Do luto à luta

Na comoção com Marielle, busca-se um caminho em meio ao caos social

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"Ela vai estar pra sempre presente, ela não vai morrer. A gente sempre vai passar, de uma geração para outra, sua força e resistência." A atriz Carmen Lúcia de Magalhães era uma das milhares de manifestantes no Rio um dia após a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL). Em São Paulo e outras capitais, a comoção nas ruas foi gigante de gente que não quer se calar.

Marielle foi executada com nove tiros em uma ação que também vitimou o motorista Anderson Pedro Gomes. Um dia antes tinha tuitado protestando por mais uma morte de um garoto e cravou ao final do texto: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”

“Ela virou uma mártir, por tudo o que ela representa: ser mulher, negra, mãe, vinda da favela, denunciar a violência e morrer vítima dela.” Quem afirma isso não é um militante. É um especialista em segurança pública. José Vicente da Silva Filho foi secretário nacional de Segurança Pública (governo FHC) e é coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo. Para ele, a morte de Marielle foi “uma execução com um recado”.

A opinião do coronel é compartilhada pelo cientista político Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo). “Foi um claro recado para as instituições: 'Aqui quem manda é a gente. Pode vir Exército e o que for'. Foi uma demonstração de força. Mas o tiro pode sair pela culatra. Queriam desestabilizar os grupos de direitos humanos e as próprias forças da intervenção, mas devem ter o efeito contrário”, afirma, acreditando que a morte pode se transformar em um ponto de inflexão.

presente e futuro

risco de 'mexicanização'

Os dois especialistas acreditam que a morte de Marielle sinaliza o fundo do poço no caos do Rio. “É difícil piorar mais após todo o derretimento da credibilidade política e institucional do Estado, com três ex-governadores presos. A tendência é haver uma reação para melhorar. Para isso é importante que a sociedade civil mostre sua força”, diz Paes Manso. Já o coronel José Vicente acredita que o interventor vai saber coordenar e sanear as polícias locais. “Ele vai acabar com essa rivalidade infantil entre PM e polícia civil.”

Mas, se não forem solucionados casos como o de Marielle, há quem creia que a situação pode ainda piorar. Um cenário aterrorizante é a “mexicanização” das Forças Armadas. O México colocou seu Exército para combater os cartéis das drogas que enriqueciam com o tráfico na fronteira dos Estados Unidos. Em pouco tempo, desertores da tropa de elite foram contratados como braço armado do Cartel do Golfo para combater os rivais do Cartel de Sinaloa. Em 2010, essa tropa, porém, virou uma facção independente, com armamentos sofisticados e estratégias militares. Los Zetas se tornarem a organização mais violenta do país.

“É um grande erro combater as drogas chamando o Exército e desautorizando as polícias por acreditarem que são corruptas. Há um risco se o Rio entrar na mesma lógica e se houver o mau uso das Forças Armadas”, argumenta o jurista Walter Maierovitch.

Concorda com ele o cientista político Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública. “Pode haver uma mexicanização. Ainda mais quando você coloca soldados que ganham ainda menos que os PMs, sem treinamento e sem experiência. Mas no México foi um desastre porque havia muito dinheiro envolvido”, analisa.

Até agora, a notícia mais alarmante sobre isso são ex-militares treinando integrantes de facções criminosas do Rio. Os serviços de inteligência das Forças Armadas detectaram que ex-paraquedistas e ex-fuzileiros navais recebem até R$ 5.000 por hora de aula para ensinar o uso de fuzis, pistolas e granadas, além de táticas e estratégias de combate - incluindo alguns gestos e termos usados em quartéis.

tudo errado

A opinião é unânime que a intervenção militar poderia ter efeitos positivos, mas que foi iniciada de forma errada. “Até agora, eles só trouxeram a parafernália deles. Foi mais uma ação para tirar o foco de Brasília, das acusações contra o presidente e o fracasso da reforma da previdência”, afirma Paulo Storani, ex-instrutor do Bope, a tropa de elite da PM local, e consultor de segurança. “A intervenção é importante para colocar o governo federal dentro do ringue. E ele vai levar porrada. Tem que trazer o governo federal para dentro do problema, porque é dele também”, completa.

Maierovitch também aponta esse dilema. “Sou favorável à intervenção como uma emergência. Mas tudo está muito pirotécnico. A intervenção malfeita coloca em risco a população urbana. Apontar tanques para a favela é quase declarar uma guerra aos pobres, levando medo à população civil”, diz.

Esse clima pode ter incentivado os assassinos a aproveitarem o estado de exceção para matar quem atrapalha seus planos e seus negócios, como acontece com tantos líderes sociais vitimados no Brasil por suas lutas irem contra grandes interesses econômicos e políticos. Foram pelo menos 24 casos de lideranças políticas mortas nos últimos quatro anos - a maioria deles no campo. O escritório de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) informou que enviou em 2017 ao governo brasileiro vários comunicados sobre 17 ativistas ameaçados, mas nunca recebeu uma resposta.

volta às ruas

Desilusão, revolta e muita tristeza, mas também com o sentimento de que é preciso seguir adiante e manter viva sua voz, agir, não retroceder. Esse foi o tom das manifestações do Rio e de todo o Brasil que lembraram a vida e a luta Marielle

"Marielle vive, Marielle viverá, mulheres negras não param de lutar" era um dos gritos ouvidos ao longo do ato que começou na Avenida Paulista e terminou na Praça Roosevelt, no centro da capital paulista. Em boa parte do caminho, silêncio, choro e velas.

"Pensar no percurso de uma mulher negra, lésbica e periférica para chegar a quinta vereadora mais votada, morreu uma multidão com ela. Várias vidas que foram impedidas naquele momento, várias vozes silenciadas. Hoje a gente veio falar que não vai se calar", disse o psicólogo Kwane Yonatan Poli dos Santos ao fim do ato em São Paulo.

crime político

No dia da morte, o presidente Michel Temer celebrou diante de uma plateia de financistas e empresários em São Paulo a intervenção federal no Rio como um exemplo a ser seguido em outros Estados. No dia seguinte, teve de comentar a morte que estragava sua estratégia publicitária. “Esse assassinato é inaceitável, um atentado ao Estado de Direito e à democracia”, declarou o mandatário.

O Observatório da Intervenção, órgão criado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, classificou o crime como “homicídio estritamente político”. As demonstrações de repúdio foram do Parlamento Europeu ao Congresso Brasileiro.

Marielle foi a quinta mais votada entre os 51 vereadores eleitos na cidade em 2016. Nascida e criada no Complexo da Maré, conjunto de 16 favelas com população de 130 mil pessoas que atualmente são dominadas por duas facções (Comando Vermelho e Terceiro Comando Puro) e uma milícia. Recebeu mais de 46 mil votos. Usava o mandato para denunciar a violência policial e criar políticas para mulheres negras e outras minorias. Ela era relatora da comissão da Câmara Municipal que iria fiscalizar a intervenção.

fecha o país?

Marielle viveu 38 anos contrariando as estatísticas de quem vem de um bairro pobre e com guerra urbana deflagrada. Grávida aos 18 anos, ela interrompeu os estudos para cuidar da filha, Luyara, que agora tem 19. Depois se formou em sociologia e fez mestrado em administração pública. Foi líder comunitária e assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, com quem trabalhou por 10 anos. Em sua primeira campanha eleitoral, conseguiu ser eleita.

Mas no dia 14 de março ela entrou na contabilidade que faz do Brasil o país com o maior número de mortes violentas do mundo. Em 2016, último levantamento, foram 70,2 mil, o que equivale a mais de 12% dos registros em todo o planeta, segundo a entidade Small Arms Survey, considerada referência mundial para a questão da violência armada.

Outra estatística deve ser levada em conta: no Brasil apenas 6% dos assassinatos são resolvidos, segundo dados oficiais da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública. Mas o esclarecimento da morte da vereadora já mobilizou o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, para o Rio e causou polêmica sobre a entrada da Polícia Federal nas investigações, o que foi rechaçado pelas polícias cariocas.

“Se por desconfiança não deixarem a polícia do Rio atuar, pode fechar o país e jogar a chave fora. Chama então o FBI (polícia federal dos EUA) logo. O presidente e o Congresso não têm confiança também, e continuam atuando”, critica Storani, para completar: “Quem tem a expertise para investigar assassinatos é o departamento de homicídios.”

a quem interessa

“Para chegar aos autores, tem que investigar a vida da vítima para saber quem tinha interesse na morte dela”, afirma Mingardi. Nessa lógica, muitos tinham interesse de calar uma voz da população que estava no meio do fogo cruzado de facções, milícias e forças públicas.

No domingo anterior ao crime, ela denunciou nas redes sociais a ação do 41º Batalhão de Polícia Militar em Acari, que matou dois jovens e aterrorizaram moradores. Em nenhuma outra região da cidade a polícia mata mais. Foram 567 mortos desde 2011, segundo informações do Instituto de Segurança Pública do Estado.

Um dia antes de morrer, Marielle desabafou no Twitter sobre a morte de um garoto evangélico que saía do culto quando foi morto por PMs em Jacarezinho, bairro da Zona Norte do Rio. Só nesse incidente dois grupos de policiais foram denunciados pela vereadora morta.

teatro de guerra

É preciso abandonar a lógica binária de ou você defende os bandidos ou os policiais matadores. Os dois são os vilões nesse cenário de matança no Brasil. Afinal, o que se quer é ter uma vida segura, com bandidos presos e uma polícia eficiente, resolvendo crimes e não os praticando.

De 2012 a 2016, morreu mais gente no Brasil do que na Síria, que passou todos esses anos em guerra. Foram 279 mil mortes violentas por aqui para 256 mil no país árabe em guerra civil.

Para Maierovitch, há uma cultura da violência no Rio, que é a chamada “cultura do esculacho”. “Estão aí os casos da juíza Patricia Acioli e do Amarildo”, lembra. Para o jurista, o Brasil devia seguir exemplos como Itália e Colômbia, que usaram de agentes infiltrados para desbaratar as máfias e cartéis. “São estados delinquentes dentro do estado constitucional.” No caso de Marielle, esses grupos estenderam seus tentáculos para fora de seus territórios, afinal, perseguiram e mataram a vereadora em pleno centro do Rio.

Paes Manso concorda com ele. “É urgente identificar e prender essa minoria armada e tirana que domina bairros inteiros e faz suas populações reféns. Pode ser uma facção ou uma milícia. A polícia tem que usar seus serviços de inteligência e sua tecnologia para combatê-los. Não adianta montar esse teatro de guerra com o Exército”, afirma o cientista político.

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