Pago por clique

A promessa de trabalho remoto da era digital se transformou numa servidão contemporânea

"O trabalho dignifica, valoriza e enobrece o homem." Na contramão desse ditado, a tecnologia e a automação sempre tiveram propostas mais lenientes: quando os robôs puderem nos dar uma forcinha, finalmente poderemos trabalhar menos. Basta parar por alguns instantes e reparar nos nossos eletrodomésticos: a máquina que lava a sua roupa, que limpa sua louça, o robô aspirador que remove os detritos do chão.

O avanço tecnológico nos levava cada vez mais perto da vivência do tal ócio criativo proposto pelo sociólogo italiano Domenico de Masi, quando as máquinas passariam a executar os trabalhos menos criativos, mais repetitivos ou perigosos, enquanto para nós, humanos, haveria cada vez mais chance de liberdade e criação.

Para de Masi, poder "curtir" sempre foi privilégio de poucos, mas ele acreditava que, com as novas tecnologias, esse privilégio seria estendido a outras camadas sociais. Hoje, pesquisadores criticam a ingenuidade desse otimismo sobre o futuro do trabalho. Faltava considerar a chance de esse futuro se tornar distópico, assustador, um quadro mais parecido com o que vivemos.

Servos de apps

Parafraseando Garrincha, faltava também "combinar com os russos", que no caso atendem pelo aposto de "donos das máquinas". Nas últimas décadas, vivemos o avanço da transformação digital. Estamos cada vez mais conectados e dependentes dos nossos celulares — 20% dos brasileiros já disseram que preferem perder a carteira ao smartphone, e mais de 40% choram quando perdem o aparelhinho.

Diante desse cenário, era questão de tempo para que as empresas passassem a automatizar e digitalizar também suas atividades e processos, conduzidas na mesma toada apressada de "agir rápido e quebrar coisas", um lema do Vale do Silício.

Se os céticos alertavam que a substituição de trabalhadores por máquinas e inteligência artificial poderia ser um risco para a organização social do trabalho, executivos e futuristas prometiam um "mundo de novas profissões" associadas à automação. Poucos, porém, se lembraram de questionar quais as condições do tal "trabalho do futuro" — como a crise dos anos 2010 mostrou, não era exatamente mais humano e criativo, mas sim carregado de arrocho econômico e demissões em massa.

A Uberização de tudo

Coincidência ou não, na mesma época em que os números do desemprego no Brasil disparavam — de 6,8% da população, em dezembro de 2014, para 11% em dezembro de 2019 —, novos serviços tecnológicos como a Uber aterrisavam em território nacional.

Apresentada como uma plataforma inserida na economia do compartilhamento, conectando motoristas "ociosos" com pessoas que precisavam se deslocar, logo a Uber se transformou em um serviço de motorista sob demanda. Muitos desempregados viram na empresa uma chance de transformar o ocaso profissional em dinheiro, ainda que pouco. Era o início da plataformização do trabalho, que tem ganhado mais força com a popularização dos aplicativos de entrega como iFood e Rappi.

"Passa-se da ficção do trabalhador-mercadoria para a ficção do trabalhador-livre, em uma aliança neofeudal com a empresa, que chama os trabalhadores de parceiros", define um estudo do Ministério Público do Trabalho sobre esse tipo de relação entre prestadores de serviço e plataformas.

Apesar de as empresas de tecnologia reforçarem que os "parceiros" podem trabalhar quando e quanto quiserem, essa liberdade acaba negada quando há um dever de cumprir objetivos definidos na programação do serviço, como entregar uma encomenda aqui ou ali, fazer um X número de corridas, tudo isso decidido de forma unilateral pelos donos dos meios de produção algorítmica

Turcos mecânicos

Quem assistiu à série britânica "Years and Years" vai reconhecer esse feudalismo moderno na subserviência do personagem Stephens Lyons. Ao perder sua segurança financeira, ele vira refém de trabalhos pontuais, apesar da sua capacitação profissional. Stephens se torna vassalo de vários suseranos invisíveis, que lhe contatam via aplicativo e o incentivam a trabalhar por pagamentos mais atrativos nos momentos mais incômodos, como na noite de Natal.

Diante da complexidade de julgar essas situações, a Justiça ainda não tem definições claras: ora entende os trabalhadores por aplicativo como prestadores de serviço e isenta as plataformas de questões trabalhistas, como determinou o STJ (Superior Tribunal de Justiça) em setembro de 2019, ao julgar uma ação de motoristas de Uber, ora determina que as jornadas, que podem ser exaustivas para aumentar os ganhos, são relações de trabalho irregulares e multa as empresas responsáveis pelos apps — resultado da ação movida pelos entregadores da Loggi, em dezembro de 2019, na Justiça de São Paulo.

Existe, contudo, um tipo de "vassalo" — seguindo as analogias feudais, talvez possamos chamá-lo de servo — no mundo dos aplicativos muito menos visível que os entregadores de comida. São humanos capacitados e com boa formação que hoje realizam remotamente tarefas que os algoritmos de inteligência artificial ainda não fazem sozinhos. Eles identificam imagens, comparam buscas com resultados mostrados, analisam exames médicos, conferem traduções, identificam vozes e até são convidados a decidir se um determinado conteúdo marcado como impróprio deve ser removido de uma rede social.

No mundo anglófono, eles são conhecidos como "turkers", em referência a uma das principais empresas de contratação desses trabalhadores, a Amazon Mechanical Turk. Essa plataforma, segundo Mary Gray, pesquisadora da Microsoft e autora do livro "GhostWork", recebeu esse nome em referência à máquina Mechanical Turk, criada em meados do século 18 e que, supostamente, possuía inteligência artificial suficiente para ganhar uma partida de xadrez contra um humano.

Algumas décadas depois, a farsa da máquina foi desmascarada: dentro dela se escondiam habilidosos jogadores de xadrez de baixa estatura, que faziam as jogadas por trás das estruturas. Os humanos envolvidos eram os grandes mestres das jogadas do autômato "Turco Mecânico".

Bico da miséria

Curiosamente, é assim que funcionam algumas das automações feitas com a inteligência artificial. "As pessoas têm uma visão bem hollywoodiana de que tudo vai ser automatizado, mas elas ficariam decepcionadas se soubessem o que acontece na prática", provoca Rafael Grohmann, professor e pesquisador da Unisinos de São Leopoldo (RS) e curador da newsletter Digilabour, que acompanha as mudanças nas relações de trabalho na era digital.

Entre os assuntos de pesquisa de Grohmann está um tipo de trabalho humano que "completa" as automações que algoritmos de IA ainda não são capazes de realizar sozinhos. É o caso, por exemplo, da identificação de tumores em exames de imagem. Uma série de trabalhadores humanos passa horas por dia circulando pontos suspeitos em exames de imagem, etiquetando e identificando caso a caso, para que essa base de informações possa ser usada pelos algoritmos para separar, no futuro, um pólipo de um tumor.

No Brasil, Maria Tereza*, 50, dona de duas graduações, um MBA e passagens por multinacionais, passou horas identificando notícias falsas durante a última eleição. Ela foi aprovada num rigoroso processo seletivo e recebia cerca de US$ 5 a 8 (R$ 20 a 32, em valores de hoje) por "pacote" de notícias catalogadas.

O tempo de trabalho para a conclusão de cada pacote variava, já que ela precisava analisar as notícias uma a uma, buscando a raiz da informação, para decretar se o material era ou não uma notícia falsa. "São trabalhos esporádicos, não acontecem direto. E tem um prazo para finalizar; se não finalizar em determinadas horas, não recebe", contou ela ao TAB. "Faço [o trabalho] mais por um bico, por não ter um trabalho integral. Não acredito que dê para sobreviver disso", completa, com certa resignação.

* nome alterado para garantir a privacidade da fonte

Vida de turker

Durante a produção deste TAB, experimentei alguns trabalhos em plataformas de multiterceirização para entender melhor o cenário, que passa longe da imagem de uma fábrica.

Na Clickworker, por exemplo, depois de um cadastro rápido e de assinar digitalmente um contrato, o trabalhador encontra um painel cheio de pequenos trabalhos. "Ajude a melhorar o Pinterest", dizia uma das tarefas oferecidas, na qual passei alguns minutos informando ao sistema se a busca por uma "saia azul" efetivamente mostrava nas imagens uma saia azul, ou se uma pesquisa por "ator X chorando" efetivamente mostrava na tela uma foto daquela personalidade em um momento de tristeza.

Ao final da tarefa, que paga ao "turker" cerca de 30 centavos de euro (algo como R$ 1,30), infelizmente não consegui ser paga: a plataforma me informou que eu "havia errado em alguma coisa", o que invalidou o serviço prestado. "Nessa lógica, há um superpoder conferido ao contratante. Sem qualquer ônus ou regulação prévia, o tomador pode até mesmo rejeitar o trabalho realizado que reputar inadequado", explica José Affonso Dallegrave Neto, doutor em direito pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), no prefácio do livro "A Intermediação de Trabalho via Plataformas Digitais", de André Zipperer.

Além da tarefa que foi executada por mim, existiam outras 300 com a mesma descrição, demonstrando na prática que o avanço das máquinas ainda exige um bocado de intervenção da inteligência humana, como descreve Mary Gray em "Ghost Work".

O trampo de não receber

Por enquanto, a maior parte dos trabalhos desse tipo é realizada por indianos e norte-americanos, e segundo Bruno Moreschi, pesquisador da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), o motivo é simples: essas nacionalidades conseguem receber o dinheiro mais facilmente.

"Até poucos meses atrás, apenas turkers da Índia e dos EUA conseguiam depositar os valores obtidos pelo trabalho na plataforma em conta corrente. O restante recebe em vales-compra para serem utilizados no site da própria Amazon", explica.

Quem troca seu trabalho intelectual por vale-compra precisa percorrer uma grande via-sacra para converter cupons em dinheiro real, com uma significativa desvalorização dos ganhos. Depois de descontada a taxa de administração da Amazon de cerca de 40%, Moreschi explica que é comum os turkers brasileiros colocarem seus cupons em sites de leilão. Quando o cupom é vendido, o site responsável pelo leilão abocanha até 12% do valor da venda, e então o restante é transferido para uma conta no PayPal.

Para finalmente fazer o dinheiro do seu trabalho cair em conta, o turker brasileiro ainda deixa para trás cerca de 3%, descontados pelo PayPal pelo serviço de transferência. "O recebimento efetivo é cerca de metade do realmente trabalhado, o que torna o turker brasileiro um 'precarizado do precarizado'", afirma Moreschi.

A ilusão de não ter patrão

Os formatos de trabalho, apesar de pouco (ou mal) compreendidos pelos trabalhadores, não são escondidos pelas empresas. No site da alemã Clickworker, por exemplo, a oferta de dados para treinamento de aprendizado de máquina e inteligência artificial detalha que os projetos são divididos em microtarefas menores, e então testados por colaboradores da plataforma, que eles chamam de clickworkers. "Milhares de tarefas podem ser realizadas em tempo recorde", anuncia a plataforma.

"Estudo esse assunto há mais de dois anos, e estimo que no máximo uma ou duas vezes os trabalhadores pareceram saber o que estavam fazendo. É um trabalho muito alienado", afirma Moreschi. Apesar disso, o pesquisador ressalta que existe entre os turkers brasileiros um forte discurso do sonho empreendedor, um elogio à flexibilidade de se trabalhar a partir da própria casa e de não precisar "responder para um patrão".

Para Thatiana Cappellano, uma das autoras do e-book "Trabalho e Sofrimento Psíquico", da consultoria de comunicação organizacional 4CO, esses trabalhadores têm um perfil com características de "sobrevivente", atuando em uma relação não-empresarial (não são contratados fixos) e de menor estabilidade (projetos pontuais).

"Eles querem o vínculo formal e acreditam que essa informalidade [do trabalho em plataformas] será passageira. Acreditam que esse seja um momento, talvez de alguns poucos meses, durante os quais o trabalho ficará mais puxado, mas o que a gente repara é que essa condição vai se tornando lugar-comum", explica. "Estamos colocando as pessoas em precarização, mas elas se veem como vencedoras", completa.

O futuro do trabalho

Um profissional desempregado encontra nas corridas por aplicativo ou nos pagamentos por cliques uma forma de manter os boletos em dia enquanto aguarda uma nova oportunidade formal e regularizada.

"A tendência é que esse trabalho não desapareça, porque sempre vamos precisar dessa camada humana para treinar a inteligência artificial", avisa Moreschi. Além disso, para o pesquisador, há um paradoxo aí: "Com mais automatização, mais pessoas precisarão treinar essas máquinas, modelando e aprimorando o seu funcionamento", prevê.

Diante desse cenário, novas legislações trabalhistas do mundo todo têm se esmerado na tentativa de regular as novas formas de trabalho. Na Califórnia, a Justiça já tem considerado que os motoristas da Uber são trabalhadores da empresa, obrigando a plataforma a acertar financeiramente os devidos direitos trabalhistas.

No Brasil, estudiosos como o advogado André Zipperer defendem a necessidade de se repensar o direito do trabalho. "A CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) não é mais capaz de fornecer resposta satisfatória para os trabalhadores que são coordenados digitalmente, já que são caracterizados por um nível de autonomia inconciliável com o poder gerencial do empregador em grau suficiente para a subordinação plena", afirma. "Por outro lado, o trabalho autônomo não oferece proteção significativa à relação de trabalho", completa.

Como regular a baderna

Entre os motoristas e entregadores de apps, há um forte movimento que se assemelha à sindicalização. Algumas plataformas, como a Appen, têm apostado na divulgação de códigos de ética próprios, como uma forma de demonstrar uma espécie de "autorregulação".

"É uma providência que vem crescendo, mas que é mais baseada em ideologia do que em uma construção que venha do real", reflete Rodrigo Carelli, professor de Direito do Trabalho na UFRJ e procurador do Ministério Público do Trabalho. "Códigos de ética são formas autoritárias de governança, que tentam escamotear a exploração dos trabalhadores, mas nunca terá o condão de melhorar a situação", completa.

Em paralelo, surgem também propostas de monitoramento e vigilância do setor. É o caso da Fundação Fair Work, capitaneada por Mark Graham, professor do Instituto Internet da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Provocado sobre os códigos de ética, Graham opina que eles são "melhores do que nada". A fundação Fair Work funcionaria como um "terceiro", mencionado por Carelli, um avaliador externo das práticas de mercado.

Enquanto a sociedade debate (e se debate), o que será que você e eu podemos fazer diante desse cenário? Mary Gray sugere uma maior conscientização de que nós, como consumidores, estamos sendo beneficiados. "Por que estamos recebendo algo mais barato, ou quase de graça? Quais as condições do trabalho de quem faz com que esse produto ou serviço seja tão fácil de obter? Até que as pessoas façam essas perguntas, as empresas não vão fazer nada diferente", prevê Gray. Nas palavras da personagem Muriel Deacon, matriarca da família Lyons em "Years and Years", "esse é o mundo que nós construímos, meus parabéns".

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