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Mórmon é demitido por justa causa após ser 'denunciado' como gay por igreja

Denunciado por ser gay, Frederico Rocha foi demitido por justa causa após trabalhar por 37 anos na Igreja dos Santos dos Últimos Dias Imagem: Carine Wallauer/UOL

Do TAB, em São Paulo

24/06/2022 04h01

Era para ser uma reunião de praxe, como acontece a cada dois anos para atualizar a chamada credencial, recomendação que membros e funcionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias precisam para entrar nos templos e desempenhar funções. Mórmon há 43 anos e funcionário da instituição há 37, Frederico Jorge Cardoso Rocha já conhecia as perguntas que atestam a dignidade do fiel frente aos dogmas da igreja:

Você crê em Deus?
Você paga dízimo?
Você frequenta as reuniões da igreja regularmente?
Você é honesto com seu próximo?
Você vive a lei da castidade?

Rocha, como sempre, responderia "sim", mas naquele dia 22 de fevereiro, na sede da igreja no Ipiranga, em São Paulo, o presidente de estaca, líder eclesiástico responsável pela recomendação, não seguiu o roteiro. Segundo ele, a igreja havia recebido uma séria denúncia que colocava em xeque a habilitação do funcionário: Rocha seria homossexual e manteria um relacionamento homoafetivo.

Atônito, ele quis saber quem havia feito a denúncia e que informações de foro íntimo estavam em posse da igreja. Como resposta, ouviu que uma "investigação" seria realizada. Três dias depois, a ex-esposa de Rocha foi procurada por telefone para confirmar a denúncia. Separada de fato (quando o casal não formaliza o divórcio) desde 2014, ela se negou a dar informações e acesso aos três filhos do casal.

A igreja se manteve em silêncio até março, quando, numa nova reunião, a habilitação de Rocha foi oficialmente negada por "violação à lei de castidade". Na conversa, o líder afirmou que homossexuais podem ser aceitos pela igreja, desde que seguisse a lei religiosa, que diz: "Deus ordenou que somente haja relações sexuais no casamento entre um homem e uma mulher. Esse mandamento é chamado de lei da castidade".

Em abril, a investigação interna da igreja chegou a um veredito. Rocha estava sendo demitido por justa causa, sem direito a seguro desemprego. Não conseguiu a "recomendação para o templo".

Os diálogos estão anexados na ação trabalhista que Rocha move contra a igreja. O caso também está sendo tratado no âmbito criminal. Uma representação judicial pede que o Ministério Público do Estado de São Paulo apure se foi praticado crime de homofobia.

Nos últimos dias, a investigação foi encaminhada para a Polícia Civil de São Paulo. "Sofrer uma denúncia diante do seu empregador por ser homossexual é discriminação e o Supremo Tribunal Federal determinou que homofobia é crime", observa o advogado criminalista Eduardo Levy Picchetto, que assina a representação.

Imagem: Carine Wallauer/UOL

'Demorei muitas décadas para me aceitar'

Há dois anos, Rocha mora num apartamento no centro-sul da cidade com seu companheiro e Nico, um cachorro maltês. A atual configuração familiar, ele diz, foi algo inimaginável em grande parte da sua vida. "Os jovens cruzarem a Paulista e flertarem é algo rotineiro. Tenho mais de 60, demorei muitas décadas para me aceitar", afirma.

O entendimento veio à tona após os 50 — e agora o faz enfrentar algo comum a tantos LGBTQIA+. "Sim, estou sofrendo homofobia. Nunca tinha sofrido algo assim, só eu fazendo isso comigo mesmo."

Nas reuniões posteriores com a igreja, o presidente de estaca incentivou: "Se você quiser negar, está tudo resolvido". Rocha confirmou a homossexualidade. "Você quer eu flerte com meu passado. Não posso fazer isso."

Rocha tem olhos claros e uma feição típica de avô bonachão, apesar de não aparentar os 61 anos que tem. O rosto corado, a barba bem aparada e o cabelo mantido por gel indicam um senhor vaidoso e contrastam com o andador que o auxilia na locomoção. Há alguns dias, ele passou por uma cirurgia na região da bacia. Teve complicações: precisou fazer transfusão de sangue e chegou a ser transferido para a UTI.

A cirurgia só foi possível após a juíza substituta Caroline Ferreira Ferrari, da 15ª Vara do Trabalho de São Paulo, determinar a reintegração provisória de Rocha ao trabalho. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias apresentou embargo e uma nova petição; por enquanto, apenas reintegrou o funcionário no plano de saúde.

A revelação religiosa

Rocha nasceu no Recife, em berço católico. Teve contato com os mórmons em uma viagem de intercâmbio em Idaho, nos Estados Unidos, aos 15 anos. Dois anos depois, se iniciava na religião como missionário. "A missão religiosa, no seu cunho de evangelizar, nos aproxima muito das pessoas", conta. "Era muito devoto e atuante, tudo que eu queria era voltar, casar e continuar servindo a igreja."

Imagem: Carine Wallauer/UOL

A família foi criada sob os preceitos mórmons, mas havia dúvidas que as leis divinas não respondiam. "O desejo por alguém do mesmo sexo era algo que vem desde a pré-adolescência, especialmente na minha época, ninguém falava disso. Não me sentia bem a respeito. Não fui atrás, por medo e por preconceito próprio", diz.

Cercado de retratos da família e do namorado na sua casa, ele não considera seu casamento à época uma farsa. "Esse drama de ser igual aos outros mesmo não sendo foi muito complicado. Aquilo era meu guarda-chuva. A minha família foi construída com muito amor." Numa moldura maior, a imagem de um imponente templo no Rio de Janeiro o faz marejar os olhos.

Desde 1985, Rocha cuida de projetos de construção de capelas, trabalho técnico desempenhado à época por engenheiros que não eram membros da igreja, sem a necessidade de termos e credenciais. O inglês afiado no intercâmbio o levou a promoções. Em 1990, mudou-se para São Paulo. Nos últimos anos, era gerente de bens e imóveis de toda a América Latina, peça-chave na expansão física da igreja.

A inauguração do templo na Barra da Tijuca, o oitavo em funcionamento no Brasil, aconteceu em maio, com pompa e presença de lideranças americanas. Rocha já não fazia mais parte do quadro de funcionário.

Restou a imagem da construção pronta. "Eles me perguntaram o que eu queria. Meu desejo é ser reintegrado ao meu trabalho. Para mim, isto é um ato de devoção. É toda minha vida", diz, com a foto do templo na mão e a voz embargada. "Não tenho uma mácula no meu prontuário. Não se trata de uma questão trabalhista, é a vida da gente."

Imagem: Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Ao TAB, a Associação Brasileira da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias afirma que os funcionários aceitam voluntariamente viver de acordo com a doutrina, que incluem viver "padrões de honestidade, integridade pessoal, fidelidade conjugal e moral". "Um funcionário não é demitido devido à sua identidade ou preferência sexual. A Igreja não divulga a condição ou situação como funcionário das pessoas empregadas pela Igreja", diz a nota.

"Precisei trabalhar muitos anos para ver uma justa causa dessa, por infidelidade conjugal. Isso é uma invasão à privacidade inadmissível. Isso não tem nenhuma ligação com nada que ele fazia na igreja, ele não era um pastor, ele comprava terrenos", observa a advogada trabalhista Maria Helena Autuori, que defende Rocha.

A relação da igreja mórmon com membros LGBTQIA+ sempre foi sensível. Apesar dos líderes enfatizaram que não há nenhum impedimento, na prática, é comum relatos de denúncias e a tal "carta azul", quando a igreja intima o membro para um conselho. Na reunião, o bispado aconselha a pessoa a renunciar seus atos e praticar o celibato.

Quem não se arrepende pode ter o nome retirado dos registros da igreja, se torna uma espécie de excomungado: não tem acesso às bênçãos, não pode tomar o sacramento, nem opinar dentro da igreja. Para muitos, a vida dupla é a única opção.

A revelação na análise

A aceitação da própria sexualidade foi, para Rocha, uma revelação tão forte quanto seu primeiro contato com a religião. Ele usa uma analogia para explicar: "Cruzei o Oceano Atlântico, com dias de muita turbulência, tempestades, maremotos. Minha história é recheada desses momentos, mas é como se eu quisesse enxergar uma luz. Chegou um momento que eu comecei a ver", conta.

Imagem: Carine Wallauer/UOL

O primeiro passo foi sair de casa. A igreja tinha ciência da separação e que Rocha agora dividia um apartamento com outro homem. "A relação com meu companheiro é algo muito discreto, nunca fiz publicação no Facebook, nunca comentei com ninguém. As únicas pessoas que frequentam minha casa são meus filhos com seus cônjuges. Nunca expus a igreja", observa.

Ele desconfia que o autor da denúncia tenha sido seu ex-genro, que após uma briga no casamento ameaçou "acabar com a vida" do então sogro. "Não sabemos se a igreja praticou um crime ou não, pretendemos apurar a situação que foi o estopim", explica o advogado criminalista Eduardo Levy Picchetto.

"Se por um lado, a Constituição Federal garante a liberdade religiosa, por outro, o Brasil se constitui por um Estado laico, o que significa que as relações públicas e privadas não se pautam por fundamentos religiosos, mas sim na lei."

A batalha entre o religioso e o íntimo se dá nas pautas jurídica e política, mas Rocha disse nunca ter se sentido indigno de bênçãos. "É algo que não posso negar, o ser humano carrega consigo. Nunca me senti menos prestigiado por Deus por ser quem eu sou. Muito pelo contrário."

Tinha isso em mente durante sua última fala dentro da igreja. Diante dos membros, no início do ano, versou sobre idade e sonhos. "Engraçado, não é? Eu disse como era maravilhoso chegar aos 61 com alegria. Pensava na minha vida hoje, no meu amor, em como, depois de dez anos de terapia, passei a ser agente das minhas decisões", conta.

"Sinto muita falta da igreja, mas lá não sou acolhido mais", diz, enquanto acaricia o cachorro com a mão esquerda, que carrega uma aliança de metal preta, sinal do atual compromisso — "é a mão de casamento", faz questão de observar. "Sabe, a vida é muito curta. Curta demais pra ser quem não se é."

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