Tá rindo do quê?

As histórias cruzadas do humor e da política em um país que se assumiu chato

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Cauê Moura, 28, se lembra bem do episódio. Estava tão irritado com mais um bloqueio judicial ao WhatsApp que resolveu apelar no Twitter. Mas não fez um desabafo qualquer. A ação foi irada e ofensiva: ele xingou a mãe do juiz que havia aprovado a suspensão do aplicativo de mensagens. Publicou, viralizou. A reação? O ex-publicitário, humorista involuntário, sensação com mais de 4,7 milhões de seguidores no YouTube, apanhou, e não exatamente pela falta de modos.

“Fui tido como misógino, como machista – e como coxinha, pela primeira vez”, lembra Moura. “Perguntaram por que eu estava xingando a mãe do cara em vez do pai. Pensei, e acho que de fato estava errado. Quando você está experimentando, fazendo um pouco de tudo na internet, vai errar. Mas é incrível ver isso. Eu já havia levado paulada por ser chamado de ‘homem feminista’. Agora levei paulada das feministas também. Não tem para onde fugir”, completa.

Rir das elites no Brasil é um problema realmente. É muito vertical, de cima pra baixo

Gregório Duvivier, ator e comediante criador do Porta dos Fundos

Não está fácil fazer rir nesses tempos ranzinzas, de muitas amarras. Até porque humor inteligente exige inspiração e transpiração - e, dependendo do interlocutor, pode ser difícil de entender também. Mas há outra particularidade nesse cenário. A última eleição presidencial, em 2014, rachou o país. As manifestações em sequência foram a contraprova. A tensão ao se falar sobre a política nacional se alastra pelas redes. De um lado, progressistas. Do outro, liberais – ou mortadelas e coxinhas, respectivamente, se assim preferirem. Sobrou até para quem opta por não se posicionar. Esses ganharam a fama de “isentões”. Se está todo mundo tão dividido assim, se ambas as turmas parecem dispostas a zombar apenas uma da outra, sem admitir rir de si mesmas, como o humorista deve agir?

Quem pensa num consenso, ao menos entre comediantes, só pode estar de brincadeira. O TAB constatou que até entre eles há uma… polarização. No caso de Cauê, temos alguém que ouviu a pancada, as críticas online, e pensou a respeito. Esse seria um caminho. Ouvir, matutar e, se achar necessário, evoluir. Ele se criou no ambiente da internet, acostumado à reação instantânea da rede. O episódio da mãe do magistrado não foi o único no qual as coisas saíram do controle. Cauê, cujo canal no YouTube, "Desce a Letra", ganha a descrição de “vídeos que ofendem a família brasileira", já foi processado pelo cantor Latino, por exemplo. Mas geralmente a confusão é maior quando o material envolve política. “É difícil, sim. Muitas pessoas se sentem desencorajadas. Eu mesmo já pensei em desistir desse assunto, mas tem hora que simplesmente é necessário”, diz o youtuber. “O segredo para continuar conseguindo fazer? É melhor isso do que ser ignorado. Se as pessoas estão reclamando, acho que tenho alguma relevância. Seria muito pior se não tivesse”, completa.

 

Riso nervoso

Há quem diga que jamais devem existir limites na hora de tirar sarro de alguém ou de uma situação. Aquela história: você perde o amigo – ou muitos amigos e até mesmo familiares –, mas não a zoeira. Esse raciocínio se apoia, no fim das contas, na liberdade de expressão, um desses conceitos irrefutáveis que servem de alicerce de uma democracia. Mas não é o único. As liberdades, em tese, também precisam conviver com o direito do próximo.

Para o ator e comediante Gregório Duvivier, um dos criadores do Porta dos Fundos, o direito de rir da política e dos políticos do Brasil está bastante restrito. “A elite [do Brasil] não tem esse hábito de rir de si mesma. Se você ri de quem tá no poder, a pessoa tem o poder de te processar. Se vai rir de um político, você tem que trocar o nome do político para brincar com ele”, afirma.

Seria um tanto burro da parte do humorista querer cativar só a turma que pensa politicamente igual a ele e fazer humor só para esse público

Rodrigo Fernandes, o Jacaré Banguela, comediante

Duvivier é alvo recorrente do Fla-Flu da política brasileira, muito por conta de vídeos como “Delação”, no qual ele interpreta um agente da Polícia Federal aparentemente desinteressado em denúncias contra o PSDB. “Nunca imaginei [que o vídeo fosse ter aquela repercussão]. A gente tá há um tempão rindo da política, da esquerda, da direita, da religião... Aí você vê que no Brasil você tem algumas coisas intocáveis. A polícia no Brasil também não gosta de ser alvo de piada. Talvez tenha a ver com a herança da ditadura”, comenta.

E quando a piada é considerada tão agressiva por quem se assumiu como alvo, a ponto de desencadear a violência, como aconteceu em Paris, no ataque à redação do jornal “Charlie Hebdo”? No Brasil, ainda não tivemos nenhuma resposta dessa magnitude, mas a tensão no ar é inegável. Assim como não se refuta o fenômeno que se convencionou chamar de patrulha – para todas as bandeiras e diversos grupos, minorias ou não, que se mobilizam contra determinado chiste.

Online, fica mais fácil posar de “hater” – uma espécie de propagador digital de ódio -, com a proteção do anonimato, e atacar a fonte. Mas a intolerância também pode vazar para o mundo real, numa plateia. “Nunca fiz piada sobre política em show. Quando mexe com fanatismo fica complicado”, diz Thiago Ventura, 27, paulista de Taboão da Serra que leva para os palcos os trejeitos dos “manos”, como se fosse um Emicida do humor. “Eu me lembro de um comediante, um menino que estava começando e gostava dessa linha [política]. Fui a uma apresentação dele em que uma piada fez com que uma mulher da plateia se levantasse para dizer: ‘Se for fazer piada com meu partido, vou embora’. As pessoas começaram a vaiá-la. A manifestação dela foi uma violência, mas a vaia também”, afirma.

Se for para voltar a fita e pensar nos tempos das trapalhadas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias em TV aberta, ou se voltarmos ainda mais um pouco para conferir algumas das sagas de Amácio Mazzaropi, era como se o Brasil só gargalhasse, sem se importar com quem fosse atingido. Não havia preocupação com minorias. Esses tópicos simplesmente não estavam em pauta. Hoje, não há como ignorá-los. O cenário brasileiro de desigualdades é o mesmo – a diferença é que a internet ajudou os mais diversos grupos a se organizarem. Você adiciona aí uma ou outra pitadinha de ânimos mais exaltados no caldeirão político e vai para a mesa uma situação bem complexa, da qual nem todos querem participar.

Muitos humoristas mostram receio ao abordar o assunto. Com mais de 9 milhões de assinantes em seu canal no YouTube, o piauiense Whindersson Nunes, 21, construiu capital suficiente para fazer shows por todo o país – sua agenda já tem 20 shows marcados até o fim de agosto. Tamanho sucesso não o deixa confortável, contudo, para se posicionar nesse cenário. Em um primeiro contato, a assessoria de Nunes afirmou que o cliente “infelizmente não está falando sobre assuntos polêmicos”. Depois, em férias, topou uma entrevista por e-mail. “Se você contar algo do seu dia a dia, geralmente as pessoas se identificarão com o assunto. Posso chamar meu tipo de humor de puro. Faço piadas com temas leves que jamais têm a intenção de ofender ninguém”, afirmou o piauiense, que já foi criticado por fazer post e vídeo ironizando um caso de estupro.

O humor está mais restrito. Ao mesmo tempo, as pessoas vão ter que, diante dessa reação, subir o nível do humor. Fazer menos baseado em depreciação. Para a pessoa conseguir ler 'Os Sertões', ela teve que, no começo, aprender a ler 'O Vovô Viu a Uva'

Felipe Anghinoni, sócio-fundador da Perestroika

Whindersson já havia publicado em maio um desabafo a respeito de suas esquivas. “O pessoal sempre fala: ‘Você é um grande influenciador. Tem de mostrar aos jovens isso e aquilo. Como se o jovem fosse um mongoloide. Sempre evito falar essas coisas de política porque não entendo. Não tenho propriedade”, afirmou. Ao final, depois de imitações de Dilma Rousseff e Marina Silva, ele se rende e dá seu recado: “O que tenho para falar é que trabalho de político não é prometer passagem, reforma na casa, não é prometer nada para ninguém. Tem de fazer, e fazer pelo povo. Quando for votar, preste a atenção”.

Prestar atenção e fazer uma reflexão mais cuidadosa antes de apresentar seu texto já é uma (auto) censura, ou um processo natural, para entender as complexidades de um mundo diferente? “Sempre tento dar uma nota para piada e para o tema dessa piada. Por exemplo, se falar sobre parede é um tema de nível 3, então qualquer piada nota 5 passa. Agora se eu falar sobre racismo, é um tema nota 9. Ou você faz uma piada que é 9,5 ou vai perder seu argumento. Mas essa é só uma regra que uso”, diz Mauricio Meirelles, prêmio de melhor stand up no festival Risadaria, com o show “Perdendo Amigos”, justamente fazendo referências a essa polarização. “É basicamente isso: perder amigos por falar sua opinião. Pode ser certa, pode ser errada, mas é uma opinião. E eu jogo comédia em cima disso”, disse.

 

A sociedade que não souber rir de si mesma está doente: essa é uma das meditações do filósofo francês Henri Bergson, Nobel de Literatura em 1927. “A comédia ajuda a sociedade a destacar as tendências antissociais e a fazer com que as evitemos e ríamos delas. Isso nos encoraja a corrigir essas falhas”, escreveu. Mas, para Platão, o humor se torna poderoso pelo sentimento de superioridade que as pessoas podem ter sobre as outras, apontando seus defeitos, sem que o tom seja conciliatório. Pode parecer piada, mas entre os grandes pensadores há também uma dicotomia quando o assunto é o riso.

Levando para a psicanálise, Sigmund Freud considera que o humor serve como uma liberação catártica da repressão da sociedade, vindo daí nossa predileção pelas piadas sobre sexo e, digamos, gases. Nesse caso, o superego permitirá que o ego entre em cena, nos ajudando a superar inibições, servindo também como forma de recusa da realidade. Esse conceito pode tratar muito bem de um indivíduo em si, mas também de um povoado. Mas e quando essa mesma sociedade já riu tanto, mas tanto, que talvez esteja cansada?

A despeito do progresso econômico de décadas, o Brasil ainda é um dos países mais desiguais do mundo. Para os mais pobres enfrentarem essa condição, o sorriso foi ativado, até mesmo como um tipo de ferramenta de defesa. Aqui, vamos mais longe, regressando ao período da escravidão, algo que o escritor e sociólogo Gilberto Freyre constatou em sua obra, conforme lembra Mirian Goldenberg, antropóloga e professora titular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Isso foi uma forma de contato, de aproximação. Foi algo corporalmente adquirido por homens e mulheres na nossa cultura”, diz a autora que, em 2010, conduziu uma pesquisa para investigar a “Cultura da Risada”. Primeiro veio o sorriso, depois o riso. “Mais do que a nossa fala ou escrita, a risada fala de um jeito de ser brasileiro, de brincar até com os fatos considerados sérios”, afirma. “Mas hoje estamos numa situação tão confusa que o brasileiro não consegue se distanciar dela e sofre sem saber muito qual a saída”, completa.

Não é que o brasileiro também tenha perdido totalmente sua capacidade de rir. Paulo Bonfá, humorista e idealizador do festival Risadaria, que chegou a sua sétima edição em 2016, lembra do dia em que estava fazendo uma narração alternativa de um jogo de futebol para o Fox Sports e seu celular, ao final do primeiro tempo, estava tomado por mensagens – a Alemanha já vencia o Brasil por 5 a 0, rumo ao fatídico 7 a 1. “As pessoas estavam chorando na arquibancada, e no meu aparelho chegavam piadas de todos os tipos. Não era nem que o defunto estava quente ainda. O defunto ainda não era defunto. Isso é o Brasil: rir para não chorar. Tudo é tragicômico”, afirma.

Se você acompanha a interação entre Rodrigo Fernandes – popularmente conhecido como Jacaré Banguela – e Victor Camejo no programa “Quebrando Notícias”, no UOL, não vai imaginar como os dois podem ser tão diferentes ideologicamente. Isso, claro, de acordo com princípios polarizadores. Como se alguém que defende a privatização geral fosse naturalmente contra a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) e a inclusão social e, se alguém tiver vocação petista, é um comuna cubano e pronto.

Mas, acreditem, não só há espaço para nuances entre grupos distintos como para o convívio diário entre diferentes correntes. “Eu e o Rodrigo temos muitas diferenças. Ele é muito de direita, e eu, mais de esquerda. A nossa vantagem é que somos muito amigos e conseguimos conciliar nosso programa entre nossos extremos, e é até bom. Debater e fazer uma coisa a partir disso, com um zoando o outro”, diz Victor. “A própria polarização em si é motivo de piada. O extremo da esquerda e o da direita ficam ridículos em algum momento. É isso que a gente tem de atacar”, completa.

Posso discordar radicalmente da sua opinião, mas vou defender até a morte seu direito de fazê-la. Se, depois, me ofender, me incomodar, vou atrás dos meus direitos

Paulo Bonfá, idealizador do festival Risadaria

Victor acredita que em algum momento o profissional acabará “contaminando” o trabalho com suas convicções. Para ele, o desafio é fazer isso sem se apegar apenas a um lado. Se o mote do humorista é o de um provocador, de se colocar como oposição, quão válida seria uma piada já endereçada para sua própria claque? “O humorista pode ter seu lado político, mas, se escolhe esse lado e se fecha com ele, aí ele virou um grande merda. O mais merda dos merdas. Porque a função do humorista é fazer piada”, diz Rodrigo.

Mais do que escolher um lado, Márvio Lucio, o Carioca do “Pânico”, foi além. Decidiu encarnar a presidenta afastada Dilma Rousseff, com mais uma de suas imitações. O personagem foi criado em 2010, durante a campanha eleitoral. Em seu primeiro encontro caracterizado com aquela que inspirou seu avatar, em São Paulo, Carioca diz que foi tratado com simpatia. A petista brincou e disse que jamais usaria um “sapatinho feio” como o de seu “dublê”. Com o passar dos anos, porém, a piada ganhou outro subtexto, com as convicções do humorista, crítico declarado à gestão Dilma e ao modus operandi de seu partido, o PT. “Na campanha de 2014, já ficou perigoso ir para a rua. Mas acredito que o humor tem o papel de passar uma informação, é a ironia no meio da zoeira”, diz.

Existe também uma questão de princípios para o comediante. Ele pode se contentar apenas em fazer o público gargalhar, mesmo que pelo riso fácil. Na hora de tratar de temas mais espinhosos, porém, não há como escapar de provocações. “A piada pela piada ela não é. Ninguém é ingênuo. Existe um bom mercado que se interessa por determinados tipos de piada, se a gente falar sobretudo dos veículos de massa, com um interesse por quem terá determinado pensamento”, diz Suzana Aragão, formadora do curso de Humor da SP Escola de Teatro. “Mas existe o campo de artista que é mesmo de desbravar. A função da comédia é libertária na sua natureza. Ela nasce subversiva”, afirma.

Coordenador do mesmo curso e fundador do Espaço Parlapatões, Raul Barretto lembra o caso do palhaço italiano Leo Bassi, que, com seus ternos Armani, pode por vezes brincar com fogo, de modo literal, em teatros, ou figurativo, atacando a Igreja Católica, a ponto de “terrorista” ser uma das qualificações constantemente associadas aos seus números. "O humor é assumir riscos e se colocar na trincheira. É assumir o risco de enfrentar essas caretices todas que nós estamos vivendo nesse mundo”, diz.

A razão de ser do comediante ainda é o público, não importando sua relação com ele. Se é para divertir e/ou instigar. “Todo mundo pode errar. A diferença é que a gente dá a cara para bater de um jeito em que pode se transformar num idiota muito rapidamente”, diz Victor Camejo. Rindo, claro.

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