Viúvas da guerra

A vida das iraquianas que carregam no nome a ligação com o Estado Islâmico

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Noor Fatih, 28, sorri quando começa a falar do marido, um ex-soldado do exército iraquiano com quem se casou em 2008. Uma das filhas do casal, Aya, 2, senta no colo da mãe para ouvir a história. Noor olha para ela com carinho. A filha mostra, feliz, seu coelhinho de pelúcia para as visitas. A conversa com o TAB acontece na sala da casa que Noor e seus filhos dividem com outras duas famílias em Mossul, no Iraque, cidade que foi controlada pelo Estado Islâmico por quase três anos.

As forças de coalizão, lideradas pelos Estados Unidos, e o exército iraquiano derrotaram o grupo extremista na região em julho de 2017, após uma batalha de nove meses. Ahmed, o marido de Noor, tomou parte no confronto, mas não ao lado dos vencedores.

“Ele já tinha saído do exército quando o Estado Islâmico chegou”, conta Noor. “A Al Qaeda, que já estava no Iraque, começou a perseguir os militares e policiais, e meu marido achou melhor dar baixa do exército para não sofrer represálias”, completa. Em 2007, Ahmed tornou-se uma espécie de faz-tudo: consertava chuveiros quebrados e ajudava a carregar mercadorias na feira, por exemplo. “Era difícil, ele ganhava pouco, mas era um bom pai e marido”, diz Noor.

ONDE ESTÁ AHMED?

Em 2014, quando o Estado Islâmico assumiu o controle de Mossul e a declarou capital de seu autoproclamado califado, a vida de Noor e de outras famílias sofreu mais uma reviravolta. Ela conta que os jihadistas ofereceram US$ 200 por mês a Ahmed para que ele trabalhasse como um dos seguranças do grupo e, em caso de guerra, pegasse em armas. Em uma região com alto índice de desemprego e a economia em queda, não faltava gente interessada nesse tipo de proposta. Ahmed aceitou. O casal tinha quatro filhos à época. “Aqui as mulheres não trabalham, então foi um jeito de sustentar a casa”, diz Noor.

A guerra acabou, mas Ahmed está desaparecido há quase um ano. O último contato que teve com Noor foi em 5 de junho de 2017. Ahmed deu um jeito de ligar para ela. E como foi a conversa? Noor olha para baixo e começa a chorar baixinho. Ela ouviu sons de tiros e muito barulho nos poucos minutos em que se falaram. Conseguiu entender apenas que Ahmed estava na Cidade Antiga, a parte histórica de Mossul, cheia de becos e vielas da Idade Média, mais atingida pelos confrontos. “Ele deve estar morto”, afirma.

Além dos cinco filhos, Noor mora hoje com a cunhada, também viúva, o sogro e outra família — todos parentes —, em um bairro de Mossul que está se tornando reduto das chamadas famílias do Estado Islâmico. Ali, as mulheres – em sua maioria viúvas – e crianças não são tão incomodadas. Uma foi puxando a outra e hoje mais de cem famílias de militantes do Estado Islâmico moram próximas. “Aqui, temos um pouco mais de paz”, diz Nada Mutar, 29, cunhada de Noor. Quando se conheceram, há dez anos, ficaram amigas. “A gente se apoia, uma toma conta do filho da outra”, completa Nada.

OLHO POR OLHO

Nas cidades menores, em que o poder dos chefes tribais dá as cartas, a situação é mais difícil. Em Al Baaj, a 130 quilômetros de Mossul, as autoridades locais proibiram o retorno das viúvas e crianças que tenham alguma conexão com homens recrutados pelo Estado Islâmico. “Essa decisão é apenas mais uma evidência da punição coletiva que todos que tiveram algum tipo de relacionamento com alguém suspeito de ter feito parte do Estado Islâmico estão sofrendo”, diz Lama Fakih, diretora da ONG (Organização Não Governamental) Human Rights Watch no Oriente Médio.

O trauma da guerra e do regime de terror imposto pelos jihadistas também é grande. Para muita gente, o babilônico código do rei Hamurabi voltou — vale o olho por olho, dente por dente. Não há estatísticas oficiais, mas calcula-se entre 10 mil e 40 mil civis perderam a vida durante a batalha. Mulheres também tiveram que entrar no exército terrorista, e integrantes de minorias no Iraque e na Síria foram vítimas de rapto de estupro em massa. O caso mais extremo foi o mercado de escravas sexuais criado com as yazidis. Além disso, cerca de 60 mil casas em Mossul foram destruídas, segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas) e 1 milhão de pessoas deixaram a cidade para escapar do horror.

A destruição causada pela guerra ainda é visível. Restam centenas de corpos sob os escombros e vários bairros ainda não contam com serviços de energia elétrica e abastecimento de água. “Trata-se do pior conflito armado em zona urbana desde a Segunda Guerra Mundial”, diz Lise Grande, coordenadora do programa de reconstrução da ONU no Iraque à época da libertação da cidade. “As mulheres e crianças são as que mais sofrem, como em qualquer guerra, já que os homens vão lutar e as famílias sofrem as consequências”, completa.

HERANÇA EXTREMISTA

Para as famílias que têm seus nomes ligados aos extremistas, a situação é pior ainda. “Quase não vou mais ao mercado porque é humilhante, as pessoas nos olham como se fôssemos lixo e dizem que somos terroristas”, diz Nada. “Somos tratadas como se não tivéssemos os mesmos direitos que as outras pessoas porque nossos maridos escolheram entrar para o Estado Islâmico”, completa. Ela se casou ainda adolescente, aos 16, como muitas outras mulheres da região. Mesmo coberta com um véu preto, sem maquiagem e qualquer adereço, como é o costume local, sua beleza chama a atenção. Ela conta que recebeu cinco propostas de casamento antes de aceitar se unir a seu marido, Khaled.

No Iraque, como em outros países do Oriente Médio muçulmano, a família do noivo oferece um dote para a noiva – o valor pode chegar a US$ 70 mil, conforme a condição social, a idade e aparência da moça. O acerto precisa da aprovação dos pais. O namoro não existe. Uma vez firmado o compromisso, parte-se para o casamento. As mulheres não têm direito à herança nem a tomar decisões na família, que são responsabilidade do marido. “Em muitas famílias, a mulher precisa consultar o cônjuge até para comprar uma roupa ou sair de casa para ir ao mercado”, diz Layla Saleh, arqueóloga de Mossul, que preferiu não se casar para manter sua independência. “É preciso ser forte para criar os filhos sem a presença masculina e tocar a vida em frente com alguma alegria”, afirma.

Na falta do marido, o guardião passa a ser o pai ou algum parente. O pai de Nada, aposentado, aceitou se responsabilizar pela família da filha e de Noor. “Ainda bem que ele entendeu a situação e não nos recriminou porque o genro aderiu ao grupo terrorista, como fizeram outras famílias”, diz Nada.

Mesmo assim, a vida não é fácil. Noor ainda não conseguiu tirar a carteira de identidade dos dois filhos menores, de três e dois anos, que nasceram durante a ocupação do Estado Islâmico, quando todos os serviços públicos oficiais foram suspensos. “Não dão os documentos porque somos viúvas de militantes do Estado Islâmico”, diz Noor. Sem a identidade, ela não pode matricular as crianças na escola. Mas não está nos planos de Noor desistir. Ela continua insistindo para obter o documento das crianças nos postos do governo. E se não conseguir? “Meu maior sonho é ver todos os meus filhos estudando e ter uma casa própria”, afirma. Se não puder colocar os filhos na escola em Mossul, ela pretende se mudar para o vilarejo em que nasceu, perto dali, onde acredita que teria uma acolhida mais positiva.

FORÇA DAS MULHERES

Outra viúva do Estado Islâmico mora a duas quadras de Noor. Não é preciso olhar para atravessar a rua. Há pouco movimento nesse bairro tranquilo, de casas de classe média baixa, bem diferente da maior parte da cidade, em que carros buzinam sem parar, cafés e restaurantes voltam a atrair fregueses e a universidade organiza vários eventos como feiras de artesanato, festivais e rodas de leitura. “É uma vantagem não ter muita gente circulando aqui, assim não somos vistas”, diz Noaf Manaf, 32.

Casada aos 15, ela tem oito filhos e nenhum – ou quase nenhum – dinheiro para sustentá-los. Para dividir as despesas e não se sentir tão sozinha, Noaf decidiu morar com outras duas viúvas e seus filhos na casa de uma delas, onde tem espaço para todo mundo. Elas se ajudam. Todas viveram histórias parecidas. O marido de uma avisou que estava se juntando ao Estado Islâmico e partiu, sem mais explicações. Outra diz que prefere ver o homem morto a aceitá-lo de volta depois que ele se tornou jihadista (o termo "jihadismo" foi criado por acadêmicos ocidentais para classificar adeptos da chamada "guerra santa muçulmana").

Noaf conta que recebeu uma ligação de uma ONG avisando que seu marido, que é do Estado Islâmico, está preso em Bagdá. No sistema judicial iraquiano, réus acusados de terrorismo podem ser presos sumariamente e correm o risco de aguardar o julgamento sem que a família seja comunicada de seu paradeiro. A pena pode variar de décadas de prisão à morte por enforcamento.

Ela estava grávida quando a guerra em Mossul acabou. “Ele dava um jeito de me ver aqui, mas estava estranho, quase não o reconhecia mais”, diz. Por enquanto, ela conta com a ajuda de um primo. “Sigo em frente porque tenho filhos para criar e eles precisam de mim”, completa.

LUTA SEM FIM

Sem fazer alarde, algumas mulheres agora querem escrever um outro roteiro. Roa Ahmed, 29, estuda religião islâmica na Universidade de Mossul, que era considerada uma das melhores do Oriente Médio até a invasão do Estado Islâmico. Quase todas as aulas foram suspensas durante a ocupação do grupo terrorista. A universidade foi reaberta em outubro de 2017. Roa agora anda pelos corredores da faculdade feliz da vida. Ela se forma em 2019. “Aí, vou poder dar aulas em escolas e minha situação vai melhorar muito”, afirma.

No Iraque, as mulheres compõem menos de 20% da força de trabalho e apenas 13% delas têm um diploma universitário, segundo dados da ONU. Para Roa, o diploma vale ouro. Seu marido morreu em 2017, quando resolveu sair de casa, durante a guerra pela expulsão dos terroristas, para pegar leite com um vizinho. As crianças choravam de fome. Quando colocou os pés para fora, um morteiro acertou a rua. O marido de Roa morreu na hora. O casal tinha cinco filhos. No Iraque e outros países da região, são raras as famílias pequenas, já que um dos deveres femininos é procriar.

“Pretendo ensinar islamismo em uma escola privada, porque aí vou poder ganhar um salário digno e sustentar minha família”, diz Roa. O discurso dela é forte, mas o tom é bem-humorado. Roa tem duas filhas e dois filhos gêmeos, uma coincidência pouco comum, que ela acha engraçada. “Olha que coisa, e ainda visto os gêmeos igual”, diz, dando risada. Por enquanto, ela mora em uma casa simples nos fundos de uma mesquita, que abriga uma dezena de mulheres na mesma condição. O pai dela ajuda nas despesas. Os professores da universidade deram os móveis. Os amigos fizeram uma vaquinha para comprar uma geladeira de segunda mão. “Hoje, não tenho todos os bens que tinha antes, mas me sinto até mais livre”, diz. “Vejo uma luz brilhando no caminho, e vou continuar lutando”.

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