Toque, olhe, pense, fale

Sem mais metáforas ou infantilização para falar sobre vulvas e vaginas

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Uma das seis artistas convidadas a retratar a genitália feminina neste TAB confessou: desenhar um pênis lhe pareceu mais fácil. Ela não tinha imaginado que fosse tão difícil ficar satisfeita com a ilustração de parte do seu corpo. A constatação faz sentido, e não só pela vulva ser menos aparente, mas se pensarmos que estamos mais acostumados tanto com a imagem quanto com as palavras para designar o órgão masculino. É só lembrar quantas vezes ouvimos “caralho” diariamente, inclusive em situações formais.

Mas mesmo falar “vagina” ou “vulva”, que são nomes científicos, continua uma questão contemporânea, seja no público ou no privado. A educadora sexual e empresária Clariana Leal lembra como foi apresentada a esse “não debate” nos anos 1990, quando vivia no Ceará com sua família. “Eram palavras meio proibidas (vagina e vulva). Sou filha única e tenho uma relação boa com minha mãe, mas ela usava termos infantilizados e, quando falava, no máximo era pra eu tirar a mão dali. Eu achava que era algo sujo. Acho que o ‘não falar’ gerou em mim um trauma. Na adolescência pensei até em fazer ninfoplastia (cirurgia que modifica a aparência da região) porque achei que tinha algo errado ali”, conta.

Sentimentos como o de Clariana são comuns. Até porque muitas pessoas não associam corretamente os nomes à região: vulva é o conjunto de órgãos genitais externos, e vagina é o canal interior.  É claro que a linguagem oral é influenciada por muitos outros fatores - por isso mesmo, neste TAB é mantido o nome que cada pessoa entrevistada dá à genitália -, mas é interessante notar que se trata de uma parte do corpo que, diferente de outras, muita gente não sabe direito como chama, e que ganhou uma infinidade de nomes.

Buscando na origem das palavras, tanto vagina quanto vulva derivam do latim e significam “bainha” e “aquele que envolve”, respectivamente. Já “boceta” (com “o” na grafia correta) é uma caixinha de madeira feita para guardar objetos de valor - há registros do termo relacionado ao órgão feminino em poemas portugueses do século 18. Na mitologia grega, a “Boceta de Pandora” seria a “caixa que continha todos os males”.

Para a linguista Flávia Botelho, professora da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso), esse imaginário ligado à origem dos nomes é tão enraizado que se traduz mesmo nos sinônimos populares para o órgão. “O tabu passa pela linguagem, mas também passa pela forma como nos constituímos como povo: somos muito católicos, cristãos, então criar metáforas é uma forma de podermos falar das partes sem falarmos delas diretamente. O fato de termos tantas [palavras] se deve também a nossa criatividade linguística e ao fato de o Brasil ser um país tão grande e com muita variedade no português”, acredita.

Acho que para muitas pessoas é inconveniente usar palavras que não estão acostumadas a dizer, e palavras que foram cercadas por um sentimento de vergonha por tanto tempo. Na minha opinião, é apenas uma palavra - falar 'vulva' deveria ser igual a falar 'mão' ou 'nariz'

Hilde Atalanta, ilustradora

Já a professora de filosofia Luiza Coppieters lembra do poder da linguagem de produzir e negar realidades. “Por meio dela se assumiu uma postura falocêntrica e se negou a existência da vulva. Isso que é apagamento: falavam ‘vagina’ como se fosse tudo”, pontua.

Para a psicanalista Regina Navarro Lins, a construção desse conceito tem a ver com duas coisas marcantes desde que o mundo é mundo: a opressão da mulher e a repressão da sexualidade. “Principalmente com o cristianismo, mas sempre teve”, diz ela.

“A sexualidade era considerada muito perigosa, diziam que a mulher era insaciável e em várias partes do mundo isso ocorria. Os maoris na Nova Zelândia diziam que o que destrói o homem é a vulva. Na Índia desenvolveram a ideia da vagina dentada, então sempre a sexualidade - de todos, mas especialmente da mulher - foi vista como uma coisa perigosa. A questão da vagina sempre foi uma coisa da qual a mulher se envergonhou muito. Acho que essa coisa dos vários nomes existe porque não é um assunto encarado com naturalidade”, completa Regina.

Creio que homens culturalmente olham para o próprio pinto, sem pudores, ou com bem menos pudores. As mulheres, em especial as mais velhas, dificilmente olham as próprias vulvas

Thaís Machado Dias, médica ginecologista

O ‘não falar’ pode até parecer besteira para alguns, mas não é algo isolado, que não acarreta outros problemas: ele está diretamente ligado ao ‘não olhar’ e ao ‘não tocar’. E, quando olhar, ter pouco repertório para se identificar. “As mulheres, em especial as mais velhas, dificilmente olham as próprias vulvas. E, quando olham, dificilmente olham outras vulvas. Então o acesso fica por conta do pornô, onde a vagina bonita é rósea, pequena e sem pêlos, ou seja, uma vulva infantil”, diz a médica Thaís Machado Dias, ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Ela acredita que uma consulta como a que é feita pelo grupo, "em que ensinamos anatomia da vulva e discutimos esses aspectos", é fundamental.

Clariana, por exemplo, não é um caso raro de jovem que já pensou em fazer cirurgia na região. O Brasil é recordista no procedimento: em 2016, 25 mil brasileiras fizeram a operação, a maior parte por motivação estética. A professora Luiza, que é mulher trans e aguarda para fazer a redesignação - cirurgia que transforma o pênis em vagina - se espantou ao descobrir como a intervenção estética era tratada com naturalidade e quase estimulada por médicos, enquanto uma operação como a que espera tinha tantos obstáculos. “A realidade para mulheres trans é que você não pode ter buceta, e para mulheres cis [que se identificam com o gênero designado no nascimento] é que você tem que mexer na sua buceta”, foi o que concluiu.

Esse excesso de cirurgias íntimas inspirou a galeria da ilustradora holandesa Hilde Atalanta. Ela desenha vulvas variadas a fim de mostrar a diversidade dessa parte do corpo, estimular o conhecimento sobre a região e a menção à palavra. Em sua conta no Instagram, recebe dezenas de comentários de vários cantos do mundo. “Ninguém deveria achar que deve fazer uma operação só porque a vulva não parece com as que se vê na pornografia, na mídia ou porque os outros esperam que ela tenha determinada aparência”, acredita Hilde.

Em São Paulo, o projeto Lambe Buceta é conhecido por buscar tornar mais natural a imagem da genitália e as denominações para ela. Também há outros grupos surgidos nos últimos anos que fazem camisetas e artes na rua com palavras como “vulva”, "pepeca", além de representações visuais do órgão. Nas batalhas de poesia e de MCs pelo país, mulheres falam sobre o assunto abertamente. Já na última edição da Semana de Moda de Nova York, a marca alemã Namilia desfilou uma coleção inspirada em vaginas e vulvas.

Por outro lado, uma fotografia de “A Origem do Mundo”, obra do século 19 do artista francês Gustave Courbet que mostra uma vagina, foi censurada em 2011 pelo Facebook.

 

Nada disso é por acaso. Segundo fontes ouvidas nesta reportagem, o conhecimento do corpo, dos nomes e a ruptura da relação com algo sujo ou feio podem ajudar tanto a sentir prazer quanto a perceber anormalidades e até a estar menos vulnerável a abusos: são formas de autonomia. Ou seja, todos esses “problemas” são derivados de uma relação de tabu. “A construção de um olhar positivo sobre o próprio corpo passa por compreendê-lo e nomeá-lo. É bem comum ouvirmos a reflexão sobre a concepção da genitália feminina como negativa a partir de nomes ouvidos desde a infância como ‘perereca, perseguida, fedida’ e outros”, afirma a ginecologista Halana Faria.

Para homens trans com quem conversamos, a relação com algo pejorativo pode ser ainda mais acentuada. "Existe muito essa coisa de, a partir do momento em que você tem uma vagina, você não ser um homem, e então recai na questão do órgão ser uma coisa suja, feia", conta o pedagogo Victor Augusto, criador da página "Moça, Você é Machista" e homem trans. Professor, ele percebe em sala da aula uma maior representação do pênis. "Vagina ninguém desenha porque não é um órgão de poder. Tudo isso é muito construído socialmente", acredita.

Manoela Gonçalves, estilista e gestora do projeto Casa das Crioulas, conta que só foi aprender a palavra vulva depois dos 20 anos. “Fomos educadas a não gostar da nossa buceta: até bacalhau sai como sinônimo, a referência é pejorativa. Vejo pela caminhada que fiz na periferia que as pessoas acham que a buceta não tem serventia que não seja dar, porque se é algo ruim ou feio a gente dá, sem saber o que é o prazer. Demorou muito para eu valorizar o meu corpo, identificar minha buceta como vulva. E é muito louco que, sem essas nomenclaturas, até na hora do parto você fica mais vulnerável: quando dei à luz, não sabia o que era períneo”.

Hilde Atalanta diz que, para ela, foi importante aprender o termo correto na infância, mesmo que estivesse livre depois para decidir qual usar. “Acho vulva uma palavra ótima: leve, amigável, descreve todas as partes externas dos genitais femininos. Mas também acho que todos devem escolher as palavras que querem usar. Sentir-se livres pra dizer pepeca, moranguinho. O que mais adoraria ver é uma educação sexual melhor”, opina.
 

Conhecimento é poder, toda vez que você sabe algo você tem como se defender

Flávia Botelho, linguista

Para Regina Navarro Lins, “tudo vai mudar no dia em que o sexo for percebido como uma coisa boa, natural”. Fale vulva ou o que for - a gente nem vai precisar debater isso. “Estamos no meio de um processo de mudança que vem desde a década de 60. As mentalidades estão mudando, mas não muda tudo ao mesmo tempo”, afirma.

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