O corpo resiste

Na noite paulistana, performers misturam clima sombrio com surrealismo e música eletrônica

PERFORMANCES QUE FALAM

É curtição, é dança. Mas é mais que isso: é um ato de afirmação social. Festas como Sangra Muta, Mamba Negra e outras noitadas do underground de São Paulo são instantâneos dos tempos em que vivemos. Para Tiago Franco, também conhecido como DJ Gezender, organizador da Sangra Muta, é uma 'vibe' novo gótico, o dark clássico e música eletrônica "com negros e travestis, que nunca estiveram incluídos nesse meio." O elemento principal é uma atmosfera mais sombria, "que corresponde ao nosso momento, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, do retorno de um conservadorismo absurdo." Ele reconhece que há uma bolha ali que tenta se apartar do momento reacionário. "Muita gente que veja as fotos talvez ache que esse é só um freak show. Mas por trás tem muito sentimento desse momento que a gente vive."

Reprodução/Instagram

"Desde pequena eu intuí que o dito 'normal' não me contemplava. Não queria ser mulher, mas também não era homem. Eu transcendia as normas mesmo dentro da transexualidade. Criei então uma criatura híbrida de uma alienígena e uma transexual, para ressignificar o que é incomum, feio ou impróprio perante a sociedade e transformá-lo em potência, em arte. É uma fuga do binarismo não só de gênero, mas de tudo que aprisiona. É a possibilidade de recriar o corpo e de construir a própria identidade. Uma existência livre dos padrões de beleza sobre nossos corpos, que não representam nada além deles mesmos. Quero outras corporalidades, causar a abstração da minha imagem."

Transälien

A IDENTIDADE É SER DIFERENTE

No século passado, dava para identificar à distância quem era de cada tribo urbana. Havia os punks, metaleiros, skatistas, surfistas, pagodeiros, clubbers, góticos etc. Era fácil "encaixotar" todos com base no visual, no comportamento e no lugar que frequentavam. Agora, a lógica é diferente. A estética não é uniforme. Os visuais e as preferências musicais de cada um são variados. E o aspecto que une todos ali, LGBTs, negros e mulheres, é que eles dançam com suas reivindicações.

"Não é um improviso, mas também nunca é uma atuação. É uma expressão sentimental... estética... do que está na minha cabeça. Sempre desenhei e, ao me montar, pude trazer meus desenhos para a realidade. Por mais que na performance eu esteja expressando meu coração partido porque meu namorado me traiu, expressar isso em público é importante."

Gui Mauad

TRIBO URBANA É COISA DO PASSADO?

Para a antropóloga Elisabeth Murilho, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), os grupos atuais buscam voz e não uma uniformização. "A necessidade é por espaço, respeito, não por um desejo de identificação. É por isso que não há faixa etária ou aparência visual definida. Essas questões são transformadoras e revolucionárias, porque lidam com a vivência dos papéis de gênero, do que é ser mulher, homem, transexual."

Tiago Franco, por exemplo, se diz fã de diferentes culturas, movimentos e estilos musicais. Para ele, se definir em um grupo específico caiu em desuso. "Não é um grupo que determina teu comportamento. Há pessoas muito diferentes, mas que se comunicam e vivem em harmonia, entendendo a diferença. Tem muita gente que frequenta a noite eletrônica não por gostar da música eletrônica em si, mas para poder desfrutar da atmosfera."

"Criei minha persona. Meu nome é curto. Uma coisa única. Quando percebi o poder que tinha nas minhas mãos, comecei as performances. O incômodo é necessário. Como espectador, gosto de ver uma coisa que me toca ou que me causa nojo. Que barreiras esse artista quis ultrapassar? Quando algo me deixa desconfortável, é aí que eu quero refletir. Acho isso saudável. Aí vem a desconstrução. Esse é o poder que temos na hora de construir uma performance. O esforço do artista é passar uma mensagem positiva. Todos querem ser aceitos. Gosto muito quando a pessoa para e me assiste, mesmo quando não entende nada. Só a contemplação e o tentar entender já é importante, porque gera uma ligação."

Una

UMA NOITE, UMA FESTA

A batida da música eletrônica invade e dá ritmo aos corpos que se balançam na pista. Há uma diversidade de roupas, cabelos e calçados. Alguns optam pelo seminu. Quem domina o ambiente são as drags e performers trans. Você se sente hipnotizado por essas figuras de look muito além do extravagante. É um visual surreal, criado a partir de uma miscigenação de influências, oscilando entre o convidativo e o invasivo. Juntas, elas dão voz e emprestam seus corpos a um movimento artístico. Por trás das máscaras, da maquiagem e dos saltos, há uma manifestação do direito de se expressar.

"Meu nome foi inspirado em uma espécie de animal marinho. Como era um pouco mais gordo, na época usei isso como uma forma de empoderamento. Eu gosto da performance não convencional, porque você não precisa pensar em nada antecipadamente. Criar o look e a estética vai muito de como você se sente na hora, de como o público interage com você."

Kasha Lotte

SER, SEM LIMITES

Elis Menezes, 25 anos, frequenta a festa Sangra Muta porque sente que lá "não tem uma grade que te separa de outras pessoas". "Ali fora, passou a rua, a galera começa a te julgar pelo seu jeito de se vestir, de andar. Tentam te limitar, resumir o ser a uma única e exclusiva figura. A gente não está aqui fugindo disso, a gente está aqui sendo o que a gente é", diz.

Para Una, a performer, seu papel político começa já no "estar ali sendo diferente". "Nossos corpos são resistências. Isso faz a gente se sentir abraçado. A política não é só esse lugar de militância, de textão. É ser você mesmo, ir para um lugar seguro se vestindo do jeito que você quiser. O corpo é militante."

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