Mirando Brasília, Holiday não disputará 2024: 'Não sou oportunista'

Fernando Holiday (PL) está prestes a se despedir da Câmara Municipal de São Paulo. Ele diz que decidiu não concorrer nas eleições de 2024.
A ideia de Holiday é atuar nos bastidores da política até 2026, quando pretende trocar São Paulo por Brasília: ele deseja se candidatar a deputado federal.
Até lá, diz que pretende estudar medicina. "Um sonho antigo que não pude realizar antes por questões financeiras e, depois, de tempo", conta ao UOL.
Holiday foi, aos 20 anos, o vereador mais jovem na história da cidade de São Paulo, eleito pela primeira vez em 2016, na onda dos protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).
À época, surgiu como uma das principais vozes do MBL (Movimento Brasil Livre). "Foram muitas mudanças de rota: foi MBL, depois [partido] Novo e [Jair] Bolsonaro", lembra.
Naquele pleito, foi eleito pelo DEM. Ele já passou por Patriota, Novo e Republicanos. No ano passado, migrou para o PL com a benção de Bolsonaro, a quem havia criticado e se declarado arrependido de apoiar nas eleições de 2018. Depois, fizeram as pazes.
"Quem diria, hein, presidente Bolsonaro? A imprensa sempre dizendo que você é homofóbico, racista e você aqui filiando um negro meio viado", disse no dia de sua filiação, em julho de 2023.
A cerimônia contou com a presença do ex-presidente e do líder do partido, Valdemar Costa Neto.
"Amadureci muito", analisa o vereador ao UOL. "Hoje tenho 27 anos, mas sinto como se tivesse 40, 45. A experiência foi muito intensa. E sinto que consegui entregar o que os que me elegeram esperavam."
Se eu continuar buscando mandatos, posso passar a impressão de que sou um oportunista, principalmente depois que me reaproximei de Bolsonaro. Fernando Holiday

Bastidores
Holiday apoiará para vereador em São Paulo, nas eleições de outubro, o "pupilo" Lucas Pavanato (PL) e outros candidatos no Rio, Manaus e Belo Horizonte. Para a Prefeitura de São Paulo, vai de Ricardo Nunes (MDB).
Holiday considera Pavanato um "apadrinhado".
"Era um anônimo e, graças à nossa parceria, se tornou uma figura pública, foi comentarista na Jovem Pan. E hoje ele é mais famoso do que eu, né? É o maior exemplo de quem eu apadrinhei."
No Rio, cita o pré-candidato Rafael Satiê.
"Outra pessoa negra entrando na política que tem posicionamentos parecidos com os meus: contra as cotas, crítica ao movimento negro e tudo mais."
Já como "padrinho" ou político de referência, aponta Bolsonaro e Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado mais votado do país nas eleições de 2020.

'Caçar corruptos'
Holiday lembra do primeiro discurso que fez na Câmara: "Não vim fazer amigos, vim caçar corruptos".
"Não era nada convidativo para formar aliados, né?", diz. "Fui percebendo que não tinha como se manter na Câmara daquela forma. Fui me aproximando do centrão, especialmente da bancada evangélica."
De outro lado diz que foi acolhido no primeiro mandato por vereadores que considera de esquerda: Cláudio Fonseca (PCdoB), Eduardo Suplicy (PT), Gilberto Natalini (PV) e Soninha Francine (PPS).
Afirma que, nos oito anos que passou na Câmara Municipal, foi "possível dialogar com quem pensa diferente".
Mas também houve decepções. Ele conta que, no segundo mandato, em 2021, foi procurado por um ex-vereador que queria conversar sobre um esquema de emendas parlamentares.
Holiday afirma que ficou chocado, consultou a assessoria jurídica e procurou o Ministério Público.
Foi quando, combinado com o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), gravou o ex-vereador Zé Turin (ex-Republicanos) de forma escondida.
"Tenho escolta até hoje por conta disso. Só que, até hoje, ninguém foi preso, não deu em nada", lamenta.
Isso [fazer a gravação] me prejudicou porque os vereadores passaram a não confiar em mim. Essa é outra grande decepção: o fato de ter feito a coisa certa e não ter dado em nada e, ainda por cima, perder a confiança dos colegas.

'Silêncio absoluto'
Outra operação do Gaeco respingou na Câmara em abril: a Fim da Linha, que investiga a infiltração do PCC no transporte público da capital paulista.
Foram citados dois políticos como testemunhas da investigação: o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP) e o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil).
"Foi um silêncio ensurdecedor", relata Holiday, sobre a repercussão na câmara. "Foi um silêncio absoluto."
"Dois assuntos são tabus na Câmara: lixo e transporte. Dois assuntos realmente blindados, o que, ao meu ver, deve significar que há coisas a serem investigadas."
O presidente Milton Leite só está [arrolado] como testemunha e, segundo ele lançou numa nota posteriormente, ele já teve os sigilos quebrados. Agora, que há algo de errado nos transportes isso há. Fernando Holiday
Delegado Palumbo (MDB), à época vereador e agora deputado federal, fez uma proposta de CPI para investigar a infiltração do PCC nos transportes, lembra.
"Só ele, eu e Sonaira Fernandes [então vereadora pelo PL, hoje secretária de políticas para mulher no governo Tarcísio] assinamos o pedido de CPI."
Enquanto se prepara para deixar o Palácio Anchieta no fim do ano, Holiday diz que quer continuar na política, nos bastidores, também por causa das decepções que teve até agora.
Mas admite que sentirá saudades do plenário.
"Descobri que tenho o dom da fala, não sabia, descobri graças ao mandato. Sem modéstia nenhuma, acho que sou muito bom nisso."