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'Não sabemos quem é o vilão', diz representante de tanqueiros parados no RJ

Sandro Gonçalves, que participou da paralisação em Duque de Caxias (RJ) Imagem: Daniele Dutra/UOL

Daniele Dutra

Colaboração para o TAB, de Duque de Caxias (RJ)

21/10/2021 20h12

A manifestação silenciosa dos tanqueiros no Rio de Janeiro começou à 0h da madrugada de quinta-feira (21) e continua sem previsão de acabar. Com motores desligados e pouquíssimo movimento, 2 quilômetros de caminhões enfileirados lotavam a rua presidente Antônio Carlos, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

A rua do bairro de Campos Elíseos repleta de distribuidoras tornou-se um grande pátio de caminhões-tanque até o meio da tarde. Alguns motoristas dormiam dentro de seus carros com as cortinas fechadas. Outros conversavam em pequenos grupos. À esquerda, faixas com dizeres "Queremos redução dos combustíveis" e "Sem combustível o Rio para" estampavam a cerca onde ficam as empresas distribuidoras de gasolina e diesel.

Sandro Gonçalves, 46, é morador de Duque de Caxias e presidente da Associtanque (Associação das Empresas Transportadoras de Combustíveis e Derivados de Petróleo do Rio) desde 2012. Com a alta no preço do gás de cozinha, do diesel e da gasolina, a conta não tem como fechar. Para ele, a população solicitou essa manifestação.

Imagem: Daniele Dutra/UOL

"As pessoas nos procuram, perguntam, não entendem o motivo de tudo ter aumentado tanto. A gente precisa entender por que essa conta é tão alta, sendo que as grandes empresas estão aqui de pé", disse ele ao TAB, na calçada da rua.

Sandro, que é dono de uma transportadora, afirmou que não há previsão de desocupar o local. "Estamos aguardando uma posição do governo estadual, federal e uma resposta das distribuidoras. Não sabemos quem é o vilão disso tudo, é isso que queremos entender", disse o presidente.

O aumento do diesel nas bombas representa uma alta de mais de 32,9% acumulada no ano, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo). O litro já passa de R$ 4,80. O gás de cozinha atingiu a marca dos três dígitos e a gasolina chega a R$ 7 em alguns estados do Brasil.

O representante dos caminhoneiros explica que só o gasto com diesel representa 70% do que um caminhão pode faturar. "A gente tá aqui pela luta dos trabalhadores, solicitando a redução dos combustíveis. Como o óleo diesel acompanha o dólar, houve muitos aumentos, mas esses aumentos não acompanharam o valor do frete. Quando aumenta o combustível, tudo aumenta, inclusive as peças, o preço do pneu e tudo que usamos no caminhão."

A associação explica que apenas serviços essenciais, como polícias, bombeiros, ambulâncias e hospitais serão abastecidos.

Segundo o Sindcomb (Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis, Lubrificantes e de Lojas de Conveniência do Município do Rio de Janeiro), como os postos trabalham com estoques reduzidos em função da queda nas vendas a partir da pandemia da covid-19, "poderá haver problemas pontuais de abastecimento no Rio de Janeiro, caso o bloqueio dos caminhoneiros perdure pelas próximas horas".

Há 20 dias, Sandro protocolou um documento no Palácio Guanabara, sede do governo estadual, solicitando uma reunião sobre o que pode ser feito para reduzir o ICMS sobre o combustível, mas até o final da tarde, não tiveram resposta.

Dois carros de polícia foram estacionados dentro do pátio Imagem: Daniele Dutra/UOL
Paralisação dos tanqueiros chegou a mais de 2 km de caminhões enfileirados em Duque de Caxias (RJ) Imagem: Daniele Dutra/UOL

Opiniões divididas

Um grupo de não-caminhoneiros estava acampado em uma tenda para dar apoio aos colegas e reforçava a necessidade das paralisações. "O combustível gira em torno de tudo e tudo fica caro quando ele aumenta. Você acha certo o pacote de arroz custar mais de R$ 20? A carne, mais de R$ 30? Isso é um absurdo", disse um deles, que pediu para não ser identificado.

A alguns metros de distância, quatro caminhoneiros aguardavam o fim das paralisações para voltar ao trabalho: "Queríamos fazer a greve se fosse para aumentar nosso salário, em benefício da gente, mas não é o caso. Isso aqui não vai dar em nada, não. Mesmo que caia 10 centavos, amanhã sobem 15. Essa manifestação está acontecendo no lugar errado, tinha que ser em frente ao Palácio Guanabara", disse Bob Resende à reportagem.

Assim como ele, os colegas também não estavam apoiando os atos de hoje. "Já estamos calejados. A população passou a consumir menos, e nisso a gente passou a trabalhar menos. Antigamente a distribuidora trabalhava com 6, 7 milhões de litros por dia, agora é menos de 1 milhão, bate uns 800 mil. Estamos aqui por causa da associação, mas não acreditamos que vá dar algum resultado", disse um motorista que pediu para não ser identificado, com medo de retaliações.

Elenilson da Costa, 37: o caminhão estava na garagem, mas ele veio de carro pra ver a paralisação Imagem: Daniele Dutra/UOL

'Ter caminhão é caro'

Motorista autônomo há quatro anos, Elenilson da Costa, 37, é morador de Duque de Caxias, caminhoneiro há 15 anos e dono de dois veículos.
Com um dos veículos ele faz as distribuições; outro fica com um colaborador. Ele conta que é a favor das manifestações e acredita que uma queda no valor do combustível pode influenciar outros setores econômicos.

"Ontem conversei com meus clientes e falei que aumentaria o valor do frete. Sei que tá difícil para todo mundo, mas tenho que me manter, porque ter caminhão é caro. O diesel aumentou muito e o frete não acompanhou essa subida de preço, o que nos dá mais despesas do que lucro. Se chegar a um acordo, creio que vá melhorar não só pra mim, mas para toda a população. Se baixar o combustível, tudo baixa", disse ele à reportagem.

Paulo Cézar de Souza, 65 (à esq.), e Luís Carlos de Paula, 47 Imagem: Daniele Dutra/UOL

Mais à frente, dois motoristas do interior do Rio apoiavam a manifestação e estavam esperançosos. "A gente fica entre dois fogos, o patrão mandando a gente trabalhar e o sindicato mandando a gente não trabalhar. Ninguém aguenta esse gás de cozinha alto, gasolina alta, diesel alto. É necessário o país todo parar, não só os tanqueiros, mas os caminhoneiros todos", disse Paulo Cézar de Souza, 65, há 40 anos na estrada.

"O salário não aumenta, mas a gasolina aumenta quase duas vezes por semana. Quem ganha um salário mínimo tá sobrevivendo como? A gente espera que isso dê resultado", disse Luís Carlos de Paula, 47, motorista de caminhão há um ano.

Em frente às distribuidoras, um carro da polícia militar fazia o monitoramento da manifestação, enquanto caminhoneiros passavam, buzinavam e cumprimentavam os colegas paralisados.

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