Bancada Jovem #SQN

Deputados mais novos da Câmara mostram que ainda somos os mesmos e votamos como nossos pais

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Michel Temer, 76, mal havia assumido como presidente interino e foi logo criticado por montar um ministério de “homens brancos e velhos”. Alguns desses já caíram, e Grace Mendonça furou o clube do bolinha ao ser nomeada para o comando da AGU (Advocacia-Geral da União).

A questão é que talvez o perfil do primeiro escalão faça pouca ou nenhuma diferença para a representatividade dos jovens brasileiros no cenário político. O TAB conferiu que as ideias e propostas apoiadas pelos deputados “millennials” em Brasília têm muito a ver com as cabeças brancas e calvas da equipe de Temer.

Se tomarmos por base o Estatuto da Juventude, que considera jovem uma pessoa com menos de 30 anos, essa “bancada” conta 19 integrantes na Câmara, sendo que 18 deles vêm de famílias e partidos tradicionais - esse grupo não representa nem 4% do plenário completo. Diversidade também não é uma marca - 73% são brancos e quase 90% são homens. Votos e opiniões dessa tropa são muitas vezes mais conservadores que a de seus pares mais velhos. Metade foi eleita pelo mesmo partido de um familiar: PSDB, PMDB, SD, DEM, PP e PTB.

Berço esplêndido

O último 17 de abril pode servir de exemplo para medir o tamanho da influência jovem na política. Foi nesse dia que a Câmara aprovou a instauração do processo de impeachment de Dilma Rousseff - hoje já consumado. Apenas 3,7% dos deputados presentes na sessão eram jovens. Se considerarmos que 15,49% dos brasileiros estão nessa faixa etária, temos que encarar a realidade: há proporcionalmente três vezes mais jovens no país do que na Câmara.

Mesmo que Temer enchesse seu ministério com políticos da nova geração, eles provavelmente seriam homens e brancos. Entre os jovens parlamentares, menos de 11% são mulheres e somente 26% são negros. Sim, a bancada jovem conta com apenas duas mulheres — Brunny Gomes (PR-MG), 27, e Mariana Carvalho (PSDB-RO), 29.

Cientista política e pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Lúcia Avelar afirma que as mulheres ainda dependem de alguma figura masculina da elite partidária para crescer na política. “Eles vão escolher uma mulher em último lugar, a menos que em alguma municipalidade ou área regional isso possa trazer votos para o partido. Foi o caso de Marta Suplicy [hoje no PMDB], que só foi aceita no PT depois de provar que tinha votos, no caso o voto das minorias de gênero”, explica.

E, mesmo que mais mulheres sejam eleitas, não há garantia que uma agenda de transformação seja fortalecida. “Por mais que a gente fale da representatividade das mulheres no parlamento,  ela é problemática porque essas duas mulheres, possivelmente, lutam pelos interesses de uma classe privilegiada, o que não faz muita diferença para mulher periférica”, diz a universitária Beatriz Lima, 21, moradora da Vila Formosa, zona leste de São Paulo.

A porta de entrada

“O know-how político da família coloca todos os indicados em condições privilegiadas na forma de fazer campanha e de conseguir cabos eleitorais, além facilitar o acesso a recursos partidários e controle na sigla do candidato”, afirma o cientista político Humberto Dantas.  Ou como canta Ice Blue, dos Racionais: “Sem ter como, sem dinheiro cê não entra no game”.

A esse fator somam-se as condições financeiras necessárias para a campanha política, o que resulta no domínio de jovens de famílias tradicionais na Câmara e na concentração do poder nas mãos das mesmas oligarquias. De todos os deputados jovens, apenas um - Aliel Machado, da Rede - não vem de uma família política tradicional.

Família e (falta de) dinheiro também explicam por que jovens fora desse grupo não são eleitos. Quando são, permanecem em cargos regionais.

Jovens senhores

Os projetos de lei dos jovens deputados estão concentrados nas áreas de educação, saúde e melhorias municipais para o Estado que cada um representa. Não há bandeiras que identifiquem essa bancada como defensora de uma causa específica, pois as propostas abrangem diversas áreas. “Eles representam os interesses da velha guarda da política, nunca entram com uma pauta nova, pensando só para a juventude”, critica André Luiz, 20, líder e educador social no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Em pautas polêmicas, os jovens deputados se mostram mais conservadores que os jovens brasileiros em geral e até mesmo em relação aos deputados mais velhos. O debate sobre a redução da maioridade penal serve de exemplo: o apoio dos jovens deputados a esse projeto é o dobro do constatado entre a população jovem brasileira. “Os jovens na Câmara, na verdade, são velhos, ou ao menos parecem reproduzir um pensamento mais conservador. Se o futuro da política depender desse perfil, não podemos depositar nesses agentes as expectativas criadas para mudanças”, analisa Dantas.

Os deputados que se esforçam para se aproximar de causas mais “modernas” parecem “pegar a metralhadora e trá trá trá trá trá”, como diz o funk da banda Vingadora. Atiram para todos os lados. Veja, por exemplo, as áreas por quais navega André Fufuca (PP-MA), 27, com seus PL (Projeto de Lei): 1 - criminalização da conduta de constranger alguém por meio do contato físico com fim libidinoso; 2 - concessão de gratificação natalina para quem recebe Bolsa Família; 3 - prestadoras de serviços de internet banda larga só podem oferecer pacotes limitados se também ofertarem serviços com acesso ilimitado a preços justificados.

O passado não serve mais

Apesar dos esforços de alguns partidos de aproximar jovens e mulheres da política, Lúcia Avelar diz que esse é um quadro de confronto e que vai demorar alguns anos para que se reverta: “Eu acho que eles vão seguir o caminho da política oligárquica e tradicional. Por esse grupo, a gente não pode afirmar que eles tenham atitudes mais modernas. Acho que existe um descolamento entre a bancada jovem e aquilo que a gente vê na sociedade”.

Em meio ao bombardeio de recentes escândalos de corrupção e disputas entre partidos tradicionais que representam as velhas utopias do século 20, fica a dúvida: será que nunca veremos jovens que não vêm de famílias e ideias dominantes se interessando pela política tradicional?

Morador da Tijuca, Rio de Janeiro, o estudante de Publicidade e Propaganda Yuri Esteves, 22, acredita que é possível atrair jovens para a política, desde que esta seja mais democrática, transparente e menos “criminalizada”. “Os jovens que querem de alguma forma ser reconhecidos não vão querer ir pra um espaço onde a sociedade só enxerga ladrões e corruptos. Tem que fazer com que a política seja vista como algo que deve, sim, ser mudada por dentro, mas não seja uma prática criminosa por natureza”, afirma.

O que os jovens querem?

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Como nasce um jovem deputado no Brasil?

Brunny Gomes (PR-MG), 27, era estudante de odontologia e apresentava um programa de TV quando decidiu entrar na política a convite do ex-marido, que era deputado estadual.

Uldurico Junior (PV-BA), 24, é filho e neto de ex-políticos e, com o apoio do pai, se tornou o mais jovem parlamentar da Câmara.

Aliel Machado (Rede-PR), 27, é a única exceção: sem família política, começou a carreira no movimento estudantil da sua região e depois se elegeu vereador.

O cientista político Humberto Dantas diz que começar em cargos regionais é o caminho habitual de quem está disposto a seguir carreira política - 26% dos 19 deputados com menos de 30 anos seguiram esse roteiro. “A associação dos jovens à política amadurece mais no nível local do que no nível federal, e o mandato fica mais qualificado quando há uma trajetória”, afirma.

Veja os passos que explicam a construção de um jovem deputado:

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