Se no Brasil falar sobre diversidade e gênero nas escolas ainda é tabu, há países em que a igualdade entre masculino e feminino já avançou tanto que acabou surgindo um terceiro gênero, o neutro. Em abril de 2015, um pronome pessoal neutro (o "hen") foi incorporado oficialmente ao vocabulário da Suécia - quarta colocada no ranking de igualdade entre gêneros elaborado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial. Hoje, a Islândia ocupa a primeira posição, seguida de Finlândia e Noruega.
A nova palavra é usada para não revelar o gênero da pessoa, objeto ou animal, seja porque este é desconhecido ou porque a informação é irrelevante para a sentença. Marie Tomic, autora do livro sueco "Ge Ditt Barn 100 Möjligheter Istället För 2" (Dê Ao Seu Filho Cem Oportunidades Em Vez de Duas, em tradução para o português), acredita que "essa é uma maneira de tratar seres humanos como seres humanos e não como pessoas definidas pelo sexo".
A escritora ainda exemplifica uma situação em que o pronome neutro pode ser aplicado: "Se eu disser que fui ao dentista para um amigo e ele não souber o sexo do profissional, ele pode perguntar apenas 'E o que hen disse'? Desta maneira, o mais importante é que a pessoa é um dentista e não se o dentista é ele ou ela".
O também sueco Jesper Lundqvist foi o primeiro a publicar um livro escrito em gênero neutro no país nórdico. O infantil "Kivi & Monsterhund" (Kivi e o Cachorro Monstro, em português) conta, por meio de rimas e ilustrações, a história de uma criança por volta dos cinco anos que quer um cachorrinho de estimação.
Pelas ilustrações e palavras, não é possível saber se Kivi é menino ou menina. E o que isso muda na história? Absolutamente nada. O mais importante é o enredo, cujo objetivo é ensinar às crianças que as coisas nem sempre ocorrem da maneira que gostaríamos.
É valioso ter acesso a diferentes tipos de narrativas, personagens e visões de mundo. Acredito que isso acaba gerando mais compreensão e empatia nas pessoas
Jesper Lundqvist, autor do livro "Kivi & Monsterhund"
Até o Dicionário Oxford, um dos mais conceituados da língua inglesa, adotou em agosto último o verbete Mx., como uma variação neutra para Mr. ou Ms. (senhor ou senhora, respectivamente). Segundo o Oxford, Mx. pode ser "usado antes do sobrenome ou nome completo daqueles que não querem especificar seu sexo ou por aqueles que preferem não se identificar como homem ou mulher".
No Brasil, nosso idioma oficial ainda se restringe ao ele/ela. Mesmo assim, há um público que estimula uma terceira opção. Na internet, já faz um tempo que a turma antenada usa a criatividade para driblar as barreiras linguísticas - ou vai dizer que nunca leu um "amigues", "amigxs" ou até "amig@s" por aí?
Em setembro de 2015, circulou pela internet a imagem de um comunicado interno do tradicional colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, escrito com a letra "X" como forma de suprimir o gênero. Outra foto trazia o cabeçalho de uma prova de biologia com a palavra "Alunx" no campo reservado para o nome.
Oscar Halac, reitor da escola, não tem autoridade para mudar a ortografia, mas ressalta que "a ideia é chamar atenção da sociedade e mostrar que, quando não há tolerância, só se causa dor e sofrimento ao próximo". E acrescenta: "O real 'X' da questão é a nossa capacidade de aceitar e conviver com pessoas mais felizes".
Na língua portuguesa, o uso do "X" foi a saída informal mais popular encontrada para suprimir o gênero, mas para Cláudia Freitas, coordenadora do curso de Letras da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), esse recurso está longe de ser o mais apropriado. Para começar, o "X" não é pronunciável nesse contexto.
"Nós não podemos, em voz alta, usar o 'X'", afirma. Além disso, o uso da letra não torna as coisas mais fáceis de entender. "Quanto mais simples e direta for a nossa linguagem, melhor. Se a intenção é fazer textos fáceis e didáticos, o 'X' pode ser um constante entrave para quem está lendo", completa.