O fotógrafo do Lula

Ao lado do ex-presidente há 20 anos, Ricardo Stuckert tem um dos maiores acervos da história do Brasil

Juliana Sayuri (texto) e Diego Bresani (fotos) Colaboração para o TAB Diego Bresani/UOL

Eram quase 14h30 de uma quarta-feira de sol quando um Rolls-Royce Silver Wraith, um conversível preto de 1952, embicou na Catedral Metropolitana de Brasília. Era 1º de janeiro de 2003, o dia da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Antes de embarcar no carro que o levaria escoltado pela cavalaria Dragões da Independência rumo à rampa do Congresso Nacional, como pede o protocolo presidencial, Lula parou por um segundo. "Bom dia, presidente", disse-lhe o fotógrafo Ricardo Stuckert, à época com 32 anos. "Bom dia, não, meu filho. Boa tarde. Acordei às 5 horas da manhã, já tô trabalhando há horas na Granja do Torto e onde você estava?", questionou o presidente, sorrindo. "Bom... Boa sorte, presidente", respondeu o fotógrafo, um tanto surpreso.

Quase 20 anos se passaram, e Ricardo lembra desse momento como se fosse ontem. Ali ele entendeu qual seria a tônica do trabalho como fotógrafo oficial de Lula, cargo que ocupa até hoje. "Fotógrafo tem memória de elefante", justifica ele, que se diz avesso a entrevistas, mas abriu "uma exceção da exceção" para o TAB. "Não gosto muito de falar de política, apesar de viver de política."

Ricardo Stuckert, hoje aos 51, anda pra lá e pra cá com três smartphones no bolso, uma máquina fotográfica a postos na mão direita e uma filmadora na mão esquerda. O iPhone 11, menorzinho e branco, é para assuntos pessoais. "Para não confundir as bolas", diz o fotógrafo. Os outros são de diferentes modelos e pretos, um iPhone 12 e um Huawei P30 Pro, logados nos perfis do ex-presidente.

'Você faz fotografia ou ideologia?', você pode me perguntar. Eu faço fotografia, mas minhas ideias estão ali, minha visão de mundo está ali. As fotos devem falar por si

Ricardo Stuckert

Brasiliense, canhoto, com barba por fazer e óculos quadrados, o fotógrafo sempre está nos bastidores: é ele quem grava as lives de Lula e registra os encontros que vez e outra viralizam na internet — como a foto recente do ex-presidente de sunga com a namorada, a socióloga Rosângela da Silva, a Janja.

Desde que o ex-presidente deixou a cela na sede da Polícia Federal em Curitiba, no fim de novembro de 2019, após 580 dias preso, Ricardo tem se dividido entre Brasília (onde mora), São Bernardo do Campo (onde Lula mora), São Paulo, Rio e demais cidades que surjam de imprevisto nas agendas de ambos.

Fora da rota, por exemplo, foi uma viagem a Los Angeles, em fevereiro de 2020, pré-pandemia: indicado ao Oscar junto à equipe da diretora Petra Costa pelo documentário "Democracia em vertigem", o fotógrafo se viu "entre DiCaprios, Brad Pitts e Scarlett Johanssons", mas diz que se emocionou, na verdade, ao ver um teaser do filme brasileiro de 113 minutos no telão do Teatro Dolby, na Hollywood Boulevard.

"Stuckinha, vamos conversar?", disse-lhe Petra, quando rascunhava o projeto do documentário. "Fiquei impressionada como ele registrava todos os passos do presidente", lembra a diretora, sobre a primeira vez que viu o fotógrafo, num encontro de Lula com militantes mulheres, em 2016. Tempos depois, ela o convidou para participar como diretor de fotografia do filme da Netflix.

Internet às vezes é uma terra sem lei, incontrolável. Se uma foto que fiz para o presidente viraliza, muitas vezes é um bom sinal

Ricardo Stuckert

"Stuckinha, vamos conversar?" é uma frase que o fotógrafo já ouviu diversas vezes. Uma das mais decisivas foi no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, em uma noite tumultuada em outubro de 2002.

Ricardo saía do Projac, o complexo de estúdios da TV Globo, depois de fotografar para a revista IstoÉ o último debate entre os candidatos à Presidência. Lula e o então senador José Serra (PSDB), que lideravam as intenções de voto no primeiro turno, estavam hospedados no icônico hotel 5 estrelas na zona sul do Rio.

Ricardo e o amigo fotógrafo Antonio Milena, da revista Veja, estavam no Hotel Novo Mundo, a 350 metros do Glória, e notaram uma movimentação nos arredores. "Era quase 1 hora da manhã, Lula e Serra estavam voltando para o hotel, talvez renda uma foto exclusiva, um furo. Vamos? Vamos", relata.

Lula voltou, viu os fotógrafos e parou no lobby. "Você pode pelo menos tirar a máquina da frente do rosto pra eu poder olhar na sua cara?", perguntou o petista. "Obrigado. Humn, o Kotscho está chegando num carro e vai precisar conversar com você", acrescentou, e foi embora.

O Kotscho é Ricardo Kotscho, à época assessor de Lula e atualmente colunista do UOL. O jornalista chegou e convidou o fotógrafo para ir ao bar do hotel.

Kotscho subiu e se trocou, tirou o terno e vestiu uma bermuda. Na volta, no bar, informou: "Lula pediu para te convidar para ser fotógrafo oficial dele, caso ele vença." Pego de surpresa, Ricardo demorou a digerir a proposta e começou a divagar sobre com quem poderia conversar para pensar sobre o assunto. Ele puxa da memória:

- Caramba, Kotscho, não sei o que dizer. Não posso contar pra ninguém, nem meu pai, nem meu irmão, nem...
- Não importa pra quem você vai contar. Quero saber se você aceitou.
- Mas sou muito novo, não sei se...
- Não entendi, você aceitou?
- Mas estou na revista e vou precisar...
- Desculpa, você aceitou?
- Deixa rolar, vamos ver o que acontece, mas não vamos falar nada pra ninguém ainda.
- Ô Stuckinha, você aceitou ou não?
- Aceito.

"Na campanha, Stuckinha estava me enchendo porque queria entrevistar Lula na intimidade da casa dele para a revista. Até que, certo dia, Lula autorizou e lá foi o fotógrafo num dia de manhã. Lula o adorou", conta o ex-assessor.

Na época, Ricardo fez retratos mostrando a intimidade dos quatro principais candidatos no páreo presidencial: Lula na grama com a cachorrinha Michele; Serra lendo um livro no Glória; Anthony Garotinho (então no PSB) brincando com o filho; Ciro Gomes (PPS na época) cozinhando com a atriz Patrícia Pillar, com quem era casado. A série foi finalista do Prêmio Esso.

Ricardo continuou na revista IstoÉ até fins de 2002. Com a vitória de Lula no 2º turno, pediu demissão ao então chefe, o fotojornalista Hélio Campos Mello. E finalmente contou a notícia para o pai, Roberto Stuckert (1943-2021). "Meu pai é o Stuckão, eu sou o Stuckinha", diz.

Os Stuckerts já contam quatro gerações de fotógrafos. Entre vivos e mortos, são mais de 33 na família, desde os tempos do bisavô, um viajante alemão-suíço de Lausanne que desembarcou na Paraíba na década de 1930 com cartas náuticas e câmeras fotográficas na bagagem.

"Na família Stuckert, o primeiro brinquedo que a gente ganha é uma máquina fotográfica", brinca — embora, entre seus 4 filhos, nenhum tenha se inclinado para o ofício. "Eles dizem que trabalho demais."

Tempos depois, os Stuckerts deixaram o Nordeste e se instalaram no Distrito Federal. Lá, Stuckão abriu uma agência e montou um laboratório de fotografia dentro de casa. Foi ali que, aos 13 anos, Stuckinha aprendeu o processo de revelação do filme fotográfico.

Stuckão faleceu no último dia 23, aos 78 anos, por insuficiência cardíaca. "Foi com ele que aprendi a fotografar. Um dos primeiros presentes que ganhei dele, ainda criança, foi uma máquina fotográfica. Ele me entregou e disse: 'Rico, aqui tem a minha vida e você vai aprender a olhar o mundo por este visor'", Stuckinha escreveu no Instagram, ao lembrar o pai. A lembrança da primeira vez no laboratório é vívida.

"Quando entrei naquela sala toda escura e vi a imagem surgindo do filme, perguntei pra ele: 'Pai, isso é mágica?' Ele sorriu e disse: 'Sim, é como se fosse'. Eu cresci acreditando nisso. Que a fotografia é mágica, que mostra um mundo que as pessoas não conhecem, que revela sentimentos, que traz histórias. A fotografia é a memória, é a lembrança."

Ao todo, três da família foram fotógrafos de chefes de Estado: o pai Roberto Stuckert acompanhava o general João Batista Figueiredo, que governou entre 1979 e 1985; o irmão mais velho, Roberto Stuckert Filho, Dilma Rousseff. "Meu pai foi fotógrafo do último presidente militar; eu, do primeiro presidente operário; meu irmão, da primeira presidenta. São três momentos-chave da história do Brasil."

Ricardo estreou no jornal O Globo na casa dos 18-19 anos. Depois, passou por IstoÉ, Veja, Caras, IstoÉ de novo e, enfim, Lula.

Foi na época da Caras, a revista dedicada à cobertura de celebridades lançada pelo publisher argentino Edgardo Martolio no Brasil, nos anos 1990, que Ricardo viu Lula pela primeira vez. Entre 1993 e 1996, o petista estava rodando o país com uma caravana. Um dos trajetos passaria pelo rio São Francisco.

Novo na casa, o fotógrafo pediu autorização para ir cobrir a viagem. "Onde isso é pauta da Caras?" foi a resposta do chefe. Com jeitinho, Ricardo insistiu e, no fim, conseguiu o aval para registrar 2 dias na caravana — ficou 4. A revista não publicou nenhuma foto, mas a imagem ficou na cabeça do fotógrafo: Lula na estrada e perto do povo.

Uma de suas fotos preferidas tem o tom dessa memória. É uma imagem em preto e branco de Lula abraçando um mar de gente em Barbalha, no Ceará, em 2016. "Em cada rosto, uma expressão diferente. Cada olhar retrata um sentimento."

Segundo Martolio, Ricardo tem "um plus", uma habilidade de relacionamento, além da sensibilidade visual. "Ele pode traduzir em uma imagem que poupa as famosas mil palavras, um retrato duro ou cheio de ternura, uma paisagem, um palanque politico, um show musical, uma situação policial, um casamento, a intimidade familiar de um famoso, uma aventura na Amazônia, tudo. É um todo terreno", define.

Ricardo citou a caravana a Lula quando eles se reencontraram durante o ensaio pré-eleições para a IstoÉ, em 2002. "Ele conquistou o presidente nesse dia", diz Kotscho, que incumbiu o fotógrafo de modernizar o departamento de imagem da secretaria de comunicação do governo federal. "Stuckinha estava presente o tempo todo. Lula deu acesso total: Granja do Torto, Palácio do Alvorada, jogo de futebol ou baralho no fim de semana — e ele sempre com a máquina pendurada no pescoço, até nos dias de folga. Hoje, deve ter um arquivo monumental da história recente da política brasileira", diz o colunista do UOL.

Certa vez, num momento de descontração, o presidente pediu a máquina para retratar o fotógrafo. Uma foto da foto mostra um Lula com olho no visor e um Ricardo sorridente, com os braços cruzados e uma segunda câmera a tiracolo. "Sou muito grato de ter o Stuckert comigo. Para ele, não tem tarefa difícil, não tem fotografia impossível", diz Lula ao TAB.

Entre 2003 e 2011, o fotógrafo acompanhou o presidente nas suas mais de 50 viagens mundo afora. Depois do governo, continuaram juntos. Passaram pelo impeachment de Dilma Rousseff, Lula preso, Lula livre e, hoje, Lula pré-candidato a 2022.

"Volte ou não para o Planalto, o Stuckert só deixará de trabalhar comigo se ele quiser. Gosto dele como se fosse um filho mais velho meu", diz Lula.

No segundo mandato de Lula, Ricardo se casou com a jornalista Cristina Lino. A Caras registrou a festa de Rico e Cris, como são conhecidos entre amigos, em Brasília, em 2008. A noiva usou um vestido branco Maria Virgínia bordado em cristais Swarovski e a primeira-dama Marisa Letícia, na primeira fila, vestiu Gloria Coelho, informou a revista.

Ricardo mora com Cristina, seus dois filhos menores (de 7 e 10 anos) e seus dois cachorros, Alice e Hulk. Os pets se fizeram notar quando o fotógrafo conversou com o TAB por Zoom, em 29 de maio, depois de passar o dia registrando nas ruas o primeiro protesto de peso contra Jair Bolsonaro na pandemia. Apesar de viver de política, como ele diz, tenta deixar o trabalho fora de casa.

Enquanto posava para os retratos desta reportagem no Museu Nacional, Ricardo foi interpelado por uma senhora que caminhava rumo à rodoviária de Brasília e lhe estendeu um celular: "Você pode fazer uma foto minha, por favor?". Com entusiasmo, ele dirigiu os retratos da desconhecida e fez sugestões de poses até que ela se cansasse — e dissesse que já estava bom, recolhendo o aparelho e agradecendo o favor. Finalizada a sessão da senhora, Ricardo voltou à dele.

Uma lição desde os tempos do meu avô: a gente vive de foto e inevitavelmente vai conversar sobre foto, mas que seja sobre luz, técnica e tal -- e não sobre o que se ouviu nos bastidores, quem disse o quê. É como sigilo de médico e advogado

Ricardo Stuckert

Desde 2015, Ricardo vem trabalhando em um projeto autoral fotografando os povos originários do Brasil. Com o estilo que aprendeu em Brasília, conquistando a confiança de políticos que abriram a porta de suas casas para serem retratados na intimidade, como um vampiro que espera ser convidado para entrar, ele foi se aproximando de aldeias distantes.

A primeira vez foi em 1997, quando foi pautado para cobrir os ianomâmis em uma edição especial da Veja. Viajou para Nazaré, no interior do Amazonas, onde conheceu Penha Goés, uma jovem na casa dos 20 anos, "de olhos esverdeados e fortes como os de uma onça". Visitou outras aldeias nos anos seguintes, às vezes acompanhado do indigenista Sydney Possuelo, da Funai.

Uma vez, uma viagem prevista para ter 7 dias durou 25, à espera de povos isolados nas margens de um rio. Outra, a primeira vez que viu o cacique Raoni, preferiu conversar e não fotografar loucamente. "Senti que, se eu levantasse a câmera de imediato, ele ia dizer 'não'. Melhor sair daqui amigo dele e pedir para fotografar no futuro, do que ouvir esse 'não' agora, pensei. Foi o que mais aprendi: esperar e respeitar o tempo do outro."

O tempo passou e, em 2015, Ricardo decidiu voltar a Nazaré para rever Penha, então com 39 anos. Fez um segundo retrato dela, quase 18 anos depois do primeiro — o paralelo "antes e depois" lembra a famosa foto da afegã Sharbat Gula, de Steve McCurry, para a revista National Geographic.

Nasceu assim a ideia do projeto autoral, que até agora registrou 12 etnias indígenas — 13 se contar o caso dos isolados. Entretanto, talvez Ricardo precise engavetá-lo por um tempo, caso Lula dispute 2022. "Se ele for candidato, certamente vou querer estar lá como fotógrafo oficial. Se for eleito presidente pela terceira vez, também. Imagina, depois de tanto tempo e tudo o que aconteceu? O mundo não dá voltas, ele capota."

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