Herança maldita

O que fazer com as boas obras que surgiram do talento de homens ruins?

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Na terra da fantasia, onde tudo era possível, houve um tempo em que:

- um cineasta fazia um clássico e era acusado de estuprar uma menina de 13 anos sem esses assuntos serem relacionados;

- outro cineasta fazia uma série de filmes que influenciaram gerações enquanto era acusado de abusar sexualmente da filha adotiva da esposa - e nada parecia importar mais que a relevância da sua obra;

- um poderoso produtor de Hollywood podia tentar obter favores sexuais de atrizes em começo de carreira e isso era visto como normal pelas pessoas do meio.

Esse tempo, definitivamente, acabou.

Há quem acredite que o mundo evoluiu, e há quem tema por um novo moralismo. Seja como for, a 90ª edição do Oscar corroborou esse sentimento de mudança. A começar pela fala inicial do apresentador Jimmy Kimmel, que ensaiou uma piada sobre as diferenças de gênero da indústria para logo falar sério e reforçar que um caso como o do produtor Harvey Weinstein, acusado de estupro e assédio sexual por dezenas de atrizes, não pode acontecer novamente e que Hollywood precisa dar o exemplo. Antes mesmo da cerimônia, um desses exemplos já havia sido dado - Casey Affleck, também acusado de assédio, foi substituído por Jennifer Lawrence e Jodie Foster na apresentação do prêmio de Melhor Atriz - tradicionalmente o vencedor como Melhor Ator no ano anterior, no caso Affleck, faria esse papel.

Estamos trabalhando para garantir que os próximos 90 anos reforcem essas possibilidades ilimitadas de equidade, diversidade e inclusão. Isso é o que este ano está nos prometendo

Ashley Judd, atriz, durante a cerimônia do Oscar

Mas o grande momento "sinal dos tempos” da cerimônia foi a aparição das atrizes Ashley Judd, Salma Hayek e Annabella Sciorra - todas se levantaram contra Weinstein -, para exaltar o movimento de denúncia dos abusos pelas mulheres de Hollywood nos últimos anos e apresentar um vídeo de três minutos e meio sobre a necessidade de mudanças.

Esse é um sentimento que nasceu em nichos de luta da sociedade e ganhou uma dimensão global quando gritos de guerra como “esse tempo acabou” (“time’s up”) e “eu também” (“me too”) tornaram-se símbolos da luta das mulheres por respeito e equidade na indústria cinematográfica. Na medida em que o caráter de um criador passa a ser tão importante como o seu talento, muda a arte, a sociedade, a maneira como consumimos filmes, livros e canções, a visão que temos de obras do passado. E fica uma questão: o que faremos com tudo o que pensaram e produziram esses criadores talentosos cujos caracteres estão em xeque?

“Sempre ouvi relatos de excessos cometidos por gente no poder, principalmente em Hollywood. Eram histórias que a gente ouvia de outros jornalistas, e havia a certeza de que nada nunca mudaria. Mas as coisas hoje são diferentes”, conta Roberto Sadovski, jornalista, crítico de cinema e blogueiro do UOL. Com a experiência de quem trabalha no meio há 25 anos, ele pensa que a mudança, desta vez, é real. “Existe não só uma atenção maior em relação a esses casos, como tenho a impressão de que a aura de impunidade caiu. Homens de poder vão, sim, pensar duas vezes antes de cometer assédio, não por acharem que estão errados, mas por saberem que as vítimas não ficarão caladas”, explica.

Segundo o jornalista Rodrigo Salem, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Hollywood, o ambiente de entrevistas ficou mais aberto depois das denúncias. “As entrevistas sempre foram ambientes muito controlados, nos quais não se podia perguntar sobre a vida pessoal dos entrevistados ou eles eram orientados a não responder. Agora, atrizes e atores estão falando mais, estão mais abertos a tratar de outros assuntos, as pessoas já não têm tanto pudor nesse sentido”, afirma.

OBRA OU CRIADOR?

Além do trio que participou do Oscar, atrizes como Angelina Jolie, Uma Thurman e Gwyneth Paltrow também denunciaram Weinstein. O diretor Quentin Tarantino foi acusado de saber dos crimes do antes poderoso produtor e ser complacente. O ator Kevin Spacey foi acusado de assédio sexual por pelo menos dois atores. Weinstein viu sua carreira acabar e sua produtora pedir falência. Tarantino se viu obrigado a assumir publicamente que poderia ter feito mais do que fez. Spacey viu a série “House of Cards” seguir sem ele e suas cenas serem apagadas do filme mais recente de Ridley Scott, “Todo o Dinheiro do Mundo”. Mas, somados, os três parecem coadjuvantes em um roteiro pouco linear no qual o grande protagonista é, há anos, o cineasta Woody Allen.

Allen é casado com Soon-Yi Previn, com quem teria começado um caso no fim dos anos 1980, quando a moça morava com ele na condição de filha adotiva da sua então mulher, Mia Farrow. Em 2014, outra filha adotiva do casal, Dylan Farrow, disse que Allen abusou sexualmente dela em 1992, quando tinha apenas sete anos de idade. Desde então, uma série de atrizes e atores declararam publicamente que não pretendem mais trabalhar com o cineasta.

“Sobre Woody Allen, nunca se saberá com certeza a verdade sobre a acusação feita por Dylan Farrow. No meu entender, a análise cuidadosa do caso leva a crer que a acusação é infundada. Foi essa a conclusão a que chegaram duas instituições encarregadas, em dois períodos diferentes, de investigar o caso”, afirma Francisco Bosco, ensaísta e autor de “A Vítima Tem Sempre Razão? – Lutas Identitárias e o Novo Espaço Público Brasileiro” (editora Todavia), lançado em 2017. “Considero um efeito deplorável do dogmatismo de certos movimentos identitários que agora muitas mulheres entoem o brado ‘I believe Dylan Farrow’ (Eu acredito em Dylan Farrow). É uma renúncia à ideia de justiça e de universalidade acreditar em alguém só porque tal indivíduo pertence ao mesmo grupo que você. Isso não é justiça, e sim inversão simétrica de poder”, completa Bosco.

“Especificamente sobre Woody Allen, arriscaria dizer que ele passará por um período de ostracismo e condenação, talvez tenha mesmo problemas em fazer novos filmes, recrutar novos atores, mas lá na frente, talvez consigamos voltar a admirar sua obra pelo que é, sem interferência da personalidade de seu criador”, acredita Wolney Unes, professor de Análise da Criação Contemporânea e pesquisador do Centro de Estudos Brasileiros da UFG (Universidade Federal de Goiás).

Unes aproveita a polêmica em torno do cineasta para traçar um panorama histórico das relações entre obra e criador. “O que importa mais, a obra ou seu criador, muda com o tempo. Na Idade Média, importava apenas a obra, o criador era anônimo. No Romantismo, vimos o auge do artista criador, com suas paixões. E hoje, apesar de aparentemente nos interessarmos pelo criador, o que importa mesmo é o receptor - deixar de assistir a filmes de Woody Allen me deixa em paz com o mundo, mesmo comprando pão do padeiro pedófilo. Em algum momento no futuro, nos esqueceremos disso e talvez possamos voltar a apreciar sua criação”, acredita.

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O MUNDO DO ARTISTA

Algumas respostas podem ser óbvias, mas nunca são fáceis. Seria tranquilo, por exemplo, para um judeu defender o livre arbítrio do escritor francês Louis-Ferdinand Céline, autor do clássico “Viagem ao Fim da Noite”, ou do compositor alemão Richard Wagner, ambos autores de ensaios antissemitas? “Talvez não seja possível para um judeu admirar a obra de Wagner. A questão é: um judeu deve ser a favor de censurá-la? O único problema passível de debate diz respeito à dimensão pública, pois cada um que se relacione ou não com uma obra segundo seus próprios critérios”, diferencia Bosco. “Sobre Wagner, não sabemos bem se gostava de rapazes ou de garotas, se comia bananas colhidas por trabalho escravo, nem se bebia álcool na Quaresma. Há quem diga que seria antissemita, mas nem isso está totalmente claro em sua obra. Por outro lado, ser antissemita no final do século 19 é algo que precisa ser visto a partir da perspectiva da época e do lugar. Na Viena de 1700, sitiada por mouros, todos eram antimuçulmanos, na Belfast de hoje, criticar protestantes é esporte nacional, e na Israel atual, palestinos são pessoas de segunda categoria”, pondera Unes.

O certo é que não há ambiente insuspeito na arte. A lista é vasta entre todos os recortes possíveis, e coloca na mesma página Monteiro Lobato, o principal autor de livros infantojuvenis brasileiro cuja vida e obra foram, com argumentos sólidos, reavaliadas como racistas, a Lewis Carroll, autor do clássico “Alice no País das Maravilhas”, sobre quem pesam insinuações de abuso sexual infantil, e o cineasta vencedor do Oscar Roman Polanski, condenado nos EUA por estupro de uma menina de 13 anos.

Durante a produção deste TAB, foram lembrados nomes como o do ex-beatle John Lennon, o homem que imaginava todas as pessoas vivendo em paz, mas abandonou o primeiro filho e escreveu “Run For Your Life”, na qual ameaça uma moça dizendo que prefere vê-la morta do que com outro homem (ele se arrependeu dessa letra, é verdade, mas, se arrependimento bastasse, a produtora de Harvey Weinstein não teria decretado falência. Aliás, arrependido ou não, “Run For Your Life” foi lançada um ano depois de “I’ll Cry Instead” e “You Can’t Do That”, o que indica que a misoginia não era totalmente estranha na escrita de Lennon).

Mas será que, em todos os casos, faz sentido que talento e caráter caminhem juntos? “Há casos em que a vida moral em nada se reflete na obra. [O artista plástico brasileiro] Iberê Camargo, por exemplo, matou um homem, mas sua obra em nada reflete essa violência. Não faz sentido propor que ela não seja vista”, reflete Bosco. No entanto, ele entende que, em alguns momentos, a adesão política a determinados movimentos acaba aparecendo na criação. “Há casos em que a vida moral se traduz na obra. A cineasta alemã Leni Riefenstahl era uma colaboradora do nazismo por meio de seus documentários. Aqui a atitude mais produtiva não é proibir seus filmes, mas estudá-los criticamente, procurando entender, por exemplo, qual a estética do nazismo”, conclui o ensaísta.

BAD BOYS

O cinema levantou a discussão, que se espalhou pelas artes em geral. Mas em outros ambientes criativos do nosso cotidiano, como o caráter do criador se relaciona com a sua obra? O futebol, por exemplo, que já foi feito de homens, digamos, explosivos nos anos 80, como Mario Sérgio e Serginho Chulapa, bad boys nos 90, como Romário e Edmundo, hoje esbarra num certo bom-mocismo ensaiado. Ao mesmo tempo, um jogador que tem uma atitude de acusar um erro de arbitragem que beneficiaria seu time, como fez o são-paulino Rodrigo Caio em 2017, é malvisto inclusive pelos colegas.

“Dentro de campo, existem códigos próprios, éticos, inclusive, entre os jogadores e demais integrantes do jogo. Fora, o atleta tem de pensar que muitas vezes inspira seus fãs, muitas vezes crianças, então o ideal seria que ele tivesse um comportamento em harmonia com a importância que sua figura adquiriu ao longo dos tempos”, avalia Arnaldo Ribeiro, chefe de redação dos canais ESPN, que faz questão de diferenciar imagem pública de caráter. “A questão do caráter é mais complexa, porque o jogador sem caráter vai acabar demonstrando isso dentro e fora de campo. Não são excludentes”, completa.

Falando em caráter no futebol, para muito além da imagem fora de campo ou do fair play dentro dele, recentemente o jogador Robinho teve a permanência no Brasil não concretizada muito em função de uma mobilização pública em contrário. O jogador foi condenado a nove anos de prisão porque teria participado, segundo a justiça italiana, de um estupro coletivo em 2013, quando atuava pelo Milan. Ele nega a participação. Em 2009, Robinho também foi acusado de estupro quando era jogador do Manchester City, e foi absolvido pela justiça inglesa. “Ele viveu uma situação inusitada, teve o mercado brasileiro fechado pela condenação por estupro em primeira instância na Itália. Reflexo total dos dias atuais. Tenho convicção de que, fosse outro atleta, com outra personalidade e comportamento, as portas não estariam definitivamente fechadas no Brasil”, afirma Ribeiro, que aponta que não devemos esperar que o futebol seja melhor que a sociedade na qual ele está inserido. “Muitas vezes temos a impressão de que o futebol tem o poder de mudar a sociedade, pela sua capacidade de mobilização, mas o futebol não faz nada mais do que refletir nossa sociedade e seus momentos”, conclui.

Como o futebol, a gastronomia, outro campo criativo em evidência na sociedade atual, mobilizada nos últimos anos por chefes estrelados, escolas de gastronomia internacionais e reality shows televisivos, também reflete o mundo a seu redor. “A cozinha é tão bruta quanto o mundo, tem machismo, agressão física, droga, safadeza entre sócios, mas não sei de crime. No máximo, posso não concordar politicamente, não simpatizar, desconfiar, mas se um cozinheiro cria algo relevante, acho infantil não provar, não escutar o que ele tem a dizer sobre o próprio trabalho”, avalia Fernanda Meneguetti, historiadora e crítica gastronômica, que há uma década escreve sobre gastronomia nos principais veículos do país, “Gula” e “Folha de S. Paulo” entre eles. “O dia que souber de um chefe estuprador ou algo do tipo, aí sim, que ele que crie as receitas dele atrás das grades e, se alguém quiser, que tente chegar à genialidade dele interpretando aquilo na própria cozinha”, completa Fernanda.

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QUESTÃO DE IDENTIDADE

Se o mundo se vê em uma onda de levantar as bandeiras de grupos que lutam contra abusos do passado, tudo indica que ele caminha para frente, evoluindo em relação a preconceitos e abusos. Mas, em geral, momentos assim não são campos férteis para ponderações ou aprofundamento das discussões, algo que só deverá acontecer nas gerações seguintes. “O que mais identifica uma geração posterior é justamente a oposição à herança cultural deixada pela geração anterior”, explica Angela Fernandes, psicóloga especializada em terapia cognitiva comportamental com formação na Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. “Os movimentos identitários atuais estão resultando em comportamentos extremamente uniformizados, até mesmo na utilização do próprio corpo como um veículo, um panfleto, e esses movimentos tendem a ser seriamente questionados pela geração seguinte”, completa.

Para a psicóloga, é normal que, diante de um momento de reivindicações, os indivíduos não se aventurem a aprofundar as questões sob pena de perder o bonde da história e arriscar o senso de pertencimento ao próprio tempo. “É algo comum historicamente, não apenas na era atual, o medo de deixar de pertencer a um grupo ou movimento que tenha a ver com identidade, sob risco do isolamento e de perder a aprovação social”, diz Angela, que vê paralelos entre os engajamentos atuais e os movimentos políticos de massa.

“Existem nas redes digitais formações de laços grupais que produzem discursos dogmáticos e extremamente resistentes à crítica. Não é difícil entender. Fazer parte de uma identidade grupal traz diversas recompensas: você é apoiado por milhares de pessoas, suas certezas são sempre confirmadas, você se fortalece psicologicamente, goza narcisicamente e se organiza melhor politicamente. Em nome dessas recompensas, a tendência é encarar o dissenso como ameaça da perda do gozo, transformando o eventual crítico em inimigo”, reflete Francisco Bosco, quando questionado sobre movimentos de convergência de massa. Ele questiona a expressão. “Dito isso, seria preciso questionar o que você chamou de ‘convergência de massa’. Em alguns contextos, a ‘massa’ parece ser antes uma ilusão produzida pela ‘bolha’, isto é, pelo grupo de pessoas com que você se envolve, por afinidades políticas”, define.

ESPÍRITO DO TEMPO

A sensação de estar numa bolha é recorrente para qualquer pessoa engajada em causas nas redes sociais. É aquele sentimento de que algo só repercute no ambiente virtual, e que a realidade que está lá fora tem uma agenda completamente alheia àquele outro universo. A bolha é algo que incide diretamente na pergunta principal deste TAB: o que faremos com a obra dos homens acusados de desvios de caráter? “Existe uma fatia de admiradores de cinema que se sentirão incomodados ao ver obras de artistas que um dia admiraram, e que agora se mostram tóxicos. Mas a massa não fará essa distinção”, conclui Roberto Sadovski. “Ninguém vai deixar de apreciar “Kill Bill” por Tarantino ter olhado para o outro lado em relação a abusos cometidos embaixo de seu nariz, ou até com sua conivência”, afirma o crítico.

Para Lisandro Nogueira, professor de cinema e ex-diretor da Cinemateca Brasileira, os artistas costumam pagar o preço do espírito dos novos tempos. “Os crimes, violações e abusos devem ser punidos com rigor. Mas quando há um novo ‘espírito do tempo’, os primeiros a serem crucificados são os artistas. É estranho que todas as acusações venham à tona de uma vez sem separar os casos e questões. Nessa hora, a obra estética é deixada de lado para ficar na vida moral do acusado. A arte, questionadora e crítica, perde e seus autores são colocados na parede”, afirma.

Faz sentido condenar uma obra pela vida de seu criador? Pior, e para usar aquela palavra obscena que começa com "C", é permitido que se aplique a censura nas obras que soam ofensivas ou difamatórias? “Sou contrário às pressões de determinados movimentos sobre instituições, no sentido de censurar a obra de artistas denunciados por alguma falta moral”, diz Francisco Bosco. “Aqueles que considerarem que o autor em questão cometeu uma falta grave têm a opção de se afastarem de suas obras. Mas essa opção deve ser individual. Do contrário, algum grupo estará sendo autorizado ou se autorizando a exercer o papel de detentor dos parâmetros morais da sociedade, bem como de seus mecanismos de punição, e isso é uma forma de autoritarismo”, conclui o escritor.

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O FILTRO CERTO

Rodrigo Salem afirma que o resultado desse movimento também é motivo de discussão em Hollywood. “A gente está discutindo muito isso, o que vai surgir desse movimento. Entendo que vai haver um movimento de reavaliação das obras, o que acho errado, porque no momento que a obra passa a existir para o público, ela deixa de ser do cineasta e do ator”, reflete o jornalista. “Tenho medo do que aconteceu com o [comediante e produtor norte-americano] Louis C.K., de repente a HBO apagou todos os especiais dele. Entendo que empresas queiram afastar as pessoas, mas deletar uma obra de arte é uma hipocrisia. A gente vai ter que ter certidões negativas do diretor, do produtor e dos atores para poder avaliar um filme?”, completa.

O professor Lisandro Nogueira engrossa o coro. “Todas as canções que Caetano Veloso fez e faz não são suficientes? Precisamos ser informados se ele namorou uma adolescente, com o consentimento dela, para dizer se sua obra é boa ou ruim?”, questiona. “A especulação sobre a vida do artista só é importante quando você estuda algum ramo da psicologia e da arte, mesmo assim com muito rigor e jamais para fazer julgamentos sobre a experiência estética em si, que é outra coisa”, ele completa.

“Talvez a história da arte nunca tenha tido esse critério”, completa Wolney Unes. “Critérios humanos tendem a se pautar mais por uma teia de relações e interesses. O produtor que quer sexo com um ator irá valorizá-lo em detrimento de outro, o galerista que tem mais lucro com um autor quer privilegiá-lo, o grupo político que se vê representado por um escritor irá esforçar-se por prestigiá-lo, e assim por diante. O conjunto das obras da história da arte, o cânone, é uma construção, antes de tudo, política”, completa.

“A Meryl Streep me disse que a gente vai olhar para 2017 como um ponto de reviravolta, e pode ser mesmo, o ano que as vozes finalmente foram ouvidas, e podem surgir coisas muito boas disso. Já começaram a surgir certas regras e as pessoas que sempre usaram o poder para obter favores, sexuais ou não, já têm medo”, avalia Rodrigo Salem. “O meu receio é que tudo vire uma grande Disney. O mundo é duro, o mundo é ruim, o cinema não pode substituir a educação que você recebe em casa. A arte é feita para fazer a gente pensar no que está acontecendo, não para passar a mão na cabeça de ninguém”, completa.

Critérios históricos à parte, talentos e caracteres de lado, nunca é demais lembrar, no entanto, que o que está do outro lado deste cabo de guerra são pessoas. Mulheres que tiveram seus corpos violentados, negros que tiveram seus direitos negados, gays, lésbicas e transexuais que tiveram suas respectivas condições ridicularizadas por décadas. “Nenhum filme vale o sofrimento alheio. Temos vários gênios trabalhando com arte. Talvez seja a hora de filtrar os canalhas desse bolo. E o momento é esse. O melhor disso tudo é que o cinema e as pessoas saem fortalecidos”, conclui Roberto Sadovski.

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