A MORTE NO VÁCUO

Tecnologias prometem aumentar a expectativa de vida para uma humanidade cada vez mais envelhecida

"A primeira pessoa que vai chegar aos 1.000 anos de idade já nasceu." Essa frase pode causar espanto ou esperança — depende de como você encara a morte. O fato é que o cientista inglês Aubrey de Grey, autor da declaração, é um nome polêmico no campo da saúde. Ele é um dos nomes à frente das pesquisas atuais que buscam aumentar o tempo de vida dos seres humanos.

Chefe da fundação norte-americana Sens, De Grey não esconde suas ambições (tidas como "bem exageradas", segundo outros pesquisadores). "Eu virei biólogo porque percebi que quase ninguém estava trabalhando no problema mais importante do mundo: o fato de que nós ficamos doentes depois de algum tempo, e então morremos", discursou na série de conferência TED.

Com pesquisas também na empresa AgeX Therapeutics, ele tenta provar há mais de dez anos que o envelhecimento humano é "curável" e precisa ser tratado como o das máquinas. Ou seja, um problema físico, não biológico. Em vez de esperar estragar e tentar consertar, o melhor seria fazer a manutenção das 'peças' que causam problemas futuros, como em um carro. "Os problemas decorrentes da idade matam 100 mil pessoas todos os dias. São 70% de todas as mortes do mundo", alerta.

PRAZO DE VALIDADE?

Por enquanto, o limite da vida humana parece ser de 125 anos, como aponta um estudo publicado em 2016 na revista científica Nature. E ninguém sequer chegou a essa idade ainda (a Bíblia registra que Matusalém viveu 969 primaveras, e Adão, 930, mas eles são personagens da parte mais simbólica e lendária do Velho Testamento).

A francesa Jeanne Louise Calment é oficialmente a pessoa a ter vivido mais tempo: 122 anos. Atualmente, a japonesa Kane Tanaka, 116, é a pessoa mais velha viva, segundo a publicação que registra os recordes mundiais Guinness.

Investir em pesquisas para postergar a morte é tendência. Esse é um dos ramos da própria Alphabet (dona da Google) com a empresa Calico, que tem o objetivo de "conceber intervenções que possibilitem que as pessoas vivam vidas mais longas e saudáveis".

Mas, como a própria empresa admite, esse é um esforço monumental e interdisciplinar. Não existe um "culpado" único para o envelhecimento. Portanto, as pesquisas na área costumam ser bastante segmentadas. Há experimentos que se concentram nas células. E há quem aposte no sangue — com milionários norte-americanos se submetendo a transfusões caríssimas de plasma jovem com a expectativa (por enquanto não comprovada) de evitar doenças como o Alzheimer.

PELA HORA DA MORTE

Lutar contra o tempo pode parecer infrutífero, mas é um grande negócio. O mercado da anti-idade, segundo o Bank of America, move US$ 110 bilhões no mundo atualmente, incluindo cosméticos, remédios e terapias. E moverá US$ 610 bilhões em 2025.

"Há muita gente cética. E há muitos charlatões. Mas o mundo vai se chocar, porque extraordinárias descobertas vão acontecer mais rapidamente do que as pessoas imaginam. A ficção científica já virou ciência real", afirma Greg Bailey, executivo da Juvenescence, empresa que levantou US$ 165 milhões em investimento com projetos para prolongar a vida humana até 150 anos.

Para conseguir isso, os laboratórios e as startups vão ter de enfrentar 35 trilhões de "inimigos", que é o total de células que um corpo humano tem. O processo natural de envelhecimento delas é chamado de senescência celular, e ocorre porque as células se multiplicam e se degradam o tempo inteiro. Depois de passarem por isso muitas vezes, elas começam a ter pequenos problemas, que vão se acumulando. Aquelas que não morrem podem começar a causar problemas e atrapalhar as saudáveis.

Em 2013, foi publicado o estudo The Hallmarks of Ageing (As Marcas do Envelhecimento, em tradução livre), que tenta resumir o desgaste corporal, e boa parte do processo acontece no nível celular.

VOLTAR A VIVER

Em 2012, uma família se envolveu em uma briga judicial no Brasil por causa de um procedimento que ainda está no campo da ficção científica: a criogenia completa de um corpo. Vale esclarecer que a ciência ainda não descobriu como ressuscitar um corpo que foi congelado. O procedimento se baseia, portanto, na esperança de que em algumas décadas alguém descubra uma forma de colocar em funcionamento todas as células congeladas e traga a pessoa de volta à vida.

Lígia Monteiro recorreu à Justiça há sete anos para garantir que o corpo do pai, o engenheiro Luiz Felippe Dias de Andrade Monteiro, fosse congelado e enviado a uma clínica de criogenia nos Estados Unidos, apesar da insistência de suas duas meias-irmãs, que queriam que ele fosse enterrado ao lado da primeira mulher, mãe delas.

O embate judicial corre até hoje, e a decisão mais recente foi proferida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou em março de 2019 que o corpo pode continuar congelado na clínica nos EUA. Lígia argumenta que o pai sempre expressou o desejo de se submeter à criogenia, pois tinha "um sonho de voltar à vida, um sonho de ter a oportunidade de viver de novo".

DESCONGELE E USE

Carlos Alexandre Ayoub, diretor clínico do Centro de Criogenia Brasil (CCB), explicou ao TAB que, pela maneira como o procedimento foi realizado na época, o desejo de Monteiro não poderá ser cumprido. "Você teria que começar a injetar o produto criopreservante (para preservar as células) ainda em vida, e logicamente isso iria matar o paciente", afirma. O corpo do pai de Lígia foi mantido em uma caixa de fibra de vidro com isolamento térmico e resfriado com gelo seco antes de ser enviado aos EUA, sem que nenhuma substância fosse injetada.

Atualmente, a criogenia é usada no Brasil principalmente para preservar células-tronco do cordão umbilical e dos dentes de leite de crianças, com o objetivo de guardá-las para tratar doenças como leucemia e anemia. As células passam pelo procedimento individualmente e ficam guardadas a -196°C, preservadas por tempo indeterminado, garante Ayoub. Em outros países, já é possível usar células-tronco criopreservadas em tratamentos de rejuvenescimento, injetando-as no corpo para produzir células mais jovens.

"Congelar corpo, se dependesse de mim, ninguém mais congelaria", diz o especialista. Ele explica que, mesmo que sejam desenvolvidas tecnologias para recuperar o funcionamento vital, a mente não voltará ao mesmo ponto de antes da morte. "Mesmo que esse cérebro volte a funcionar, ele voltará sem memória, sem aprendizado; será como o de um bebê", afirma.

MUITOS ANOS DE VIDA

Mesmo sem tratamentos high-tech ao alcance de todos, a verdade é que estamos vivendo cada vez mais. A expectativa de vida cresceu muito nas últimas décadas e continua a subir. Em 2017, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era de 76 anos, segundo o IBGE. Isso representa um acréscimo de 3 meses e 11 dias em relação à idade estimada para o ano de 2016 (75,8 anos).

Em 1940, por exemplo, esperava-se viver 45,5 anos. Mas, pense só: tem um monte de gente viva hoje que nasceu em 1940. Em 2019, aos 79 anos, esses idosos nasceram em um país que nem imaginava que teria de cuidar de uma população mais idosa — e não se preparou para isso.

Para Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), uma das maiores conquistas do século passado foi o aumento da longevidade. "O grande problema para o século 21 é dar qualidade de vida para esses anos que ganhamos." Diferentemente de De Grey, Uehara acredita que o foco não deve ser no rejuvenescimento, mas sim nos cuidados para um envelhecimento mais saudável e uma morte mais tranquila.

CURAR OU CUIDAR?

"Eu não gostaria de viver 120 anos", diz Tom Almeida, que atua como consultor de empreendedorismo e criou o movimento inFINITO.etc, uma plataforma de eventos e conteúdos sobre morte e cuidados paliativos. "Viver mais tempo tem muitos bônus, mas também tem muito sofrimento agregado, ainda mais nas condições políticas e sociais do Brasil."

Almeida se considera um ativista da morte e quer levar o assunto, literalmente, para a mesa de bar. Eventos como o Death Over Drinks promovem discussões descontraídas sobre o tema, com o objetivo de tornar o fim da vida menos doloroso. A esperança de Almeida para o futuro da morte é menos tecnológica e mais pessoal. "Precisamos sair da obstinação do curar e olhar mais para o cuidar. Se você ficar obcecado por curar, em algum momento vai perder. Já o cuidar você vai poder fazer sempre. Não tem derrota em cuidar", argumenta.

"Muitas vezes, as tentativas de manter a vida a todo custo vêm do medo de perder alguém que amamos", diz ele. Nas conversas sobre morte, o ativista relata que boa parte das pessoas não têm tanto medo de sua própria finitude. O problema é pensar em perder amigos ou familiares. A dica que ele dá é conversar sobre o assunto.

A MORTE VIROU YOUTUBER

Está em dúvida sobre como iniciar essa conversa tão delicada? Dá para encontrar respostas no maior agregador de tutoriais da internet: o YouTube.

Se você assistir a um pedacinho de um dos vídeos de Caitlin Doughty, pode imaginar que ela seja mais uma youtuber como tantas outras. Falando para a câmera, com cortes secos e algumas pausas dramáticas para piadinhas e memes, ela costuma gravar seus vídeos sentada em um sofá na sala de casa. Mas, olhe mais atentamente... aquilo que aparece ao lado do abajur é um crânio?

A agente funerária de 35 anos tem mais de 800 mil inscritos em seu canal, fundou o coletivo The Order of the Good Death (A Ordem da Boa Morte, em tradução livre) e é autora de dois best-sellers sobre o assunto. Formada em história medieval pela Universidade de Chicago e em ciências mortuárias pelo Cypress College, Doughty tem uma agência funerária em Los Angeles como trabalho principal, mas também usa sua experiência para promover conversas sobre o fim da vida de maneira descontraída, sem leviandade.

Ela sugere, por exemplo, uma abordagem bem honesta com seus pais. Ela aconselha que você diga a eles: "Tenho pavor do fato de que você vai morrer. Porque todos nós vamos. E eu não vou saber o que você quer nesse momento."

RISCOS E FARDOS

Dentro da Unidade de Terapia Intensiva de Emergências Clínicas do Hospital de Clínicas da Unicamp, o professor e coordenador Thiago Martins Santos sabe muito bem a importância de as pessoas conversarem sobre a morte. Afinal, quando o paciente não está em condições de responder por si mesmo, é importante que a família esteja ciente das vontades dele.

"Na UTI, você percebe na dinâmica familiar quem domina a situação. Geralmente essa pessoa conduz a discussão e faz a vontade dela prevalecer, e que não necessariamente corresponde à vontade do paciente", avalia. "O que temos que mudar na nossa forma de pensar é justamente até que ponto vale a pena ter uma vida muito diferente daquela à qual estamos acostumados. E esse não é um assunto corriqueiro no Brasil."

Um estudo da Universidade de Stanford (EUA), divulgado em 2014, mostrou que 88,3% dos médicos ouvidos escolheriam não ser submetidos a um procedimento radical de ressuscitação ou prolongamento da vida, com riscos e fardos maiores que os benefícios esperados.

A MORTE MORA AO LADO

Em uma época que a vida eterna saiu do campo da fé para virar projeto de mercado, aceitar o fim como algo natural é uma das grandes bandeiras de médicos geriatras e gerontólogos, que recomendam focar nos cuidados e na integração dos idosos a uma sociedade cada vez mais velha.

"A tentativa de postergar a morte é uma questão de classe social, não é para todos. As tecnologias estão aparecendo, mas precisamos tratar o envelhecimento de forma a garantir que cada ciclo seja vivido de uma maneira plena", diz Vania Beatriz Herédia, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Vania acredita que essa é uma boa época para mudar a forma como encaramos a morte, já que diferentes gerações estão convivendo cada vez por mais tempo, por conta da maior longevidade. "Isso começa com as crianças, no convívio com avós e bisavós. A conversa sobre envelhecimento tem que ser contínua, para que as novas gerações se deem conta da riqueza da velhice e dos limites que ela representa."

Tom Almeida, do inFINITO.etc, afirma que essas conversas estão mais frequentes, mesmo reconhecendo que ele próprio vive em uma "bolha" onde falar sobre morte é natural. Afinal, ele mesmo puxa o assunto.

Mesmo favoráveis ao desenvolvimento de tecnologias que melhorem a qualidade de vida na velhice, os especialistas pesam o impacto que a busca pela imortalidade tem no dia a dia dos idosos. Em vez de valorizar tanto a vida eterna, quem sabe seja uma boa ideia encarar e melhorar nossa relação com a morte e o envelhecimento, ainda inevitáveis.

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