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Por que a cannabis tem sido considerada item essencial durante pandemia

O cultivo da cannabis e a produção de medicamentos da Abrace, em João Pessoa (PB), não pararam durante a pandemia  - Cesar Matos/Divulgação
O cultivo da cannabis e a produção de medicamentos da Abrace, em João Pessoa (PB), não pararam durante a pandemia
Imagem: Cesar Matos/Divulgação

Tiago Dias

Do TAB

17/05/2020 04h00

Há um grande debate em torno do que é serviço essencial no momento em que apenas o isolamento da maior parte da população pode frear o avanço do novo coronavírus. Enquanto no Brasil ainda se discute se salões de beleza e academias devem ou não abrir as portas, em alguns países o comércio de cannabis manteve as suas abertas, assim como padarias, farmácias e supermercados.

Mais de uma dúzia de estados norte-americanos concordaram que estabelecimentos que vendem cannabis e dispensários de maconha medicinal não podem parar — mostrando que, em um momento excepcional e inédito como esse, ela pode ser tão necessária quanto pão, remédios e papel higiênico.

Na Califórnia foi registrado um aumento de mais de 150% na comercialização de cannabis, ainda em março — um número puxado principalmente por mulheres e jovens da geração Z, de acordo com um levantamento do Headset, empresa americana de pesquisa na área, citado em reportagem do jornal The New York Times. Para evitar aglomerações, estados americanos como Massachusetts, Michigan e Illinois regulam serviços de entrega em casa.

Na Holanda, onde a cultura em torno da planta é outra, os coffee shops inicialmente fecharam as portas por serem considerados espaços de sociabilização. Com medo que o tráfico de drogas entrasse no jogo, e de olho na demanda crescente por maconha durante a quarentena, o governo voltou atrás.

No início de abril, consumidores fizeram fila nas lojas de Cannabis em Toronto, no Canadá - Steve Russell/Toronto Star via Getty Images - Steve Russell/Toronto Star via Getty Images
No início de abril, consumidores fizeram fila nas lojas de Cannabis em Toronto, no Canadá
Imagem: Steve Russell/Toronto Star via Getty Images

Com a dívida nas alturas, o Líbano encontrou uma forma de movimentar a economia do país: liberar o cultivo de maconha para fins medicinais e industriais. Para Renato Filev, pesquisador do Cebrid (Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas), o viés econômico certamente ajudou a maconha a ganhar esse status durante a pandemia.

"Existem cerca de 200 milhões de pessoas no mundo que fazem o uso de maconha, o que corresponde a uma população do tamanho do Brasil", observa. "A cannabis é um produto essencial, independentemente do confinamento. Caso não fosse, não haveria um mercado ilegal paralelo, bilionário, que se mantém mesmo às custas de toda uma política internacional que visa combater esse tipo de prática."

Na outra ponta, o farmacêutico Murilo Chaves Gouvêa, responsável pelos produtos medicinais feitos à base de cannabis no Brasil, afirma que, pela demanda constante em relação a pedidos de medicamentos, "está mais do que claro que os estabelecimentos de cannabis são serviços essenciais".

Gouvêa é responsável pelo desenvolvimento dos medicamentos na Abrace (Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança), primeira e ainda única instituição do Brasil autorizada pela Justiça a cultivar maconha para fins medicinais. Há alguns meses, uma empresa privada tinha obtido autorização para o cultivo, mas a liminar caiu em meio à pandemia, antes mesmo do início das atividades.

Com estufas e laboratório instalados em João Pessoa (PB), a Abrace tem se adaptado às circunstâncias para manter a produção. Foram instituídas escalas de trabalho, regime de home office e uso obrigatório de máscaras. "Muitos dos pacientes que se beneficiam dos medicamentos possuem patologias crônicas que precisam de tratamento contínuo", observa Gouvêa.

Numa outra chave, o Brasil entendeu a cannabis como um serviço essencial.

O comércio da Cannabis em muitos estados americanos está na lista de serviços essenciais. Na Abrace, em João Pessoa, o cultivo e a produção de medicamento não parou com a pandemia - Cesar Matos/Divulgação - Cesar Matos/Divulgação
Na Abrace, em João Pessoa, o cultivo e a produção de medicamento não pararam com a pandemia
Imagem: Cesar Matos/Divulgação

Onde o cultivo não pode parar

Se fechasse as portas durante a quarentena, a Abrace deixaria 4,6 mil pacientes sem o alívio e o auxílio necessários para o tratamento de doenças e enfermidades como Parkinson, Alzheimer, psoríase, epilepsia refratária e síndrome de Tourette — além do auxílio no tratamento de alguns tipos de câncer e doenças raras. Para ter acesso a esses produtos, os pacientes precisam de uma receita auditada.

Além do aumento na procura pelos medicamentos, a pandemia trouxe à Abrace muitos pesquisadores de olho em como a cannabis pode contribuir na batalha contra o novo coronavírus. A associação não participa do estudo, mas fornece os insumos necessários para os testes. Atualmente, são quatro pesquisas com foco na Covid-19 aguardando certificação do comitê de ética.

Cauteloso em revelar detalhes da pesquisa, Gouvêa não esconde a animação com a movimentação de uma em particular, prestes a começar os trabalhos. "É um estudo com grande potencial, reflexo de uma visão promissora para os tratamentos relacionados à planta."

E há muitas pesquisas do gênero em desenvolvimento no mundo todo. No Canadá, um estudo apontou que há princípios ativos da maconha capazes de proteger as células do corpo humano contra o novo coronavírus.

Clientes respeitam a distância social no coffee shop Yanks, em Zandvoort, na Holanda - Helene Wiesenhaan/BSR Agency/Getty Images - Helene Wiesenhaan/BSR Agency/Getty Images
Clientes respeitam a distância social no coffee shop Yanks, em Zandvoort, na Holanda
Imagem: Helene Wiesenhaan/BSR Agency/Getty Images

Maconha sim, álcool não?

A ansiedade provocada pelo confinamento talvez seja um dos fatores que tenha levado os norte-americanos a usar mais maconha na quarentena. Segundo pesquisa da USC (Universidade do Sul da Califórnia), 42% das pessoas que já faziam uso adulto (sem fins medicinais e terapêuticos) dela disseram que têm consumido mais maconha no período.

"A prática do uso de cannabis interfere em uma série de questões que podem ser consideradas adjuvantes para diversas terapias e enfermidades, mas também em alterações no apetite, a indução do sono, a mudança do humor, a mudança do bem estar", observa Renato Filev, que pesquisa o uso da cannabis na área de psiquiatria e neurologia desde 2008. "Além disso, ele é menos nocivo que o uso do álcool."

O álcool, ainda que legalizado, é apontado como vilão durante o confinamento. A OMS (Organização Mundial de Saúde) pediu que governos limitem a venda de bebidas alcoólicas por entender que seu consumo excessivo pode prejudicar a saúde física e mental, além de elevar o risco de violência doméstica. Nesta semana, o governo do Piauí foi o primeiro a instaurar uma espécie de lei seca durante a pandemia, coibindo o consumo de bebidas alcoólicas em locais públicos.

O psiquiatra e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Luís Fernando Tófoli encabeça, junto com outros pesquisadores, um amplo levantamento sobre o uso de drogas durante a pandemia no Brasil, e observa que o consumo de qualquer uma das substâncias requer cuidado.

"Se isso não levar a pessoa a correr riscos de saúde — como problemas respiratórios ou abuso — não vejo maiores problemas. Mas a grande questão aqui é traçar o limite. Vista a questão pelo outro lado, pode ser que alguém que esteja já algum tempo percebendo seu relacionamento problemático com a erva, use o período de isolamento para tentar redução ou abstinência", diz Tófoli.

Segundo o farmacêutico da Abrace, o uso da cannabis em si não traz complicações pulmonares. O problema está na carburação de outro composto durante o consumo, como papéis e sedas. "No caso medicinal, recomenda-se o uso do vaporizador, para o uso inalado, ou outra forma de via aérea", observa.

Murilo Chaves Gouvêa, farmacêutico responsável pelo desenvolvimento dos produtos da Abrace, no único lugar no Brasil onde o cultivo de maconha é autorizado - Cesar Matos/Divulgação - Cesar Matos/Divulgação
Murilo Chaves Gouvêa, farmacêutico responsável pelo desenvolvimento dos produtos da Abrace, único lugar no Brasil onde o cultivo de maconha é permitido
Imagem: Cesar Matos/Divulgação

Substância ilícita mais consumida no Brasil

De origem e qualidade questionáveis, a maconha é a substância ilícita mais consumida no Brasil. De acordo com uma pesquisa de 2017 sobre o uso de drogas pela população brasileira, coordenada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já usaram cannabis ao menos uma vez na vida, enquanto 1,5% disseram ter feito o consumo nos últimos 30 dias.

"É difícil a gente precisar o que o Brasil consome. A gente sabe que a maconha paraguaia, plantada no mesmo lote, pode chegar com dois aspectos diferentes ao consumidor. Existe todo um trajeto que ela tem que percorrer, e que, mal acondicionada, pode sofrer transformações, apodrecer no meio do caminho. Como é ilícito, as pessoas acabam consumindo produtos fora da validade", observa Filev.

Ele acredita que o boom no consumo em todo o mundo, durante a quarentena, talvez ajude o Brasil a pensar melhor a questão. "A Covid-19, hora ou outra, vai passar. E a gente vai ter de estar disposto a retomar todo esse debate", diz. No campo do uso medicinal, a própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que até 13 milhões de brasileiros podem se beneficiar da maconha medicinal.

De olho num futuro promissor, a Abrace prepara mais duas estufas de 500 m² para ampliar a produção. "Essa área vai expandir bastante, muito mais coisas virão pela frente depois disso", diz Gouvêa, da Abrace.