As travas sem travas

As ruas ficaram pequenas, e as travestis agora querem espaço nas escolas e empresas

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Muitas sofrem, ao mesmo tempo, problemas de ereção e uma irritação similar a uma TPM. Outras consideram ter um relacionamento heterossexual com seus namorados, mas chamam de “mariconas” seus clientes enrustidos. Poucas, porém, conseguem escapar do destino que o Brasil até agora reservou para elas: a prostituição.

Se arrumar emprego formal está difícil para todo mundo, imagina para uma travesti, historicamente excluída desse grupo “todo mundo”. O empresário ou executivo que contrata seus serviços à noite foge dela à luz do dia. Mas o mercado de trabalho está se abrindo aos poucos graças a empresas e ONGs corajosas e ao estímulo público. As travestis, em geral, deixaram a família e os estudos cedo por conta do preconceito. Agora voltam às aulas e, melhor, chamadas pelo nome social.

Esse movimento ocorre numa sociedade cujos sentimentos de desejo e repulsa são extremados. O Brasil é o maior consumidor mundial de pornografia com travestis (vê 89% a mais do que a média mundial, segundo o site RedTube). Por outro lado, é o país que mais mata travestis e transexuais (quatro vezes mais que o segundo colocado, o México), segundo a ONG Transgender Europe, com dados de 2008 a 2013. Chegou a hora de tratá-las por aqui não apenas com os instintos humanos mais básicos.

nem homem nem mulher

Hoje, Luisa Marilac vive como palestrante e atriz, mas colecionou sete facadas ao longo de 15 anos de prostituição no Brasil e Europa. Sua fama surgiu após publicar um vídeo do YouTube em que tomava “bons drinque” na piscina e dizia: “se isso é estar na pior, porra”. Ela defende que existam cotas nas empresas para travestis e transexuais: “só assim vamos sair da pista.” Após a notoriedade, deixou de fazer programa. Trabalhou um ano como supervisora de limpeza de um hotel gay-friendly, graças a uma vaga que viu no site TransEmpregos – uma boa iniciativa de inclusão, mas que, reveladoramente, oferece raras oportunidades.

Segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% das travestis se prostituem. As exceções são quem cresceu em família estruturada ou quem fez a mudança depois da formação profissional. Outras dependem das poucas iniciativas em seu favor, como o “Selo Paulista da Diversidade”. Essa política estadual estimula a inserção da mão de obra de diversas raças, deficiências, idades e identidades de gênero. Indústrias, supermercados e bancos já ganharam o selo criado em 2007.

Esse projeto, porém, é generalista. Mais específica foi a decisão da Escola de Teatro SP, que contratou sete travestis para as áreas de administração e pedagogia. Flávia Araújo trabalha como arquivista. “Eu era profissional do sexo até 12 anos atrás. Trabalhei em telemarketing, mas só agora tive uma oportunidade boa. Travesti quando envelhece um pouco vira costureira, maquiadora ou cabeleireira. Escapei disso.”

A segregação pode ser constatada pelo destaque dado pela imprensa quando uma travesti faz carreira. É o caso da cearense Luma Andrade. Ela virou notícia a cada objetivo alcançado: defesa de doutorado, ao assumir como professora de universidade pública em Fortaleza e quando concorreu à reitoria em 2015. Tudo isso era inédito no Brasil. De origem pobre, ela recebeu propostas para “fazer programa” na juventude, mas sempre preferiu estudar. Outro exemplo de sucesso é Amanda Palha, travesti ativista que entrou neste ano em primeiro lugar no curso de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco.

Além de assistência jurídica e psicológica, a Prefeitura de São Paulo dá 164 bolsas de R$ 983,55* para as travestis que assistirem a 30 horas semanais de aulas de formação básica e profissional. O programa se chama Transcidadania. A procura é tanta que há travestis nos cursos mesmo sem direito a bolsa. Uma das formadas foi Samaya Cordeiro, hoje trabalhando como auxiliar de limpeza em escola do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). “Vim de Manaus para São Paulo enganada. Caí na prostituição e me endividei com a cafetina. Mas não queria aquela vida. Hoje sou feliz”, afirma.

Em outras cidades, iniciativas particulares estão promovendo uma nova transformação na vida das travestis. Em Belo Horizonte, a advogada Adriana Valle criou em 2015 o TransEnem e conseguiu que duas das 12 alunas entrassem em faculdades. Também na capital mineira surgiu o Transvest, encampado pelo professor e militante LGBT Eduardo Salabert. No Rio e em Porto Alegre, foram criados cursinhos semelhantes.

Se a procura por emprego é difícil, a busca pela feminilidade é pior. E mais cara. Essa combinação empurra ainda mais as travestis para a prostituição. Várias redes de cafetinagem bancam viagens e operações plásticas. As travestis endividadas pagam juros que fariam corar um agiota para financiar sua arriscada metamorfose de silicone e hormônio. Elas ainda pagam o “pedágio” para batalhar nas esquinas e o aluguel por quartos minúsculos, em que trabalham e dormem.

A principal rota atualmente traz travestis de Manaus e Belém para São Paulo, com promessas de rendimento fácil e cirurgias baratas. Depois de moldar o corpo com doses cavalares de hormônios e perigosas injeções de silicone industrial, o próximo destino são as vias de Roma ou Milão. E as dívidas vão se acumulando, mesmo recebendo em euro.

“Coloquei silicone no bumbum com dinheiro da cafetina e agora estou pagando o dobro. Mas eu não ia conseguir me operar sem ser desse jeito”, conta Isabele Alves, travesti manauara que bate ponto na região do Jockey Club de São Paulo. Ela trabalhava como montadora de laptops e tablets na Zona Franca de Manaus, mas os dois salários-mínimos que ganhava adiaria em alguns anos seu tão sonhado corpo feminino.

Há vários "perfis" de travestis. Os extremos são as “siliconadas” e as “hormonizadas”, com várias graduações intermediárias. Tudo depende do tipo de programa. As ativas, em geral bem dotadas, não tomam hormônios femininos porque isso prejudica a ereção. O típico cliente delas já chega perguntando qual é o tamanho de seu membro. Essas travestis ganham contornos femininos graças principalmente às “bombadeiras”, veteranas trans que ganham a vida bombando silicone nas novatas. Bem ao gosto brasileiro, as injeções se concentram nas coxas, bunda e quadris. As agulhas grossas de uso veterinário causam dores fortes, suavizadas com muita xilocaína. Nessa “medicina” improvisada, os furos na pele são vedados com cola Super Bonder para criar uma película que impeça o líquido viscoso de escorrer para fora.

Já as hormonizadas sofrem até uma espécie de TPM pela overdose de anticoncepcionais. “Quando eu tomo muito hormônio fico insuportável. Eu não estaria falando com você agora, não [se tivesse tomado]. Não aguento muito papo”, dispara Gisele Arteche durante a entrevista. A presença maior de hormônios no corpo provoca a irritabilidade. Mas a automedicação funciona: despontam pequenos seios, e a área dos quadris ganha volume. Entre os efeitos colaterais está a dificuldade para ter ereções completas. Mesmo as mais femininas precisam, por carga do ofício, desempenhar o papel ativo com seus fregueses. Aí, outra pílula entra no coquetel: o viagra.

Os governos começam a se preocupar. A prefeitura paulistana, por exemplo, orienta e distribui tratamento hormonal desde o final de 2015. Como acontece em outras áreas da saúde pública do país, o serviço é gratuito, mas há muitas queixas que faltam medicamentos. Já o programa nacional SUS (Sistema Único de Saúde) garante desde 2008 o tratamento hormonal e as operações de readequação sexual.

Há registros no Brasil de homens biológicos que viviam em trajes femininos desde a década de 1930, mas foi na virada dos anos 60 para os 70 que o travestismo se escancarou em shows como os de Rogéria e Laura de Vison. Quando chegou a década de 1980, elas já estavam nas ruas e na televisão (os apresentadores Silvio Santos e Bolinha sempre perguntavam qual era o sexo, e a caloura respondia: “Sou boneca”). Também por essa época chegou ao país as injeções de silicone, trazidas por travestis brasileiras que migraram para a França.

O país vivia o final do regime militar. A repressão policial era forte e continuou assim na transição para a democracia. Muitos policiais sabiam golpear as travestis na região da cadeira para criar deformidades justo no lugar com mais silicone e mais apelo sexual – a ideia era prejudicar sua atividade profissional. “A violência policial diminuiu nos últimos anos, mas a violência da sociedade continua”, reclama Keyla Simpson, presidente da Antra.

Por esse pioneirismo no movimento gay e pela resistência diante das agressões diárias, o termo “travesti” é defendido por elas diante da guerra semântica que invadiu um século 21 cheio de siglas (o movimento GLS virou GLBT, que foi rebatizado LGBTT até a próxima mudança) . As trintonas e demais veteranas se definem como travesti, enquanto as novatas preferem a categoria “mulher trans”. “Pode me chamar do que quiser. Só não pode falar travecão. Gosto de ser chamada de trava. Acho carinhoso”, opina Luisa Marilac.

Apesar de existirem travestis (operadas ou não) atraídas por mulheres, a maioria tem desejo por homens, em relações que são reconhecidas por elas como bi, hetero ou homossexuais. Mas, em geral, as travestis procuram parceiros com características puramente masculinas. Seus namorados são o que elas definem como “macho”. “Meu homem tem que fazer sentir mulher. Não pode ficar olhando meu pau, muito menos tocar”, sintetizou as exigências Lindsay Lohane, em uma noite sem muito movimento na rua Rego Freitas, centro de São Paulo.

O antropólogo sueco Don Kulick morou durante um ano com travestis no centro de  Salvador e descobriu traços do mais típico machismo brasileiro na forma de pensar das travestis. Um exemplo: os namorados são sustentados pelo rendimento de sua amada, mas, em troca, eles devem ficar em casa e não se aproximar de outras travestis (pelo mais puro ciúme). Segundo Kulick, esse “zangão doméstico” tem como principal função “fazer mulher” a sua parceira, repetindo uma das máximas machistas nacionais. Muitos namorados, quando veem o risco de serem trocados - e consequentemente despejados -, tentam agradar aceitando fazer sexo oral ou ser penetrado pela travesti. Com isso, de acordo com o estudioso, o namorado está selando um divórcio.

Vivendo sua identidade de gênero 24 horas por dia, as travestis costumam desqualificar seus clientes como “mariconas” por esconderem seu desejo diante da sociedade. Em muitas entrevistas, elas falam que a maioria deles querem ser passivos diante daquelas figuras femininas. Mas Kulick comprovou que não é tanto assim. O pesquisador tabulou os tipos de programa de cinco travestis durante um mês. A classificação, em um linguajar brasileiríssimo da silva, obedeceu o critério de serviço prestado: 52% “deram”, 19% só “chuparam”, 18% “deram” e “comeram”, 9% “comeram” e 2% “bateram punheta”.

Uma divindade hermafrodita usando a esquina como altar. Durante muito tempo, as travestis foram tratadas, de tão excluídas que estavam de estudos e políticas oficiais, como tótens mitológicos. Agora, a percepção é outra: elas ajudam a entender o país. Para o professor sueco, as travestis brasileiras são um fenômeno social muito diferente das transexuais da Europa e EUA e seriam versões tão nativas quanto as lady boys da Tailândia e as hijras na Índia. Em meio à filosofia budista do carma, os tailandeses aceitam bem quando uma alma feminina habita um corpo masculino. As lady boys estão na indústria do entretenimento e do turismo sexual de lá. Já as hijras são uma casta dentro do hinduísmo, participando da benção quando nasce um filho homem. A maioria é castrada, e no Paquistão e em Bangladesh são registradas como “terceiro sexo”.

Para Kulick, há uma relação permanente de antagonismo com os gays e com as mulheres. Muitas travestis se afirmam melhores amantes, mais vaidosas e dispostas a arriscar a própria vida pela feminilidade que as mulheres ganham geneticamente. A naturalidade das mulheres é ensaiada pelas travestis. O jeito feminino vira trejeito e cacoete. E a voz parece uma dublagem anasalada e pontuada de agudos. O corpo é uma projeção luxuriante de como um homem desenharia uma mulher sobre sua ossatura. O silicone infla braços e mãos para esconder as veias, saltadas e másculas veias. “Os travestis são o reflexo, mas as mulheres são como espelho”, afirma o antropólogo.

Por outro lado, apesar de muitas travestis se definirem socialmente como “mulheres trans”, elas habitualmente se tratam com termos como “bicha”, “viado” ou “mona”, expressões populares para designar os homossexuais. Como o antropólogo acompanhou, elas só se ofendem mesmo quando são tratadas como homens. Dá bate-boca e briga. O limite para a ira é evitar uma morte: elas sabem que, nos programas policiais de TV, elas serão tratadas como homens.

Uma característica inegavelmente masculina é o apetite. “Prefiro trabalhar com as travestis porque elas comem bem mais que as mulheres”, conta Margot Almeida, tirando do porta-malas de seu carro sanduíches, tortas de frango, cafezinho e refrigerantes. Ela estaciona seu comércio nas ruas próximas à entrada principal da USP (Universidade de São Paulo), tradicional ponto de prostituição. Outros três ambulantes de bicicleta vendem marmitex para as travestis. O expediente é longo. Os vendedores fazem fiado, conhecem as clientes pelo nome e participam das rodas de fofoca que ajudam o tempo a passar.

Mirela era Léo até dois meses atrás. A travesti era michê. “Vestido de rapaz, eu não tinha muito cliente. Também não me identificava. Estou mais feliz como mulher.” Aos 18, ela ainda parece em formação, com a peruca loira, a orientação sexual e a identidade de gênero deslizando na sua cabeça. Contrariando as mais militantes, Mirela fala de si em uma mesma frase com declinações femininas e masculinas. 

As travestis apontam sinais muito reveladores de nossa época, um tempo em as pessoas desempenham uma profusão de identidades em uma só vida. Em um século no qual é comum o sentimento de não pertencimento, elas são metáforas exuberantes dessa inadequação. Experimentam já de cara uma desconexão com o corpo em que existem. E, como isso não é bem aceito, elas acabam desligadas também da sociedade, começando pela família e escola e terminando no mercado de trabalho. Talvez perceber essa sensação comum à luz do dia seja o caminho para legitimá-las como elas são.

Esta reportagem também contou com apoio de:

7Iris Filmes, filmagem; Don Kulick, estudo acadêmico com as travestis; Prefeitura de São Paulo; Senai; Escola de Teatro SP, assessoria de imprensa.

*informação atualizada em 24/02/2017

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