Matheus Pichonelli

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Opinião

'Bandido de estimação'? Por que a turma 'anticorrupção' poupa Bolsonaro

Em 2016, Aécio Neves foi a um protesto contra o governo Dilma Rousseff na avenida Paulista com um espólio de 51 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2014, quando foi derrotado no segundo turno, mas despontou como grande líder da oposição e principal beneficiário direto da crise que soterrava o PT.

"Oportunista" e "fora, vagabundo" foram os xingamentos mais leves que ouviu dos manifestantes anticorrupção.

O então senador ainda não tinha sido flagrado em conversas pedindo dinheiro para os donos da JBS, mas já aparecia em citações da Operação Lava Jato.

Em 2018, estava reduzido a um naco político. Entre os organizadores dos protestos contra Dilma, a ordem era que ninguém ali deveria ter "bandido de estimação".

A ironia é que, naquele mesmo ano, quem começava a ganhar atenções e aplausos do público supostamente disposto a varrer a corrupção do país era o então deputado Jair Bolsonaro, que aproveitava a onda para subir em carros de som e discursar contra tudo o que está(va) aí. Ele seria eleito presidente dois anos depois.

Em seu mandato, a revolta verde-amarela dos atos pelo impeachment se metamorfoseou em demonstrações de força e apoio ao presidente diante de qualquer princípio de incêndio, como os processos acumulados ao longo da condução criminosa da pandemia.

Para cada eleitor que mandava comprar vacina na casa de sua mãe, um exército de apoiadores surgia dizendo "eu autorizo".

Os manifestantes que tomaram as ruas pedindo impeachment de Dilma teriam afagado tanto o futuro presidente se soubessem de histórias sobre rachadinha, funcionários fantasma e uso indevido de cota parlamentar?

Ou se soubessem que, uma vez eleito, ele rebaixaria militares, seu advogado e aviões de carreira a muambeiros de joias desviadas? Ou que tentaria cooptar um hacker para supostamente atestar sua tese sobre a fragilidade das urnas?

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Em grupos de Telegram, a investigação da Polícia Federal sobre o caso das joias e presentes recebidos por Bolsonaro é tratada não como um escândalo, mas como "perseguição política", uma "farsa" que envolve o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e até o FBI.

O monitoramento desses grupos, no auge das revelações e em meio à tentativa abestada de seu advogado de explicar por que recomprou um Rolex nos EUA a mando de ninguém, foi feito pelo Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina.

Em um dos grupos, que reúne 10 mil usuários, segundo noticiou a Folha de S.Paulo, a prisão do ex-presidente é dada como certa, mas não com resignação. "Vamos acabar com o Brasil", prometem.

Passados nove meses desde o fim da campanha eleitoral, ainda é comum ver nas janelas de casas e apartamentos a bandeira do Brasil intacta. A bandeira, assim como o discurso anticorrupção, é um dos muitos símbolos apropriados por apoiadores do ex-presidente.

Em grupos de amigos e vizinhos, eles têm até justificativa, na ponta da língua, para responder aos que acusam o ídolo de corrupção: "Ele está sendo execrado porque vendeu as joias que ganhou, enquanto outros são venerados e protegidos pelo 'sistema' depois de saquear o país".

A dificuldade em compreender a gravidade dessas e outras suspeitas é a tônica da reação quase ensaiada da tropa de choque. Confrontados, ou desconversam, ou minimizam, ou sacam do coldre o argumento de sempre: "Mas e o Lula?"

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A relação com as mídias sociais ajuda a explicar a diferença entre o ocaso de lideranças que despontaram como líderes antipetistas, como Aécio, e a resiliência de Bolsonaro diante de notícias que não deixam de pé nem a sombra do "mito" pelo qual se projetou.

O sonho de todo autocrata é garantir o monopólio das informações que circulam entre os súditos. Ditaduras clássicas conseguem isso com base na censura e na perseguição aos informantes. Bolsonaro e seus pares fazem isso apostando no descrédito das instituições e do jornalismo profissional, atacados dia sim, outro também, ao longo de seu mandato.

Com a ajuda dos filhos millennials, Bolsonaro soube transformar seus perfis em redes sociais em um imenso alto-falante por onde fala sozinho sem margem a contrapontos. Distorce verdades, espalha boatos, instiga medos e promove ataques contra tudo o que o ameaça. Inclusive as autoridades responsáveis por enquadrá-lo toda vez que pisou fora das "quatro linhas" que tanto gosta de falar.

Pergunte a um fã de Bolsonaro o que ele pensa de Alexandre de Moraes e faça o teste. A resposta ajuda a entender por que qualquer decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal é automaticamente associada a um complô. Essa crença, embalada no discurso de guerra espiritual, resultado da aliança entre o ex-presidente e os vendilhões de seu tempo, é alimentada em grupos nos quais a ordem primeira é o boicote a jornais e canais de televisão que não estejam na lista de bajuladores do "mito" de pés de barro.

Pergunte a um eleitor lobotomizado quando foi que abriu um jornal pela última vez e a resposta não será uma surpresa. Não vale citar a Jovem Pan.

É como apagar a luz para manejar o medo e a esperança de seus habitantes no escuro: "ver", para eles, é um exercício apenas de crer no que seu líder descreve.

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Essa é a explicação racional para a resiliência do apoio a ele quando aparece nu em seu modelinho anticorrupção: no quarto escuro, tanto faz a roupa que se veste.

A outra é que Bolsonaro conseguiu criar um canal de identificação com os eleitores que nenhum outro postulante a líder anti-PT conseguiu. Essa conexão pode ser exemplificada pela declaração de Regina Duarte, atriz recrutada e depois queimada pelo próprio Bolsonaro ao assumir a Secretaria Nacional de Cultura em seu governo. E que, ainda assim, suspira de amores pelo capitão.

Antes da eleição, a atriz se dizia encantada com o "humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada".

A passagem de Bolsonaro pelo poder restaurou essa memória afetiva da "cultura envelhecida e ultrapassada" e libertou seus agentes a tirarem do armário o mofo que o "politicamente correto" chamava de preconceito ou mau gosto.

Essa turma já não tem em Bolsonaro, declarado inelegível, uma opção eleitoral. Mas demonstra disposição de ir para onde ele apontar o dedo, mesmo que seja detido.

Para parte dos fãs, não é fácil trancar isso de novo no armário. Por isso é tão difícil acreditar que a fachada do ídolo anticorrupção, com quem tanto se identificam, está trincada e não é de hoje.

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Essa hipótese vai ao encontro de outra: a revolta da turma nunca foi contra a corrupção.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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