'VOLTA PARA TUA TERRA'

Em Portugal, imigrantes brasileiros combatem preconceito com poesia

Adriana Negreiros (texto) e Fernando Donasci (fotos) Colaboração para o TAB, do Porto (Portugal)

Dias atrás, durante um evento musical no qual trabalhava como produtora, em Lisboa, a carioca Ana Paula Vulcão puxou conversa com uma colega portuguesa. Dirigiu-se a ela por "você", pronome de tratamento pouco usual em Portugal — prefere-se a segunda pessoa do singular, conjugada como determina a gramática, quase sempre na forma oculta. Gostas, dizes, andas.

"Ah, vócê", devolveu a mulher, pronunciando a palavra em tom anasalado e com as vogais abertas, na tentativa de imitar o sotaque da interlocutora. "És mesmo muito brasileira", prosseguiu, rindo.

"Por acaso nasci no Brasil", confirmou Ana Paula, já meio irritada com a imitação e desconfiada sobre aonde aquele papo iria chegar.

"Mas estás em Portugal", retrucou a lisboeta, recomendando que, por viver no país, a colega deveria falar em "português" e não em "brasileiro" — maneira como alguns referem-se à variante latino-americana do idioma.

"Estou em Portugal, mas não deixei de ser brasileira. E não vou deixar de falar do modo como nasci e cresci falando", retrucou Ana Paula. A conversa encerrou-se ali.

Fernando Donasci

LÍNGUA E CORPO IMIGRANTES

Morando há quase quatro anos em Lisboa, Ana Paula Vulcão, 38, é uma das 49 poetas cujos versos compõem a antologia "Volta para a tua terra", recentemente lançada pela editora Urutau. "Sangue que não estanca/ Com nenhum tipo de unguento/ Mas eu aguento/ eu aguento", dizem os versos finais do seu poema "Terra à vista".

O livro, de subtítulo "uma antologia antirracista/antifascista de poetas estrangeirxs em Portugal", reúne escritores de nove países, quase todos antigas colônias europeias. O lançamento da obra coincidiu com o momento em que proliferam relatos de situações de preconceito linguístico de brasileiros vivendo em cidades portuguesas.

Mas não foi apenas a propósito da polêmica em torno do idioma que a escritora Manuella Bezerra de Mello e o editor Wladimir Vaz organizaram a antologia. "Há um crescimento da lógica do fascismo no mundo que deve ser combatido", afirma Manuella, 38, que também assina um dos poemas da obra, sobre "a cadela que fazia amizade/ lambendo feridas e/ não sabia abanar o rabo". Prosseguem os versos: "teve a língua arrancada/ (adocicada)/ servida com ovos moles".

Embora haja, no poema, uma clara referência à domesticação da linguagem, Manuella Bezerra de Mello refere-se, também, a uma tentativa de controlar o corpo do imigrante — sobretudo, o das mulheres.

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TRAUMAS COLONIAIS

Em Portugal desde 2017, ela já viveu situações em que, por ser brasileira, foi tratada como automaticamente disponível para o sexo.

Assim que chegou ao país, alugou uma casa para viver com o marido e o filho nas proximidades de Braga, na região norte. Ao fim da rua, havia um mercadinho, onde costumava comprar pães. No pequeno trecho entre a residência e a venda, ouviu de um vizinho: "Vi que teu marido não está em casa, não queres convidar-me para um café?".

A experiência e a teoria — ela é doutoranda em modernidades comparadas, literatura, artes e cultura na Universidade do Minho — levaram-na a concluir que, se não cumprir certos requisitos, o imigrante não é aceito. "Se não incomodar, se passar despercebido, se for silencioso e se integrar como um local, então tudo bem", afirma Manuella, mulher de riso solto e sotaque pernambucano.

A escritora teria ainda mais certeza disso durante a convocatória para a antologia "Volta para a tua terra". De colegas portugueses, recebeu críticas por organizar uma publicação cujos temas centrais — xenofobia, racismo e outros traumas coloniais —, aos olhos de muitos, já se encontravam superados. O tom era: se não gostas daqui, se vês defeitos na nossa terra, pois então te despachas de retorno para a tua.

"A frase 'volta para a tua terra' é uma espécie de último recurso a que se recorre durante uma discussão", avalia o músico Luca Argel, carioca de 32 anos que vive desde 2012 na cidade do Porto. Para a antologia, Luca escreveu "Smoothie", uma ficção sobre uma mulher que "cresceu numa favela de Bagdá/ na primeira década deste século" e "hoje vive num subúrbio sossegado de Lisboa/ traduzindo para o árabe novelas brasileiras".

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RETRATAÇÃO INEXISTENTE

O músico ouviu a frase "Volta para a tua terra" dirigida a um amigo, durante uma discussão banal em um bar de Lisboa, e leu-a em comentário para um de seus posts no Instagram, no qual criticava o serviço dos Correios por vender fac-símiles de livros didáticos do Estado Novo português sem qualquer informação de que eram obras da época da ditadura salazarista.

'É uma frase chocante", diz Luca, cuja carreira musical decolou. Tem quatro álbuns lançados em Portugal — o mais recente é "Samba de Guerrilha", no qual conta a história política do samba e trata de assuntos espinhosos, como a escravidão. "Vários países europeus fizeram declarações de retratação sobre o passado colonial. Portugal, não. Essa é uma discussão que ainda precisa avançar muito por aqui", aponta.

De forma geral, o "volta para tua terra" embute intenções irônicas. Quem recorre à expressão costuma argumentar que, diante de tantos problemas, seja surpreendente ouvir um brasileiro queixar-se de Portugal. Mas há quem compreenda a frase, também, como um incômodo ante a presença de um estrangeiro.

"No Brasil, somos alienados da nossa condição de povo subalternizado. Temos a ilusão de que, na Europa, vamos ser tratados como iguais", avalia Manuella Bezerra de Mello. "No meu país, gozei a vida inteira da condição de mulher branca. Aqui, sou uma mestiça latino-americana. Os deslocamentos fazem-nos entender melhor como alguns mecanismos funcionam."

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BRIGA DE VIZINHO

A carioca Ellen de Lima está em Portugal há poucos meses — mora em Braga desde outubro, onde cursa doutorado em modernidades comparadas, junto com Manuella —, mas já entendeu bem alguns mecanismos. Aos 34, a indígena de origem Wassu Cocal sente-se melhor tratada na companhia do marido, um alemão ruivo e alto, do que quando está sozinha. Mas isso não é o que mais a incomoda, e sim uma certa resistência, de alguns, de reconheceram-na como indígena.

"Trata-se do encontro colonial, e é tenso", afirma Ellen, autora de "Outro erro de português" — uma citação a Oswald de Andrade. "De castigo, cortaram nossa língua/ no tempo e no espaço/ Suspenderam os cafunés e abraços/ da voz dessa mãe aqui/ Mas um dia,/ ainda cortamos a tua língua/ e oro-karu com abati".

"Muitos preferiam que os indígenas já tivessem acabado. Por isso, a minha presença incomoda", afirma a poeta, que publicou um livro com poemas em português e tupi antigo - "Ixé Ygara voltando pra `Y`Kûa", ou "Sou canoa voltando pra enseada do rio". "Há quem pense que indígenas têm que estar no mato, não nos cursos de pós-graduação das universidades."

A curadora e historiadora da arte goiana Hilda de Paulo, 33, nunca tinha escutado a expressão "volta para a tua terra" até o momento em que testemunhou uma briga de vizinhos, na sacada de um prédio próximo ao dela. Naquela madrugada, em pleno confinamento pandêmico, ela e o marido, também brasileiro, acordaram com os gritos de um homem de cerca de 40 anos. Da janela, viram o sujeito esbravejar contra uma mulher mais jovem, ao mesmo tempo em que esmurrava a parede e quebrava garrafas de cerveja ao chão — apavorados ante a iminência de uma agressão física, os dois começaram a gritar. Ameaçaram chamar a polícia, acusaram-no de machismo.

O agressor voltou-se para Hilda. Decerto, reconheceu-lhe o sotaque. Então lançou um "volta pra tua terra, feminista".

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ESTRATÉGIA DE DEFESA

Hilda de Paulo publicou na antologia o poema "Eu Gisberta", sobre a transgênero brasileira assassinada por adolescentes no Porto, em 2006. "Na sua ficha de matrícula está escrito sexo masculino e não pontos de interrogação, exerça sua função", diz um trecho autobiográfico do poema escrito por Hilda, que vive no Porto desde 2008 e, na cidade, reconheceu-se como travesti.

A despeito de, em 13 anos, ter ouvido — especialmente dos professores na universidade — conselhos para expressar-se em português europeu, Hilda recusa-se a adaptar o texto e a fala. Há quem, quase sem perceber, aja de maneira diferente. Em determinadas situações, Luca Argel fala o menos possível para passar despercebido — como nas corridas de Uber. "Ou disfarço o meu sotaque", afirma.

Manuella, Luca, Hilda, Ellen e Ana Paula deixaram o Brasil por diferentes razões e todos eles gostam de viver em Portugal. Manuella não para quieta, entre um evento literário e outro, assim como Hilda, dividindo-se entre as mais diversas exposições de arte. Luca é uma estrela em ascensão no cenário musical lusitano — Ana Paula também. Ellen é uma aluna brilhante do doutorado, no qual tira excelentes notas.

A despeito da provocação da antologia da qual fazem parte, ninguém ali é movido por sentimentos revanchistas. Mas, sim, pelo desejo de discutir o passado para além do "devolvam nosso ouro" e "volta para a tua terra". "Precisamos colocar as perguntas certas, abrir espaços para compreensões mútuas, sabendo que os descendentes de colonizadores não são os colonizadores", diz Ellen de Lima. "O entendimento deve ser feito com poesia, porque de ódio o mundo já está cheio."

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