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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cem anos após a Semana de 22, NFTs miram o futuro do mercado de arte

NFT da Nickelly - Reprodução
NFT da Nickelly Imagem: Reprodução
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

13/02/2022 04h01

2022 marca o centenário da Semana de Arte Moderna brasileira, também conhecida como Semana de 22. Entre os artistas de destaque estava Anita Malfatti, pintora que à época já havia realizado duas exposições. Foi na exibição de 1917, no entanto, que ela provocou ojeriza em Monteiro Lobato, que classificou suas obras como desenhos que "ornam com as paredes internas do manicômio".

As vanguardas modernistas não buscavam apenas romper com a tradição artística apenas sob o ponto de vista visual. Havia um questionamento simbólico importante. Isso fica claro, por exemplo, na obra do francês Marcel Duchamp e seu comentário acerca do mercado da arte.

De acordo com a historiadora da arte Vanessa Bortolucce, o mercado de arte existe desde o século 19. Ou seja, desde aquela época, a arte já era considerada uma commodity, um bem a ser adquirido não apenas pelo seu valor artístico, mas também por ser um investimento — é muito raro uma obra de arte ser desvalorizada ao longo do tempo.

Quando Duchamp transforma um urinol na escultura "Fountain" (1917), o artista inaugura os chamados "readymades", chancelando objetos triviais como obra de arte, em resposta irônica ao mercado e à crítica. Isso vai ao encontro do texto "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica" (1935), publicado pelo filósofo Walter Benjamin. No ensaio, o autor aborda a maneira com que a prensa de Gutenberg e outras tecnologias de reprodução e produção rápida de imagens estavam subvertendo a "aura" da obra de arte.

Apesar de cópias terem um valor simbólico e real menor que a obra original, copistas faziam esse trabalho de forma artesanal antes de Gutenberg, portanto, em menor número. As novas tecnologias de reprodução e produção de imagens, portanto, provocaram tanto uma "banalização" da arte quanto maior acesso.

Na virada do século 21, essa banalização e multiplicação ficou tão intensa que passamos a falar de um "bombardeio de informações", algo irônico se pensarmos que, na década anterior, o manifesto cypherpunk comunicava o desejo da informação de ser livre.

Foi também entre os cypherpunks que surgiram as primeiras ideias sobre uma tecnologia que possibilitasse mais acesso, segurança e privacidade. A blockchain e o Bitcoin foram rascunhados nesse ambiente de discussão. Contudo, o Bitcoin se transformou em ativo de investimento do mercado financeiro, o que impulsionou o surgimento de novas criptomoedas e plataformas como a Ethereum. A blockchain, então, serviria para mais do que transações financeiras, poderia criar documentos, certificados digitais ou tokens que garantiriam a origem e posse daquela informação em um ambiente tecnológico altamente seguro.

Hoje, muitos falam sobre as NFTs (non-fungible tokens) como sinônimo de arte ou de imagens digitais sendo comercializadas. Na realidade, o que um NFT representa é a certificação da origem e da posse de um determinado objeto. Imagens registradas em NFT por grupos como Cryptopunks e Yuga Labs (criadores da coleção Bored Ape Yacht Club ou BAYC) ficaram tão famosas que o termo virou sinônimo de um formato artístico ou pelo menos imagético.

Bia Pattoli é uma das fundadoras da Menta Land, iniciativa especializada em projetos criativos na web 3.0. Segundo ela, faz mais sentido falar de NFTs de um ponto de vista contratual do que necessariamente artístico e, por isso, é difícil dizer o que seria o estilo da arte em NFT. Contudo, algumas pesquisas já indicam que a maioria das NFTs têm temática futurista, associada à ficção científica ou mesmo ao surrealismo.

Para a artista e pesquisadora de futuros e tecnologias emergentes Caroline Barrueco, o atual mercado NFT inclui artistas, sendo a maioria mulheres da geração Z, nativas digitais, criando imagens e vídeos de objetos 3D com uma estética futurista. Também fazem parte desse ecossistema os famosos "tech bros" (empresários e investidores de tecnologia) que estão emplacando "imagens colecionáveis sem muita variação, como a série BAYC". Estas, porém, não são nem pretendem ser obras de arte.

Cem anos após a Semana de 22 e a exposição de Anita Malfatti que ofendeu o senso estético de Monteiro Lobato, temos um novo acontecimento tão polêmico quanto ela. Apesar de os modernistas terem rompido com a arte tradicional, eles ainda usavam meios consagrados como a tela, tinta a óleo, papel etc. No caso das NFTs, o rompimento acontece a partir do suporte. Ou seja, faz mais sentido criticar as NFTs de um ponto de vista tecnológico e mercadológico do que artístico.

Para criar uma NFT, é necessário que o autor faça a "mintagem" (advindo do verbo "mint") de sua obra em um ecossistema NFT. É a partir daí que a obra poderá ser comercializada com o uso de criptomoedas que, por sua vez, são compradas com dinheiro "real" (fiat).

Apesar de a blockchain ter surgido com uma proposta de descentralização, o que ocorre é que, como a tecnologia encaminhou para um âmbito de investimento e especulação, 95% do volume bruto das Bitcoins pertencem a apenas 2% dos usuários da rede. "O que acho interessante é que as NFTs estão fazendo uma redistribuição de renda, através da qual o dinheiro é passado desses 2% para artistas iniciantes," adiciona Caroline.

Uma artista que tem conseguido retorno com suas NFTs é Nickelly Garbaje. Em 2021, ela entrou no coletivo Magma, baseado no ecossistema Foundation, e já em outubro teve sua primeira arte "mintada" na plataforma. Comparada ao formato das comissões, Nickelly vê muito mais liberdade e lucratividade na venda de NFTs.

Contudo, parece que estamos retornando à antiga ideia de posse e de certificação de imagens, agora no âmbito digital. Parece estranho, principalmente quando entendemos que a blockchain surgiu de um movimento cultural e político que priorizava o acesso à informação e não a posse. Aliás, pouco tempo atrás, o lema da economia compartilhada era justamente as vantagens do acesso em comparação à posse.

Para Bia, já não é mais estranho aos mais jovens comprar conteúdo digital, por exemplo, skins em jogos. Contudo, no caso das NFTs, existe uma diferença: uma skin em um jogo não é um conteúdo único e nem de posse do comprador — o usuário só paga pelo direito de usá-lo no jogo. É nessa ambiguidade que ocorrem mal entendidos que acabam virando meme, como foi o caso da compra de um livro raro da obra "Dune" de Frank Herbert.

Entramos, assim, em um contexto especulativo que se assemelha ao mercado de arte: trata-se de investimento, não necessariamente apreciação estética e artística. Vanessa Bortolucce ressalta que, mesmo assim, até hoje as pessoas valorizam a versão física de artes digitais — basta lembrar a alegria do YouTuber Gato Galáctico ao receber uma "NFT física".

Ou seja, há novamente esse senso de fetichização proporcionado pelo valor da arte como commodity, e não por uma suposta aura como queria Benjamin. Afinal, por que alguém compraria uma imagem que está acessível no Google?

Por um lado, as NFTs emulam a lógica do colecionismo. Por outro, talvez estejamos entrando em um momento pós-streaming. Bia faz a comparação entre quem usa o Spotify para ouvir música e não se importa em ter o CD físico ou os arquivos guardados em seu computador: "Tem gente que compra ou aluga filme na Amazon Prime, mas aí se a Amazon acabar, você não pode mais assistir. A blockchain não é uma coisa que acaba, então o registro da sua posse está ali para sempre."

Quando Bia fala sobre a blockchain nunca acabar, ela diz respeito à maneira descentralizada com que a tecnologia se organiza, principalmente no modelo proof-of-stake, no qual as transações só são feitas quando há um consenso entre os provedores da rede (que é também um protocolo de segurança). Por outro lado, críticos ainda poderiam dizer que os argumentos acerca da exclusividade das NFTs só são mais uma concretização do que Marx previu: a criação artificial de escassez mesmo em um ambiente (o digital) que, tecnicamente, é infinito.

Para Nickelly, o mercado de NFT é algo que veio para ficar, mas que ainda vai evoluir ao longo dos anos. Bia acredita que estamos em um momento semelhante àquele quando o navegador Napster foi lançado, porque há novamente uma incredulidade quanto à tecnologia. Contudo, e talvez mais importantemente, há a dura e verdadeira crítica com relação ao impacto ambiental causado pelo blockchain.

A blockchain Ethereum, por exemplo, consome muita energia elétrica para funcionar, mas Nickelly comenta que já existem plataformas que utilizam NFTs sustentáveis (CleanNFTs), que podem ser basedas na rede Tezos, uma blockchain de baixa manutenção energética. Diante disso, a artista acha injusta e desnecessária a invalidação da arte NFT e o ódio contra artistas desse mercado, já que muitos deles, como é o caso da própria Nickelly, estão conseguindo monetizar sua arte e, assim, mudar suas vidas.

Parece, então, que chegamos a um novo nível de maturidade na discussão sobre posse e acesso, objetos físicos e digitais. Primeiro, superamos a necessidade de possuir algo (um DVD, por exemplo) desde que possamos acessar o conteúdo, por exemplo, por streaming. Agora, estamos falando sobre o desejo colecionista de possuir esses objetos ou conteúdos, mesmo que eles sejam digitais e acessíveis a todos.

Levando-se em conta a ascensão da indústria dos games, o comportamento de consumo de conteúdo digital das novas gerações e nosso maior tempo de permanência online, parece razoável dizer que a experiência humana está sendo cada vez mais estendida do físico para o digital. Isso significa que uma pessoa pode não querer apenas comprar uma roupa legal para vestir seu corpo biológico, mas também seu avatar. Com a chegada do metaverso, isso só deve aumentar.

Porém, Bia Pattoli reforça: NFTs também podem ser usadas para certificar ativos físicos ou mesmo o acesso a algum conteúdo, afinal, trata-se de um certificado ou comprovante de aquisição. No momento, quando um objeto é registrado como NFT (mintado) em uma rede blockchain, o processo fica registrado para sempre e não há como mudar a informação do criador ou do comprador da obra. Caso o comprador queira revendê-la, isso também ficará registrado nesse "cartório inteligente", assim virtualmente eliminando chances de falsificação. Como esse é um quesito muito importante no mercado de arte e no colecionismo, já vemos galerias como a Leme (São Paulo) e König (Berlim) expondo obras registradas em NFT.

Talvez o futuro seja um pouco estranho para os cypherpunks que imaginavam um ambiente de acesso irrestrito à informação, sem limitações por propriedade. Talvez esse futuro seja menos descentralizado e anárquico do que sonhado por esses ativistas, assim dando espaço para os compradores de NFTs se tornem os novos mecenas que adquirem obras de arte, mas não as deixam armazenadas e sim expostas em museus e galerias. Em outros casos, pode ser que esse próprio investimento se estenda para a formação de espaços artísticos e novos formatos de apoio aos artistas. Pelo menos, esta é a esperança.