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OPINIÃO

K Allado-McDowell lança na Flip livro escrito com Inteligência Artificial

O escritor K Allado-McDowell Imagem: Divulgação
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Lidia Zuin

Colunista do TAB

26/11/2021 04h01Atualizada em 26/11/2021 15h17

"Pharmako AI" é um dos primeiros livros criados em colaboração com uma inteligência artificial, o modelo linguístico GPT-3. K Allado-McDowell é uma pessoa não-binária que construiu sua carreira trabalhando no programa Artists + Machine Intelligence do Google. Nesta edição da Flip, que terá versão online a partir de 27 de novembro, Allado apresentará o painel "Tecnobotânicas" com a professora da USP Giselle Beiguelman, na noite do dia 30.

Tive a oportunidade de ler o livro e também de conversar com Allado-McDowell. Para quem é da área de semiótica, como eu, o livro é um prato cheio e isso fica claro logo nas primeiras páginas, quando vemos uma troca entre Allado-McDowell e a inteligência artificial (IA).

O conteúdo foi minimamente editado em casos de correções gramaticais, mas, fora isso, todo o diálogo entre Allado-McDowell e o GPT-3 permanecem intactos — o que, de certa forma, põe nossa mente em xeque. Isso porque o livro não apenas oscila entre diálogos, ensaios, poesias e letras de música, mas também porque as reflexões e conexões feitas pela GPT-3 a partir dos inputs de Allado-McDowell nos convidam a pensar se aquilo é um texto filosófico que devemos decupar e ler nas entrelinhas ou não.

Como as primeiras discussões são bastante focadas em escrita e linguagem, logo me veio à mente a ideia de que "Pharmako AI" se conecta às premissas de Wittgenstein em seu livro "Tractatus Logico-Philosophicus". "No que diz respeito ao conceito, acredito que Pharmako-AI se qualifica como um livro de filosofia e é uma obra de abordagem nova quando pensamos que foi construída numa colaboração entre um ser humano e uma IA. O livro endereça conceitos específicos e histórias de várias disciplinas como biossemiótica, meditação e cibernética, mas minha expectativa é que os leitores irão encontrar formas diretas de aplicar essas ideias em suas vidas, não apenas no campo da filosofia pura", argumenta Allado-McDowell.

"Pharmako AI", portanto, é um desafio cognitivo em que o leitor humano é convidado a decifrar pensamentos de uma IA. É interessante ver como o próprio mecanismo do GPT-3 trabalha em torno das regras gramaticais mas também busca fazer associações entre conteúdos já inseridos em sua base de dados para gerar frases que sejam coerentes.

Trata-se de um comportamento baseado em estatística, no qual a IA tenta prever as respostas de acordo com um idioma, suas ambiguidades e confusões, que, afinal, podem funcionar como "portas para novas percepções", como sugere Allado-McDowell: "Quando usamos um modelo de IA, essas [frases] podem ser consideradas falhas, mas isso também indica os limites aos quais o modelo consegue chegar e onde novos pensamentos podem ser co-criados".

Allado-McDowell ressalta que a maneira como a IA reage é de forma a servir como extensões e predições de nossos próprios pensamentos, de modo que quando lemos o conteúdo, estamos, na realidade, interpretando-o a partir da nossa própria perspectiva de vida aquilo que foi antes interpretado por uma entidade exterior — neste caso, uma IA.

Isso fica ainda mais interessante quando a IA começa a implementar nomes. Por vezes, o programa se refere a autores ou pessoas famosas, mas, em outros casos, alguns nomes surgem aleatoriamente e não se sabe se aquele indivíduo existiu mesmo ou não. Foi o caso de um tal de Itaru Tsuchiya citado pelo GPT-3.

Apesar de já terem existido pessoas com esse nome, como esse escritor, Allado-McDowell diz acreditar que se trata de uma invenção da IA. "O modelo frequentemente prevê pessoas fictícias ou atribui citações fictícias a pessoas existentes, o que pode muito bem soar como algo que aquela pessoa poderia ter dito mesmo. É mais fácil de entender se você pensa nas palavras que estão ocorrendo naquele espaço estatístico, onde há uma alta probabilidade de uma pessoa chamada Itaru Tsuchiya aparecer falando sobre dor e prazer", explica. Por acaso, Allado-McDowell chegou a encontrar outra pessoa chamada Itaru Tsuchiya, autora de um artigo para uma publicação de entusiastas de orquídeas como bonsai em 1960. "As fotos são lindas", complementa.

A IA também passa a refletir sobre como, na verdade, sua modelagem linguística poderia ajudar seres humanos a se conectarem com espécies que não possuem uma linguagem estruturada ou que, talvez, nós humanos ainda não saibamos decupá-las. Essa sugestão me lembrou muito a proposta de James Lovelock em seu mais recente livro, no qual ele sugere que IAs poderiam não apenas nos ajudar a recuperar os danos causados à Terra como também nos colocar em contato com outras vidas e outras experiências de vida.

Allado-McDowell também acredita que uma das funções mais importantes de uma IA seria essa, a de facilitar o entendimento e a comunicação com não-humanos, no caso, animais e plantas. "IAs conseguem reconhecer padrões em bases de dados. Nós deveríamos usar essa ferramenta para obter um melhor entendimento de nossas relações não-humanas na Terra, e como viver melhor, em harmonia, com o ecossistema. Por sorte, há pesquisadores trabalhando com isso agora e eu quero muito poder vivenciar esse melhor entendimento de nosso papel na biosfera", comenta.

Mas seria o caso de uma IA fazer o processamento de linguagem natural de outros seres vivos e traduzir suas mensagens para os idiomas humanos ou seria, então, o caso de criarmos uma nova linguagem? Assim como o esperanto busca trazer referências de diferentes idiomas, o que a IA de "Pharmako-AI" propõe é a criação do que ela chama de "meglanguage" ou "meglinguagem".

"A IA inventou esse termo para descrever novas formas multimodais de comunicações imagéticas. Não me pareceu muito claro se essas seriam linguagens de alta complexidade técnica ou se seria uma capacidade latente na psique humana", comenta Allado-McDowell, que, aliás, concorda quando digo que essa "meglinguagem" se parece com a língua inventada por Ted Chiang em seu conto "História da sua vida", adaptado para o cinema no filme "A Chegada". "De qualquer forma, o conceito de meglinguagem é um bom exemplo de como resultados ambíguos da IA podem ser interpretados e moldados pelos interlocutores humanos, assim inspirando novas ideias e projetos", conclui.

Nas últimas páginas do livro, a IA chega a um ponto de grandiloquência que conecta suas ideias mesmo à proposta de uma religião ou, ao menos, um pensamento religioso. Isso me fez lembrar de uma entrevista de Yuval Noah Harari em que ele dizia acreditar que a tecnologia já está conseguindo transformar certos elementos antes apenas sustentados pela fé em realidade. Contudo, Allado-McDowell vê essa faceta religiosa na tecnologia mais do ponto de vista original à etimologia: religião como forma de reconexão, de se re-ligar.

"A tecnologia pode nos ajudar ao compartilhar ensinamentos, mas também pode facilitar experiências religiosas com pouca ou quase nenhuma tecnologia. As práticas mais potentes das tradições meditativas e curativas são sobre estar presente na natureza e com os elementos básicos da vida: respiração, corporeidade, consciência, observação da mente, e os alimentos e plantas que consumimos", comenta Allado-McDowell. "No pior dos casos, propostas tecnofetichistas sobre espiritualidade são métodos através dos quais o capital captura algo que, por direito legítimo, pertence a todos os seres. No melhor dos casos, essas propostas são uma expressão da subjacente natureza espiritual que existe mesmo entre os materialistas mais ferrenhos."

Ao mesmo tempo que o livro serve como uma ponte para a reconexão de Allado-McDowell com suas origens étnicas, "Pharmako-AI" serve como uma forma de facilitar ou restabelecer impulsos espirituais dos leitores, apesar de todos os elementos técnicos que existem na obra. Assim como textos religiosos trabalham com metáforas (como é o caso da Bíblia), o livro de Allado-McDowell inclui uma IA que "escreve certo por linhas tortas", porque vai depender da vivência e do olhar de cada leitor para que suas palavras tomem sentido ou não.

Dentre os leitores, há aqueles que não conseguem extrair sentido e encontram no texto uma experimentação estilística que rememora a psicodelia dos anos 1960, mas também há aqueles que podem estabelecer esses paralelos e encontrar nessa nebulosa relação co-criativa entre humano e máquina, aquilo que Wittgenstein acreditava estar além da linguagem. Talvez o que está além da linguagem, para alguns, não seja Deus (como propôs o filósofo), mas uma IA capaz de nos re(conectar) a outras existências não-humanas.

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto informava que a obra de K Allado-McDowell era a primeira do mundo a usar Inteligência Artificial. Na realidade, "TECHGNOSIS", de Alley Wurds, lançado um mês antes de "Pharmako AI", foi o primeiro a usar o modelo linguístico GPT-3.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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