O fluxo do fluxo

Favela é palco de carnaval funk e movimenta dinheiro, diversão e afetos

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Na real, só duas coisas atrapalham o rolê: a chuva e a polícia. “Moiô” é a gíria quando o baile não pega. Ou chove água ou bala de borracha. Fora isso, o fluxo fica gostosinho, os parças representam no passinho e as minas fortalecem o movimento. Os carros de som berram o pancadão, os carrinhos de bebidas oferecem o combo “vodca+energético” por R$ 40, e os últimos busões despejam o público. As placas das naves mostram que vem muita gente dos municípios vizinhos: Cotia, Embu, Itapecerica. Até os boys e as patys do Morumbi baixam lá também. Suavão.

É Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo. Em Heliópolis, a primeira desse ranking, o cenário se repete. É o baile do Helipa. Em Paraisópolis é o fluxo da 17. A festa de favela está transformando comunidades que eram bairros dormitórios em áreas em que ninguém dorme à noite, até mesmo os trabalhadores que esperavam tranquilidade na quebrada. Lugares sem diversão viraram polos da juventude baladeira.

“Quando vim para cá, o barraco era de tábua. Toda hora era rato ou tiro indo pra dentro de casa. Hoje, com o movimento do fluxo, construí minha casa de bloco e ainda alugo uns quartos”, conta Brasília Gonçalves, que tem uma adega em uma das ruas de vida noturna em Paraisópolis.

FUNK CONTRA DEPRESSÃO

OUTRO LADO DO AGITO

Sempre que tem fluxo, Melissa Santana dorme à tarde. É a tática para preparar o corpo para a maratona, que começa depois da meia-noite e pode terminar só às 10h. Ela coloca sua melhor roupa, se maquia e recebe os amigos em casa para um esquenta. Eles só saem depois que o baile já lotou. É a garantia de que, naquele dia, a festa pegou e não "moiô".

No sábado, 20 de setembro, ela não foi. Sorte dela: a festa "moiô" em outro nível, pior do que costuma ser. Uma ação da Rota, a tropa de elite da Polícia Militar, procurava por um traficante em uma moto roubada, mas o fluxo estava no meio do caminho. Segundo os policiais, partiram tiros da multidão. Quem bate ponto no fluxo sabe que, quando a PM encontra a festa, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha tomam o lugar da música e da dança. Mas, naquele dia, as balas eram letais mesmo - e atingiram duas frequentadoras da festa, uma de 14 anos e outra de 20.

As balas eram calibre ponto 38 e 40, comumente usadas pelas forças policiais. A PM afirmou que não fez nenhum disparo. A menina de 14 anos levou um tiro no rosto; a de 20, nas mãos. Era Juliana*, amiga de Melissa. "Poderia ser eu no lugar delas", diz Mel. "Claro que fica um pequeno receio de ir e acontecer o mesmo com você, porque é algo de sorte. Você nunca sabe quando ela está ao seu favor”.

Os confrontos com a polícia são tão comuns que fazem parte da rotina de quem vai pra festa. Depois que a PM passa, a multidão volta a tomar as ruas da comunidade com seus carros de sons. Segue o fluxo.
 

Um Carnaval por semana

Quando começou a sair, Melissa ia pra rolês fora da comunidade. Mas com o tempo começou a olhar mais para a própria vizinhança. "Percebi que ir ao fluxo não é apenas uma forma de lazer para quem não possui condições", ela diz. "É uma forma de aceitação de onde você mora."

O baile da 17 (mais conhecido pela sigla “DZ7”) hoje é um dos principais bailes funk de São Paulo – em tamanho, só perde para o Helipa. O nome "17" vem de um bar na rua da feira de Paraisópolis, o 17 Rei da Batida. O local abrigava um pagode famoso aos domingos – mas a festa terminava pontualmente à meia-noite, já que os vizinhos iriam trabalhar no dia seguinte e precisavam de uma noite de sono sem barulho.

Aos poucos, o público se empolgou, e começaram a encostar carros com som potente – e mais e mais gente vinha na festa para embrasar (gíria para “dançar”). Ronaldo, o dono do bar, viu o negócio atingir outra proporção. Ele não queria esquentar a cabeça e acabou se mudando do local e saindo da comunidade. A proporção do fluxo estava tão grande que não conseguiram mais conter. Surgia o DZ7, concentrado na rua Robert Spencer, uma das vias comerciais da favela.

Caravanas na favela

O couro come de quarta a domingo. Quando chega a madrugada, os carros e seus paredões de som começam a aparecer, e a galera vai encostando. Chegam os vendedores de bebida, fundamentais para a noite, pois sem “whisky com gelo de coco” não tem baile funk.  Som, público e os vendedores – organizados de forma espontânea e independente – formam os três pilares do fluxo. Não há contagem oficial de público, é claro. Mas vendedores apostam que nos dias mais cheios chega a 20 mil pessoas. O Conselho de Segurança do Morumbi tem uma estimativa mais modesta, mas igualmente impressionante: três a cinco mil pessoas, quatro dias por semana.

Emerson Barata, presidente da União dos Moradores e Comércio de Paraisópolis, afirma que moradores de lá são minoria na festa – 80% do público vem de fora. O fluxo de pessoas é tão intenso que os terminais de ônibus de Pinheiros, João Dias e demais locais de onde sai transporte público para Paraisópolis sentem o impacto. O baile também recebe caravanas do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina – o turismo, no entanto, não é muito bem visto pelas autoridades.

Em 2016, mais de 56 mil pessoas confirmaram presença no evento do Baile da DZ7 no Facebook. Resultado: operações policiais passaram a ser organizadas nas estradas para interceptar os ônibus – se o destino dos viajantes fosse o baile, eles tinham que dar meia volta. “A ação da polícia acabou intimidando as pessoas que faziam excursão”, lembra Barata.

A economia do funk

Paraisópolis tem mais de 100 mil habitantes. É também um símbolo da desigualdade social na cidade: fica no meio do nobre bairro do Morumbi. Vizinha de milionários e carente de infraestrutura básica como saneamento. Ainda assim, está mais caro ficar por lá. O processo de verticalização (a construção de puxadinhos), obras de melhorias e o aluguel social da prefeitura têm feito com que o preço do aluguel na região fique cada vez mais alto. A parte mais residencial fica no alto do morro, próxima da avenida Giovanni Gronchi, e a área mais comercial e festeira está ladeira abaixo.

No entorno da rua Robert Spencer, onde acontece o DZ7, o preço também subiu. O barulho não ajudou a baratear a moradia por lá, mas reorganizou a rotina do bairro. A feira da rua, por exemplo, já não começa a ser montada às 4h, hora em que a festa ainda está bombado. Ela foi reagendada para as 9h.

"De quarta a segunda o pai de família não dorme, só de terça para quarta, quando não tem baile", reclama Barata. Moradores passaram a organizar a vida em função do fluxo. Teve quem optou pela via mais drástica: decidiu deixar o bairro por conta do barulho. Outros adaptaram a rotina semanal à festa: fogem para casa de amigos ou parentes nos dias de baile. Quem decidiu ficar tinha duas opções: tentar conviver ignorando o fluxo ou lucrar com ele.

“Vim morar nessa rua porque não alagava. Agora o problema é o pancadão. Tem dia que minha janela treme que parece que vai quebrar. Tenho que dormir no quarto do meu filho, que é do outro lado”, relata a moradora Marilene Santos.
 

Alta rotatividade

O relógio biológico e produtivo muda na favela pop, para poder trabalhar à noite, dormir de dia e lucrar com a enorme população flutuante que lota as ruas do bairro. Direta ou indiretamente, o fluxo gera empregos. Tem gente vendendo pirulito com energético, tem gente alugando laje como se fosse camarote VIP.

Brasília Gonçalves é dona de uma adega na rua do funk. Trabalhou por 15 anos em uma multinacional e, ao ser surpreendida com uma demissão, decidiu empreender. Começou com uma creche, que não deu certo. Surgiu o bar. "A chegada do fluxo ajudou bastante. Consegui ampliar o tamanho da adega", afirma. Ela faz propaganda do diferencial do seu negócio: lá não há bebidas falsas, algo comum no fluxo.

Flávia Gonçalves, filha de Brasília, é quem toca o bar durante o dia. Ali ela coloca em prática o que aprendeu na faculdade de administração. Quando a Adega do Homer foi inaugurada, o único fluxo da região era o DZ7. Hoje o baile chega até a porta do bar – literalmente. "O fluxo traz rotatividade de pessoas e gera um grande valor financeiro dentro da comunidade", diz a administradora. "E é um ritmo envolvente, a batida é bacana", completa.

Vendedores de bebida, gelo, lanches e doce se preparam com antecedência para o baile. As opções de comida são poucas, mas baratas: espeto, pastel e hot dog. Já as alternativas de bebidas, e suas combinações, são muitas (tudo misturado com energético e gelo de coco).

E haja luz de LED, afinal, quanto mais iluminado e chamativo o carrinho, melhor. Estacionamentos também são um ótimo negócio. Nos entornos do fluxo, custa R$ 20 para deixar o carro parado (R$ 5 para as motos). Conseguir vaga é difícil. Tudo vive lotado.

Quando moia

É difícil estimar quanto movimenta o mercado de bailes na região. Mas, para se ter uma ideia, um levantamento de 2008 da Fundação Getúlio Vargas apontou que só no Rio de Janeiro o funk gerava cerca de 10 mil empregos diretos. As bilheterias de 879 bailes rendiam R$ 7 milhões. Funcionários e artistas, com os eventos, movimentavam outros R$ 1,4 milhão.

"Uma praga". Assim define Celso Cavalini, presidente do Conselho de Segurança do Morumbi, sobre os bailes funk que acontecem na região. O órgão, responsável por fazer a ponte entre a polícia e a comunidade, tem monitorado a questão de perto. E Cavalini não tem gostado do cenário.

"É um Carnaval, mas não é um Carnaval organizado. Vale tudo, fica terra de ninguém. Você tem uma mocidade que não tem onde ficar, não tem onde se divertir, e escolhe isso como diversão. Mas nessa diversão você tem bebida à vontade, álcool, droga, sexo", reclama. Para a União de Moradores, a preocupação é o jovem "se acabando nas drogas".  "São oportunidades em que ele poderia estar fazendo algo, mas o número de overdose está aumentando, o jovem começa a usar outras drogas, a roubar dentro de casa", diz Emerson Barata.

O funk é historicamente associado à pobreza e à criminalidade. Não faltam, aliás, tentativas de proibição. A última delas, um projeto de lei que tentava transformar o funk em um crime contra a saúde pública de crianças e adolescentes, foi rejeitada pelo Senado em setembro de 2017.

"Infelizmente a prática de crimes ocorre nos mais diversos ambientes da sociedade brasileira, inclusive nos bailes funk. Para isso, já existem aparatos de repressão e judiciais que devem cumprir seu dever. E estes bailes também são uma alternativa de diversão para milhões de jovens em nosso país, e nas áreas mais carentes, é muitas vezes a única", disse o senador Romário (Podemos-RJ) em seu voto contra o projeto.

SEM OPÇÕES

Cavalini reconhece que não há outras opções de lazer para os jovens de Paraisópolis. A prefeitura chegou a testar um projeto, chamado Balada Campeã, em que uma escola do bairro ficaria aberta de madrugada, com esportes e outras atividades (grafite, beat box e rap). Não deu certo: quando a escola fechava, às 3h, a galera corria para o baile. O projeto também foi aplicado em Heliópolis, Rio Pequeno e Brasilândia, com resultados semelhantes.

"O barulho é terrível. Você pega os prédios em volta, todos eles sofrem", diz Cavalini. O presidente do Conseg diz que a Polícia Militar já deu sinais de que pretender agir em relação aos bailes, mas na prática pouco mudou. É que, fora as reclamações por barulho, oficialmente não há muito o que os policiais possam fazer.

A Polícia Militar explicou ao TAB que costuma atender aos chamados e perturbação ao sossego, realiza operações policiais e apoia ações de fiscalização da prefeitura. Em Paraisópolis, o 16º Batalhão costuma fazer operações entre a noite de sexta-feira e as manhãs de segunda nas principais entradas da comunidade, nas avenidas Giovanni Gronchi e Hebe Camargo e a rua Francisco Tomás de Carvalho. "O bairro é alvo de frequentes ações de policiamento ostensivo com o objetivo não apenas de coibir os pancadões, mas também de inibir a criminalidade", explica a polícia, lembrando que 969 pessoas foram presas em 2017 na região.

Cavalini diz que os bailes fizeram com que houvesse um aumento no número de roubos na região, pois trazem muitos "aproveitadores" que não são dali. Ele estima que, se não houvesse o fluxo, o número cairia cerca de 30%. Na verdade, esse número já vem caindo, mesmo com o baile.
 

Fluxo na caixinha?

Para Barata, da União dos Moradores, a ação policial seria mais eficiente se a polícia permanecesse no local depois da ação. Mas não é assim que acontece, segundo seu relato. "A polícia vem quebrando tudo, derrubando moto, tem pai de família que fica no prejuízo", diz.

Para quem frequenta o fluxo, as ações policiais são um cenário comum de provável fim (ou intervalo) de festa. Há muitos vídeos no YouTube que mostram uma abordagem comum: viaturas chegam em alta velocidade, bombas de gás lacrimogêneo são jogadas, balas de borracha são atiradas, há correria e empurra-empurra. A multidão se dispersa em meio à fumaça. O baile "moia". O cenário é de guerra.

"Estar no baile quando chega polícia é apavorante", diz Melissa. "Você não sabe o que fazer, tem gente para conseguir escapar dos disparos e bombas, algumas vezes existem pessoas que são pisoteadas ou outras que são atingidas pela bomba e começam a passar mal", conta. Motos são jogadas no chão, carros amanhecem com os pneus furados. "A ação da polícia quando interrompe o baile funk nunca é pacífica, eles invadem na intenção de causar pânico e amedrontamento. Acho que a intervenção deles é apenas para fazer o caos, pois o baile funk não irá acabar por conta disso."

Flávia Gonçalves acredita que, se o fluxo acontecesse em um lugar fechado, a relação da festa com a sociedade seria melhor. "Acho que não teria tanto preconceito", opina. A União de Moradores também defende a existência de festas fechadas em casas de show, mais organizadas, com ingressos e preços um pouco mais caros. Algumas já funcionam no bairro, com noites dedicadas ao sertanejo, ao samba e ao funk. "São mais organizadas", diz Emerson Barata. "A diferença está na grana. Precisa pagar para tudo lá dentro", explica. Gourmetização do fluxo à vista?
 

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