Meu corpo, meu tempo

Congelamento de óvulos pausa relógio biológico e aumenta autonomia das mulheres

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A jornalista Larissa Magrisso nunca quis ter filhos, mas sempre admitiu que um dia poderia mudar de ideia. Quando chegou aos 33 anos, seguia sem o desejo da maternidade, mas sabia que o tempo para um novo rumo estava se esgotando. Enfrentar a questão virou sinônimo de angústia. Será que não queria mesmo? E se a vontade de ser mãe viesse tarde demais para realizá-la?

Depois de um tempo de investigação, com muita leitura, conversa e pesquisa, viu que não queria mesmo. Apesar da convicção de que, naquele momento, ser mãe não era uma opção, ela continuou achando que um dia poderia rever a decisão.

Nesse processo, Larissa precisou lidar com duas questões inerentes ao ser feminino. A primeira é que, em sociedades como a nossa, a maternidade é quase um pressuposto da condição do seu gênero. Questões sobre quando, com quem, qual será a educação, o nome, o padrinho, sexo preferido para os filhos cercam as mulheres por todos os lados. E, além de todas as pressões sociais, ela encarou uma outra, biológica e implacável: a passagem do tempo. Graças à evolução da medicina, esta foi mais fácil de resolver.

Aos 35 anos e casada, Larissa congelou óvulos. Um ano depois, diz que aquela angústia deu lugar à tranquilidade de quem deixou aberta uma possibilidade de mudança. Isso porque, com as técnicas de congelamento, é possível “pausar” o relógio biológico – o que pode ser o ponto de partida de uma nova revolução para uma maior autonomia e a liberdade das mulheres, assim como ocorreu com a pílula anticoncepcional, que permitiu dissociar sexo e procriação.
 

“A ideia de poder congelar traz uma certa igualdade de gênero, ou pelo menos diminui a diferença. É mais uma liberdade que a mulher conquista”, diz a psicóloga e sexóloga Michelle Sampaio, especialista em Sexualidade Humana pela USP (Universidade de São Paulo). Mas essa liberdade não exclui o peso das decisões. “Precisa decidir se quer ou não quer congelar. E, depois, o que fazer dos óvulos congelados. Ela vai ser cobrada para decidir em algum momento”, completa.

O TAB conversou com oito mulheres que congelaram óvulos entre 33 e 41 anos. Quatro delas – duas casadas e duas solteiras – o fizeram justamente por não terem certeza de que queriam ter filhos, deixando uma possibilidade para o futuro. As outras quatro desejavam ser mães, mas por questões profissionais e/ou falta de um parceiro, adiaram a gravidez.

Sim, estamos falando sobre mulheres que têm acesso a esse tipo de tratamento e podem exercer essas escolhas, subvertendo o tempo e a biologia a favor de mais possibilidades no âmbito das escolhas pessoais. O congelamento de óvulos ainda é um tratamento limitado a quem pode adiar a maternidade e pagar pelo procedimento, mas já é um começo. Em um contexto social mais amplo, poderá ter um impacto no comportamento e na forma como essas e outras mulheres decidem sobre o próprio corpo e sobre a maternidade?

TIRANDO A PRESSÃO

PAUSA DO RELÓGIO

No Brasil, a maioria ainda tem filhos antes dos 30 anos. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais da metade das mulheres que deram à luz em 2015 tinham entre 15 e 29 anos – sendo 25,1% na faixa entre 20 e 24 (em 2005, eram 30,9%). Mas o número das que deixam para depois vem aumentando. Entre 2005 e 2015, passou de 22,5% para 30,8% a proporção de mães entre 30 e 39 anos - menos de 3% têm 40 ou mais.

A questão é que o tempo pode se esgotar antes de qualquer decisão sobre a maternidade. O tal do relógio biológico é especialmente cruel com os ovários. Segundo os médicos ouvidos pelo TAB, as chances de engravidar naturalmente aos 30 anos são em torno de 18% a 20% ao mês. Depois dos 35, as chances caem para 10% a 15%. Aos 40 anos, ficam em torno de 5%.
 

É a mulher quem decide o que é melhor, mas do ponto de vista biológico, o ideal é engravidar cedo, ter o primeiro filho aos 20, 22 anos. Os óvulos estão maravilhosos, diminui a probabilidade do câncer de mama. Mas claro que é um absurdo, ninguém vai dizer que a menina deve engravidar com 20 anos

Mario Cavagna, médico e diretor do Centro de Reprodução Assistida do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, e presidente da SBRH (Sociedade Brasileira de Reprodução Humana) entre 2015 e 2016

Esse é o principal ponto de descompasso: a biologia não está alinhada às mudanças sociais e comportamentais. Aos 20, os óvulos são “maravilhosos”, mas as prioridades podem ser outras (faculdade, carreira, viagens etc). E se hoje mulheres com 35, 40 ou 45 – Ivete Sangalo, grávida de gêmeas aos 45 anos depois de congelar óvulos, não nos deixa mentir – estão em plena atividade e com saúde para receber uma gestação, os óvulos delas não dizem o mesmo.

“Nós tivemos um ganho absurdo [com a pílula]. Porém, entramos na encruzilhada de ter filhos no momento certo. Aí veio a ciência e trouxe pra gente a solução, que é o congelamento de óvulos. Se quer ter filho jovem, ok. Se já sabe que quer ter filhos depois dos 40, temos como congelar óvulos jovens e manter a qualidade deles. E se não sabe o que quer, também tem essa possibilidade [de decidir depois]”, afirma a médica Maria Cecília Erthal, especialista em reprodução humana e diretora-médica do Centro de Fertilidade Vida, no Rio de Janeiro.
 

O PROCESSO

Nas clínicas particulares, os médicos indicam o congelamento para mulheres a partir dos 30 anos e que não tenham planos de engravidar antes dos 35, assegurando uma reserva de óvulos jovens que possam ser usados por mais anos. Em alguns casos, congelar é uma alternativa para conseguir “estocar” vários óvulos antes de começar um processo de fertilização in vitro.

A qualidade dos óvulos está sempre ligada à idade. Digamos que uma mulher com 40 anos tem uma ótima reserva de óvulos e uma de 34 com uma reserva de óvulos mais enxuta, ainda assim é mais provável que a de 34 engravide

Melissa Cavagnoli, médica especialista em medicina reprodutiva da clínica Huntington, em São Paulo

Os números são impressionantes quando se fala em reserva ovariana. Ainda no útero da mãe, um bebê tem de 6 milhões a 7 milhões de folículos (grupo de células que armazenam os óvulos). No nascimento, já são de 1 milhão a 2 milhões. Na puberdade, de 300 mil a 400 mil. Aos 38 anos, 25 mil. A cada menstruação, em torno de mil folículos são recrutados, mas no processo de ovulação apenas um vai gerar um óvulo. E tem mais: os melhores são “usados” pelo corpo primeiro. Ao longo dos anos, vão ficando os menos eficientes, digamos assim.

A farmacêutica Roquele Almeida sabia da possibilidade de congelar os óvulos desde cedo. Quando veio a vontade de ser mãe, com pouco mais de 30, veio também uma oportunidade de crescimento na empresa onde trabalhava. Ela não quis deixar a oportunidade profissional passar. Acabou não congelando e só voltou a pensar no assunto com 35 anos, depois de se casar.

Começou um tratamento pensando em engravidar, mas não foi fácil. A idade pesou. Por sugestão da médica Maria Cecília Erthal, fez vários ciclos para juntar uma quantidade maior de óvulos e tentar a fertilização de uma só vez – em vez de tentar a cada ciclo com poucos. Foram oito ao longo de dois anos, entre 2013 e 2015. De 13 óvulos congelados, conseguiu um embrião saudável, que gerou Luiza, hoje com ano e meio. “Foi um grande erro não ter feito mais cedo”, afirma Roquele.
 

Eu sempre achei que maternidade é uma escolha. Tanto é que eu escolhi ter depois. Só que eu achava que estava sob o comando de tudo. Eu não estava, e a vida pode mudar do dia para a noite. Acho que isso foi um grande aprendizado

Marie Alonso, publicitária, congelou óvulos aos 38 anos

Não existe um número exato de óvulos necessários para uma gestação. Algumas mulheres conseguem com um ciclo meia dúzia deles, outras passam anos tentando e não engravidam. Mas quem pretende congelar ou partir para a fertilização vai acabar se familiarizando com uma matemática toda própria das clínicas e laboratórios.

Existe um número mágico, de 13 a 15 óvulos preservados. Esse número é calculado em cima da taxa de gravidez em laboratório, que é de cerca de 40% na primeira tentativa. Mas é variável de acordo com a idade. Com mais de 40 anos, esse número necessário passa a ser de 20, 25 óvulos”, afirma Caio Parente Barbosa, presidente do Instituto Ideia Fértil, da Faculdade de Medicina do ABC.
 

DINHEIRO E CABEÇA

Congelar óvulos exige tempo, dinheiro e, segundo as mulheres ouvidas pelo TAB, um tanto de equilíbrio emocional. O procedimento, incluindo medicamentos para estimulação dos ovários e o processo de coleta, custa entre R$ 8.000 e R$ 15.000. Para manter o material no laboratório, entra na conta algo entre R$ 800 e R$ 1.000 por ano.

A estimulação hormonal leva alguns dias e os folículos se desenvolvem sem hora marcada. “É legal se preparar para ficar à disposição [dos médicos] durante o tratamento. É teu corpo que vai ficar no comando. O médico vai medindo até que ele tem uma previsão de quando os óvulos vão estar prontos para a coleta. No meu caso, não foi nada previsível. A gente fazia umas contas e depois não era”, lembra a jornalista Larissa Magrisso.

Essa bomba de hormônios e o contato com a possibilidade de um dia ser mãe também mexem com o emocional. “Quando você olha a formação daqueles óvulos, tem um contato muito próximo da maternidade. Eu gelei. Saí do consultório e chorei”, conta a publicitária Marie Alonso.

Alguém que está começando a pensar nisso e também está levando em consideração a carreira tem que saber que não é fácil. Você tem que estar lá na hora que o médico quer, sucessivas vezes. É um desafio, porque você investe dinheiro, tempo, sua condição emocional

Roquele Almeida, farmacêutica, congelou óvulos entre 37 e 39 anos

Os relatos ouvidos pelo TAB são de alterações de humor durante a estimulação e altas doses de emoção em diferentes momentos do tratamento. Nenhuma das oito mulheres que falaram à reportagem teve algum tipo de complicação. Os médicos afirmam que há poucos riscos. A maior chance é a síndrome do hiperestímulo ovariano, que gera desconforto e acúmulo de líquido no abdome, explica Melissa Cavagnoli.

“Mas isso hoje é bem pouco comum de acontecer. A gente consegue manipular o ciclo de modo que essa pessoa não tenha essa síndrome de hiperestímulo. E a coleta, como é um procedimento cirúrgico, tem risco de uma hemorragia, por exemplo. A paciente também pode ter uma torção de ovário, porque ele cresce muito mais do que ele cresceria num ciclo normal. Mas os riscos são muito baixos, nem 5% das pacientes têm alguma dessas coisas”, afirma a médica.
 

O DIA SEGUINTE

Paz, conforto, tranquilidade, alívio, poder e autonomia são algumas das palavras usadas pelas mulheres ouvidas para definir a sensação de ter seus óvulos congelados.

Mas se o sentimento pós-congelamento é de libertação, o que pode mudar nos anos seguintes, já que a possibilidade de ser mãe continua existindo por mais tempo? Para a dentista Renata Amad, 46, que congelou óvulos em 2012, renovar anualmente esse “seguro” ainda é reconfortante. “Foi a melhor coisa que eu fiz. Não sei se um dia eu vou usar, mas saber que eles estão lá dá um conforto excepcional”, diz.
 

Quando eu saí, ainda um pouco tonta, deu uma sensação muito boa, de autonomia, de independência. A sensação de que eu fiz alguma coisa por mim. De aprender a tomar as decisões, de entender o que é escolha sua, o que te pertence. E não ficar refém de uma conjunção de fatores que pode acontecer ou não

Marie Alonso, publicitária

A psicanalista Marcia Neder, que pesquisa o feminino na cultura há mais de 30 anos, concorda que estender o prazo de validade da maternidade é “uma grande transformação” que traz mais liberdade. “A mulher vai decidir se quer filho ou não com muito mais segurança, mais maturidade. Mas ainda existe uma limitação física, que pesa com a idade, do quanto você aguenta, porque ter filhos cansa”, analisa a autora do livro "Os Filhos da Mãe - Como Viver a Maternidade Sem Culpa e Sem o Mito da Perfeição".

Já a psicóloga e psicanalista Anna Mehoudar, diretora do Gamp21 (Grupo de Apoio à Maternidade e Paternidade), amplia a discussão e aponta que a conta do adiamento dessa decisão vai chegar. “O corpo das mulheres é palco de uma contradição que está no social, entre a maternidade e o trabalho. Hoje, a possibilidade de adiar a maternidade é um bom produto, é oportuno. Mas o convite que se faz é para que cada um entre em contato com suas próprias escolhas e não fazer o adiamento pelo simples adiamento. Parece que algumas mulheres adiam sistematicamente essa decisão, como se não pudessem renunciar à maternidade. Mas vão ter que decidir em algum momento. Seja com 40, 45, 50… A resultante psíquica disso a gente não sabe”, diz a especialista.
 

As decisões individuais de cada mulher, porém, também passam pelo social. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de livros como “Toda mulher é meio Leila Diniz”, é verdade que o feminino tem hoje mais escolhas, mais liberdade, mas ainda está preso a uma cultura que valoriza a mãe e a esposa de uma forma convencional.

“Muitas mulheres congelam por medo [de mudar de ideia depois]. Para quem quer filhos, mas deixa pra depois, é uma libertação. Mas para quem faz por medo, não é. Será que elas vão saber o que elas querem um dia?”, questiona. Para a antropóloga, a sociedade brasileira ainda não legitima a escolha de não ser mãe, por isso a pressão sobre as mulheres que não têm filhos é ainda maior. Na avaliação dela, as brasileiras ainda não vivem na plenitude as liberdades conquistadas lá nos anos 1960, pós-pílula e revolução sexual, então estão muito longe de poder exercer todas as possibilidades de escolha.
 

O adiamento da maternidade também tem um recorte de classe – e não apenas por conta dos custos do tratamento. A antropóloga Caroline Freitas ressalta que as mulheres que deixam essa escolha para mais tarde são aquelas que são cobradas para serem bem-sucedidas, independentes e também mães.

“A construção do feminino ainda é baseada na maternidade. [O congelamento de óvulos] é um recurso que ajuda muitas mulheres, mas tem muitas questões aí. Socialmente, só teria um impacto maior na medida em que a maternidade compulsória fosse contestada paralelamente. Que significados isso tem em termos sociais? E por que se exige isso das mulheres?”, provoca a professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
 

FUTURO NO FREEZER

Segundo o último levantamento da RedLara (Rede Latino Americana de Reprodução Assistida), em 2014 foram feitos 1.247 ciclos com congelamento de óvulos no Brasil, em 54 clínicas. A clínica Huntington, em São Paulo, fez 89 naquele ano, 169 em 2015, 257 no ano passado e até setembro de 2017 já fez 226. Se congelar óvulos ainda é para poucas, os médicos acreditam que o método vai se tornar cada vez mais popular e acessível, com técnicas mais simples, rápidas e baratas. Hoje, apenas pacientes com câncer podem fazer o congelamento de graça, já que a quimioterapia, um dos tratamentos mais comuns nesses casos, pode acelerar a falência dos óvulos. No Estado de São Paulo, o Hospital Pérola Byington e o Instituto Ideia Fértil, da Faculdade de Medicina do ABC, oferecem atendimento gratuito nesses casos.

“O que seria o ideal, e o que eu acho que vai acontecer nos próximos quatro ou cinco anos é que todas as mulheres que chegarem aos 34, 35 anos sem engravidar, independentemente de estarem casadas ou não, congelem os óvulos. Se engravidar naturalmente com 38, 40 anos, pode usar depois para um segundo filho, por exemplo”, avalia Melissa Cavagnoli.

Caio Parente Barbosa, do Ideia Fértil, vai além: “Eu tenho certeza absoluta que num futuro não tão distante quase todas as mulheres vão se planejar para isso. Aí podem congelar cedo, com 20 e poucos anos. Congelar uma vez por ano, guardando uma reserva grande para o futuro. Hoje, o ideal seria toda mulher com 32 anos congelar”.

No Ideia Fértil, uma pesquisa com estudantes está tentando descobrir quais os genes relacionados à menopausa precoce. Com esse mapeamento, seria possível descobrir se uma mulher corre o risco de uma falência ovariana antes dos 40 anos e fazer uma prevenção com o congelamento dos óvulos, caso esteja em aberto a questão da maternidade.

E o avanço da ciência promete outras possibilidades para preservar a fertilidade. A médica Maria Cecília Erthal aponta pelo menos três: revitalização de ovários, ovários artificiais e terapias com células-tronco. No primeiro caso, ovários de mulheres que já entraram na menopausa poderiam ser revitalizados, fazendo com que folículos mortos possam gerar óvulos maduros. Já os ovários artificiais testados em laboratório podem cultivar folículos de pacientes com câncer fora do corpo.

“E, através de célula-tronco, podemos dar origem a gametas, tanto espermatozoides quanto óvulos. Em um intervalo de cinco anos, essas três questões virão à tona. Antes disso, a gente ainda vai evoluir muito no número de pessoas que vai congelar óvulos”, prevê. O principal desafio para as mulheres, como sempre, parece não ser as possibilidades que a ciência oferece, mas sim as escolhas que a sociedade permite.

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