Use a cidade

O processo que faz o espaço urbano deixar de ser um problema e virar uma solução para as pessoas

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Começou por causa de 20 centavos e ainda não parou. E talvez não pare. Se por muito tempo a discussão política sobre urbanismo em São Paulo se restringiu a pontes ou saneamento básico, desde a década passada o uso do espaço público para os mais variados fins passou a ser alvo e palco de manifestações sobre como a população quer viver e usar a metrópole.

“O cidadão está muito mais atento à cidade do que estava antes. Ele sabe que não é vítima da cidade, que a cidade é o que ele define ser”, afirma José Armênio de Brito Cruz, presidente do departamento de São Paulo do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). “Felizmente ou infelizmente, a questão urbana ainda não é partidarizada”, completa, já prevendo um debate quente - e necessário - nas eleições municipais sobre pontos como lei Cidade Limpa, ciclovias, corredores de ônibus e restrições ao carro, só para citar alguns exemplos polêmicos.

O planejamento urbano não tem uma bola de cristal. Pensar vetores de desenvolvimento, potencialidades dos lugares, isso é muito mais interessante do que pensar: aqui eu preciso de uma praça

Rodrigo Queiroz, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP

Para Cruz, esse momento de identificação com o espaço público faz parte do amadurecimento de uma nova cultura urbana, na qual a sociedade deixa de ver a cidade como problema e passa a considerá-la fonte e destino de recursos. “Uma solução para questões econômicas, para as questões sociais. Nos últimos dez anos, demos passos importantes”, afirma.

A partir de agora, “só existe uma direção”, diz o arquiteto. “Não dá para pensar a cidade só pra quem tem carro. Não dá pra pensar a cidade só para quem usa metrô. Não dá para pensar a cidade só pra quem usa ônibus. Em outras palavras, quem é pobre tem direito à cidade também. (...) O governante que conseguir colocar 600 mil pessoas no centro [de São Paulo] talvez seja o governante que vire o próximo presidente do Brasil. Porque ele conseguiria inverter um movimento cruel que é o afastamento das pessoas da conquista delas, que é a cidade”, avalia.

Canteiro aberto

Sem partido

Nessa nova pauta urbana apontada por Cruz, a sociedade e a mídia dividem com arquitetos e urbanistas a produção de ideias sobre os rumos desse desenvolvimento. No lado político, essa frente ganhou impulso com a reativação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, ato da gestão Gilberto Kassab (PSD) que foi mantido por Fernando Haddad (PT).

A continuidade é fundamental, segundo o arquiteto, pois abre um cenário no qual algumas medidas podem até ser políticas, mas não partidárias - resta saber se esse espírito permanece após as eleições de outubro. João Doria, candidato do PSDB, disse em entrevista que, se vitorioso, pretende privatizar a manutenção das ciclovias, marca da gestão Haddad.

As Jornadas de Junho estabeleceram um certo divisor de águas quanto às formas de manifestação política nas ruas das metrópoles brasileiras

Heitor Frúgoli Jr., professor do Departamento de Antropologia da USP

“Os passos do Plano Diretor que o Haddad aprovou foram traçados anteriormente, mas não é uma coisa exclusiva dele. A sociedade discutiu. O que ele mudou: a iniciativa e a dinâmica de operacionalizar a aprovação do Plano Diretor”, explica Cruz. “A ciclovia também foi um avanço, porque não é de partido nenhum, é da população. E outras iniciativas do prefeito anterior [Kassab] foram boas, como a lei Cidade Limpa. Há problemas em ambos os projetos, mas temos de aprimorá-los, pois são conquistas da cidade”, completa o arquiteto.

O que não deve mudar é o desejo coletivo de estar na rua. Segundo a prefeitura, 1,5 milhão de pessoas participaram de blocos no Carnaval da cidade em 2016 - aumento de 50% em relação ao ano anterior. A avenida Paulista aberta aos pedestres reúne cerca de 10 mil pessoas aos domingos, enquanto o Minhocão sem carros é visitado por um público de 2.000 a 3.000 pessoas nos fins de semana.

Sinais da rua

Esse processo de abraçar e usar as ruas como palco e solução ainda precisa ser digerido. O consenso é que o marco inicial foi a crítica à gestão paulista do transporte público, em junho de 2013, quase sempre organizada online pelo Movimento Passe Livre. “As Jornadas de Junho estabeleceram um certo divisor de águas quanto às formas de manifestação política nas ruas das metrópoles brasileiras”, afirma o professor Heitor Frúgoli Jr, que coordena o Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade da USP (Universidade de São Paulo).

O nosso trabalho não é tirar a criança da rua, e sim fazer uma rua melhor para ela

Thiago Vinícius de Paula da Silva, Agência Popular Solano Trindade

Em seguida houve uma onda de contestações: protestos contra o uso de dinheiro público na realização da Copa do Mundo, ocupações contra mudanças no sistema educacional no Estado de São Paulo e, agora, marchas pelo fim do machismo e da cultura do estupro, além de uma série de atos políticos, todos eles facilitados pelo uso maciço da tecnologia. “A genealogia dessas práticas ainda está por ser melhor compreendida”, avalia Frúgoli.

“São múltiplos ‘os sinais que vêm da rua’: a ocupação temporária de instituições ou mais permanentemente de espaços públicos, a resposta positiva da população quanto à transformação de determinadas vias de circulação em parques públicos aos fins de semana, a expansão do uso da cidade pelos ciclistas e o uso ampliado das ruas para práticas carnavalescas, que é um dado novo em se tratando de São Paulo. Essas ações assinalam o fenômeno, mas a compreensão mais apurada desses significados ainda exige mais estudo e pesquisas”, completa o professor.

Preservar é preciso

Responsabilidade do poder público, a zeladoria da cidade também pode entrar no pacote da evolução comportamental da sociedade. “A ideia de preservação e de recuperação [de patrimônio histórico] não estava na índole material do brasileiro”, afirma o arquiteto Rodrigo Queiroz, professor da FAU (Faculdade de Arquitetura de Urbanismo) da USP. “Os órgãos de preservação tentam correr atrás do prejuízo, tentando tombar o máximo possível [de patrimônio]”, completa.

A “independência” do tombamento virá, segundo Queiroz, nas situações em que houver utilidade e uso contínuo do local em questão. “O que mantém a vida desse espaço público é a permanência [das pessoas], que não depende de banco ou poste de luz, mas sim de você atribuir uma função àquele lugar. Espaço de trânsito não gera permanência, ele gera passagem. Esse espaço de passagem é sempre a terra de ninguém”, explica.

Para o professor, o Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, é um exemplo de que ser uma via de intenso tráfego não basta para integrar um espaço público ao círculo de preservação. “Você passa pelo Viaduto do Chá e pelo Viaduto da Santa Ifigênia e a imagem é impactante, é linda. Você vê a cidade inteira ali, mas o Vale do Anhangabaú em si é um horror. É uma praça que leva do nada a lugar nenhum”, critica. “O vazio tem de ter escala. Eu preciso ter uma escala para me sentir seguro e confortável”, completa. 

A vanguarda

Se a classe média descobriu na última década essa tal identidade urbana, na periferia esse conceito é herdado de gerações anteriores, como explica Thiago Vinícius de Paula da Silva, 27, da agência popular Solano Trindade, que realiza ações culturais na zona sul de São Paulo.

Isso sempre aconteceu nas quebradas. Por hereditariedade e ancestralidade, e por conta da falta de lazer na comunidade, a gente ocupa as ruas por naturalidade. Isso acontece nos fluxos do funk, nos rolezinhos. Não tem lazer na comunidade, o que o moleque faz? Publica no Face: ‘Vamos para a rua dos Baianos’. São 1.000 pessoas, 2.000 pessoas curtindo funk”, afirma Thiago.

Em bairros como Campo Limpo e Capão Redondo, a 20 km da avenida Paulista e onde hoje moram cerca de 1 milhão de pessoas, o desafio de associações como a Solano Trindade e a União Popular das Mulheres é melhorar o que o espaço público pode oferecer à sua comunidade.

O cidadão está muito mais atento à cidade do que estava antes. Ele sabe que não é vítima da cidade, que a cidade é o que ele define ser

José Armênio de Brito Cruz, presidente do departamento de São Paulo do Instituto de Arquitetos do Brasil

“O nosso trabalho não é tirar a criança da rua, e sim fazer uma rua melhor para ela, o que já é uma ressignificação dos trabalhos sociais. Tinha muita ONG (organização não governamental) na década de 1990 que falava que o seu trabalho era tirar a criança da rua, não era isso? Agora é fazer uma rua da hora, colocar a criança e o jovem na rua porque é na rua que a gente vai saber desenrolar, trocar uma ideia”, explica Thiago.

Eventos como a Mostra Cultural da Cooperifa, a Festa 100% Favela, a Felizs (Feira Literária da Zona Sul) e o Festival Percurso - este Thiago ajuda a organizar há três anos -, fazem parte da estratégia para engajar a população nessa proposta. Há a ambição, inclusive, de essa agenda cultural atrair moradores do centro.

Tanto o nosso jovem tem de ter direito a nossa cidade, ao centro, como o jovem dos Jardins [bairro de classe alta] tem de ter direito à cidade como um todo”, afirma Silva. É preciso fazer ‘pontes’ que unem, em vez de separar as pessoas entre uma cidade pobre e uma cidade rica”, completa o produtor cultural, que aponta a “preguiça mental” de muitos como motivo de barreiras. Quebrá-las será um bom teste para ver se essa cultura urbana muda de vez a cara de toda a cidade.

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