TEICH, O BREVE

Há 2 anos, Nelson Teich virou ministro da Saúde no momento mais tenso da pandemia -- para ficar apenas 29 dias

Claudia Castelo Branco Colaboração para o TAB, de São Paulo Lucas Seixas/UOL

Nelson Teich estava em sua casa na Barra da Tijuca quando recebeu um telefonema. O general Luiz Eduardo Ramos, então ministro-chefe da Casa Civil, o convidava para ir a Brasília conversar com Jair Bolsonaro. Era 15 de abril de 2020, noite no Rio de Janeiro, e o Brasil vivia um período de trevas.

Na manhã seguinte, o oncologista vestiu um blazer simples e partiu com sua mulher para o aeroporto, onde jornalistas já o aguardavam. O país contabilizou, naquele dia, 188 mortes oficiais por covid-19 — era o começo da escalada que culminaria em 3.000 mortes diárias, exatamente um ano mais tarde.

O papo amigável com o presidente durou uma hora — o assunto cloroquina não foi sequer mencionado. Horas depois de as panelas baterem contra Bolsonaro, durante a fala que confirmava a demissão de Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich foi anunciado como o novo ministro da Saúde. Entre a ligação telefônica com Ramos e o anúncio se passaram menos de 24 horas.

O oncologista tomou posse num dos momentos mais tensos da pandemia. Marylene Rocha de Sousa, 55, chefe de assessoria de cerimonial e produção de eventos do Ministério da Saúde desde os anos Collor, lembra que Teich tinha um ar tranquilo em Brasília.

No dia seguinte à posse, o carioca desmarcou todas as entrevistas da pasta — era costume a equipe de Mandetta aparecer diariamente na TV, à tarde, para falar da pandemia. A primeira coletiva de Teich foi dada apenas em 22 de abril, data da fatídica reunião ministerial com Bolsonaro.

Com dez dias à frente da Saúde, a imprensa avaliou a gestão de Teich como "de pouca ação". A ação veio em 14 de maio, quando o presidente exigiu do ministro a inclusão da cloroquina no protocolo de tratamento da covid-19. Sua saída foi anunciada dia 15. "Não me arrependo de jeito nenhum. É aquela história: você só sabe como é quando está lá dentro."

Nelson Teich foi um dos ministros da Saúde de estadia mais curta no Planalto. Foram apenas 29 dias. "Foi o suficiente para perceber se eu ia entregar [melhorias na Saúde] ou não", diz à reportagem. "O presidente foi escolhido pelo povo. Quem tem que se adaptar é quem está com ele."

Teich acreditava em Bolsonaro. Tanto é assim que se engajou em 2018 para apresentar ideias ao grupo que se formava ao redor dele. Decidiu falar de gestão em saúde com Paulo Guedes, à época cotado para chefiar a Fazenda num possível futuro governo. Guedes gostou do que ouviu, segundo o próprio Teich, e o recomendou a dois generais, Augusto Heleno e João Francisco Ferreira, sabatina que o levaria (ou não) ao degrau seguinte: um encontro com o próprio Bolsonaro. Ele considera ter agradado aos militares e, em outubro daquele ano, pós-facada, foi falar diretamente com Jair Messias na casa do condomínio Vivendas da Barra — Teich mora na mesma avenida, a 2 km de distância. Levou o mesmo PowerPoint.

Em 2019, contudo, quem assumiu a pasta foi Mandetta. "Disseram que ficou entre mim e Mandetta, que foi o escolhido. Talvez a lembrança do meu nome, em 2020, tenha a ver com isso."

Nelson Teich levou mais tempo para aceitar conversar com TAB do que para dizer sim a Bolsonaro, mas nem sempre é reticente ao falar. De sua casa, ele lembra o sincericídio de uma entrevista em 30 de abril. "Perguntaram se era possível chegar a mil mortes por dia e eu respondi que sim. As pessoas ficaram até meio escandalizadas."

Carioca atípico, ele não faz piadas, mas dá risadas fáceis. Admite que não tinha tempo de ver o que falavam dele nas redes sociais no curto período em que foi assunto no País. "Eu simplesmente não olhava os memes. Minha família sofria muito mais que eu." Considera divertida uma montagem que compara duas fotos suas, antes e depois do ministério, com a legenda "ficou até bonito".

Um dos memes de maior repercussão surgiu quando o então ministro do STF Celso de Mello decidiu tornar público o vídeo da reunião de 22 de abril. Era o sexto dia de trabalho de Teich e ele precisava ser mais pragmático -- faria uma coletiva de imprensa à tarde. Até aquela data, o Brasil registrara 2.906 mortes por covid-19 e Teich estava incomodado com o rumo da prosa. "Foi uma discussão mais ideológica e eu esperava algo mais estratégico." Sentado entre os ex-ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Abraham Weintraub (Educação), o vídeo mostra um homem de olhar perdido.

Na gravação de 1 hora e 55 minutos, o ex-ministro falou por míseros 3 minutos e 46 segundos, participação que corresponde a 3,2% do total.

Nesse mesmo dia (22 de abril), Teich confirmou o general Eduardo Pazuello como o nº 2 da pasta, a mando de Bolsonaro. Dias depois, secretários municipais e estaduais de Saúde diziam, em tom de deboche, que o verdadeiro chefe da pasta era o militar, que já montava uma equipe própria no ministério.

De sua parte, o ex-ministro conta não ter feito grandes mudanças no time. "Já existia uma equipe. Eu não ia entrar e mudar tudo. Naquele tempo, era difícil as pessoas aceitarem convite para trabalhar na Saúde."

Teich destaca a visita a Manaus, em 4 de maio, como o dia mais marcante de sua curta jornada ministerial. "Deu pra entender o que aqueles profissionais estavam passando. E aquela angústia de tentar ajudar e não ter como, faltavam EPIs no mundo todo." No dia, não conseguiu colocar a máscara corretamente, e em diversas aparições ao lado do presidente dispensou seu uso.

Foi várias vezes atropelado pelas ordens do governo. Em 11 de maio, Teich soube por um jornalista que o presidente havia incluído academias de ginástica, salões de beleza e barbearias entre os serviços considerados essenciais. "Saiu hoje?", reagiu.

Teich não altera o tom de voz nem quando fala sobre aqueles dias. Nega que foi tutelado pela ala militar, para em seguida dizer "mas quando eu trago o Pazuello, eu tenho que deixar ele montar o time dele..." Ele não fala mal de ninguém e tenta ponderar situações usando sempre o "mas", afirmando que é preciso avaliar informações. Aponta o conflito de posições de especialistas e do governo como um dos empecilhos para continuar no cargo -- que ficou vago por mais de 100 dias. Também considera ruim a comunicação lá dentro.

"Quem derrubou Teich foi Pazuello. Ele sabia que era só o testa de ferro e percebeu a tempo. Aquilo ali [Ministério da Saúde] é uma máquina de moer carne", afirma uma fonte da pasta que prefere não ser identificada.

Sobre a decisão de usar terno nas coletivas, em vez do colete do SUS usado por Mandetta e sua equipe de secretários, pessoas ligadas ao ministério da Saúde ouvidas pelo TAB afirmam que a mudança de visual foi exigência da Casa Civil. Para essas fontes, o então ministro estava sendo manipulado enquanto achava que estava criando um estilo para se diferenciar de Mandetta. Com a saída de Teich, era Braga Netto quem dava notícias em nome da pasta.

Filho único de Pedro Francisco Teich Filho e Nelaby Dias Sperle, ambos já falecidos, Teich morou na Tijuca até os cinco anos. Depois a família mudou para o Méier, na zona norte do Rio de Janeiro. Pedro trabalhava com papelaria enquanto Dona Nolaby cuidava de casa.

O futuro ex-ministro cresceu numa casa na Rua Pedro de Carvalho, "rua sem fim com 30 casas coladas dos dois lados. Eu morava na última casa da vila", conta. Sua vida era brincar com os amigos, os estudos e o futebol.

Paulo Salles, 64, é um deles. Na década de 1970, a dupla foi a sensação de um tradicional clube de futebol de salão de base da região, o Sport Club Mackenzie. Na posição de goleiro, Teich tinha um apelido: Aranha Negra (alcunha de Lev Yashin, lendário guarda-meta da ex-URSS). "Era como chamavam na época um goleiro que pegava todas", explica o amigo.

Salles, que era ala esquerda, emociona-se ao falar da final do campeonato carioca infantil em 1972. O pai teve um infarto, pediu para o filho jogar, e Teich o estimulou. "Ele sempre tinha a palavra certa", conta o amigo. Mesmo com perfil conciliador, Salles apostava que o amigo de infância não iria longe no cargo de ministro.

A habilidade do ex-ministro o levou à seleção carioca, criando um dilema para o jovem: escolher entre o futebol e a medicina. O tempo de carreira pesou na decisão. A altura, também. o oncologista mede 1,70 m. Escolheu a medicina e parou de jogar aos 21 quando começou a dar plantão.

Especializado em oncologia pelo Inca (Instituto Nacional do Câncer), era um nerd. Abriu um consultório pequeno que foi crescendo até virar a Coi Clínicas Oncológicas Integradas, comprada pela AG United Health Care dos EUA. Hoje, ele é sócio da Teich Health Care, empresa de consultoria que atende clientes no Brasil e no exterior. "Me considero 100% gestor. Nunca dou palpite. Sou técnico."

Formada em administração, Daniella Teich, 52, é uma mulher de cabelos curtos que se emociona com facilidade. Está casada com o oncologista há 25 anos. Ambos vinham de outros relacionamentos — Daniela já tinha um filho; Nelson, quatro. Juntos tiveram o sexto.

Ao todo são três meninas e três meninos que se consideram irmãos. Daniella também administra as redes sociais do marido e tentou blindá-lo na época. "Era tudo muito novo pra gente. Fiquei bem mal. O Brasil sofria."

Considera frustrante a passagem de Teich pelo Planalto, por se tratar de um sonho do marido. "Não acho que acabou bem para ninguém", afirma. Segundo Daniella, o marido tinha muita vontade de ajudar o país, mas "foi impedido". Acredita que sua imagem, no entanto, saiu fortalecida. Quando são reconhecidos nas ruas, não são atacados, diz ela.

É possível que tenha razão. Na internet, "honrado" é um dos termos mais relacionados ao ex-ministro, após sua saída. Ela reforça que o marido não fez e não tem inimigos no governo.

Daniella é quem grava os vídeos publicados no Instagram de Teich, seguido por 115 mil pessoas. Os temas centrais são pesquisas e estudos sobre tratamentos para covid-19, vacinas e gestão em saúde. Com o discurso de "sempre ajudar o Brasil", ele pretende comentar as propostas dos candidatos ao longo do ano.

Ao contrário do que diz a Wikipedia, Teich não é judeu. Ele foi criado no catolicismo, diz a mulher. Três filhos moram atualmente com o casal, além de uma cadela, Bella, da raça pastor alemão.

Ele percorre assuntos variados com facilidade, de Amy Winehouse ao filme "Casa Gucci". Gosta de gravatas e ouve atualmente Paul Carrack. "A música é a maior invenção da humanidade. Maior até que o analgésico. O analgésico é fundamental porque a dor é uma coisa horrorosa, mas a música é um negócio que emociona barbaramente."

O dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu que não existe nada mais irrelevante, mais vago, mais contínuo que um ex-ministro. Nelson Teich dá risada.

Mesmo com a enxurrada de ex-ministros correndo para lançar candidaturas — Eduardo Pazuello, que saiu do ministério e ganhou o cargo excêntrico de assessor especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, pediu exoneração para concorrer a deputado estadual pelo Rio —, garante que não tem pretensão no Legislativo e, se tivesse de voltar, seria para o ministério.

Daniella, surpresa, não sabia da vontade e chama o marido para a conversa — e ele confirma. "Não", responde sobre aceitar o cargo numa eventual reeleição de Jair Bolsonaro. "Não faria sentido."

Mas, como oncologista, fez sentido fazer parte do governo de um ex-parlamentar que defendeu a pílula contra o câncer? "Eu estava focado no futuro, não podia me apegar a coisas do passado. A mesma coisa aconteceu com a cloroquina. [Bolsonaro tinha] Uma posição não baseada no conhecimento científico. Por algum motivo, trabalha aquilo pra defender uma posição." Entre Lula e Bolsonaro, diz que só decidirá em outubro. Mas "consideraria os dois".

Sobre outros candidatos, silencia. Quando o nome de Moro é mencionado, diz que teve pouco contato com ele em 2020. Elogia alguns nomes do PT, principalmente os vinculados à saúde. "Tem nomes fantásticos. [José Gomes] Temporão, Arthur Chioro [ambos ex-ministros da Saúde], uma estrutura muito forte."

Em 29 dias sentado na cadeira de ministro, considera seu maior acerto ter viabilizado a parceria entre a Universidade de Oxford e o ministério da Saúde, o que levou à chegada da vacina AstraZeneca via Fiocruz, algo que Teich lamenta não ter sido bem divulgado. Fontes da pasta confirmam que Teich foi o responsável direto pelo consórcio e o que o próprio governo tratou de enterrar seu feito por não estar interessado no tema da vacinação.

"Um negócio que me impressiona é a gente ter passado pelo que passou, uma pandemia que ainda não terminou, e ver áreas como saúde e educação pouco valorizadas nos discursos dos pré-candidatos."

Quando Teich saiu do governo, o Brasil somava quase 15 mil mortos por covid-19. Dois ministros da Saúde depois, o número de mortos é de 662 mil.

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