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Paulo Sampaio

Saída de diretora da Vogue pode comprometer filme sobre sua trajetória

Daniela Falcão, CEO do grupo Condé Nast até 2020, no Baile da Vogue de 2019 no Hotel Unique, em São Paulo - Greg Salibian/Folhapress
Daniela Falcão, CEO do grupo Condé Nast até 2020, no Baile da Vogue de 2019 no Hotel Unique, em São Paulo Imagem: Greg Salibian/Folhapress
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do TAB

26/01/2021 04h01

Uma rápida passada de olhos nas redes sociais já é suficiente para perceber os assuntos que mais intrigam o mundo da moda atualmente.

  • Por que a marca italiana Bottega Veneta deletou seu Instagram? Qual seria a estratégia deles?
  • Quanto tempo vai durar a parceria entre a empresária Miuccia Prada e o estilista belga Raf Simons, iniciada em 2020?
  • De que forma ocorrerá a adaptação para o digital dos desfiles das próximas semanas de moda, em fevereiro?

No Brasil, desde meados de 2020, um mistério movimenta as apostas dos fashionistas: que fim terá o documentário que a jornalista Maria Prata começou a filmar em 2016, a respeito da trajetória da então diretora de redação da revista Vogue, Daniela Falcão?

Muito poderosa

Originalmente, a sinopse versava sobre a trajetória de sucesso de Falcão. "A Dani veio do hardnews [área do jornalismo que lida com o noticiário mais quente: cotidiano das cidades, crimes, acidentes de trânsito, catástrofes naturais etc], caiu de paraquedas na moda, enfrentou preconceitos, superou deficiências e tornou-se muito poderosa dentro e fora do Brasil", disse Prata ao TAB.

Tendo como pano de fundo o universo da moda, o filme retrata Falcão como uma autodidata obstinada, perfeccionista e exigente; aborda sua energia inesgotável, seu ritmo alucinante de trabalho e o controle da equipe com mãos de ferro.

O título provisório da obra é "Falcão in Vogue". "Desde o início, avisei a Dani que não seria um documentário chapa-branca", diz Prata, que faz sua estreia na direção em parceria com Camila Guerreiro — cuja carreira está associada à Vogue de Daniela. Guerreiro assinou muitos dos vídeos do site da revista.

Incidente de percurso

Ocorre que um incidente de percurso, fora do script, deixou a diretora e os produtores do documentário em uma sinuca. Pouco tempo depois da publicação de uma rumorosa matéria assinada pelo jornalista Chico Felitti no site Buzzfeed, em agosto de 2020, Daniela se desligou da Globo Condé Nast. A matéria expunha Falcão como uma chefe assediadora, que tratava os funcionários aos berros e os constrangia ao ponto de levá-los aos prantos.

Ficou difícil recuperar a imagem da heroína.

Pergunto a Maria Prata se ela cogita uma solução na linha "o apogeu e a queda de um mito". Ela prefere não adiantar nada. Diz apenas que "o filme está on hold [em suspenso]".

Os produtores

Além do jornalista Pedro Bial, marido e incentivador de Maria, o documentário tem produção da Gullane Filmes e da Pródigo Films. Ambas se recusaram a responder perguntas elementares, sobre quando começou a produção; qual o orçamento inicial do filme; quem são os entrevistados e em que locações o documentário foi gravado. Limitaram-se a dizer... "o filme está on hold".

Fernanda Thompson, da Gullane, explicou que a produção de um documentário pode durar anos. Perguntei se, no caso específico de "Falcão in Vogue", em que a história deu uma guinada, não seria o caso de acelerar — para o assunto não cair no esquecimento. "Não temos nada para dizer. O filme está on hold", repetiu.

Os jornalistas Pedro Bial e Maria Prata na pré-estreia do filme 'Elis', no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, em 2016 - Bruno Poletti/Folhapress - Bruno Poletti/Folhapress
Os jornalistas Pedro Bial e Maria Prata na pré-estreia do filme 'Elis', no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, em 2016
Imagem: Bruno Poletti/Folhapress

Quem banca

Em entrevista de 2017 à jornalista Maria Rita Alonso, no Estadão, Maria Prata afirmou que o cronograma do documentário estava bastante adiantado. "A gente filmou 90% do que precisa. Paramos para nos dedicar à captação de verba e devemos voltar em breve."

Boa parte do que se gastou até agora foi bancada pelo shopping Iguatemi. A assessoria diz que eles não declaram valores e que não têm pressa de retorno. De acordo com o que TAB apurou no site da Ancine (Agência Nacional do Cinema), a produção captou R$ 150 mil via Lei de Incentivo (8.685/93). Constam outros R$ 700 mil que, de acordo com um especialista consultado pela reportagem, seriam uma estimativa prévia de gastos.

Para o documentário, a dupla de diretoras fez registros de reuniões na redação da revista, entrevistou expoentes do mercado editorial da moda; filmou o tradicional baile de Carnaval da Vogue e eventos como o coquetel que precedeu um jantar muito exclusivo em Paris, oferecido pela Condé Nast Internacional. Maria Prata ficou muito impactada com o prestígio de Falcão.

"Ela se sentou à mesa central, ao lado de Jonathan Newhouse, CEO da Condé Nast Internacional. Daniela virou uma pessoa-chave, tanto para a editora quanto para o mercado brasileiro", disse ela ao Estadão.

Desde o começo

Antes de assumir a chefia da edição da Vogue Brasil, em 2005, Daniela Falcão trabalhou na Folha de S.Paulo, no Jornal do Brasil e na revista Trip. Quando a Vogue, que antes pertencia a Carta Editorial, passou ao comando da Globo Condé Nast, Falcão dirigiu a redação da revista por pouco mais de cinco anos, até que, em 2016, tornou-se diretora editorial de mais três títulos da empresa: Casa Vogue, GQ Brasil e Glamour. Em 2017, foi promovida a diretora-geral da GCN, o cargo mais alto da empresa. No mesmo ano, o portal Business of Fashion a elegeu uma das 500 pessoas mais importantes da moda no mundo.

"A curva de mudança da Daniela é meu plot principal", disse Prata na entrevista ao Estadão, quando ainda falava do filme. "A vida pessoal dela passou por uma transformação enorme. Ela iniciou uma busca pela feminilidade, pela beleza. É a construção de uma personagem que chega insegura e se torna uma rainha."

Revés social

Eis que, em 2020, de uma hora para outra — descontemos a pandemia —, a mesma Daniela Falcão que escreveu sobre um câncer encapsulado na mama direita e, mais recentemente, assumiu o romance com uma mulher, tornou-se alvo de julgamento social.

A reportagem de TAB apurou que antigos colaboradores, tornados desafetos, pediram a Maria Prata que os retirassem do documentário.

Uns teriam argumentado que, na ocasião em que se deixaram filmar, não tiveram como dizer não, justamente porque poderiam cair em desgraça com a rainha. Outros não querem fazer parte de um documentário que, na visão deles, tornou-se ultrapassado. "Não faz mais o menor sentido."

Maria Prata evoca de novo a expressão curinga. "O filme está on hold, eu não posso dizer mais nada."

Os entrevistados pediram para preservar suas identidades, usando frases como "não gostaria de atrair energia ruim" e "não quero confusão com essa gente". "Isso é passado", disseram.

Wintour tropical

Nos áureos tempos, houve quem tomasse Daniela Falcão por uma espécie de versão tropical de Anna Wintour, a temida editora-chefe da Vogue norte-americana — que inspirou o blockbuster "O Diabo Veste Prada". Contudo, apesar de todas as acusações de assédio moral e maus-tratos, Wintour não caiu. Aparentemente, o filme, que a retrata de forma inequívoca, até acrescentou glamour à personagem que ela criou para si.

Procurada pela reportagem, Daniela Falcão preferiu não se manifestar. "Não entendo o interesse nem o objetivo desta matéria! É pra onde? Nunca imaginei que isso fosse assunto!!"

Sob esse aspecto, a maledicência detratora concorda com ela. "Até hoje não entendi o porquê desse documentário. A Daniela é determinada, cumpriu bem o papel dela na Vogue, mas, gente, nada que justifique um tributo", opinou um.

"Pensei que esse filme tinha sido engavetado", disse outro.

O filme não foi engavetado. Está "on hold".