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São Paulo assusta. Soa como um clichê, mas é, de fato, um sentimento recorrente na cidade. Especialmente na região central, especialmente de madrugada, nos lugares onde ninguém circula depois de certo horário. Para entender o que realmente acontece, passamos algumas noites em quatro espaços públicos no centro da cidade: as praças da República e da Sé, o Largo do Arouche e a Estação da Luz. Encontramos algum sexo (pago), bastante droga, nenhum rock’n’roll, espaços e pessoas abandonados, bastante polícia, histórias inusitadas e o principal: indícios de soluções que podem ajudar a tornar a cidade menos assustadora no futuro.

O primeiro passo é entender o medo que, no ambiente urbano, é mais normal do que imaginamos. “Uma questão que está sempre ligada ao uso do espaço público em uma cidade que cresce é o ‘outro’. O primeiro medo do espaço público é humano, e eu diria que esses espaços sempre vão provocar medo”, diz Mauro Calliari, mestre em urbanismo, autor do blog “Caminhadas Urbanas” e do livro “Espaço Público e Urbanidade em São Paulo” (Bei, 2016). “O conflito é inerente a estar em um lugar com pessoas diferentes de você, e São Paulo é uma cidade muito diversa, que exacerba isso”, completa Calliari.

Além do medo do outro, variações sobre o mesmo tema fazem parte do nosso cotidiano urbano. E, curiosamente, elas têm pouco ou nenhuma relação com a realidade. “Há o medo social, aquele que, além das impressões que você carrega sobre um lugar, um bar, uma festa, também é composto pelo que a mídia e os coletivos dizem dele”, afirma o psicólogo Thiago Colmenero Cunha. Entender esse processo que nos leva a ter medo de sentar na Praça da República durante a madrugada pode ser revelador. “Medo nada mais é do que uma reação que o nosso corpo produz em relação a algo que é significado por nós como perigoso. Ele não tem a ver com o real, mas com uma possibilidade [de algo acontecer] que a gente transforma em real por vermos aquilo como ameaça”, explica Pedro Paulo Bicalho, professor do Instituto de Psicologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), conselheiro do Conselho Federal de Psicologia e que foi, entre 2002 e 2006, capitão psicólogo da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

2h30 Dois membros da Guarda Civil Metropolitana observam o trecho da Praça da Sé que se estende à frente da Catedral. Uma quantidade enorme de gente dorme espalhada por todos os cantos, da escadaria da Igreja aos canteiros das árvores. Atrás do posto da GCM, um movimento que parece tráfico de drogas desconfia da minha presença. Do outro lado, à frente do Palácio de Justiça, há uma discussão entre os moradores da praça, e o clima é tão feio quanto as obras de arte expostas ao redor. Não consigo chegar muito perto. Há uma clara divisão entre um lado mais e outro menos seguro.

Bicalho vê o medo como um instrumento de dominação. “O medo é um importante operador político da contemporaneidade. Na medida em que ele faz com que a gente ocupe menos a cidade, esse medo torna-se um operador da ordem. As pessoas sentem medo porque a cidade é perigosa, mas, ao sentirem medo, isso faz com que a cidade vazia seja melhor controlada [pelo Estado]”, afirma. A solução é ocupar a cidade: um mantra muito repetido, mas difícil de aplicar, pelo que observamos ao longo das madrugadas. “Espaços públicos dizem respeito a identidades, das cidades e das pessoas. Quando uma criança sai de casa pela primeira vez para comprar um pastel na feira, ela está entrando em contato com o diferente, e aquilo faz ela crescer”, conta Mauro Calliari. “Quanto maior o esvaziamento, maior a intensidade do medo. A melhor forma de minimizar essa cultura do medo é tornar esses lugares mais acolhedores para que as pessoas passem a frequentá-los com mais intensidade”, completa William Nozaki, professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

Para Marcelo Batista Nery, pesquisador do NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo), não é possível ignorar a indústria que se formou em torno do medo. “A segurança privada foi uma das atividades que mais cresceu nos anos 1980. Há toda uma cadeia econômica que se beneficia da sensação de insegurança das pessoas. Quantas vezes você já viu a mídia divulgar que 25% da cidade de São Paulo tende a não ter casos de homicídio por longos períodos?”, pergunta. O homicídio, segundo Nery, é um bom exemplo do medo desproporcional que as pessoas sentem em questões de violência urbana. “Ele não era uma questão na cidade na década de 1970, e de repente, em função das dinâmicas da urbanização, o número de homicídios cresceu vertiginosamente. Houve um movimento para a redução e, num certo momento, esse número parou de crescer”, relata Nery. “Mas a sensação de insegurança do fim dos anos 1990 e de hoje não parecem muito diferentes. Acontece que São Paulo teve cerca de seis mil casos de homicídio doloso entre 1999 e 2000, e hoje esse número é de cerca de 1.200 vítimas”, afirma.

Zeladoria é quase amor

Tornar os espaços públicos acolhedores remete ao conceito de zeladoria, o cuidado com os detalhes daquela área, algo que deixa claro para o cidadão que o poder público está de olho no que acontece por ali. Zeladoria significa lixeira, varrição, iluminação, pintura, ou seja, tudo o que revela aos olhos de quem frequenta que aquele é um espaço bem cuidado. Curiosamente, nos quatro lugares onde passamos a noite, o único que apresenta um certo abandono nessa área é a região da Estação da Luz - o Largo do Arouche é relativamente limpo, a Praça da República, bem iluminada, e a Sé tem a segurança permanente da GCM.

3h Os meninos que resistem num dia de semana nos bancos do Largo do Arouche falam alto, buscando chamar a atenção dos outros ao redor. O clima é de paquera e de tranquilidade. Mesmo depois de restaurantes, bares e boates dos arredores fecharem, o movimento continua próximo à padaria 24 horas, onde, na porta, alguns rapazes flertam com eventuais interessados em esticar no cinema pornô ao lado.

Possivelmente esses são sinais do que William Nozaki define como um importante momento de transição na cidade. “Há uma trajetória em São Paulo de esvaziamento dos espaços públicos, relacionada à urbanização da cidade, mas nos últimos anos criou-se uma expectativa do cidadão de frequentar com mais qualidade os espaços públicos”, analisa. A atual gestão da cidade, sob o comando do prefeito João Doria, garante que a zeladoria está entre suas prioridades, e que a intenção da Prefeitura é trazer as pessoas em definitivo de volta ao centro. “Iluminação, segurança e apoio assistencial fazem parte das medidas urbanísticas para ampliar a sensação de segurança destes locais, mas a meta da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento é criar projetos que revitalizem o centro de São Paulo para que se torne novamente um local de moradia do paulistano, e não apenas de passagem”, afirma a secretária Heloisa Maria de Salles Penteado Proença.

A Prefeitura deixou muita gente com os dois pés atrás ao anunciar uma parceria com o Consulado da França para revitalizar o Largo do Arouche. O corpo diplomático faria a intermediação para empresários do país europeu “adotarem” a área. Heloisa explica. “A ideia do projeto é colocar novos bancos, dar novo layout às barracas de flores (sem custos para o concessionário), reformar e ampliar o playground, instalar banheiros públicos, tudo isso para possibilitar que o Largo do Arouche volte a ser um espaço desfrutável pela maioria da população que mora e trabalha no centro”, afirma a secretária. Segundo ela, esse tipo de ação deve se repetir durante o mandato de Doria. “Este modelo de parceria do setor público com agentes privados deve ser replicado em outros pontos da cidade, fórmula a ser adotada e aprimorada no decorrer desta gestão”, completa Heloisa.

O grande exemplo mundial do poder de uma boa zeladoria foi a transformação ocorrida em Nova York, de uma cidade extremamente perigosa no fim da década de 1970 para uma das metrópoles mais seguras do mundo nos anos 1990. A base do conjunto de ações que ficou conhecido como “tolerância zero” foi a Teoria das Janelas Quebradas, uma formulação de política de segurança pública concebida pelos pesquisadores George L. Kelling e James Q. Wilson. Em breves linhas, eles reforçavam a ideia alegórica de que, quando uma janela quebrava, se o poder público a consertava imediatamente, as pessoas percebiam que aquele lugar estava sendo cuidado e se sentiam na obrigação de fazer o mesmo. “Mesmo diante de questões que são ressaltadas no período noturno, como o tráfico de drogas e a mendicância, se aquele espaço está bem conservado apesar disso, a sensação de insegurança das pessoas tende a diminuir”, avalia Marcelo Batista Nery.

3h30 Sábado. A Casa da Luz recebe a festa Calefação Tropicaos e ainda tem fila para entrar, mas, para quem sai, a vizinhança dá medo. Só sobraram os hotéis baratos, alguns bares e alguns transexuais que se prostituem em frente à Estação da Luz. Perto da Sala São Paulo, uma base móvel da Polícia Militar traz frase de campanha de combate ao crack, enquanto alguns poucos usuários caminham espalhados ao redor, distantes do movimento mais intenso da cracolândia, ao fundo.

Polícia para quem não precisa

Uma curiosidade dessa experiência nos quatro espaços públicos visitados foi notar a presença da força policial em todos os locais, mas sem que isso necessariamente provocasse uma mudança na percepção de segurança das pessoas. “As políticas de segurança pública no nosso país são muito mais baseadas no sentimento de segurança do que no combate à violência. A polícia, muitas vezes, está num local para produzir um sentimento de segurança, não exatamente para combater a violência urbana”, diz Bicalho. “São vários os problemas nas políticas públicas de segurança no país, e raras as exceções, como a Polícia Comunitária”, afirma Batista Nery. “Em geral, uma política pública de segurança falha ao não observar a característica das pessoas e do lugar. Quando tentam observar, não há uma avaliação para checar se aquele plano deu certo”, completa. Nery faz questão de enfatizar que não se faz segurança pública apenas com polícia. “O policiamento ostensivo só aumenta a sensação de segurança das pessoas em lugares específicos da cidade, porque a relação entre população e polícia muda bastante de acordo com a região”, conclui.

3h40 A Praça da República dá medo, principalmente porque há muita gente ao redor, e você não consegue entender o que aquelas pessoas estão fazendo ali. Um casal de africanos está sentado na praça, quando chega outro homem e começa a conversar com eles. Dois transexuais usam a rua como banheiro público, paradoxalmente escorados nos antigos banheiros públicos da praça, hoje fechados. Um garoto de bermuda e sem camisa anda depressa perto da rua Vieira de Carvalho, onde ficam bares frequentados pela comunidade LGBT.

O único lugar tranquilo é o coreto, onde cerca de 15 pessoas dormem. A base da Polícia Militar está virada para a avenida Ipiranga, mas os policiais não parecem preocupados com o que acontece em volta. O rapaz na porta do cinema pornô me convida para “fazer um sexo gostoso”. Um jovem musculoso, de calça jeans e sem camisa, tenta conversar, mas a cabeça dele está muito longe dali. Em uma madrugada, cerca de 20 pessoas me abordam na República.

Se essa rua não fosse minha

Um dos pioneiros no estudo da relação das pessoas com os espaços públicos foi o urbanista e jornalista norte-americano William H. Whyte. Como membro da Comissão de Planejamento de Nova York, em 1969, Whyte desenvolveu um projeto de observação dos lugares destinados ao convívio na cidade e do uso que se fazia deles, o Street Life Project. Um de seus livros, “The Social Life of Small Urban Spaces” (A Vida Social de Pequenos Espaços Urbanos, em tradução livre), lançado em 1980 e sem edição brasileira, tornou-se obra de referência no estudo da relação das pessoas com os espaços de convivência pública. Morto em 1999, Whyte tinha entre suas crenças conceitos que soam muito atuais, como “o que mais atrai pessoas são outras pessoas”.

Muito atuais porque a ocupação das ruas avançou muito nos últimos anos, em especial a discussão em torno do tema. “Noto uma saudável recuperação do espaço público pelas pessoas. A ocupação das ruas e avenidas representa uma retomada de contato com a arquitetura da cidade, suas praças, recantos e cantos que traz três benéficas consequências”, observa o jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo. “Primeiro, é uma fonte de prazer na escala humana. Segundo, bate de frente com o domínio dos carros, os inimigos das cidades. Terceiro, contribui com a segurança pública - quanto mais olhos a observar as ruas, e quanto mais pernas a ocupá-las, maior a segurança, segundo ensinou Jane Jacobs num clássico do urbanismo, o livro ‘Morte e Vida das Grandes Cidades’”, lista o autor de “A Capital da Vertigem” (Objetiva, 2015), sobre a história de São Paulo entre 1900 e 1954, continuação de “A Capital da Solidão” (Objetiva, 2003), no qual ele havia traçado a história da cidade das origens até o fim do século 19.

4h10 um pequeno grupo começa a se reunir na entrada principal do metrô na Praça da República, em frente ao Edifício Esther. Há meninos e meninas de skate, gente pronta para ir trabalhar e gente voltando do trabalho. É o principal sinal de que a noite está acabando, e primeiro momento da madrugada no qual a Praça parece de fato segura. Faltam ainda trinta minutos para a operação do Metrô começar. Eles abrem quinze minutos antes para que as pessoas possam esperar dentro da estação. Isso porque, segundo um dos seguranças, a praça é um lugar muito perigoso durante a madrugada...

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