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Como o medo da obesidade e a pressão pelo emagrecimento podem nos deixar mais doentes e insatisfeitos

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Néliane Simioni fez cirurgia bariátrica aos 19 anos e emagreceu quase 60 quilos. Engordou 30 de novo. Preta Rara tomou um remédio para emagrecer de uma amiga da sua mãe. Foi parar na UTI. Bernardo Boëchat e Bia Gremion tentaram várias dietas e chegaram a marcar uma cirurgia de redução de estômago, mas desistiram na última hora. Milla Pupo recebeu uma recomendação médica para fazer uma colonoscopia apenas para “emagrecer uns três quilos”. Alexandra Gurgel tentou ser anoréxica e fez uma lipoescultura. Pouco tempo depois tentou se matar.

Essas histórias, comuns a pessoas gordas, raramente estão na imprensa ou redes sociais na mesma proporção que dietas milagrosas, maratonistas que perderam dezenas de quilos ou treinos das musas fitness. Se os casos de sucesso — leia-se exceções —, são exaltados pelo resultado de muito trabalho e esforço, falta discussão sobre os perigos das tentativas de emagrecimento a qualquer custo ou sobre por que pode ser tão difícil perder peso — muitas vezes, mesmo entre especialistas, sucumbir nesse “projeto” é tratado como uma falta: resta definir se de força de vontade ou de vergonha na cara.

Em paralelo à “epidemia de obesidade” apontada por especialistas e instituições, no dia a dia pessoas gordas são alvo de preconceito e prescrições questionáveis, inclusive de profissionais de saúde. Enquanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera pessoas com IMC (Índice de Massa Corporal) acima de 30 kg/m² portadoras de uma doença crônica, há grupos que lutam pela despatologização do corpo gordo. É uma missão e tanto, principalmente para a certeza que menos peso é sempre igual a mais saúde

NUNCA FOMOS TÃO GORDOS

Nunca antes na história deste país – na verdade, de qualquer nação industrializada – houve tantas pessoas gordas. Segundo a pesquisa feita em 2017 pela Vigitel (Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) do Ministério da Saúde, 18,9% dos adultos que vivem nas capitais brasileiras estão obesos. Considerando as pessoas com sobrepeso (acima de 25 kg/m²), o número vai para 54%.

História, economia e genética explicam essa tendência. Por milhares de anos, ser gordo era exceção. Quando éramos caçadores e coletores, os seres humanos andavam quilômetros em busca de alimento. O corpo não sabia quando seria a próxima oportunidade para comer. Conseguir o suficiente para mantê-lo funcionando já era difícil. O organismo guardava qualquer energia extra para aguentar a jornada. Agricultura e industrialização, felizmente, mudaram esse panorama, mas as gerações que vieram depois da Segunda Guerra Mundial, principalmente no Ocidente, “abusaram” de tanta evolução.

“O impulso que uma pessoa tem por comer um alimento mais calórico hoje é o mesmo impulso que fazia o homem primitivo caminhar quilômetros para encontrar um fruto para comer ou lutar com um animal”, afirma o endocrinologista Márcio Mancini, diretor da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). “As condições de vida cada vez mais estão mais confortáveis, cada vez se gasta menos energia para fazer as coisas. É vidro elétrico de carro, elevador, controle remoto até pra subir a persiana. Aí entra até a violência urbana, que uma mãe hoje fica muito mais tranquila de ver um filho com um tablet durante seis horas deitado no sofá do que brincando na rua”, completa.

Numa explicação simplista, engorda quem queima menos calorias do que consome. Mas as variáveis que envolvem consumo e queima são muito mais elaboradas do que um cálculo de uma dieta combinada com exercícios. Além das condições ambientais, boa parte dessa equação depende do que acontece dentro da gente. Uma combinação tão complexa que até hoje a ciência não tem uma explicação para isso – e todo ano há descobertas.

O metabolismo de repouso – ou metabolismo basal – é quanto o corpo gasta para manter suas funções básicas funcionando: digestão, coração batendo, cabelo crescendo etc. De 70% a 90% da energia dos alimentos são usados para isso. Exercícios físicos são ótimos para manter a saúde em dia e tonificar os músculos, mas não queimam tantas calorias quanto se imagina.

O principal determinante do metabolismo de repouso é a quantidade de massa magra. Isso porque o músculo é muito ativo e requer muita energia para se manter. Massa gorda, por outro lado, é relativamente inerte e precisa de pouca energia. Ou seja, um corpo com menos músculos e mais gordura tende a queimar menos calorias do que o corpo musculoso. Mas muitos fatores além de tamanho, gordura e massa magra influenciam no metabolismo. Alguns são genéticos e imutáveis.

Os mecanismos que controlam fome e saciedade podem ser diferentes de pessoa para pessoa. E, na hora de consumir os alimentos, cada corpo reage de uma forma. Por exemplo, uma pessoa pode comer exatamente a mesma comida que outra e absorver toda a energia daquela comida, enquanto a outra pode ter uma bactéria no intestino que digere parte das calorias, que não entram no seu organismo. Uma fruta que tem 100 calorias pode ter 95 absorvidas por uma pessoa e 80 por outra.

“São dezenas ou centenas de genes que quando estão agrupados em uma determinada forma, podem fazer com que o indivíduo consuma mais calorias ou gaste menos calorias. Genes que envolvem trabalho muscular, andar mais ou menos, se mexer mais ou menos no dia a dia, por exemplo. E também genes relacionados a preferências alimentares, até sabor. Tem criança que sente mais o gosto do amargo e come menos salada por causa disso”, explica Márcio Mancini.

GORDO É DOENTE?

Profissionais da área da saúde concordam que o ganho de peso depende dessa combinação complexa de fatores, que não pode ser resumida a consumo e gasto de calorias e que não se pode tratar o gordo como “culpado” por ter o tamanho que tem. Também não discordam que ganho de peso está associado a maiores riscos de doenças como problemas cardiovasculares e diabetes. 

Mas ser gordo, por si só, é sinônimo de doença? Aí, as discordâncias começam.         

OMS (Organização Mundial da Saúde), AMA (Associação Médica Americana) e outros órgãos internacionais consideram a obesidade uma doença crônica, sem cura, que deve ser tratada para o resto da vida. O diagnóstico é simples: ter IMC (Índice de Massa Corporal) maior de 30 kg/m². A partir de 25 kg/m², já é considerado sobrepeso.

“Muito se questiona o IMC, mas é muito bom, é simples, é barato”, resume a endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica). Ela também admite que há falhas no sistema de medição, por não considerar a composição corporal, apenas o peso. “Você vai ter alguns indivíduos que têm uma quantidade de massa muscular maior, os musculosos, com índice corporal às custas mais de músculo. Às vezes você tem um IMC até dentro da faixa de normalidade, mas o paciente só acumula gordura na barriga. Aquele IMC pode ser alto mesmo sendo normal de acordo com os critérios”, explica.

Mesmo que os exames estejam normais, existe um risco atribuído ao excesso de peso na saúde em longo prazo. A situação de obesidade metabolicamente saudável é transitória. Quando você acompanha ao longo dos anos, você vê que dos 100% que aos 20 anos tinham obesidade metabolicamente saudável, depois de 10 anos caiu pra 50%, depois de mais 10 não tem quase ninguém

Márcio Mancini, endócrino e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Quando a pessoa tem mais gordura acumulada na região abdominal, combinada com fatores como diabetes, pressão alta, colesterol ou triglicérides, o diagnóstico pode ser de síndrome metabólica. E o gordo que não tem nenhum desses fatores alterados, os chamados “metabolicamente saudável”? Não há consenso. Há inúmeras pesquisas, muitas contraditórias. Mas os endocrinologistas afirmam que, mesmo que hoje o gordo tenha seus níveis clínicos dentro do esperado, com os anos os riscos aumentam.

Além das doenças cardiovasculares, a obesidade aparece associada a alguns tipos de câncer e transtornos psiquiátricos. “A obesidade e alguns transtornos psiquiátricos têm vias fisiopatológicas comuns. Neuroinflamação, alteração de ritmo do ciclo sono-vigília, uma série de fatores que você tem alterados nos dois grupos de patologias devem justificar essa grande associação. Não uma coisa causando a outra, mas as duas coisas causadas por uma terceira e por isso você tem aparecimento frequente da associação”, detalha o psiquiatra Adriano Segal, responsável pelo setor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Abeso.

No entendimento de que todo obeso é doente, emagrecer é sempre bom para a saúde. Então todo mundo tem que ser magro? “Não, todo mundo tem que se manter no seu menor peso saudável. Não vale ficar no menor peso possível fazendo loucura”, ressalta a presidente da Abeso. Para os médicos, o tratamento pode envolver mudança de estilo de vida, remédios ou até mesmo cirurgia bariátrica.

Outras abordagens pensam a gordura corporal de uma forma diferente, não como doença, mas como parte de um biotipo, assim como ser alto ou baixo, por exemplo. Pela teoria HAES (Health At Every Size, algo como Saúde em Todos os Tamanhos), liderada por profissionais de saúde em diferentes países, pessoas gordas podem ser tão saudáveis como pessoas magras e a guerra contra a obesidade vem gerando comportamentos que fazem mais mal à saúde do que a gordura em si.

“É verdade que muitas doenças são mais comumente encontradas em pessoas mais pesadas. Mas isso não significa que o peso por si só causa essas doenças. É importante ressaltar que as pesquisas mostram associação, não causa. Culpar a gordura por doenças do coração é como culpar dentes amarelos por câncer de pulmão, em vez de considerar a possibilidade de que fumar causa os dois. E dizer para as pessoas que elas devem perder peso é como dizer a alguém com pneumonia para que pare de tossir muito – pode não ser possível e não faz a doença ir embora”, dizem as nutricionistas Linda Bacon e Lucy Aphramor no livro “Body Respect” (“Respeito ao Corpo”, sem edição em português).

O HAES questiona a forma como se trata a obesidade no mundo e promove a saúde combatendo as dietas e incentivando uma alimentação saudável e a prática de exercícios, considerando que saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social, não apenas a ausência de doenças. Essa abordagem acredita no conceito de gordos metabolicamente saudáveis e que o foco não deve ser a perda de peso.

O IMC é um dado populacional. Se eu quiser medir o peso das pessoas dessa padaria, eu calculo pelo IMC. Quando a gente usa o IMC pro individual, ele tem muito pouco resultado. Pode se usar, então, porcentagem de gordura. O que me gera o medo de continuar buscando a diminuição da porcentagem de gordura. O mais importante quando você avalia uma pessoa são os hábitos dela

Marcela Kotait, nutricionista coordenadora do ambulatório de Anorexia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP

Um artigo publicado na “Clinical Obesity” em julho de 2018 compilando dados de 54 mil pessoas de outras cinco pesquisas sobre o tema concluiu que indivíduos considerados obesos, mas sem doenças metabólicas relacionadas, não têm risco de morte aumentado por conta apenas do peso.

“A obesidade está mais fortemente relacionada com diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. No entanto, é importante notar que doenças cardiovasculares e câncer também estão entre as principais causas de morte em indivíduos magros, dependendo da faixa etária. Com o tempo, mais medicamentos foram desenvolvidos para tratar essas doenças, o que significa que podemos viver mais com essas condições. Meu trabalho analisou a obesidade saudável e há poucos indivíduos com obesidade e nenhum outro fator de risco cardiovascular, mas isso também é verdadeiro para indivíduos magros. É questionável se os indivíduos com apenas obesidade têm maior risco de mortalidade”, diz a pesquisadora Jennifer Kuk, professora da York University, em Toronto (Canadá), uma das responsáveis pelo estudo.

Há ainda pesquisas que analisam os riscos pelo número de comportamentos saudáveis, como comer muita fruta, legume e verduras, não fumar, beber moderadamente e fazer atividades físicas. “Entre as pessoas que não tem nenhum desses hábitos, o risco do obeso é muito maior. Mas basta ter um que já fica parecido. Se tiver os quatro, os riscos de pessoas com peso normal, sobrepeso ou obesas é o mesmo”, diz a nutricionista Marle Alvarenga, coordenadora do Genta (Grupo Especializado em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade) e supervisora do grupo de nutrição do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP.

SE DIETA NÃO FUNCIONA...

Low-carb, low-fat, Ravenna, Atkins, paleolítica, cetogênica, dos pontos… Apesar de nunca saírem de moda, as dietas restritivas são um sucesso em curto prazo e um fracasso ao longo da vida de qualquer pessoa que queira perder peso. “Eu sempre falo que o gordo é especialista em dieta. A gente já tentou todas”, brinca o publicitário Bernardo Boëchat.

Segundo dados da OMS, cerca de 95% das pessoas voltam a ganhar peso depois de um período de dieta. E mais: a perda de peso pode resultar na diminuição de seu metabolismo basal. Ou seja, seu corpo passa gastar menos calorias e, para emagrecer de novo, será necessário comer ainda menos. “Dieta engorda. A gente aumentou muito em conhecimento científico ao longo dos anos, mas continua repetindo a mesma estupidez”, afirma Marle Alvarenga, idealizadora do Instituto Nutrição Comportamental.

Um caso famoso é o maior exemplo dos efeitos metabólicos da perda brusca de peso – não à toa, foi citado por quase todos os especialistas ouvidos pelo TAB. Pesquisadores do National Institutes of Health analisaram os efeitos do emagrecimento nos participantes do reality show americano “The Biggest Loser” por seis anos. No programa, pessoas com obesidade grau 3, também chamada de obesidade mórbida, fizeram dietas radicais e atividades físicas em poucos meses.

“Pela primeira vez, pudemos analisar pessoas que estavam perdendo muito peso, mais de 60 quilos em média, num intervalo de sete meses. Após a competição, nós os acompanhamos por seis anos. Eles recuperaram, em média, dois terços do peso perdido. Descobrimos algo surpreendente: o metabolismo deles desacelerou muito mais do que o esperado”, contou o doutor Kevin Hall, do National Institutes of Heatlh, no episódio “Por que as dietas dão errado”, da série documental “Explicando” da Netflix. Mesmo seis anos depois, o metabolismo de alguns participantes permaneceu consumindo até 800 calorias a menos do que no início da competição.

Emagrecer não é sempre bom? Tem estudos com mulheres que fizeram lipoaspiração e tiraram quase 10 quilos de gordura. Aí compararam questões metabólicas, como glicemia etc. Melhorou alguma coisa? Não, porque não mudou comportamento

Marle Alvarenga, coordenadora do Genta e supervisora do grupo de nutrição do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP

“Estamos fazendo alguma coisa errada. O inimigo é outro, não é o peso. Se a gente pensar em qualidade de vida, a dieta vai na contramão. O prejuízo da dieta não é só nutricional. É social, emocional, psicológico”, afirma Marcela Kotait, nutricionista coordenadora do ambulatório de Anorexia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP.

Uma pesquisa feita na USP (Universidade de São Paulo) usou a abordagem do HAES para uma intervenção com mulheres com idade entre 25 e 50 anos, IMC maior de 30 kg/m², que não tinham diabetes, não faziam dieta e não usavam remédios para emagrecer. Durante sete meses, elas fizeram atividade física três vezes por semana e tiveram atendimento nutricional individual a cada 15 dias, sem indicação de dieta, mas com orientações como comer focado e atenção aos sinais de fome e saciedade. As atividades físicas incluíram exercícios aeróbicos sistematizados, atividades lúdicas, jogos esportivos e treinamento de força.

Os pesquisadores observaram exames cardiovasculares, peso, circunferência da cintura, percepção de imagem corporal e de qualidade de vida, entre outros fatores. “Pensando que a gente não deu dieta e não teve nenhuma atividade na linha ‘no pain, no gain’, todas elas tiveram êxito. Algumas muito expressivos, outras nem tanto. Algumas baixaram o peso, a circunferência de cintura diminuiu, por exemplo. E a capacidade cardiovascular de todas melhorou”, conta a doutoranda no programa de nutrição da USP Mariana Dimitrov, uma das responsáveis pela pesquisa. Segundo ela, as participantes relataram uma nova relação com a alimentação e com a prática de exercícios, adotando hábitos mais saudáveis no dia a dia para além da intervenção. Sem alimentos proibidos, elas também passaram a ter um maior autonomia sobre a comida.

Alguns profissionais da área veem [a obesidade] como uma escolha. Como se você escolhesse ou não comer e está resolvido. Aí escolhe não comer e perde 20 quilos. Não é incomum paciente ouvir que tem que perder 20 quilos e 'se vira aí'. Isso é muito danoso para o paciente

Maria Edna Melo, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica)

Na visão de quem considera a obesidade uma doença crônica, mudança de estilo de vida pode ser pouco, já que normalmente não resulta em perda considerável de peso. Endocrinologistas defendem o uso de remédios, que podem inibir apetite ou diminuir absorção de gordura, por exemplo. E, em casos de IMC acima de 40 kg/m², pode haver indicação de cirurgia bariátrica.

“Por exemplo, eu tenho três pacientes obesos da mesma família. Um perdeu quase 40 quilos só com mudança de estilo de vida. Outra perdeu 25 quilos com uma cápsula de sibutramina pela manhã. A outra está começando, mas já perdeu 12 quilos e faz uso de liraglutida. Tudo com acompanhamento nutricional, recomendação de prática de atividade física. Lógico que esse que teve mudança de estilo de vida faz muita atividade física. A questão é como perder peso. O que é ser saudável? Isso é muito individual”, diz Maria Edna de Melo.

Mesmo os profissionais que defendem o emagrecimento, seja a base de mudança de estilo de vida ou de remédios, afirmam que o objetivo do tratamento não é necessariamente chegar ao peso “normal” para a altura daquele paciente. Uma perda de 5% ou 10% já é considerada um grande avanço em termos de saúde, com melhoras significativas em índices clínicos, para um paciente considerado obeso.

“É custo-benefício. Se para perder ainda mais peso a pessoa tiver que pagar um preço alto em todos os referenciais, não só econômico, talvez não tenha sentido. Se tiver que tomar mais drogas que vão causar mais efeitos adversos, tiver que perder mais tempo fazendo... O que manda na decisão dos tratamentos em geral é custo-benefício. Se o benefício for alto, o custo pode ser alto. Se o benefício for pequeno, não vale a pena”, diz o psiquiatra Adriano Segal.

Por tudo isso – os motivos que nos levam a engordar, as dificuldades para emagrecer e manter o novo peso e o que os médicos já consideram uma melhora clínica – olhar para uma pessoa gorda e presumir que ela não tem força de vontade e tem problemas sérios de saúde não é exatamente se preocupar com o bem-estar dela. Você não tem como saber o quão saudável ou não é uma pessoa apenas pelo visual.

A revista americana “Self”, especializada em reportagens de saúde e bem-estar, quis passar justamente essa mensagem ao trazer na capa de sua edição digital a modelo plus size Tess Holliday.

"Não sabemos se uma pessoa é saudável ou não apenas olhando para ela. Você não sabe quais são suas metas de saúde, suas prioridades. Criticar uma pessoa baseado na percepção de saúde é fazer com que o outro se sinta mal sobre ele mesmo. É apenas contraproducente e abusivo", escreveu a editora-chefe da publicação, Carolyn Kylstra.

"O papo de preocupação com a saúde é só mais uma forma de falar: 'Minha filha, emagrece'. É o incômodo com o corpo gordo, isso é muito claro. Se você vê uma pessoa magra do lado de uma pessoa gorda, ninguém está nem aí para o exame de sangue da pessoa magra. Se a pessoa magra está com o colesterol alto, se ela se exercita, se ela fuma”, diz a youtuber Alexandra Gurgel, que vai lançar ainda em 2018 o livro “Pare de se odiar”, contando sua história de relação com o corpo.

ESTIGMA, EXCLUSÃO E AUTOESTIMA

Fora dos consultórios de médicos e nutricionistas, o preconceito contra o gordo é mais antigo do que a preocupação com a saúde. No mundo ocidental, a gordura começou a ser vista como característica de pessoas “inferiores” ou “primitivas” por volta do século 19, quando os médicos não se preocupavam muito com o peso, conta a socióloga Amy Farrell, professora do Dickinson College, na Pensilvânia, e autora do livro “Fat Shame” (“Vergonha de Gordo”, sem edição em português), que traça um histórico de preconceitos contra os gordos.

Ainda são raros os espaços públicos adaptados para pessoas gordas, da catraca do ônibus à poltrona do cinema. Na escola ou no mercado de trabalho, quem tem o peso considerado acima do normal é visto como diferente e tem sua imagem associada a fracasso, preguiça, falta de vontade. Há casos de concursos públicos que excluem pessoas consideradas obesas

O preconceito com o gordo que vem dos profissionais de saúde prejudica tanto os diagnósticos clínicos como questões emocionais e psicológicas dos pacientes que procuram os serviços público e privado. “Os perigos de não cuidar da saúde são aplicáveis a todos. Mas aqueles com obesidade sofrem mais com isso, já que são menos propensos a ter condições médicas diagnosticadas ou têm diagnósticos em fases posteriores, o que piora o prognóstico. Algumas das razões são que eles são menos propensos a procurar cuidados de saúde, em parte devido ao estigma. E eles também tendem a ter pior tratamento, pois a obesidade é responsabilizada pelos sintomas apresentados, independentemente de estar relacionada à doença. Às vezes, a obesidade também torna mais difícil de encontrar a causa e tratar, como tumores mais difíceis de palpar, scanners com limites de peso, dosagem de medicamentos etc.”, afirma Jennifer Kuk, professora da York University, em Toronto.

A jornalista Milla Pupo sabe bem como é ter qualquer tipo de problema relacionado automaticamente ao seu peso. “Eu vou ao pronto socorro com enxaqueca, depois de três dias com dor, e a primeira coisa que o médico me fala é ‘mas você está acima do peso’. Isso retroalimenta uma coisa muito prejudicial, sobretudo na saúde do corpo gordo, que as pessoas tendem a falar que o gordo não é saudável. Só que automaticamente o gordo acaba evitando o médico, porque ele vai e é rechaçado”, diz.

Nos Estados Unidos, grupos tentam promover a aceitação do gordo há algumas décadas. Instituições como a Associação Nacional para Acelerar a Aceitação dos Gordos nos EUA e a Associação pela Diversidade de Tamanho e Saúde foram criadas entre o fim dos anos 60 e o começo dos 70. Nas universidades, grupos ligados à sociologia e aos estudos de gênero se especializaram em “fat studies” (estudos da gordura) – que não pesquisam apenas os aspectos fisiológicos da gordura, mas a situação dos gordos na sociedade.

O ativismo gordo chegou ao Brasil mais recentemente. Influencers como Bernardo Boëchat, do Bernardo Fala, e Alexandra Gurgel, do Alexandrismos, levam expressões como gordofobia e body positive  — movimento que prega amor próprio e imagem corporal positiva — para o dia a dia de quem acompanha seus canais e redes sociais, contando experiências pessoais e pautando a militância. Os dois também fazem parte de um grupo que criou a festa body positive Toda Grandona, onde pessoas gordas se sentem à vontade para dançar sem olhares de julgamento.

Para a psicóloga Gabriela Xavier Moreira, especialista em autoestima e imagem corporal, os movimentos podem ajudar pessoas gordas no sentido de representatividade e construção de uma nova autoimagem, mas a maioria das pessoas gordas ainda têm um nível grande de insatisfação com o próprio corpo. “A aparência é apenas uma das constituintes da autoestima. A gente trabalha no sentido de abranger mais a autoavaliação que a pessoa faz, desatrelando seu valor pessoal do corpo”, diz a autora do livro “Princesa Imperfeita: Autoestima e Imagem Corporal”. 

“É possível estar acima do peso e se sentir bem com isso, apesar de ainda ser a exceção. As pessoas de um modo geral acham que precisa ter raiva do corpo para parar de comer e conseguir emagrecer, mas as pesquisas mais recentes vêm mostrando que não é por aí. Quando você se respeita, tem uma estima corporal adequada, a tendência é que você busque comportamento saudável e cuidado com o corpo”, completa a psicóloga.

Qual é esse cuidado, quais comportamentos são mais saudáveis, tudo isso pode – e deve – ter acompanhamento profissional, mas vai depender das escolhas individuais. “A gente tenta falar com várias pesquisas que já existem, com novas formas de olhar [o corpo gordo]. Se for doença, deixa a pessoa ser doente. Você não precisa me aceitar, precisa me respeitar. Eu tenho todo o direito de ser doente se eu quiser. Todas as doenças que eu tive por causa da tentativa de emagrecer, os transtornos alimentares, depressão, tendências suicidas, isso que me matava. Se eu for morrer daqui a 20 anos porque obesidade é doença, eu vou viver 20 anos muito feliz e livre. Vinte anos vividos com liberdade é muito melhor do que 26 que eu vivi me odiando", diz Alexandra Gurgel.  

Depois de anos lutando contra o peso, Alexandra, Bernardo, Néliane, Preta, Bia e Milla têm outra relação com o espelho, a balança, o próprio corpo. Cada um, à sua maneira, descobriu seu próprio caminho para uma vida mais saudável, independentemente do que aponte o IMC.

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