Influencers de Cristo

Evangélicos da nova geração mostram na internet um novo comportamento religioso

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O pavilhão amarelo de exposições do Center Norte, em São Paulo, estava relativamente vazio naquela tarde de sexta-feira. A falta de público para preencher os mais de 8 mil metros quadrados do galpão contrastava com a aglomeração bem no meio do espaço: um caminhão com luzes roxas chamava a atenção para um cubículo de vidro, equipado com dois sofás e uma poltrona. Era ali que, um a um, youtubers se encontrariam com seu público. Aos poucos, uma fila começou a se formar, e o espaço ficou apertado. O corredor foi invadido. Ficou difícil conseguir ver o que estava acontecendo.

Era Priscilla Alcântara. Conhecida por sua participação no programa “Bom Dia & Cia”, do SBT, a ex-estrela mirim virou cantora, mas é como youtuber que sua fama cresce exponencialmente. Seu canal, Vlog de Tudo, tem mais de 1,5 milhão de seguidores. Nele, Priscilla faz relatos de viagens, vídeos irônicos (daquele tipo “expectativa versus realidade”), engraçadinhos (“peido no elevador” é um deles), chama convidados (como seu ex-colega Yudi Tamashiro e a apresentadora Maísa) e, claro, fala sobre religião.

A cantora é uma das principais youtubers evangélicas do Brasil. Ela deixou o SBT em 2013 e, desde então, passou a se dedicar à carreira de cantora gospel. Virou youtuber por um apelo dos fãs no aplicativo Snapchat. Seus vídeos têm centenas de milhares de visualizações - alguns ultrapassam a casa dos milhões - e viram grandes fóruns de discussão entre seu público. Priscilla é uma influencer. E sabe disso.

"Qualquer plataforma em que eu consiga falar de Jesus, eu falo, embora meu canal não seja só para isso", disse Priscilla ao TAB. "É um jeito de ‘discipular’ uma galera que me ouve", completa.

É MUITA PREGAÇÃO

Nem sempre é fácil. Em março, a cantora postou uma foto curtindo o festival Lollapalooza e virou trending topic no Twitter. Poderia ter sido só uma foto de festival como tantas outras, mas Priscilla é evangélica e é influenciadora entre esse público. Sua presença em um festival mundano rachou a comunidade de fãs. Chegaram a dizer que ela estava andando na companhia do “inimigo” - um eufemismo para Diabo. De cabelo rosa e camiseta, ela respondeu aos críticos e se esquivou de influenciar os fãs evangélicos para o mal. "Não use a Priscilla para fazer algo que você não foi chamado ou não está preparado para fazer", diz ela no vídeo, o único que não permite comentários em seu canal.

A polêmica foi superada. No meio da Expo Gospel, o evento no qual a influencer foi destaque, os fãs que se acotovelavam para vê-la não se importavam com nada disso. Entre eles, uma menina de não mais que cinco anos, vestida de princesa, toda de rosa, com uma tiara de chifre de unicórnio, que não pensou duas vezes ao falar para a ídola que também tinha um canal no YouTube. "Para falar sobre Jesus, né, pai?”, tentou explicar.

"Todos os dias vejo muitos testemunhos a partir de tudo que falei ou das minhas músicas", diz a cantora. Para ela, a relação com seus seguidores é de amizade. "Eu posso ouvi-los, e eles também me ouvem. A gente se ajuda, eu não me excluo dessa troca. Eu recebo muitas palavras que meus fãs ministram para mim nas redes sociais", completa.

ENTRE A FÉ E O FUNK

A história do paulista Vini Rodrigues é semelhante à de tantos outros evangélicos. Ex-usuário de drogas, ele se apaixonou por uma garota em um curso de inglês e começou a frequentar a Assembleia de Deus para se aproximar dela. Ele levou um fora, e a paixão passou, mas a fé não. Depois de enfrentar um período com depressão,  ele resolveu criar, inspirado por outros cristãos conectados, o próprio canal no YouTube, o Tô solto. O nome evidencia o propósito: falar de fé sem barreiras.

Nos seus vídeos, Vini já fez paródia gospel de "Deu Onda", faz piadas e adapta todo tipo de conteúdo profano à lógica gospel. Também fala de assuntos comuns à juventude evangélica: da galera que "escolheu esperar" o casamento para fazer sexo, com seus dramas e conflitos, até do namoro com membros de igrejas diferentes. "Todo mundo nos imagina como pessoas que não podem fazer nada, pessoas que não se divertem. Isso não é verdade", afirma.

Em alguns vídeos, Vini encarna Jacinto Manto, uma espécie de alegoria de cristãos fervorosos, cheios de manias e trejeitos. O personagem é um pastor evangélico pentecostal que não sai de casa sem o seu “manto”, um lenço branco ungido que simboliza a proximidade com o Espírito Santo. Os vídeos do personagem sintetizam um conflito constante na vida dos jovens evangélicos: os embates com os setores mais conservadores da igreja. Em um dos vídeos, o pastor Jacinto fica indignado quando a namorada, de uma igreja mais liberal, o presenteia com uma tatuagem.

Só que, no caso do youtuber, o conflito também foi para a vida fora da internet. Vini precisou mudar de igreja. "As críticas eram por eu brincar demais com a fé. Há muita gente que acredita que o cristão não pode dar risadas, mas eu sempre brinquei muito, e isso incomoda", diz.

SEXO E MACONHA

Os youtubers jovens cristãos têm um comportamento semelhante: com referências modernas, tatuagens, roupas descoladas e cabelos coloridos, eles querem "mostrar ao mundo que é possível ser feliz sendo cristão", como explica Rodrigo Fernandes, 24, que tem pouco mais de 387 mil seguidores em seu canal.

Ele também carrega no humor e não economiza para zoar a própria religião. Em um dos vídeos, usando uma camiseta com a frase "cadê a minha varoa que ainda não chegou?", ele tira sarro do que chama de "pregações sem sentido". Em outro, conta sobre o dia em que tentou pregar para um grupo de maconheiros e terminou chapado com a fumaça. O primeiro comentário do vídeo é de Vini, no perfil oficial do Tô Solto: "Minha avó pediu pra dizer que você esqueceu sua meia aqui em casa e um pouco de maconha".

Vini e Rodrigo já gravaram juntos. Em um dos vídeos, se juntaram ao Paxtorzão, outro youtuber, para fazer a brincadeira do "já fiz/nunca fiz". Com três placas - sim, não e um diabo rabiscado - os três narram se já "tomaram disciplina" (todos sim), já peidaram no meio do culto (todos sim), tomaram bronca do pastor no microfone na frente de todo mundo (todos sim) e se já receberam nudes (só Rodrigo disse que sim).

DESENROLANDO O MANTO

"Os jovens, de um modo geral, ganharam voz e espaço com a ascensão das redes sociais. Então, inevitavelmente, as vozes dos jovens influenciadores também cresceram no meio cristão", avalia o pastor Flauzilino dos Santos, vice-presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Campinas, que tem uma presença expressiva na internet.

"Há uma identificação com a figura do youtuber, para além da linguagem comum, induzida pela tecnologia. Existe a criação de uma relação cotidiana com a vida desse jovem cristão, possibilitando, assim, a cada post, cada foto, cada vídeo, que ele transmita mais dos valores que ele edita”, completa o pastor.

Geralmente, as igrejas de origem pentecostal e neopentecostal são mais abertas às mudanças. Diferentemente das igrejas evangélicas históricas, por exemplo, há cultos com linguagem jovem, ministradas por pastores quase tão jovens quanto os próprios fiéis. Outra prática comum entre jovens evangélicos dessas linhas é a reunião em grupos de estudos e oração, chamados de Células.

Os encontros das Células ocorrem geralmente na casa de um dos fiéis. É comum que esse fiel tenha uma família com um alto grau de envolvimento na comunidade evangélica da qual fazem parte. Durante cerca de uma hora, grupos que variam de 10 a 20 pessoas, com idade entre 10 e 25 anos, discutem experiências e passagens bíblicas aplicadas a sua realidade.

 

VINDE A MIM AS CRIANCINHAS

O número de evangélicos no Brasil cresce a cada censo. De acordo com a edição de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tem mais de 42 milhões de evangélicos. Entre 2002 e 2012, o número cresceu 61,4% no país.

Ao mesmo tempo, mais da metade da população brasileira ganhou acesso à internet. Se o recorte for adolescente - até 19 anos - esse número sobe para 79%, segundo a TIC Kids, pesquisa feita em 2015 pelo Comitê Gestor da Internet. Destes, 63% assistem regularmente a vídeos. Faz sentido, então, que qualquer instituição que queira se renovar passe, obrigatoriamente, pela rede - e pelos vídeos.

Mas, se a lógica descentralizada e anárquica da rede surge frente a uma instituição hierárquica e conservadora, a crise é inevitável. Afinal, os youtubers podem falar sobre o que quiserem - de drogas a sexo antes do casamento -, e saem da alçada do pastor para uma audiência potencialmente gigantesca.

"Quando essa linguagem nas redes sociais escapa das lideranças há um choque, porque a liderança quer o monopólio da palavra", afirma Andrey Albuquerque, mestre em teologia e professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). "As pessoas foram tomando espaço, e com isso há um conflito: com quem está a palavra? Com o youtuber! Que não necessariamente é um pastor ou padre, mas tem mais seguidores que seu próprio líder religioso", completa.

Os conflitos entre as alas mais progressistas e conservadoras não são novidade na igreja evangélica. Houve resistência até mesmo para que ela chegasse à TV. Nesse sentido, os movimentos que mais tiveram sucesso em angariar novos fiéis, especialmente os jovens, foram os de renovação carismática, no caso da Igreja Católica, e os neopentecostais, uma vez que souberam aproveitar, segundo Albuquerque, os benefícios da inovação tecnológica e, ainda, dar suporte para o desenvolvimento de protagonismo jovem na evangelização.

Para a cientista social, antropóloga e teóloga Jacqueline Moraes Teixeira, existe uma lógica de audiência nas relações religiosas, especialmente nas evangélicas. Na Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, o discurso mudou para que o maior número de pessoas pudesse ser alcançado através de programas de televisão e rádio. A TV Record tem hoje telenovelas dedicadas ao público cristão, mas com apelo visual que busca atrair novos públicos. As experiências visuais das criações gospel da emissora foram intensas, especialmente em 2016, de maneira que uma das produções, “Terra Prometida”, chegou a ser comparada com a série “Game of Thrones”, da HBO.

UM DEUS DIGITAL

Apesar desse modelo proporcionar maior adesão aos ideais difundidos, não é possível dizer que há mais fiéis por conta da comunicação de massa. Na internet, entretanto, criaram-se redes e mais redes de cristãos de todos os segmentos, dos evangélicos mais tradicionais aos mais progressistas e surgiram também os desigrejados, aqueles que não frequentam a igreja, mas que se declaram evangélicos.

É nesse contexto que surgem os youtubers cristãos. A internet levou alcance e deu voz a pessoas cuja igreja não legitimou para falar em nome da fé. Muitos não são pastores ou missionários, apenas fiéis que dividem experiências e ideias com seu público.

Jaqueline aponta que o aumento no número de youtubers, no geral, está relacionado a essa dimensão plural que dá voz a jovens que carecem de legitimidade institucional para falar sobre sua fé para as comunidades cristãs. Além disso, há na internet, e especialmente no YouTube, um modelo singular de disputa por narrativas e protagonismo que se baseia em conflitos. “Esse conflito produz audiência. As pessoas passam a acompanhar esse processo, e isso faz com que os personagens de ambos os lados ganhem visibilidade", explica. "E uma pessoa com visibilidade [entre os cristãos] tem legitimidade."

O pastor Flauzilino dos Santos vê a ascensão dos youtubers com bons olhos, mas lembra que é uma grande responsabilidade "ser um emissor de valores cristãos". Para ele, há youtubers que realmente aproveitam todo o potencial da internet - uma "ferramenta poderosíssima", em sua avaliação - para expandir a cultura evangélica. "A internet é hoje o grande campo missionário", afirma.

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