Mulheres no front

Quem são as garotas que lutam para ser, oficialmente, as primeiras combatentes e generais do Exército

PUBLICIDADE 5

A primeira mulher a lutar pelo Brasil precisou se disfarçar de homem.

“Maria Quitéria era baiana arretada”, brinca a primeiro-tenente Paola de Carvalho Andrade, 38. “Durante a Guerra da Independência, em 1823, ela fugiu de casa, cortou os cabelos e se alistou no Exército como soldado Medeiros. Descobriram o disfarce duas semanas depois, mas ela ficou e foi a primeira mulher a ser combatente do Exército. Mas porque era boa, disciplinada. Entenderam?”, completou a primeiro-tenente.

A oficial manda o “bizu” - gíria militar para “dica” -, numa conversa informal com quatro alunas da EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército), em Campinas (SP). Quase 200 anos depois da saga de Maria Quitéria, as soldados Cecília, Cíntia, Beatriz e Andrea escutam o relato sentadas com as costas eretas, uma postura adquirida em menos de dois meses de vida militar. Elas tentam ficar sérias perante a oficial, mas os sorrisos e brilho nos olhos entregam o orgulho que elas sentem de Maria Quitéria e, por que não, delas mesmas.

As quatro jovens estão entre as primeiras 40 mulheres que terão a chance de se tornar, oficialmente, combatentes do Exército. Se Maria Quitéria precisou fingir que era homem, essas meninas precisaram se destacar para conseguir uma vaga na EsPCEx, única porta de entrada da linha bélica. E daqui a 30 ou 35 anos poderão chegar à patente de general, a mais alta da corporação e que, até 2017, era uma ambição reservada aos homens.
 

De acordo com o Ministério da Defesa, o Exército brasileiro tem mais de 222 mil pessoas em seu contingente. As mulheres, que atualmente ocupam cargos administrativos e de saúde, correspondem a 4,32% - são 9.600 mil soldados do sexo feminino. A corporação acredita que a parcela feminina deve aumentar com a implantação da lei 12.705, de agosto de 2012, assinada pela ex-presidente Dilma Rousseff, que permite a presença de mulheres na linha bélica.

Mas será que vale a pena para uma nova geração de mulheres lutar para crescer numa instituição idealizada pelos e para os homens, ainda mais num momento marcado por uma nova onda feminista, com mais reivindicações de igualdade? “A mulher tem que conquistar cada vez mais espaço em ambientes masculinos. Deixá-la entrar no Exército é quebrar estereótipos ligados ao gênero”, explica Rosana Schwartz, coordenadora do Núcleo de Gênero, Etnia e Raça da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo.
 

O comandante e diretor de ensino da EsPCEx, coronel Gustavo Henrique Dutra de Menezes, admite que o Exército demorou para abrir a linha bélica para as mulheres. Essa área, segundo ele, sempre foi vista como masculina. “Porém, assim que elas mostraram interesse, a corporação respondeu muito rapidamente”, afirma.

Neste ano, 29,7 mil pessoas se inscreveram para rastejar na lama, dormir pouco, ter horários apertados, limpar coturnos. É, sem dúvida, uma carreira que significa trabalho pesado. Por que há, então, tanta gente interessada?

Estabilidade de renda, de acordo com levantamento socioeconômico da EsPCEx, não é a principal razão. A remuneração de soldado, que é de R$ 956, e a de aspirante a oficial (por volta de R$ 6.268, patente que a turma assumirá após cinco anos de formação) foram apontadas como motivação de 7% dos inscritos no processo seletivo. Já 88% disseram que queriam viver de farda por pura e simples vocação. “A farda, a carreira militar, criam todo um imaginário”, explica Rosana Schwartz.

Mudança de hábito

A multidão de alunos fardados não tem gênero. O uniforme não tem corte diferente. O coturno é o mesmo usado por alunos do ano anterior. É curioso ver como os rostos, femininos ou masculinos, somem embaixo da boina e da farda. Eles se tornam números de guerra e sobrenomes. O que denuncia a presença de mulheres são os coques de cabelo, percebidos quando elas se viram de lado.

As alunas não têm um pelotão ou companhia própria. Elas estão divididas entre as três companhias existentes: Águia, Leão e Pantera. Quando estão em formação, costumam ficar na parte de trás por serem as mais baixas. Alunas mais altas, no entanto, se misturam ao longo das fileiras.

“É aqui que eles entendem como tudo no Exército funciona, então preciso ser um pouco mais exigente”, diz a primeiro-tenente Paola Andrade, que faz alguns soldados, ainda não habituados com a hierarquia, a voltar e prestar continência. Ela foi uma das três oficiais designadas a ajudar a escola a se preparar para a chegada das mulheres.

A oficial não dispensa "clicadas" (termo para “bronca”) enquanto Cecília, Cíntia, Andrea e Beatriz se preparam para as fotos do TAB. "E esse coturno? Você engraxou?" "Sim, senhora, mas hoje tivemos aula tática no campo..." "Sei. Vá engraxar novamente." Ela fala, mas sorri.

Paola Andrade participou do processo de adequação da estrutura, logística e regulamento da instituição em Campinas (SP) para receber as mulheres. Foram necessários cinco anos para fazer todas as modificações. O estabelecimento, que existe há 76 anos, transformou a Ala de Preparo Físico no alojamento feminino. Enquanto os homens dormem na área de sua respectiva companhia, todas as mulheres passam a noite no mesmo espaço. “Antes eu podia entrar em qualquer área da escola, a hora que eu quisesse. Agora não mais”, afirma o comandante Dutra.

Para evitar situações inadequadas, foi criado um protocolo: quando um homem de patente alta precisa entrar no alojamento feminino, é necessário tocar três vezes uma campainha que fica no acesso ao local e esperar durante três minutos. Depois, ele vira uma placa com o aviso: “Área em Visitação”. Já os alunos não têm nenhum acesso ao dormitório.

À primeira vista, o quarto feminino é apenas mais um espaço militar. As camas estão meticulosamente organizadas, com os lençóis esticados por elásticos. Os armários estão fechados e não há nenhum item pessoal fora. A visão muda, no entanto, quando elas abrem o móvel. Itens de maquiagem, sapatos coloridos, gelatina para cabelo (“para manter os fios bem esticados no coque”) e outros produtos de cuidados pessoais ficam à mostra. É quando percebemos que há mulheres vivendo ali.
 

CORPO A CORPO

O toalete feminino também é cheio de particularidades. Os chuveiros, sem divisão na parte dos homens, ganharam cabines para as soldados terem mais privacidade. Não parou por aí. Ao lado dos vasos sanitários, foram instalados chuveirinhos. “Para evitar infecções urinárias e atender outras necessidades do corpo feminino”, explica Paola Andrade.

De acordo com Rosana Schwartz, colocar cabines no banheiro foi muito positivo, apesar de algumas pessoas terem torcido o nariz sob o argumento de que seria “frescura” ou que estivessem reproduzindo estereótipos de gênero. “A mulher é construída socialmente para guardar seu corpo. Mostrá-lo é uma liberdade excessiva”, explica a socióloga. “Isso mostra que a corporação estava pensando na mulher. A instituição simplesmente não construiu um banheiro sob a ótica masculina, mas pensou na necessidade feminina”, completa.

As diferenças entre homens e mulheres também foram levadas em conta na hora de montar o treinamento físico. Elas fazem os mesmos exercícios que os cadetes masculinos, porém as atividades sofrem algumas adaptações para acompanhar o rendimento feminino.

“Tivemos a ajuda do IPCFEx [Instituto de Pesquisa de Capacitação Física do Exército] para chegar aos melhores índices de isonomia”, explica o comandante Dutra. “Seria injusto colocarmos metas excessivamente difíceis para uns e fáceis para outros. Por isso, houve um estudo para definirmos o que seria exigido para os homens e mulheres”, completa. Por exemplo: ao término de um ano na EsPCEx, para ganhar uma nota 10, um homem terá que fazer 14 barras, enquanto as mulheres deverão fazer cinco.

A carga de exigência diferenciada começou no exame de admissão: as mulheres tiveram que correr 1.950 metros em 12 minutos (os candidatos homens correram 2.300 metros), fazer 37 abdominais em cinco minutos (contra 39, dos rapazes) e oito flexões de braço - os homens tiveram que fazer 19 flexões.

Na prática, o papel da mulher, mesmo como combatente, ainda tem algumas restrições. As alunas poderão atuar apenas em Serviços de Intendência, que trabalham voltados à organização de mantimentos e uniformes dos combatentes, e no Quadro de Material Bélico, que lida com a logística dos armamentos em um possível teatro de guerra. As principais armas - infantaria, cavalaria e artilharia -, estão fora do alcance delas. Ou seja, elas estão na linha bélica, são consideradas combatentes, mas não podem, ainda, pegar em armas.

De acordo com o comandante Dutra, essas áreas exigem mais vigor físico e eles ainda não sabem se o corpo da mulher consegue suportar a carga. “As mudanças precisam ser feitas de maneira ordenada. Então temos que ver com o tempo como vai ser, mas eu, Dutra, acredito que em 10 anos a mulher estará abrindo este espaço [na infantaria, cavalaria e artilharia]”, esclarece. “A mulher no Exército existe há muito tempo, mas tem certas peculiaridades que a gente precisa aos poucos ir verificando”, completa.

Outros países mais militarizados também têm os mesmos “preconceitos”. Nos EUA, as mulheres são 16,3% das tropas ativas e podem ser combatentes, mas raramente vão ao front. No Reino Unido, elas representam 10% do contingente do Exército, mas 20% dos cargos são vetados a elas.

Em Israel, onde o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres, a parcela feminina é dispensada após se casar ou ter filhos. Caso continue na carreira, as soldados não podem dirigir tanques de guerra. A justificativa é que elas não têm as “características fisiológicas” necessárias. Entre os vizinhos sul-americanos, mulheres só podem ser combatentes em dois países: Chile e Uruguai. Neste último, as militares têm patentes de oficialato superior em todas as forças.
 

Sim, senhora

O estereótipo militar dá a entender que não há espaço para namoros e preocupações mundanas no dia a dia das alunas. Relacionamento, no entanto, ainda é uma pauta importante e atividade liberada dentro da EsPCEx, mas com ressalvas: alunos podem ter relações amorosas, mas sem nenhum tipo de demonstração de afeto dentro da escola. Aperto de mão e continência são as únicas formas de cumprimento permitidas. Ainda assim, Cíntia namora um ex-aluno que, atualmente, está na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras). Andrea Araki, 21, conta que alunos homens às vezes flertam com elas, mas são respeitosos.

Funk e sertanejo também têm espaço no alojamento: “A gente ouve para lavar o banheiro”, explica Maria Cecília da Silva Pereira, 17. Segundo Beatriz Gutierres, 18, os artistas do momento dentro do dormitório são as sertanejas Maiara e Maraisa e Marília Mendonça, as cantoras queridinhas das feministas da escola.

A própria Maria Cecília diz que pensou em entrar no Exército aos 15 anos, quando percebeu que tinha vocação e a possibilidade de participar de algo grande como parte da primeira turma de mulheres combatentes. Porém, quando o TAB pergunta se é feminista, ela olha diretamente para a primeiro tenente Paola, pedindo permissão. “Fala o que você acha, soldado”, responde a oficial.

O trabalho da tenente Paola Andrade, no entanto, não é só acompanhar as mulheres. A baiana de Buerarema é responsável por instruir todos os alunos e fala assertivamente com os rapazes que passam por ela. “Não tenho que falar grosso. Falo normalmente, e eles respondem ‘sim, senhora’”, afirma.

A aluna Beatriz também não acha que precisa mudar a própria voz, baixa e calma, quando fala com seus colegas. “Mas falo mais grosso quando tenho que comandar”, diz. Já a oficial Carla Beatriz, 51, admite certa dificuldade em ver homens mais velhos e com carreira mais longa dirigindo-se a ela como “senhora”. “Tive problemas em dar ordens para eles”, afirma. Ela é uma das mulheres que conquistaram o cargo mais alto entre as soldados do sexo feminino: o de tenente-coronel.

Se Carla Beatriz admitiu alguns apertos, Paola Andrade aponta o respeito pela patente e a hierarquia rígida do Exército como um trunfo da igualdade de gênero dentro da corporação. “A minha patente me garante. Eu posso ser tenente em qualquer área, mas continuarei ganhando o mesmo que um tenente homem”, explica.

Fora do quartel, muita gente acredita que a hierarquia e a disciplina trabalham, na verdade, contra a igualdade entre gêneros e que entrar em uma corporação vista como “conservadora” seria um retrocesso para a mulher. A socióloga Rosana Schwartz discorda. “É crucial para mostrar que as mulheres têm as mesmas capacidades dos homens para serem combatentes”, fala. “Vestir a farda passa uma imagem que remete à força, à capacidade, a uma função de prestígio.”

O fascínio pelo respeito militar apontado pela socióloga foi o que motivou Carla Beatriz a entrar no Exército. Ela estava entre as 49 mulheres que formaram a primeira turma a ingressar na corporação, em 1992, pela Escola de Administração de Salvador (BA). “Como ia ser a primeira turma [de mulheres], sabia que haveria obstáculos. Ao mesmo tempo, essa superação ia me engrandecer, tanto como profissional quanto pessoalmente”, afirma. Em 2015, Carla Beatriz e Paola Andrade foram para o Haiti com a Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti).

“É importante que todas elas estejam livres para as mulheres. Não pode haver mais ambientes exclusivos para um gênero”, afirma Carla Beatriz. “Seguir em frente na linha bélica tem a ver com motivação, vocação. Não genes ou biologia”, completa a tenente-coronel.

Curtiu? Compartilhe.

Topo