Veganismo é coisa de rico?

Moradores de periferia abrem mão da carne em prol do bem-estar animal e de uma saúde mais equilibrada

São Paulo. Motos, ônibus e carros disputam as ruas da maior cidade da América do Sul. Em meio ao trânsito, uma fechada deixa um motoqueiro irritado. O homem aproxima-se da janela, como quem deseja um bate-boca, mas o pedido de desculpas, feito pelo motorista do carro em gestos com as mãos, faz com que ele desista da briga. Quem está ao volante do automóvel, momentos antes de encontrar o TAB, é Kleber Geraldo Lelis Simões, 49, mais conhecido como KL Jay, eterno DJ do grupo Racionais MC’s. Por trás da fama de mau, vive um homem espiritualizado, que crê na energia do universo e não come carne há quase 30 anos.

“Quando você se alimenta de carne, se alimenta da energia do assassinato”, diz KL Jay, que há 5 anos também deixou de consumir todos os derivados de origem animal — tanto no vestuário, quanto no prato. Virou vegano.

O DJ faz parte dos 14% da população brasileira que se declara vegetariana, de acordo com a pesquisa conduzida pelo Ibope Inteligência em abril de 2018 e encomendada pela SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira). Os quase 30 milhões de vegetarianos representam aumento de 75% em comparação com a mesma pesquisa feita em 2012.

O estudo ainda mostra que 60% dos entrevistados comprariam mais produtos  veganos se o preço fosse igual ao dos “produtos carnívoros” que estão acostumados a consumir. Seria, então, o veganismo “coisa de playboy”?

UM MUNDO VEGANO

BOIS & BOYS

No que depender de Ana Caroline Soares, 28, não. A moradora da periferia de Guarulhos, na Grande São Paulo, é a criadora do grupo Veganos Pobres Brasil, que tem mais de 80 mil membros no Facebook e auxilia quem quer deixar de consumir alimentos de origem animal. O projeto também acusa qualquer produto, seja de higiene, limpeza, vestuário ou cosméticos que, de alguma forma, explora animais em testes.

”Sempre ajudei as pessoas na parte da transição. Eu não pergunto se querem ser ovo-lacto-vegetarianos (pessoas que não comem carne, mas comem produtos de origem animal, como derivados de leite, mel e ovos) ou veganos (que não consomem nenhum tipo de produto de origem animal, nem os que são testados em animais). Eu ajudo a chegarem onde querem”, explica Ana, sobre a inspiração para criação do grupo que nasceu a partir de um álbum no seu perfil na rede social, em que publicava fotos de pratos veganos baratos. Hoje, todos os membros do grupos podem postar receitas, informações sobre produtos testados em animais e dicas de preparação de cosméticos veganos caseiros.

Quem tem iniciativa similar é o empresário porto-alegrense Rodrigo Luiz Guglieri, 35. “Contrariando” sua origem gaúcha, ele se tornou vegetariano aos 18, quando aderiu à militância vegana nas redes sociais. “Já fizemos postagens ensinando a fabricar leites vegetais que custam menos de R$ 1 o litro. Existe a falácia de que ser vegano é caro. Há produtos veganos caros assim como há produtos onívoros caros. Quando se começa a cozinhar, aprendemos novas receitas e vemos que existem muitos pratos veganos baratos e fáceis de fazer”, afirma.

Coordenador da página Veganismo Ácido, Guglieri também administra outros três grupos no Facebook relacionados ao tema. Ele ainda trouxe sua luta para fora do ambiente virtual, sendo voluntário da ONG Movimento de Defesa Animal do RS, que atua com a adoção de animais abandonados.

Vegetariana há quatro anos e vegana há um ano e meio, a professora Caroline Silva Santos, 31, mora em Cidade Tiradentes, periferia extrema da Zona Leste de São Paulo. Ela também afirma que não é mais caro manter o hábito, desde que não se prenda ao consumo de produtos veganos industrializados. “Esses sim são caros”, alerta. Caroline também segue a rotina de comprar no bairro marmitas a R$ 10 para almoçar na escola em que trabalha. As quentinhas geralmente contêm vegetais verde-escuros, feijão, arroz, batatas fritas e legumes diversos.

E dá para ter uma dieta equilibrada seguindo esses exemplos? "Pesquisas mostram que a dieta vegetariana reduz o risco de câncer, doenças cardiovasculares, hipertensão e obesidade. Por ser pobre em gorduras, ela ainda reduz o risco de surgimento de diabetes, com melhora da ação da insulina. No entanto, a dieta vegetariana nem sempre é equilibrada e pode haver carência de vitaminas do complexo B, em especial a vitamina B12, além de cálcio, ferro, zinco e aminoácidos. Vale lembrar que a carência de alguns nutrientes como o ferro pode causar anemia, perda de desempenho físico e mental, além de enfraquecer o sistema imunológico", afirma Cassandra Lopes, endocrinologista e metabologista.

Comer um rango na rua às vezes é necessidade, seja pela falta de tempo para preparar uma refeição ou pela praticidade que os serviços de alimentação oferecem. De acordo com pesquisa publicada em 2017 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 34% dos brasileiros pagam pra comer  fora de casa — o valor gasto representa 25% da renda mensal deles. Outra pesquisa, a Preço Médio da Refeição, divulgada em 2017 pela Assert (Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador) e conduzida pelo Datafolha, diz que cinco em cada dez donos de estabelecimentos que servem comida acreditam que os clientes estão mais preocupados com o consumo de verdura, legumes, grãos, proteínas e sucos naturais. Entretanto, o estudo também revelou que essa rotina não é barata. Na região Sudeste, por exemplo, o preço médio para comer fora foi de R$ 33,25. Considerando-se uma jornada mensal de trabalho de aproximadamente 22 dias (segunda a sexta), o valor representava o gasto de cerca de 83% do salário mínimo em 2016, época do levantamento.

“Comer é um ato político, mas não devemos jogar mais essa responsabilidade sobre o trabalhador. Penso em quem mora na periferia e passa seis horas do dia no transporte público. Imagina ter que preparar toda a comida em casa? Por outro lado, deve ser difícil cortar [o consumo de] carne e outros alimentos de origem animal se essa pessoa só come fora e tenta fazer isso gastando o mínimo possível”, afirma Guilherme Petro, 22, formado em gastronomia e coordenador do projeto “Prato Firmeza: Guia Gastronômico das Quebradas de São Paulo”. Finalista do Prêmio Jabuti 2017, o guia mapeia, com reportagem da Escola de Jornalismo da Énois, os melhores estabelecimentos gastronômicos das periferias paulistanas.

“Na questão cultural, penso nos exemplos de diferentes culturas em que a carne tem papel importante. A mudança não será repentina, mas vejo um futuro promissor. No “Prato Firmeza” temos o cuidado de indicar se existem opções vegetarianas e veganas [nos estabelecimentos mapeados] e, na publicação do segundo volume, percebemos que houve aumento no número de lugares com comida vegana na periferia”, afirma Petro. Morador de Vargem Grande, extremo da Zona Sul paulistana, ele também produziu a edição do TAB sobre Deserto Alimentar, que fala sobre a dificuldade de se conseguir vegetais e alimentos frescos em algumas periferias de São Paulo.

Textões e discussões têm incendiado as redes sociais debatendo se o veganismo é caro ou elitista. A atriz e chef de cozinha Thallita Xavier — que se define como vegana, feminista preta e favelada — abordou em seu blog o fato do consumo de carne no Brasil ainda ser uma questão de ostentação e status. “Enquanto a Fátima Bernardes, por exemplo, que é uma artista influente ficar na TV fazendo propaganda de frango caipira e dizendo que na mesa dela tem, pobre também vai querer, quando tiver grana. (...) Ainda que tenha esse conceito que só pessoas ricas podem usufruir do vegetarianismo, a ostentação mais conhecida ainda é filé mignon e caviar, venhamos e convenhamos”, escreveu Thallita.

Em bairros pobres, muitas pessoas já chegaram para mim e falaram que se tornaram vegetarianas por minha causa. O poder da sua voz, do seu nome, da sua caminhada... Posso usar esse poder de uma maneira boa. No começo eu tinha medo de ser ridicularizado, de ser chato

KL Jay, DJ dos Racionais Mc's

TROQUE O HYPE PELA ANCESTRALIDADE

A decisão de KL Jay de parar de comer carne foi influenciada pela cultura rastafári, que lhe foi apresentada por Milton Santos, ex-empresário dos Racionais, no início da trajetória do grupo. Na época, Santos também trabalhava com o grupo de reggae Walking Lions, que difundia essa cultura, em que a dieta vegetariana faz parte das comidas “I-tal”, as permitidas para consumo por Jah (abreviação de Javé ou Jeová, que significa Deus Altíssimo.)

“O Milton chegou em mim, falou que estava andando com uma galera do reggae e que eu tinha que parar de comer carne. Na hora, eu não parei, mas fiquei pensando nisso.” A decisão de mudar a dieta de vez só se concretizou quando o DJ comprou, por  acaso, o livro “Viva Natura”, publicado pela Casa Publicadora Brasileira, editora da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que foi vendido a ele por um colportor (pessoa que faz distribuição de literatura religiosa de porta em porta.) Os adventistas encorajam o vegetarianismo e têm como crença a exclusão, no seu cardápio, de porco, camarão e outras carnes consideradas impuras segundo o Levítico, livro que faz parte da “Bíblia”.

A influência do rastafarianismo (movimento religioso de raízes pan-africanas, criado pelos negros jamaicanos que cultuam o último imperador etíope, Haile Selassie 1º, como um segundo Messias) desmistifica outro preconceito sobre o vegetarianismo e o veganismo: a de que são práticas de pessoas brancas com raízes exclusivamente ocidentais. Para o rapper Rincon Sapiência, 32, que é vegetariano desde os 17, as influências também começaram com a cultura rastafári: “Eu tinha muita influência por conta da música reggae. [Também] tenho um grande amigo que mudou radicalmente o estilo de vida se tornando devoto da cultura Hare Krishna. Ele chegou a cantar rap comigo, tínhamos um grupo juntos e ele falava muito esse lance de energia: ‘você é o que você come’”.

Nascido na zona leste de São Paulo, em Artur Alvim, o músico acredita que o vegetarianismo pode ser acessível para todos. “É muito possível você ter a sua renda não muito alta e conseguir dar conta de ser vegetariano. Mas, infelizmente, o mercado, os restaurantes e as lojas passam essa ideia de uma forma muito elitista e isso age negativamente”, lamenta Rincon, que tem um vídeo em seu canal no Youtube criticando os preços altos cobrados por alimentos vegetarianos e como esse fato desestimula quem quer seguir a prática.

Assim como parte dos rastafáris não comem carne, muitos moradores da República do Congo, país localizado na África Central, têm nos vegetais a base da sua dieta. É o que conta o congolês Pitchou Luhata Luambo, 37, que chegou ao Brasil em 2009, como refugiado. No Congo, cuja população sofre violentas disputas territoriais, ele atuava como advogado ativista. Ameaçado de morte, migrou para terras brasileiras, onde trabalha como chef e toca com sua atual companheira, Nathalie Guimarães dos Santos, 29, o restaurante vegano “Congolinária”, localizado no Sumaré, bairro da Zona Oeste de São Paulo.

“Queríamos aproveitar os pratos [congoleses] por já serem tipicamente veganos. Lá eles não têm o hábito de comer carne e alimentos de origem animal. A proteína geralmente vem de verduras ensopadas com pasta de amendoim, diferente do Brasil que tem a proteína animal como a principal”, explica Nathalie, que é vegana há oito anos e conheceu Luambo no Brasil.

Os pratos no restaurante custam entre R$ 11 e R$ 30. Entre as opções estão sambusas (pasteizinhos típicos africanos), bitumbulas (espécie de acarajé congolês) e fusões com a culinária ocidental. A etnia Tetela, da qual descende Luambo, come carne em eventos específicos, como casamentos ou festas, mas o congolês se tornou 100% vegano depois que abriu o restaurante. “Percebi que não podia separar as lutas: direitos humanos e direitos animais”, afirma Luambo. Ele ressalta que o restaurante doa 1% do valor de cada prato ao Instituto Djoke, uma ONG congolesa coordenada por seus familiares e que presta assistência às crianças órfãs e mulheres vítimas da violência no Congo.

CHURRASCO OSTENTAÇÃO

Mas como diversificar uma cultura se toda uma economia é baseada nela? Esse dilema permanece mesmo com a produção de gado sendo a principal causa de desmatamento da Amazônia. Em julho de 2018, o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), apontou 778 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 27% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O Brasil é o sexto maior consumidor de carnes do mundo, de acordo com o levantamento feito em 2017 pela OCDE (Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A posição é a mesma há quatro anos e marca o consumo de cerca de 78 quilos de carne per capita ao ano. A produção de carne bovina é a segundo maior no mundo, com 9,5 milhões de toneladas, ficando atrás apenas dos EUA, que produz 12,08 milhões de toneladas — os dados são do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

Em 2017, a agropecuária foi o segmento que mais cresceu no Brasil gerando empregos diretos e indiretos na indústria da carne. Erik Gargalis, 30, faz parte dessa cadeia. Vegetariano por quatro anos, voltou a comer carne e hoje administra o negócio da família. Trata-se da “Esquina do Grego”,  em Guarulhos, cuja principal atração são espetinhos de carne. “Eu adoro carne! Vender espetinhos é a tradição da família. Meu pai ficou 14 anos nesse ponto que eu estou hoje. Ser vegetariano foi uma coisa de momento, uma experiência bacana, um teste, uma provação”, explica Gargalis.

“O churrasco é uma superinstituição brasileira. Seja o gourmet ou o feito na laje. É um momento de sociabilização e, mais do que isso, é um momento de compartilhamento de fartura”, lembra a antropóloga alimentar Paula Pinto e Silva, que ressalta: “Comer carne diariamente não é a realidade de toda a população brasileira. É a realidade de uma parcela. Tem gente que quer comer carne todo dia, pois entende que isso é um valor, e este é um valor dado por uma cultura. Quando se tem um pouco mais de dinheiro, compra-se mais carne”.

Quanto mais se ganha, mais carne se compra, explica Felippe Serigati, economista e pesquisador do FGV Agro. “Normalmente, um aumento de renda tende a aumentar a demanda de um bem. Dentro do universo agro, esse aumento da demanda se dá de forma mais intensa nas carnes”. Paula Pinto e Silva defende que há uma hierarquia de status na comida. “A ‘mistura’ do prato fala daquilo que eu posso comer e o outro não pode. Dentro da própria carne há essa hierarquia de valor. Há pedaços que são mais caros que outros. A picanha tem um valor de galgar posição. Se eu não tenho muito dinheiro, eu vou para a maminha, se tenho, vou para picanha. Nessa equiparação de valores, quem vai querer servir berinjela?”. No Brasil, veganismo pode não ser coisa de rico, mas comer carne segue sendo ostentação.

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