A equação da felicidade

Como a academia e o mercado relacionam a influência da desigualdade social na busca pelo bem-estar

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É sério: o segredo da felicidade tem a ver com a redução de expectativas. Aquele seu amigo piadista das redes sociais e o para-choque dos caminhões pelo Brasil estão há muito tempo falando a verdade. Quem endossa essa tese são cientistas e sociólogos, cujas descobertas sobre o estado de espírito mais cobiçado pela humanidade estão na mira de corporações dos mais variados tipos e tamanhos.

Essa tal felicidade pode, claro, se fazer presente nas coisas mais simples da vida, como tomar um picolé ou curtir uma roda de violão. O “povo de humanas” tem muito a dizer sobre isso. Mas a lógica por trás desse sentimento tem sido cada vez mais alvo de estudo e pesquisa de instituições renomadas.

Se a academia tem chegado ao mesmo tipo de conclusão que a sabedoria popular, a questão passou a ser como medir o grau de felicidade de uma pessoa ou de um grupo. Esse desafio toca principalmente neurocientistas e economistas: quantificar algo tão abstrato que deveria ser impossível de medir. Mas eles insistem. A busca não começou agora. Os gregos, como sempre, deram a largada lá atrás. Alguns séculos depois, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, propôs uma experiência em longo prazo, da qual até o ex-presidente norte-americano John Kennedy participou. Veja no vídeo abaixo:

FICA A DICA

Estudo iniciado em 1938 aponta que bons relacionamentos são a chave para a felicidade

Também estão nesse jogo de passar a felicidade a limpo equipes como a da University College London, do Reino Unido. Eles publicaram em 2014 e atualizaram neste ano uma fórmula matemática que, segundo os criadores, é capaz de prever se uma pessoa será feliz e ainda determinar como a prosperidade alheia e a desigualdade social são capazes de afetar a felicidade individual.

Para chegar à “fórmula da felicidade”, o time liderado pelo neurocientista Robb Rutledge estabeleceu o seguinte processo na primeira etapa:

- 26 pessoas foram submetidas a uma série de tarefas em que, a partir de decisões que elas tomavam, poderiam ganhar ou perder dinheiro;

- Enquanto as decisões eram tomadas, os participantes respondiam o quanto estavam felizes naquele instante;

- Uma ressonância magnética media a atividade cerebral de cada participante no momento em que ele dava a resposta.

Com esses dados, os pesquisadores deduziram a equação, considerando o que os participantes esperavam ganhar, as recompensas obtidas e as sensações geradas no cérebro de cada um deles. E a conclusão da equipe foi que… sim, as suas expectativas definem o quanto você será feliz.

O time do dr. Rutledge ampliou a brincadeira. Por meio de um jogo de celular, estenderam o teste a 18 mil pessoas. O resultado: “expectativas mais baixas tornam mais provável que um resultado as supere e tenha um impacto positivo na felicidade”. E que o simples fato de planejar e esperar que algo bom aconteça pode nos deixar mais felizes, mesmo que por um breve momento.

Até aí, nenhuma grande novidade. Mas o endosso científico ao senso comum ajuda a entender distúrbios ligados às emoções humanas, como o transtorno de humor. Conseguir quantificar a possibilidade desse tipo de mal na população pode ajudar políticas preventivas de saúde e, claro, a evitar prejuízos ao capitalismo: uma pessoa infeliz tem grandes chances de produzir menos e pior.

“Minha abordagem matemática pode ser usada para entender muitos tipos de emoções diferentes”, disse Rutledge ao TAB. “Podemos começar a ter um entendimento mais detalhado das emoções humanas. Isso poderia potencialmente ser usado por empresas para melhorar a satisfação de empregados e clientes, perguntando para as pessoas sobre sua felicidade e prevendo-a com base em suas experiências. Também espero que possa ser usado para entender o que acontece com as pessoas que têm depressão”, completou.

Em 2016, foi anunciado o resultado da segunda etapa do estudo. Eles concluíram que a desigualdade social no seu entorno tem impacto na sua felicidade individual. A interpretação dos pesquisadores é que a generosidade com estranhos está ligada a como a sua felicidade é afetada pelo cotidiano.

Medir a empatia das pessoas, de acordo com os cientistas, pode clarear a compreensão sobre distúrbios sociais como o transtorno de personalidade borderline ou a indiferença que alguns têm ao sofrimento dos outros.

 

Referências científicas como as dos estudos dos EUA e do Reino Unido funcionam como um selo de qualidade, e é nesse tipo de material que um grupo de São Paulo busca o seu rumo. 

Os frequentadores do “Ação para Felicidade” se reúnem duas vezes por mês. Não há pretensão política, religiosa nem comercial. A orientação das atividades vem de um movimento internacional que tem como patrono o Dalai Lama. Eles começaram a se encontrar no fim de 2015, quando um jovem monge budista que alguns conheciam trouxe a ideia. O grupo paulistano é pioneiro no Brasil e serviu de modelo para outros seis, em Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Santa Catarina e Rio de Janeiro.

Causar mais felicidade — e menos infelicidade, por consequência — no mundo ao redor é o objetivo. A cada sessão, que conta em média com dez pessoas, os participantes discutem maneiras de manter esse compromisso após alguns minutos de meditação.

Numa reunião da qual o TAB participou, a palavra de incentivo era ‘propósito’, trazida pela psicóloga e coach Camila Melo, 35, que participa há dois meses. A missão sugerida por ela: use seu talento natural para modificar o entorno.

“É uma maneira de exercitar formas de conseguir chegar a resultados que eu pretendo, minha transformação pessoal, sem que eu precise necessariamente remunerar um profissional que me conduza. Eu sempre achei muito elitista só algumas pessoas terem acesso a isso [porque podem pagar pela formação]”, ela afirma. “A gente diz que aqui parece o AA da felicidade”.

Em tom de brincadeira ela faz a referência ao trabalho voluntário de recuperação de dependentes do álcool, mas há mesmo um clima de terapia em grupo, de expor dificuldades particulares e ouvir conselhos.

“Achei bacana a desvinculação religiosa”, diz o professor de inglês Marcus Vinícius Abbehausen, 49, que frequenta as reuniões há seis meses. “Eu gosto de ler os artigos científicos que são disponibilizados [no site], sinto mais base teórica, acredito mais”, afirma. A fé aqui é na ciência.

Felicidade Industrial

O aprimoramento científico em medir emoções é criticado sociólogo britânico William Davies, autor do livro “The Happiness Industry: How the Government and Big Business Sold us Well-Being” (“A Indústria da Felicidade: Como o Governo e o Grande Negócio Nos Venderam Bem-Estar”, em tradução livre).

Davies admite que pesquisas e programas sobre felicidade e bem-estar são um avanço, mas não a favor das pessoas, e sim no apoio a uma agenda de interesses políticos e econômicos, muitas vezes com fins mais privados do que públicos.

“Na era das imagens por ressonância magnética, tem se tornado cada vez mais comum falar sobre o que nossos cérebros estão ‘querendo’ ou ‘sentindo’. Em muitas situações, isso é representado como uma declaração de intenções mais profunda do que qualquer coisa que pudéssemos relatar verbalmente”, afirma.

Quanto mais esse sentimento particular — que é a felicidade — se aproxima de algo concreto, massificado, que podemos tocar ou até mesmo manusear, fica mais fácil dar a ele um valor que se pode calcular.

Nos Estados Unidos, empresas de pesquisa de opinião estimam que a infelicidade dos assalariados custa à economia do país US$ 500 bilhões por ano em produtividade reduzida, receitas fiscais perdidas e custos com saúde, de acordo com o sociólogo.

“A ciência da felicidade alcançou a influência que tem porque promete a solução que tanto se esperava. Em primeiro lugar, economistas da felicidade são capazes de colocar preço monetário no problema da miséria e da alienação. Isso permite que nossas emoções e bem-estar sejam colocados dentro de cálculos mais amplos de eficiência econômica”, aponta Davies.

Mais do que isso, para que fórmulas e políticas públicas sociais sejam apresentadas como coerentes, o processo de industrialização da felicidade precisa que todos os humanos pensem e sintam as relações e o entorno do mesmo jeito, algo bem distante da realidade.

“O que a indústria do consumo e o seu discurso vem fazendo em torno da felicidade, com todos os seus gurus, desde o chefe da felicidade em uma empresa, o cara da meditação, o outro que diz que empreendeu e agora não tem mais chefe, desde o motorista do Uber até o agente de viagem, é ganhar em cima da gente nos fascinando, porque ficam vendendo caminhos possíveis para chegar lá [à felicidade]”, afirma Michel Alcoforado, antropólogo e sócio-fundador da Consumoteca, empresa especializada em pesquisa e comportamento do consumidor.

Até que apareça um novo mestre espiritual, uma nova dieta, um novo passo a passo para o Éden ou uma nova verdade sobre o colesterol da gema do ovo, o mantra da hora é ostentar. Enquanto a resposta para a felicidade não chega, exibimos e compartilhamos a ideia de que estamos podendo muito.

Bens usados para uma movimentação social até um "lugar de destaque" — uma característica forte da sociedade brasileira — ficam desvalorizados quando mais gente pode comprar o que você já tem. Nesse jogo de quem é o mais feliz, quanto mais exclusiva a felicidade, melhor a posição no campeonato.

“Sobretudo nas elites, é comprar experiências. Num processo em que você tem uma redefinição de classes no Brasil, muitas pessoas começam a poder comprar coisas, e o principal sinal de distinção das elites é caminhar dizendo: ‘Olha, coisas não me servem mais, porque elas não me distinguem mais com tanta força. Eu vou em busca das experiências’, afirma Alcoforado. “Se qualquer um pode comprar uma bolsa da Chanel, poucas pessoas podem fazer um mochilão pelo Sudeste Asiático e comer aquele frango com molho ‘thai’ em Bancoc, que ninguém conhece”, completa.

Sem consumo não se vive, não adianta fugir, diz o antropólogo, pois é essa a regra do jogo. O segredo para não ser engolido é escolher o tipo de partida que você topa encarar. Tudo em nome da felicidade - ou daquilo que imaginamos que ela seja.

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