Mil desculpas

Por que aceitamos notas oficiais padronizadas que só agradam a quem deve muitas explicações?

Lamentamos profundamente o ocorrido. E fazemos isso de maneira automática e incessante. Só em 2019, o Flamengo já "lamentou profundamente" a morte de dez meninos em instalações de responsabilidade do clube, exatamente como a Vale "lamentou profundamente" a morte de mais de 200 pessoas, causada por uma de suas obras. Quase idêntica foi a manifestação do Extra Hipermercados sobre o "lamentável episódio" do assassinato de Pedro Henrique Gonzaga em uma de suas lojas. O advérbio sofre pequeno ajuste quando o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, "lamenta com profundo pesar" as mortes de sete pessoas após a chuva na cidade, mas a ideia é a mesma.

O relato de casos poderia continuar - é possível que apenas em 2019 haja mais exemplos do que dias no ano. Não importa o tamanho da falta ou a responsabilidade do emissor. Pessoas públicas, chefes de Estado, grandes corporações ou empresas médias dão satisfações públicas tão esfarrapadas quanto burocráticas, mas seguem o ritmo da hiperinformação.

São ofensas, assassinatos, destruição de cidades inteiras, tanto faz. A reação é a mesma. Rápidas, defensivas e impessoais, as "notas de esclarecimento" acalmam a sanha de quem cobra respostas pelas mídias sociais - ou pela imprensa. E ganham tempo para que o escândalo da próxima hora leve a crise para outro CNPJ.

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DESCULPAS padronizadas

Selecione uma justificativa de praxe
  • Lamenta profundamente
  • À disposição das autoridades
  • Repúdio ao ocorrido
  • Ação interna
  • Transferência de responsabilidade
  • Interessados em esclarecer

Essas desculpas de praxe não são produto de cinismo (ou não apenas). Tampouco são inócuas. O fenômeno envolve e contribui para questões complexas da sociedade contemporânea. Desculpa, mas, nessa, somos todos sujeito e vítima.

"Essa estratégia é muito maléfica socialmente. Você não imagina o estrago que isso faz", diz o psicanalista Pedro de Santi, professor de Psicologia da Comunicação Social da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Cada um em sua área, nenhum dos especialistas ouvidos pelo TAB, inclusive aqueles que participam da construção desse cenário, discorda de que a prática das notas vazias de responsabilidade é parte de uma engrenagem em que a deterioração social é causa e efeito.

O VAZIO DA HIPERCOMUNICAÇÃO

"A gente tem que trabalhar da forma como a comunicação acontece hoje, mas isso é ruim", diz Augusto Botelho, advogado criminalista e sócio de um dos escritórios mais disputados do país. Em sua prática profissional, Botelho trabalha para que seus clientes se posicionem sem perder o tempo ótimo da resposta. Isso significa, muitas vezes, emitir uma comunicação antes mesmo de saber detalhes do que de fato aconteceu. "O imediatismo da informação faz com que essa nota tenha que ser divulgada, muitas vezes, quando você não tem um conhecimento mínimo do que está acontecendo. Tem um timing complicadíssimo. E, se você perde, aí não adianta mais".

Essa resposta rápida e rasteira (falando sempre em "profundidade") não tem outra função a não ser cumprir uma espécie de etiqueta do julgamento público. "Eu sinto uma pressão tão grande que parece que, se você não responde, por mais que seja com uma nota padrão, está assumindo algum tipo de culpa", afirma Botelho.

Esta é uma das muitas dinâmicas desse complexo mosaico. Há uma cobrança midiática - incluindo aí as sociais - de postura de corporações e pessoas públicas, ao ponto de que a falha em atender essa demanda pode dar a aparência de culpabilidade (o que, como veremos mais para frente, é um problema jurídico real). Seria irresponsável para um advogado, portanto, permitir que seu cliente tenha uma dívida de reputação.

Especialmente porque a culpa, às vezes, nem existe.

Nem todo mundo sabe, por exemplo, que uma empresa não pode ser criminalmente responsabilizada por nada no Brasil, com exceção de crime ambiental. Por mais que as marcas se humanizem com storytellings, gracinhas em redes sociais, algoritmo para atender os consumidores de maneira cada vez mais individualizadas, no fim, ainda lidamos com um fato que muita gente trabalha para ninguém lembrar: a pessoa jurídica é uma abstração. Se seu amigo não tem CPF, é imaginário.

"Ao mesmo tempo em que a gente ainda tem aí um movimento que obriga as empresas a assumirem esse papel, a gente não pode esquecer que não existe concretamente algo chamado Companhia Vale do Rio Doce (hoje Vale S.A), por exemplo. A existência dela é jurídica, é um contrato. Quem é a Vale do Rio Doce? São as pessoas que estão gerenciando aquilo", lembra o antropólogo Fred Lúcio, coordenador-docente da ESPM Social e autor de "Sociologia das Organizações". "Optamos por construir um conceito, que é um conceito fictício, mas que opera, que tem a sua eficácia, que é o conceito de pessoa jurídica. Aí nós transferirmos inclusive a responsabilidade das pessoas - diretores, presidentes - para um CNPJ, para uma coisa que é abstrata", completa.

Para atender a uma demanda imediatista que pode custar a imagem de responsabilidade de alguém ou alguma organização, portanto, divulga-se, o mais rápido possível, uma posição cujo objetivo é dar a satisfação menos comprometedora que puderem redigir. O que lamentamos profundamente.

"Você precisa dar uma resposta não no tempo da investigação, não no seu tempo de apurar o que aconteceu, mas no tempo que o leitor - seja do jornal, do Twitter, de qualquer lugar - demanda", diz Augusto Botelho. O poder dessa demanda, que seria para cobrar novas condutas, acaba diluído no próprio ritmo da hipercomunicação.

"Vejo sim as empresas se preocupando muito mais com esse tipo de comunicação, com seu posicionamento. Mas acho que isso não causa um efeito pedagógico para evitar certas condutas. Não acho que isso tenha um efeito positivo, infelizmente", diz Botelho. "Isso é ruim. Inclusive para a imprensa. A ânsia pelo furo, a necessidade de se divulgar qualquer coisa sem uma apuração prévia... A imprensa vem aprendendo a fazer isso, a advocacia e os gerenciadores de crise, também", completa.

UMA ÉTICA DILUÍDA

Responsabilidade, no entanto, é outra coisa. Não é preciso ser criminalmente culpado por algo para assumir sua responsabilidade.

E é justamente ao integrarem esse estranho "manual de etiqueta" que essas notas dão a pista de problemas além da simples qualidade da comunicação. "Quando a questão da ética começou a ser debatida nas corporações, foi de maneira muito ampla, refletindo sobre responsabilidades que as organizações têm com a sociedade em todos os espaços. Com o passar do tempo, isso foi se fragmentando em duas pautas", diz Fred Lúcio. "Uma pauta externa que virou basicamente a questão da sustentabilidade. E um braço interno, que, em vez de se aprofundar em questões éticas que de fato têm relevância, acabou virando uma reflexão muito normativa".

Ou seja: o debate sobre empresas com comportamento ético minguou para tornar-se uma espécie de guia para empresas comportadas. "A leitura que faço é de que não há, efetivamente, uma preocupação ética dessas organizações", diz Fred Lúcio. Então, por que emitir essas notas? "Primeiro, porque é preciso, a sociedade está cobrando. Segundo, isso faz parte até das nossas relações pessoais: você errou, pede desculpas. Mas nem sempre ela expressa uma verdade". Cumpre-se a obrigação social de uma manifestação a respeito, mas longe de reparações, contrições, ação ou responsabilidade. É mais ou menos como mandar uma educada coroa de flores para o enterro de alguém que morreu por responsabilidade sua dizendo "lamentamos profundamente".

"Ficar só nisso perde de vista o que vinha sendo discutido, que são as relações e os compromissos que tanto as empresas têm com seus funcionários, quanto os funcionários têm com a empresa, a empresa tem com a sociedade, e a sociedade tem com a organização", declara.

Em retrospecto, num ano em que fatos chocantes parecem se sobrepor, o clichê do lamento profundo só não foi expressado pela morte do músico e pai Evaldo Rosa dos Santos, alvejado por 80 tiros dentro de seu carro (foto abaixo). Nesse caso, o governador Wilson Witzel disse que não cabe a ele "fazer juízo de valor", porque Exército não é PM; o ministro da Justiça, Sérgio Moro, afirmou que é um "trágico incidente" que "pode acontecer". O da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, chamou de "fato isolado". E o presidente Jair Bolsonaro declarou que "Exército não mata ninguém, o Exército é do povo e não podemos acusar o povo de assassinato". Certas vítimas, aparentemente, ainda não merecem sequer uma falsa consideração.

Jose Lucena/Estadão Conteúdo

COMIGO NÃO MORREU

É certo que todo mundo tem o direito de pedir desculpas insinceras. Até quem vende responsabilidade social e outros produtos "do bem". A falha com a questão ética que as notas indicam, no entanto, vai além da hipocrisia.

Na ocasião em que o presidente da República, notoriamente um desafeto da subjetividade, "lamentou profundamente" os mortos de Brumadinho, também disse explicitamente que não tinha "nada a ver" com o caso. Nem todos são tão óbvios quanto ele. Mas é essa a tradução do discurso que produzem.

"O que todas essas comunicações dizem é: nós não somos sujeitos, nós não somos responsáveis. A gente vai responder a isso diante das autoridades, a gente vai colaborar. Mas como se fôssemos testemunhas, e não sujeitos, do que aconteceu. O grande trabalho é de negação da responsabilidade", diz De Santi, a quem apresentamos os textos citados aqui para uma análise de discurso mais precisa.

gerador de desculpinha

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Nota de esclarecimento

Lamento profundamente os acontecimentos ocorridos nesta casa. Reitero que repudio qualquer ato de adultério, e peço desculpas se causei uma impressão diferente dessa. Informo que já abri uma investigação interna, junto ao meu psicanalista

Agradeço sua compreensão

Nota de esclarecimento

A total atenção a parceiros e colaboradores é um de meus principais valores, e peço desculpas a quem tiver se sentido ofendido. Mantenho o compromisso com meu público e estou à disposição para a apuração das causas desse trágico ocorrido

Agradeço sua compreensão

Nota de esclarecimento

Quero expressar meu profundo pesar pela ausência em sua imperdível festa. Esclareço que estou acompanhando o caso junto às fotos publicadas no Instagram e me solidarizo com os envolvidos. Pelas informações verificadas até o momento, eu dormi

Agradeço sua compreensão

Nota de esclarecimento

Com relação à lamentável comunicação em minhas redes sociais, venho a público reiterar que não corroboro com conduta semelhante. Tomaremos as providências necessárias, que serão veiculadas no devido momento, sem spoiler

Agradeço sua compreensão

Quando a Câmara dos Deputados fez um minuto de silêncio em homenagem às vítimas de Brumadinho, acabou produzindo, sem querer, uma imagem que explica exatamente a posição em que se colocam os emissores dessas notas. Nela, todos se levantam para o ritual de luto. Menos o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, que continua sentado, de cabeça baixa. O lapso faz sentido para quem se considera vítima, não sujeito, da tragédia. "Essa foto é incrível. A falta de ética se mostra com a falta mínima de respeito, solidariedade", diz o antropólogo Fred Lúcio, para quem a imagem (abaixo) é uma das mais simbólicas do caso.

"Não tem uma apropriação da situação. Frequentemente, essas notas sequer nomeiam. Geralmente, nem tragédia é", diz De Santi sobre a estratégica e reveladora escolha dos termos nesses documentos. "É o incidente, o acontecimento". De fato, de todas as notas selecionadas, apenas uma, a do Flamengo, chega a citar que houve mortes. O assassinato no Extra é um episódio. As centenas de mortos em Brumadinho são atingidos. Só se fala em vítimas quando elas já têm algoz: a chuva.

"A resposta tem um tom muito claramente defensivo, que antecipa alguma forma de responsabilização. E, o que é mais triste, existe quase que uma negação do acontecimento. Se você levar a sério o que as notas dizem, não aconteceu aquilo que aconteceu", analisa De Santi. "Afinal, os procedimentos de segurança sempre foram todos tomados, teve vistoria antes, etc... No limite, parece que não aconteceu. O que está em jogo é uma não apropriação e uma não responsabilização ao máximo pelo acontecimento."

Marcelo Camargo/Agência Brasil

UM ESPETÁCULO JUDICIÁRIO

Imagem e Justiça andam misturadas em uma pouco atraente sopa primordial de onde nasce um mundo novo e estranho. "Nos últimos cinco anos, o Brasil vem vivendo um mais acentuado, digamos assim, 'reality show' do Poder Judiciário", diz Augusto Botelho. "Agora a gente tem um completo frenesi em relação ao Judiciário, até com pedidos de fechamento do Supremo por atores e atrizes".

Apesar de considerar que a influência da opinião pública e da imprensa sempre existiu e é inerente ao sistema em casos de grande repercussão, ele afirma que hoje acontece "um momento muito específico do Poder Judiciário. Isso vem ao longo dos últimos anos se acentuando de forma muito prejudicial à Justiça. Faz uma diferença enorme, mesmo para um ministro do Supremo, ser aplaudido ou vaiado domingo na pizzaria. Isso influencia, infelizmente, a decisão".

A imagem influencia a Justiça; e a possibilidade de julgamento influencia a imagem. É o eterno retorno de uma serpente que devora o próprio rabo.

As coisas poderiam ser diferentes se não vivêssemos sob uma crise mundial de autoridade simbólica. Afinal, "quando a autoridade simbólica está em crise, todos se sentem perseguidos e se defendem", diz De Santi.

Com a autoridade judicial submetida ao poder da comunicação, entre outros ataques à sua instituição, quem está sob os holofotes da suspeita se sente em risco, um risco que independe dos fatos. E se defende. "Muito antes de poder ter empatia, compaixão com os demais, a ação é simplesmente autorreferente e defensiva. Essa é a característica mais visível. Uma comunicação autorreferente, de defesa e que evita de qualquer forma que o emissor seja responsabilizado. Eu não sou responsável, eu sou vítima também", declara De Santi.

UM TRAUMA COLETIVO

A estratégia só funciona porque o vazio da hiperinformação, que apareceu no começo do texto, garante um novo escândalo no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte. Ciclo completo. Um acúmulo sem narrativa que garante o esquecimento.

Na psicologia, quando algo acontece e produz uma reação, uma consequência, quando pode ser nomeado, isso é um acontecimento a partir do qual aprendemos e nos tornamos melhores. Mas, sem a consequência, isso muda. "Acontecimento sem consequência é o que a psicologia chama de trauma. Quando há um trauma, não há evolução, não há compreensão, não há elaboração. O tempo fica parado e o evento se repete. É a condenação à repetição. E aí, certamente, Brumadinho é o exemplo final", diz De Santi.

Em 2015, o então presidente da Samarco - empresa da Vale - foi o porta-voz oficial sobre a destruição da cidade de Mariana. Acertou quem disse que, de cara, a empresa "lamentou profundamente" o ocorrido. Ao longo das semanas seguintes, a comunicação da empresa optou por classificar tudo como um acidente do qual ela também era vítima. Chegou até a produzir um vídeo se colocando como alvo de "críticas". Ninguém se responsabilizou. Menos de quatro anos depois, tudo se repete.

"O que a gente acabou de ver de Mariana para Brumadinho foi a absoluta falta de consequência. Na falta de consequência, quem opera isso se sente onipotente. Então dá para continuar fazendo, vão esquecer em seguida, porque outra coisa vai acontecer. Toca o barco... até acontecer de novo. E de novo, e de novo", sentencia De Santi.

"Se o discurso se fizesse mais ativo, 'eu fiz, eu respondo, eu estou sofrendo junto', possivelmente traria humanização e desarmaria essa bomba de que cada só se defende e ninguém confia mais em ninguém", diz.

A ausência dessa ação de se colocar como sujeito das ações, numa cultura de excesso de acontecimentos, cria uma progressão negativa de proporções que atingem a sociedade como um todo. "Eles vão só se condenar à repetição. A impunidade, a falta de consequência, isso é um desastre social", afirma De Santi.

Lamento profundamente, mas ele está certo.

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