes missões fracassadas do SpaceX?

Independentemente disso, Isherwell quer ser o herói, emulando algo da vida real — para alguns, Musk seria o Homem de Ferro da nossa realidade. Só que essa crença talvez se dê menos pela capacidade (ou vontade) de Musk de resolver os problemas da humanidade e mais porque funcione como uma espécie de bode expiatório: se tudo der errado, o gênio bilionário irá encontrar uma solução.

O asteroide vem vindo.

Dibiasky resolve se afastar da mídia, ao perceber que todo o seu esforço fora em vão e que, àquela altura, até Mindy estava perdido. Ao tentar voltar para casa, seus pais não a recebem e ela vai trabalhar num supermercado. Por que uma astrônoma decide arranjar um emprego de caixa de supermercado às vésperas do colapso?

Nos minutos finais, até os negacionistas percebem que o cometa está chegando. Quem alertou desde o começo, ciente da inevitabilidade, resolve simplesmente se reunir para um jantar em família.

Em uma cena que tinha tudo para ser clichê ou tosca, vemos os personagens reunidos para uma refeição aberta por uma oração espontânea feita por Yule (Timothée Chalamet). O personagem surpreende, ao se mostrar religioso, apesar de sua aparência e comportamento.

(mais spoilers)

Em "Melancolia", acompanhamos o impacto derradeiro junto das personagens que, em silêncio, dão as mãos e aguardam pelo fim enquanto "Tristão e Isolda", de Richard Wagner toca ao fundo. Em "Não olhe para cima", é o papo furado, o gole de vinho e a risada nervosa que tentam barrar a inevitável realidade.

O filme fala, portanto, das ficções que criamos para nos distrair da consciência da finitude, seja ela no sentido de que todos somos mortais ou então que estamos à beira do colapso. Enquanto algumas ficções são capazes de gerar alívio momentâneo, outras são perniciosas e mortais.

Depois do próprio choque do asteroide, foi exatamente a imagem do celular de Dibiaski que mais me impactou. Talvez porque mesmo sendo uma cientista brilhante e ética, ela se preocupava em se encaixar na sociedade e parecia ter alguma preocupação com dietas (embora não fizesse). Em "O Mito da Beleza", Naomi Wolf fala justamente de como mulheres de sucesso e grandes líderes têm esse "programa rodando em segundo plano", isto é, a preocupação com as ficções do padrão estético e da alimentação perfeita.

O fato de os personagens terem decidido fazer um jantar entre amigos e não uma orgia ao fim da vida também diz muito sobre como eles passaram a reavaliar o que é realmente importante: é estar em família, é estar com quem se ama, é comer aquela fatia de torta mesmo que ela tenha muito sódio. Quando a catástrofe é iminente, não é sobre comer a torta inteira ou encher a cara de vinho. É sobre resgatar as memórias, ficcionalizadas ou não, que nos fazem entender e acreditar que a vida, afinal, valeu a pena.

Em um mundo capitalista, ser um bom cristão não te salva do apocalipse; ser muito rico, talvez. Os causadores do colapso (no filme, eles permitem que ele aconteça) são os que se safam no final — algo que ficou bem claro em análises como esta, feita por Douglas Rushkoff.

"Não olhe para cima" não fala da sobrevivência dos mais aptos, dos mais inteligentes, dos mais santos, mas dos que têm mais recursos. Não é sobre justiça ou uma salvação advinda de um super-herói ou de Deus, mas sobre como continuamos acreditando no mito da meritocracia e em outras narrativas. Elas não nos salvarão do colapso, mas nos condenarão.

Afinal, ainda tem muita gente morrendo porque acredita que a covid-19 é só "uma gripezinha" e que vacinas não funcionam. Ainda tem gente morrendo por ficções sobre nações, raças, sgêneros, religiões, sexualidades, ideologias.

"Não olhe para cima" é capaz de gerar reações extremas do público porque o próprio filme conta uma história que condena toda a espécie, todo o planeta, à exceção do 1% mais rico e sua saída à francesa. Vencer o jogo do capitalismo te dará o bilhete para fugir do fim do mundo — é mais sobre "Jogos Vorazes" e "Round 6" do que "Os Vingadores" e "Capitã Marvel".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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