Selfie

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Eu tiro selfies. Muitos.

Fui buscar no histórico e tenho registros desde 2005. Tirava uma vez ou outra, mas começaram a se tornar frequentes. Há cerca de um ano esse estilo tomou conta da maioria das minhas fotos. Agora ainda tiro muitos e, para onde eu olho, tem alguém com a câmera apontada para si

Por Lilian Ferreira

No começo, eu virava a câmera e apostava no enquadramento. Normalmente saía metade do rosto e nada do fundo. Outra tentativa. E outra. Enfim tirava uma boa para guardar no computador e mandar por email para os amigos quando chegasse em casa.

Mas lá por 2010, veio câmera frontal e cada vez mais redes sociais, como Facebook e Instagram... Pronto, tinha ficado fácil tirar a foto e mais fácil ainda distribuir. E aí veio o boom; praticamente o mundo todo estava tirando selfies.

@jennlee postou esta foto no Instagram em janeiro de 2011. Ela disse na legenda; eu amo meu novo suéter Anthro. Depois, nos comentários, escreveu #selfie. Pronto, foi a primeira vez que a hashtag era usada

O primeiro selfie, tirado pela própria pessoa sem a programação da foto por timer, foi usando um espelho, como você já deve ter feito. Era 1914 e a adolescente Anastasia Nikolaevna, então com 13 anos, foi a autora. Detalhe; ela era filha do czar Nicolau 2º e, portanto, princesa da Rússia.

Em 2002, num fórum online, um internauta pediu desculpas pela foto postada sem foco. O motivo? Era um "selfie". Em 2004, a tag já existia no Flickr. Em 2005, o fotógrafo Jim Krause descreveu o selfie num livro; "é uma dessas imagens que você tira virando a câmera para você".

Anastasia Nikolaevna, filha do czar Nicolau 2º da Rússia, tinha 13 anos em 1914. Em posse de uma câmera fotográfica, ela apontou para o espelho e tirou o primeiro selfie que se tem registro

Mas foi em 2013, quando o uso da palavra cresceu 17.000%, que "selfie" entrou no dicionário Oxford como a "palavra do ano".

No fim do mesmo ano eram 57 milhões de fotos no Instagram com a hashtag #selfie. Hoje já são mais de 190 milhões! De junho a outubro de 2014, foram 58 milhões. Mas nem tudo é selfie.

Apenas 4% das fotos publicadas com a hashtag são realmente selfies, segundo um estudo da Universidade da Cidade de Nova York com mais de 120 mil fotos. O resto? Foto de cachorro, gatos, comidas, monumentos. E também começaram a aparecer fotos em que a pessoa aparece, mas não foi ela quem tirou.

Isso ocorre porque a busca pela palavra gera tráfego para o conteúdo tagueado. Até surgiu no Twitter uma conta que posta fotos que foram tagueadas como selfie, mas não são, e as marca com a hashtag #selfietruther.

Então, o que afinal é um selfie? Segundo o Oxford, selfie é uma foto que alguém tira de si mesmo, geralmente com um celular ou webcam, e posta em uma rede social. Assim, se você tira e não compartilha, não é selfie. Se você não tira você mesmo também não é. #ficaadica

Dicas para tirar selfie

Por que eu tiro selfie?

Você está fazendo errado

Os selfies são limitados ao comprimento do braço. Como resultado, quase sempre produzimos closes com ângulos ruins. Flávio Florido, editor de fotografia do UOL, analisou cinco selfies famosos e diz no que prestar atenção

Precisamos tomar cuidado com o que queremos que apareça na foto antes de clicar. Neste selfie, seu olho vai para o branco e não entende o que é. Com o ângulo maior, vimos que o branco é uma camiseta. Por isso, o simples movimento de esticar um pouco mais o braço faria a camiseta aparecer.

Um dos problemas mais comuns em selfie; não se colocou a distância necessária para que todos aparecessem na foto, sendo que um deles era o Papa. Na foto maior, percebemos que o menino que segura o celular é o que está atrás. Ele poderia pedir para que a garota da frente batesse a foto.

Foto muito comentada causou certo desconforto porque parece que o fotógrafo deixou de mostrar algumas pessoas. Não podemos tirar conclusões precipitadas, mas, se a intenção era mostrar todos, bastava prestar mais atenção e esperar o momento que todos conseguem se organizar de uma forma bacana.

Selfie no espelho normalmente não mostra aquilo que a pessoa realmente quer. Ela está olhando para o celular, mas esquece que quem está "vendo", na verdade, é a lente do aparelho e é pra lá que o olhar precisa ser direcionado. Enquadre a cena e, no momento do clique, olhe para a lente.

Um dos erros comuns nos selfies acontece porque as pessoas não olham a luz. Podemos perceber que o sol estava atrás das pessoas, fazendo com que elas ficassem mais escuras do que o fundo. Os celulares não têm bons medidores de luz. Também não podemos esquecer o que aparece atrás das pessoas.

Narcisos do século 21?

O boom dos selfies está ligado à popularização das câmeras frontais e das redes sociais, mas também ao desejo de se expor. Especialistas ouvidos pelo UOL são unânimes em afirmar que a busca por reconhecimento e afirmação está no centro da questão.

"O selfie é uma classe de imagem que sempre existiu na história da arte e da fotografia. O que muda é seu uso para além de ser apenas uma imagem de si. [O selfie] É uma imagem que tenta expor a imagem de si. É um excesso de publicidade de si próprio. Aquela pessoa não é você", afirma Fabio Goveia, professor de fotografia e coordenador do Labic (Laboratório de Estudos sobre Imagens e Cibercultura) da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).

Doutor em psicologia social pela USP (Universidade de São Paulo), Antonio Carlos de Barros Jr. vê uma "exacerbação do narcisismo" na cultura do selfie. "O reconhecimento do outro sobre quem você é vem ganhando força desde a década de 80 e mais fortemente agora nos anos 2000. E os selfies entram aí", afirma.

"Selfie é um nome que tem até uma ironia, certa contradição, é algo egoísta, mas ao mesmo tempo o selfie é feito para ser compartilhado. É uma coisa que você quer mostrar para os outros e não guardar para si", afirma Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

E aí vem o narcisismo como reforço do desejo da aprovação. Não são raras as pessoas que gastam seu tempo até tirar uma foto que ficou melhor e passam outros bons minutos escolhendo qual irá para as redes sociais.

Segundo Paulo Silvestre, professor de mídias digitais do IED Brasil (Istituto Europeo di Design) e da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), as pessoas ficaram muito mais exigentes com a imagem. Agora vivemos um culto à imagem pela imagem. "Esse momento da humanidade está marcado por fotos de rosto", afirma. "As fotos de redes sociais não são 100% confiáveis. A essência delas fica sucumbida", completa o psicólogo Elídio Almeida, membro da Associação Internacional de Análise de Comportamento.

E com a internet, temos o imediatismo. "Se o outro aprova ou não aprova, se não tem retorno, você tira e posta outra", diz Rosa Maria Farah, coordenadora do NPPI (Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática) na PUC-SP.

É na adolescência que o "eu" passa a ganhar ainda mais importância. Para Farah, o selfie é um exercício como outros que os jovens fazem, mas em uma versão atual. "Há vários tipos de autoafirmação. Este é o mais atual e o que está fazendo mais sucesso neste momento", afirma.

O selfie também traz um empoderamento social para classes menos favorecidas, destaca Goveia. Para ele, é uma maneira de dizer "eu também posso ter". "Eu não sou bonito, mas também posso me expor", afirma.

O modelo nasceu para registrar o "eu estou aqui". Mas a conclusão é que a tecnologia só mostra claramente o que já existe na humanidade desde sempre; a vontade de expor uma boa imagem de si mesmo. O selfie, portanto, é mais uma consequência do que causa.

#SELFIEUOL

Já são mais de 190 milhões de fotos postadas no Instagram com a hashtag selfie. Aqui você vê algumas delas. E se você quer aparecer no TAB também, use #selfieuol. Vamos escolher algumas para mostrar no TAB

O que vai bombar

Especialistas apontam tendências do que vem por aí em compartilhamento e produção de imagens

"O site é uma das várias coisas interessantes que estão acontecendo, com vídeos em looping. Popularizou, mas ainda não entrou no vocabulário", afirma Ronaldo Lemos. O Vine traz vídeos de poucos segundos que se repetem; pode ser uma imagem bonita, um gif animado ou aqueles vídeos curtos de instagram.

É a ideia de "minha visão de mundo" ganhando espaço. A GoPro saiu dos esportes e tornou-se uma ferramenta para as pessoas registrarem o mundo de acordo com sua perspectiva. Seja presa à cabeça ou virada para si, a GoPro é muito usada hoje para registrar atividades do dia a dia ou viagens em vídeos na primeira pessoa.

A privacidade é o chamariz do Snapchat, que permite compartilhar fotos e textos que se autodestroem após um tempo determinado. Ele traz uma falsa sensação, alerta Paulo Silvestre. Agora é mais fácil tirar fotos de nu, por exemplo, porque não precisa revelar, mas mesmo que a foto se destrua, é possível copiar a tela do smartphone.

Evoluir da foto para o vídeo é uma tendência. O site selfie.com pede vídeos de até 24 segundos para falar cara-a-cara com pessoas. "Os celulares hoje filmam em ultra HD, a câmera frontal está cada vez melhor. Um celular top custa o mesmo de uma TV top, mas a TV é trocada uma vez a cada quatro anos, o celular é toda hora", diz Paulo Silvestre.

Quando vira um problema?

Você está no show da sua banda favorita. A pessoa que está na sua frente está virada para você. Estranho? Não, ela só está tirando um selfie. Você vê alguém tirar um selfie ao volante e um minuto depois; crash! Bate o carro. E a pessoa tira outro selfie. Seu avião cai no mar e o que você faz? Tira um selfie, claro.

Essas histórias podem parecer pegadinha, mas aconteceram de verdade. A falta de noção na hora de tirar selfies tem divertido e irritado muita gente. Mas antes de ser um problema do selfie, tem mais a ver com nosso desejo de exposição a todo custo.

O fotógrafo Sebastião Salgado foi só mais uma das personalidades que reclamou dos exageros. O gesto se repete com políticos, jogadores de futebol, qualquer famoso que apareça pela frente. "Você está ali com o Sebastião Salgado e nem quer saber como foi o processo das suas fotografias. Você só quer passar para os amigos que esteve com ele, que é uma pessoa que valoriza a arte. É para construir uma imagem de si", diz Barros Jr..

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O problema nessa situação, além de ferir o espaço do outro, é que você não aproveita o momento. Se tira uma foto e volta para o show, para a exposição, tudo bem. Mas é preciso cuidado quando a foto e o compartilhamento na rede social substituem o fato em si como motivo da diversão.

Além disso, a expectativa com a aprovação da fotografia na internet é outro ponto a se preocupar. "Dependendo do tipo de repercussão, a pessoa vai tentar avaliar qual o sucesso que ela tem, qual tipo de prestígio ela tem com isso. E quanto mais eu preciso da aprovação externa, mais eu vou postar", explica Farah.

Almeida destaca ainda que os adolescentes de hoje têm dificuldade em escolher qualquer coisa, até o selfie a ser postado. "O adolescente, em um segundo momento, também acaba se expondo muito e depois não sabe lidar. Ele posta com a intenção de receber elogios, mas quando recebe uma crítica, não sabe como agir", afirma.

A privacidade é outra questão central aqui. "[A pessoa] quer ser famosinha na rede social e acaba abrindo mão da privacidade", afirma Almeida.

Barros Jr. afirma que é necessário questionar; o que representa essa quantidade de selfies que eu publico?

O que deve ser feito é pensar sobre o que se quer com aquela foto em vez de repetir um comportamento de maneira mecânica. "Se eu quero aprovação, que tipo de imagem eu estou publicando e reproduzindo?", questiona Rosa Maria Farah.

Neste ciclo, buscamos o reconhecimento do outro, mas ninguém de fato interage. As relações ficam superficiais, todo mundo quer o reconhecimento alheio, mas... quem vai reconhecer o "você" do outro lado da câmera?

Lilian Ferreira

Editora de Ciência e Saúde do UOL. Agora, até pensa antes de tirar selfies

tabuol@uol.com.br

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Que tipo de selfie é você

Esta reportagem também contou com apoio de:

Flavio Florido e Reinaldo Canato, fotografia; Cássio Bittencourt, ilustração; Camila Marques, produção; Airstrip, pesquisa de dados. Agradecimentos: Redação UOL, Agência Bravo Model, Luana Lopes, Row Yastra, Greciani Gonçalves, Millena Rosado, Carol Piccin,i Sabrina Rodrigues, Theo Guido, Julia Monego, Driele Chicarino, Flavia Beato, Letícia Melo e Kauane Radney.

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