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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'É só fechar a boca': novo dispositivo oferece perda de peso e de expressão

Professor Paul Brunton com o dispositivo DentalSlim  - Universidade de Otago/Divulgação
Professor Paul Brunton com o dispositivo DentalSlim Imagem: Universidade de Otago/Divulgação
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

02/07/2021 04h01

Junho acaba e os absurdos continuam. Está rolando no Instagram e no Twitter a notícia de um dispositivo para perda de peso criado por pesquisadores da Nova Zelândia e do Reino Unido. Chamado de DentalSlim Diet Control, o dispositivo se assemelha a um aparelho ortodôntico, mas sua finalidade é limitar a abertura da boca do usuário, impedindo que ele consuma alimentos sólidos. O aparelho recebeu adaptações feitas por um dentista e inclui ímãs que prendem os molares superiores aos inferiores — a boca só abre dois milímetros. Segundo os pesquisadores, a criação foi feita pensando em pacientes obesos que desejam emagrecer a partir de uma dieta estritamente líquida.

O artigo que apresenta o dispositivo foi publicado no British Dental Journal, periódico oficial da Associação Britânica de Dentistas, que faz parte das publicações do grupo da revista Nature. O fator de impacto da publicação até 2019 era de 1.306, o que significa que o periódico não é tão relevante assim na academia. Ainda assim, o artigo ganhou bastante visibilidade — menos pelo seu rigor científico e mais pelo absurdo proposto.

Em seu Instagram, a antropóloga especializada em distúrbios alimentares Beatriz Klimeck fez a provocação: se é validado cientificamente, é ético? Em sua dissertação "Anorexia? Não, olha seu tamanho" (2020), a pesquisadora já havia mencionado a prática do "jaw wiring", isto é, a amarração da mandíbula utilizada por dentistas há décadas. Klimeck alerta que o dispositivo pode causar problemas na dentição, estresse físico e psicológico.

O argumento de venda é que o aparelho é "uma alternativa não invasiva, reversível, econômica e atrativa", se comparada a outros procedimentos, como a cirurgia bariátrica. Durante o estudo clínico, porém, os pesquisadores observaram que o DentalSlim ainda oferece "alto risco de asfixia", caso os pacientes acabem vomitando ou tentem ingerir alimentos sólidos, mas não se preocupe: o aparelho vem com um mecanismo de segurança que permite o desligamento em caso de emergência.

Apesar de ultrajante, a ideia não é nova. Em 1980, um dispositivo semelhante ficou popular. Usado por um período de 9 a 12 meses, acarretou no desenvolvimento de doenças gengivais, restrição do movimento da mandíbula e até mesmo condições psiquiátricas agudas.

Na Wikipedia, é possível achar uma vasta lista de métodos de tortura usados ao longo da história. Apesar de alguns pesquisadores afirmarem que dispositivos como o cinto de castidade não passaram de um conceito, outros equipamentos são confirmados: é o caso do scold's bridle ou witch's bridle. A máscara de ferro era usada para silenciar mulheres que cometiam crimes como "falar demais", "ser muito mandona", ou quando eram acusadas de bruxaria. Como descreve Andrea Mejía, ele era feito para ser usado em público, porque, até pelo menos o século 19, acreditava-se que a humilhação era a maneira mais efetiva de se fazer com que as pessoas deixassem de cometer crimes.

No livro "O Mito da Beleza", Naomi Wolf afirma que, ao longo da história da humanidade, sempre houve padrões de beleza quase sempre impossíveis de serem alcançados. Na Idade Média, os nobres tinham muito mais acesso à comida, o que significa que dificilmente a plebe teria corpos fartos, modelo desejado à época.

Ao final do século 19, a ascensão das sufragistas trouxe mulheres que reivindicavam o direito ao voto e à participação igualitária na sociedade. Wolf argumenta que, em contrapartida, nos anos 1920, vemos a ascensão das melindrosas, mulheres longilíneas e sem curvas, como o padrão de beleza vigente. Se, naquela época, o acesso à comida era mais fácil devido à Revolução Industrial, então o padrão de beleza estaria novamente às avessas: ser bonita era ser magra e andrógina.

Apesar de o livro de Wolf não chegar aos anos 2000 com sua análise, a autora defende que não só o padrão de beleza foi criado para vender produtos e serviços, como também para limitar a liberdade das mulheres. Ela conecta eventos históricos de ascensão do feminismo com uma intensificação do padrão de beleza, alertando que a defesa da cultura da dieta permanente é também uma forma de controle político. Tornou-se lugar-comum achar que conversa de mulher é sobre dieta, cosmética e roupas. Tornou-se normal e até desejável que a mulher peça desculpas ou se explique por que está comendo determinado alimento e quando ela irá "compensar as calorias", ou então que ela manifeste o motivo pelo qual é merecedora daquela refeição. Tornou-se trivial, portanto, achar que não existe vida sem dieta e, com isso, perdemos a autonomia de nossos corpos e percepções (inclusive de fome e saciedade).

A partir desse ponto de vista, o DentalSlim pode ser compreendido como um dispositivo que prejudica a função da fala. Em outras palavras, não só se limita o consumo calórico da pessoa, mas também a comunicação. Os autores do artigo dizem que todos os pacientes analisados na pesquisa "toleraram" (sic) o dispositivo durante duas semanas e mostraram uma perda de peso satisfatória (uma média de 6,36 kg) e que a qualidade de vida desses pacientes foi melhorada, incentivo adicional para continuarem tentando perder peso.

É óbvio que ficar sem comer ou só beber líquido durante uma semana vai levar à perda de peso, mas isso não significa que a perda de peso será sustentável e saudável. A estatística geral é de que 95% das pessoas que fazem dietas restritivas recuperam os quilos perdidos ou engordam mais do que antes. Como defende a nutricionista especializada em transtornos alimentares Sophie Deram, dietas restritivas ainda têm o poder de aumentar o apetite, diminuir o metabolismo e contribuir para o efeito sanfona. Nesse ciclo entre restrição, aumento do desejo de comer, exagero e sensação de culpa, há ainda o risco não apenas de fracasso da dieta como também do desenvolvimento de uma relação transtornada com a comida, como pensamentos obsessivos sobre alimentação e exercícios, comer emocional e desenvolvimento de transtornos alimentares.

Wolf argumenta em seu livro "O Mito da Beleza" que é neste ciclo autodestrutivo que as pessoas (ou, em seu caso, mais especificamente as mulheres) acabam se aprisionando.

Seria fácil dizer que é óbvio que apenas cientistas homens iriam chegar a essa conclusão. Mas o artigo é assinado por duas autoras mulheres (os nomes Li Mei e Arthi geralmente são dados a mulheres). Ou seja, o buraco é muito mais embaixo e enraizado. Nesse caso, dizer que obesidade é uma doença não funciona.

Neste vídeo, a nutricionista Marcela Kotait, especializada em transtornos alimentares e obesidade, comenta que, de fato, a OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica a obesidade (acúmulo de gordura) como uma doença, o que acaba estabelecendo uma conexão direta entre o corpo gordo ao corpo doente. Mas, como afirma a especialista, é sabido também que existem corpos gordos metabolicamente saudáveis. A correspondência não é correta.

Apesar dos esforços de ativistas da positividade e neutralidade corporais, e de esses movimentos até já terem sido capturados pelo marketing, ainda tem muito chão e muita cara de pau pela frente para brigar contra a promoção e o desenvolvimento de estratégias, produtos e serviços que correlacionam perda de peso à felicidade a qualquer custo. O dispositivo DentalSlim não é só um retrocesso para a endocrinologia, nutrição e psicologia. Ele sintetiza temas ligados a gênero, política e sociedade. Quando um dispositivo ou um método prioriza o silêncio e a asfixia, significa que há algo de muito errado e muito mais profundo do que a superfície consegue mostrar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL