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'Dietland' representa de forma crua as violências contra a mulher gorda

As atrizes Joy Nash e Juliana Margulies, em "Dietland" - Divulgação
As atrizes Joy Nash e Juliana Margulies, em 'Dietland' Imagem: Divulgação
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

18/09/2020 04h01

Lançada em 2018, a série "Dietland" é adaptação do best-seller homônimo publicado por Sarai Walker em 2015. Tanto a série quanto o livro tratam da jornada de empoderamento e autoconhecimento de uma escritora e jornalista que resolve rebater as pressões exercidas pela cultura do patriarcado e dos padrões estéticos.

Alicia Kettle ou Plum (Ameixa), como é apelidada por ser "fofinha e suculenta", é interpretada pela atriz Joy Nash, rosto já conhecido para quem assistiu à mais recente temporada de "Twin Peaks". Ela atua como ghost writer de uma grande revista feminina adolescente, pela qual responde às cartas enviadas pelas leitoras para a editora-chefe Kitty Montgomery, interpretada por Juliana Margulies (a Alicia de "The Good Wife").

O pano de fundo da série não é inovador — aliás, é muito parecido com obras de comédia romântica, como a famosa "O Diabo Veste Prada". Aqui, os clichês e os estereótipos da indústria da moda e da mídia não são usados apenas como recursos para se contar uma história. Em muitos momentos, ficamos em dúvida se "Dietland" é, de fato, uma narrativa totalmente ficcional ou se não inclui elementos biográficos.

Logo nos primeiros episódios, somos esmagados pela narração de cartas enviadas por adolescentes à revista. Elas discorrem sobre automutilação, bulimia, anorexia, violência doméstica, tentativa de suicídio e estupro. Plum é responsável por responder a essas cartas ao mesmo tempo em que ela, como mulher gorda, testa sua milésima dieta restritiva e participa de encontros do grupo Waist Watcher" ("vigilantes da cintura", clara alusão ao Weight Watchers, nome em inglês para os Vigilantes do Peso).

Enquanto Plum é elogiada por seus esforços, apesar de seus resultados não serem tão gritantes na balança, somos surpreendidos pela chegada de uma mulher gorda e vestida com roupas extravagantes. Atrasada e expansiva, a personagem rompe com os contratos invisíveis entre as participantes do grupo. Ali vemos uma mediadora magra que incentiva comportamentos transtornados quando, por exemplo, uma mulher também magra reforça que precisa continuar emagrecendo a pedido de seu marido. É nesse ponto que a nova integrante explode, dizendo que ela não estava ali para ser magra, apenas para perder um pouco de peso devido a um problema na coluna, mas que ela estava satisfeita com seu corpo, inclusive do ponto de vista sexual.

São pequenos gestos e eventos como esse que vão fazendo com que Plum reavalie a maneira como enxerga seu próprio corpo e autoestima. Ainda assim, assistimos à oscilação da personagem ao longo de dez episódios — por mais empoderada ou consciente de sua condição, ela é interceptada por eventos, comentários e pessoas que a fazem duvidar e retornar à fase inicial de autodepreciação.

Os choques de realidade da série são tão violentos e realistas que, em um momento de tristeza, Plum decide comer um cachorro quente em uma rua movimentada e um homem acaba esbarrando nela. Irritado, ele a chama de gorda e diz que ela deveria parar de olhar para a comida e prestar atenção por onde anda; quando a protagonista responde com um grito, leva um soco no rosto.

Em muitos momentos Plum ganha uma injeção de positividade e autoestima, o que a faz, por exemplo, mudar seu guarda-roupa preto e disforme por roupas coloridas e estampadas. Chega a ir a encontros. mas quando finalmente tanto a personagem como os espectadores "baixam a guarda" e acreditam que agora ela vai encontrar alguém que a respeite e a ame de verdade, somos surpreendidos por mais baldes de água fria. Ora Plum é abandonada ao longo do encontro, ora sequer aparecem. Em outros casos, somos interpelados pela terríível informação de que alguns homens só se relacionam com mulheres gordas por fetiche. Em um dos encontros, chega a ser estuprada.

Plum tem a autoestima tão abalada que ela não consegue avaliar se ela foi mesmo violada ou se foi culpa dela não ter deixado claros seus limites. A série é bastante sensível e dolorosa ao representar dores reais e pesadíssimas enfrentadas por tantas mulheres. Como alguém que não merece ser amada por causa de seu corpo, Plum se sujeita à humilhação e a relacionamentos tóxicos por não se considerar digna de respeito e amor. Mesmo quando se sente em um ambiente seguro, conversando com seu amigo Steven (Tramell Tillman), um homem negro e gay, Plum é surpreendida pela preocupação dele ao saber que a amiga decidiu parar de fazer dietas e aceitar seu corpo do jeito que é — para ele e tantas outras pessoas, ser gordo é necessariamente ser doente, o que não é verdade.

Para conseguir mudar essa percepção de si própria, Plum recebe ajuda de diferentes personagens, como é o caso de Verena Baptist (Robin Weigert), filha da criadora de um programa de dietas vendido pela Igreja Batista e fundadora de um coletivo feminista chamado Casa Calliope, em que acolhe mulheres marginalizadas ou vítimas de violência.

A série foi cancelada já na sua primeira temporada, não sem razão. Sua criadora Marti Noxon comete um erro grotesco ao criar uma trama policial que põe as próprias mulheres da série em guerra contra si mesmas. Enquanto temos a Casa Calliope como uma representante de um feminismo pacífico, mas orientado por uma liderança branca e rica, assistimos aos atos terroristas do grupo Jennifer, que mata estupradores e uma famosa atriz pornô que construiu sua carreira gravando filmes de estupro.

Os atos violentos fazem com que a sociedade repense suas escolhas a partir do argumento de que só se causa uma mudança perante uma sociedade violenta com mais violência e não com "ativismo de sofá". A justificativa é controversa, mas Kitty Montgomery embarca uma versão do feminismo liberal ao transformar as ações do grupo Jennifer em material para suas revistas femininas, o que rende vendas altíssimas.

A editora-chefe do conglomerado midiático é caricata ao ser uma mulher extremamente magra, que só usa grifes, está sempre maquiada e belíssima. Desde a cena em que ela cheira uma batata frita em vez de comê-la ou quando pede para seu assistente comprar fast-food sem dizer que é para ela, Kitty é cheia de artimanhas que sustentam seu status de mulher poderosa em meio a uma empresa de homens brancos ricos, sendo um deles seu ex-marido. Apesar de gerar lucro, ou talvez justamente por isso, Kitty se torna uma ameaça à liderança masculina que a pune com artifícios burocráticos, mas sua maneira de lutar contra isso é através de sabotagem ou com o uso do próprio corpo. Em vez de se render ou de procurar apoio com as esposas desses homens, na realidade, Kitty é ostracizada e nem por isso deixa de punir seus funcionários.

Em outras palavras, o fato de a série ter sido cancelada pode ter sido uma boa decisão para assegurar o legado positivo de uma narrativa que perdeu a mão. Fora isso, a consciência racial e sexual da série é bastante fraca se comparada às questões de gênero, o que torna a perspectiva da mensagem muito focada em um feminismo branco e de classe média. Ainda assim, "Dietland" continua funcionando como uma boa série ao abordar questões intrínsecas à vivência feminina na contemporânea. Em um momento no qual amar a si mesma e respeitar seu próprio corpo é um ato revolucionário, trazer esses assuntos da maneira explícita e sincera como ocorre em "Dietland" é também uma forma de resistência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL