Muito amor

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Namorava há uns quatro anos quando me apaixonei por outra pessoa. Entrei em um conflito interno muito grande. Não era a primeira vez que isso acontecia.

Claudia Naomi Abe, 32 anos, química

Ao contrário do que me havia sido ensinado, era possível gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Pensei muito sobre o assunto, mas o relacionamento com ambos não foi para frente. Pouco tempo depois conheci o Cláudio e, após um ou dois anos de namoro, resolvemos abrir o relacionamento. Eu saí com uma pessoa, ele com outra. Mas eu tive surtos de ciúmes. Tivemos vários conflitos, mas com o tempo fomos amadurecendo e aprendendo a lidar com nossos sentimentos.

Com sete anos juntos, já casados, eu me apaixonei por um amigo de amigos. E foi o Claudio que me mostrou isso, quando eu briguei e deletei essa pessoa do MSN. 'Amor, você só age assim quando gosta da pessoa?', disse ele. Começou meu segundo namoro. Durou sete meses. Foi uma paixão bem intensa. Mas teve uma competição. Eu parecia filha de pais separados. Era sábado com um, sábado com outro. Pensei em morarmos todos juntos, mas o rapaz, bem mais novo, não soube lidar com a situação.

Hoje tenho um bebê de dois anos. Claro que com trabalho, bebê e a correria do dia a dia, eu não tenho muito tempo para outros relacionamentos. Mas isso é quem eu sou. Tenho amigos que também vivem assim, têm filhos, trabalham. É a nossa vida."

Três é demais?

Por Lilian Ferreira

"O que é bom [em relacionamentos monogâmicos] é muito bom [em relacionamentos poliamorosos]. Mas o que é ruim, também é péssimo", resume um poliamorista que se relaciona com sua esposa e a namorada do casal. O TAB conversou com diversos adeptos e todos dizem que, ciúmes à parte, o rompimento ocorre por problemas comuns a qualquer relacionamento; distância física, brigas cotidianas e falta de tempo, por exemplo.

Andreza Hack de Abreu, 38 anos, de Porto Alegre, tem um relacionamento aberto há dois anos. Por três meses ela e o marido viveram com uma amiga dela. "Nós vivíamos os três sempre juntos, banho, escovando os dentes, cozinhando. Mas quando ele não estava junto ela não ajudava em atividades da casa, como fazer compras, lavar, cozinhar. Isso foi motivo forte de brigas. Na hora do sexo ela estava disposta, mas pra lavar a louça era eu e ele. Aí não deu certo", conta.

Mas nem todos os relacionamentos poliamorosos exigem que os namorados se envolvam em 100% dos processos. Segundo Franklin Veaux e Eve Rickert, do site morethantwo.com e sumidades no assunto, geralmente as atividades são separadas.

Você acha possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

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Isso porque o poliamor é antes de tudo um polirrelacionamento. É a possibilidade de ter dois ou mais relacionamentos simultâneos, que englobam afeto e sexo. O conceito foi definido em 1990, no glossário de terminologia relacional de um evento em Berkeley, nos EUA, e em 1997, no livro "Amor sem Limites", de Deborah Anapol.

A primeira união poliafetiva em cartório do Brasil foi feita em 2012. Até hoje foram feitas cinco delas e, para especialistas, é cada vez mais comum relações nesse formato. De acordo com o antropólogo Antonio Cerdeira Pilão, mestre no tema pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o formato mais comum é de um homem com duas mulheres. Regina Navarro Lins, psicanalista e autora de "O Livro do Amor", diz que em até 30 anos muito mais pessoas devem aderir ao poliamor.

A primeira Conferência Acadêmica Internacional sobre o Poliamor ocorreu em 2013, justamente em Berkeley. Em agosto deste ano, o Brasil teve no Rio seu maior poliencontro, com 180 pessoas. No Facebook, grupos brasileiros sobre poliamor passam dos 10 mil integrantes.

Quarteto do Rio

Sharlenn namora Rafael, Will e Adamo. Rafael é o namorado mais antigo. Pouco mais de três anos. Ele, ativista do poliamor, apresentou-a para os outros dois. Sharlenn mora com Will, Rafael com Adamo, e todos se dão muito bem, obrigado!

Trisal da ponte aérea

A é casado com B. Eles moram em Guarulhos e começaram a namorar C, que é uma professora universitária carioca. Os três se relacionam. E o que não falta é carinho e um tanto de negociação. Por causa do preconceito, não querem revelar suas identidades.

Você viveria um poliamor?

O fim da monogamia?

O princípio do poliamor é a oposição à monogamia - quando a pessoa tem apenas um cônjuge. É antigo o mito que, na natureza, a monogamia é o "padrão", mas cada vez mais estudos mostram que os animais têm diversos parceiros sexuais. Mesmo as aves, que eram conhecidas por serem mais "fiéis", também apresentam altas taxas de cruzamentos "fora do casal".

Apesar do tema ser tabu, nossa sociedade não revela um zelo tão grande pela fidelidade. Em pesquisa feita pela antropóloga Mirian Goldenberg, 60% dos homens e 47% das mulheres brasileiras admitiram já terem sido infiéis. Segundo Gilberto Freyre, desde o início de sua colonização o Brasil não foi monogâmico, mas poligínico, quando o patriarca podia manter mais de uma relação, condição impensável às mulheres.

Indo para a Pré-História, temos as pesquisas de Christopher Ryan e Cacilda Jethá. Eles afirmam que os homens sempre foram promíscuos e poligâmicos. Sem barreiras culturais, nossa orientação sexual derivaria em várias relações paralelas diferentes em profundidade e intensidade, como ocorre em nossas amizades, afirma Ryan em seu livro "No Princípio Era o Sexo".

Você já traiu?

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Numa conclusão de analogias entre o comportamento de primatas e de homens primitivos, a dupla de antropólogos afirma que a busca pelo prazer já existia no sexo pré-histórico e que as mulheres, assim como os homens, poderiam ter múltiplos parceiros. O livro cita inclusive tribos como os Kulina, da Amazônia, que consideram a troca uma maneira natural de acentuar os laços, e os Dagara, de Burkina Faso, cujas crianças acreditam que são filhos de todas as mulheres.

Os autores afirmam que na evolução humana era comum ter múltiplos parceiros dentro do grupo. Homens caçavam, mulheres coletavam e todos viviam de maneira igualitária e nômade. As relações sexuais entre os membros aumentavam os elos no grupo, o que trazia equilíbrio social. Mas a partir do desenvolvimento da agricultura, o estilo de vida mudou completamente. Surgiu a propriedade privada e o acúmulo de poder. Isso alterou também como as pessoas se comportavam e a monogamia veio como resultado disso; a mulher virou uma posse.

O pior é o preconceito. Não comigo. Quem sofre é a mulher. A sociedade é machista. Nunca ninguém me falou nada pelo fato de minha mulher sair com outros homens, mas para ela sim

Claudio Rodrigues Júnior, marido de Claudia Abe. O depoimento dela abriu este TAB

55%
das mulheres poliamoristas se dizem bissexuais. Já entre os homens, 25% são bissexuais

São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul concentram a maioria dos poliamoristas do Brasil

Amor ou amizade colorida?

É muito difícil definir seu sentimento. Mais complicado ainda é saber o que o outro sente. Independentemente da nomenclatura, há um afeto entre os participantes de uma relação com mais de duas pessoas. Por isso, Claudia do Nascimento Domingues, escrivã de um cartório no litoral paulista, registra as uniões como poliafetivas. Para ela, os motivos que levam as pessoas a viverem assim e requisitarem um documento são os mais mundanos. Um quarteto queria que qualquer um deles tivesse condição legal de buscar o filho de uma das mulheres na escola. Um trio, por sua vez, queria provar que morava junto para pedir financiamento da casa própria.

O amor é uma gama ampla de sentimentos e emoções que tendemos a resumir ao amor erótico. A questão é que você também ama seus amigos, pais e irmãos. O conceito de amor romântico surgiu no século 12 no Ocidente, mas era um elemento estranho ao casamento. Só a partir da década de 40 do século passado que ele passou a ser essencial em uniões, muito impulsionado pelos filmes e romances.

Você teria um relacionamento poliamoroso se fosse aceito socialmente?

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Mas nem tudo são flores. O amor romântico é bom. Navarro diz que nós amamos estar amando, mas esse estado também pode trazer alguns problemas. Você idealiza a pessoa, cria apego, uma posse, uma crença que a pessoa só pode ser feliz ao seu lado e vice-versa.

O amor dos poliamoristas é mais parecido com o que prega o budismo. É um amor similar ao que amigos compartilham. Sem exclusividade, sem posse. A busca pela individualidade, muito em voga, é mais um impulso para esse tipo de amor. Você pode ser "apenas" você, e não tudo o que o outro espera. O ciúme, o medo da perda, em tese não existiria, já que uma pessoa não é "trocada" pela outra.

Assim, números e especialistas apontam para a mesma tendência; o casamento como é hoje - monogâmico e baseado no amor romântico - está perdendo força e traz sofrimento para quem não se encaixa. Cada vez mais as pessoas têm buscado modelos que deem respostas para o que sentem e como querem viver. Mas, contra elas, ainda há o preconceito.

Lilian Ferreira

Editora de Ciência e Saúde do UOL. Ama muitas pessoas, mas só tem um namorado

tabuol@uol.com.br

Esta reportagem foi feita com apoio de:

Dados em destaque foram extraídos do mestrado sobre o tema de Antonio Cerdeira Pilão, antropólogo coordenador do grupo de pesquisa sobre sexualidade, conjugalidade não-monogâmica do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também colaboraram com o TAB Claudia do Nascimento Domingues, tabeliã e doutoranda em direito na USP sobre uniões poliafetivas; Diego Henrique Viviani, psicólogo do Inpasex; Franklin Veaux e Eve Rickert, ativistas do site morethantwo.com; Jacqueline Victoriense, psicóloga clínica e mestranda na área de Casal e Família pela PUC-Rio e Regina Navarro Lins, psicanalista e autora d'O Livro do Amor.

Marc Jacobs e Harry Louis

Sabrina Sato e João Vicente

Tom Brady e Gisele Bündchen

Neil Patrick Harris e David Burtka

Dani Calabresa e Marcelo Adnet

Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert

Grazi Massafera e Cauã Reymond

Cara Delevingne e Michelle Rodriguez

Du Moscovis e Cynthia Howlett

Ryan Reynolds e Blake Lively

Angelina Jolie e Brad Pitt

Eva Mendes e Ryan Gosling

Lázaro Ramos e Taís Araujo

Isabeli Fontana e Di Ferrero

Penélope Cruz e Javier Bardem

Shakira e Piqué

Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso

John Mayer e Katy Perry

Com qual desses casais você teria um relacionamento poliamoroso?

Esta reportagem também contou com apoio de:

Julio Cesar Guimarães e Reinaldo Canato, fotografia; Farrel, ilustração; Juliana Fumero e Tais Vilela, edição de vídeo.

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