Por um design unissex

A humanidade é metade mulher, mas o mercado as trata como nicho. É hora de redesenhar o mundo

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Segundo a Bíblia, Deus criou Adão primeiro. E da costela dele, fez Eva. O curioso é que, religiosamente, o mercado também parece seguir essa lógica: o homem é o padrão para a criação de produtos, para só depois vir a versão feminina. E elas ainda pagam um “imposto rosa”, diferença de preço, supostamente por ter mais tecnologias e adereços em seus itens. As questões de gênero influenciam os espaços por onde circulamos, os brinquedos infantis, as formas, os aromas e, exemplo mais emblemático, as cores das mercadorias e locais.

 O rosa para as meninas e o azul para os meninos foi uma moda surgida após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e consolidada após a década de 1980. No livro “Pink and Blue: Telling the Boys From The Girls” (“Azul e Rosa: Diferenciando Meninos e Meninas”, em tradução livre), a pesquisadora Jo Paoletti conta que, entre 1920 e 1930, muitas lojas de departamentos voltadas para o público infantil nos EUA tinham o azul como tom predominante na seção das meninas (por ser pacífica, associada ao céu) e o rosa para os meninos (por ser um tom que vem do vermelho, vibrante). Esse exemplo mostra como funcionam as construções culturais: o tempo e o design fazem tudo parecer muito natural e lógico. Mas não é. Mesmo assim, essas soluções são replicadas mundo afora.

 Enquanto o foco está nas cores e outros conceitos arbitrários, as diferenças fisiológicas e anatômicas entre homens e mulheres por vezes são ignoradas na criação de produtos. Cintos de segurança não usam bonecos femininos em seus testes, resultando em menos eficácia do dispositivo para as mulheres. Já o ar-condicionado é reclamação clássica no ambiente de trabalho, o que faz todo sentido. Estudo científico feito na Holanda concluiu que o design dos termostatos regula automaticamente as temperaturas usando como padrão uma fórmula dos anos 1960, baseada em taxas metabólicas de homens.

Existe o sexo biológico, aquele com o qual a gente nasce, e a identidade de gênero, aquela com a qual a gente se reconhece. Esta última é uma construção cultural e social. Mesmo que de maneira sutil, esses aspectos influenciam no desenho de produtos, embalagens e lugares -- seja quando são desprezados fatores físicos, seja quando são considerados fatores subjetivos que reforçam a ideia de um mundo binário (ou você é homem ou é mulher).

A fratura entre universo masculino e feminino cria generalizações como “carro e escritório são para homens” e “produtos de beleza interessam mais a mulheres”. Essas frases fazem sentido na atualidade?

“Entendo o design como uma prática cultural que estabelece diálogos com sistemas simbólicos, e o gênero é um deles. É uma forma de entender nossos lugares no mundo. O design pode contribuir construindo um espaço de reflexão para desnaturalizar desigualdades”, acredita Marinês Ribeiro, professora e pesquisadora de design e cultura na UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná).

Para ela, a formação em design deveria reforçar as matérias de ciências humanas. “Um projeto em si não vai revolucionar a sociedade como um todo, são ações cotidianas em termos de postura profissional, estratégias. É importante mudar os currículos, porque precisamos entender que os processos não são naturais, que eles são construídos historicamente e estão inseridos em relações de poder”, opina a professora.
 

A segmentação comercial reforça o abismo entre gêneros. “Se há especificidades anatômicas, é importante pensar nelas. Mas e quando essas diferenças não são relevantes e só reforçam estereótipos de feminilidade a favor do mercado?”, questiona Marinês Ribeiro. Um dos desequilíbrios criados é o preço. O valor mais alto para um produto feminino ganhou inclusive uma expressão: o imposto rosa (“pink tax”).

Um estudo publicado em 2016 nos EUA indicou que, em Nova York, as mulheres costumam pagar 7% a mais em produtos idênticos ou que têm similares masculinos, com percentual chegando a 13% na área de higiene pessoal. No Brasil, pesquisa semelhante realizada pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) foi divulgada em 2017, reportando que mulheres pagam 4% a mais em produtos de higiene pessoal e 26% a mais quando falamos de “brinquedos de menina”. A média do imposto rosa no país é de 12,3%.

Apesar de questões particulares de consumo, a desigualdade causada por essa taxa fica maior quando pensamos que as mulheres têm salários menores. Mas esses “produtos rosas” não são, de certa forma, uma resposta à demanda por melhorias pensando nas mulheres? Não exatamente.

“A mulher está mais presente no consumo, sim, até por fatores inclusive machistas [como fazer as compras para a casa]. E as empresas geram oferta satisfatória para produtos femininos, contrariando justificativas como ‘fazemos menos e isso encarece o produto’. É a construção cultural de que ser mulher custa mais caro”, diz o cientista social e professor Fábio Mariano Borges, responsável pela pesquisa no Brasil. “Eu vi empresas que nunca nem tinham notado a diferença de preços, porque não são pareados. Acho que não devemos demonizar a empresa, mas enxergar que a sociedade que construímos promove um custo maior por ser mulher”, pontua. Atualmente, os homens têm uma pequena vantagem na população mundial (0,7%), mas, em muitos países (o Brasil é um deles), as mulheres formam a maioria.

 

No estudo brasileiro sobre a taxa rosa, na categoria de higiene pessoal, desodorantes e shampoos apareceram como os produtos nos quais há mais disparidade entre masculino e feminino.

Assim como o rosa e azul para as crianças, no universo das fragrâncias a classificação por gênero nem sempre existiu. No século 18, não havia separação alguma. Claro que ninguém é obrigado a seguir regras, mas é curioso notar como notas amadeiradas foram destinadas ao público masculino e as florais ao feminino ao longo da história. Pesa aí, como em toda criação de produto, diretrizes da empresa e ações de marketing: essa construção do feminino está muito ligada à ideia de nicho de mercado, algo que entrou muito em prática entre as décadas de 1980 e 1990.

Os designers têm de ser bem cuidadosos para não construir uma reprodução que vai acarretar mais opressão. Quando pararmos de rotular gêneros vai ser libertador, até mais para homens que para mulheres

Fábio Mariano Borges, professor e pesquisador da ESPM

No universo dos brinquedos, o professor e antropólogo Bernardo Fonseca Machado, coautor do livro "Diferentes, não Desiguais: A Questão de Gênero na Escola", lembra que a divisão entre meninos e meninas costuma anteceder a etária.

“Nas lojas, a primeira pergunta que surge é: é menino ou menina? É menina. Que idade? X anos. Aí eu vou procurar um brinquedo. A divisão inicial é essa, como se ter nascido com pênis ou vagina determinasse que brinquedo você pode ter e que atividade pode praticar”, diz ele. “A divisão etária poderia ser mais pertinente que a de gênero, porque ela está vinculada a uma série de outros aspectos físicos e biológicos, tem a ver com habilidades motoras, cognitivas. Uma menina de dois anos é mais próxima de um menino de dois ou de uma menina de doze? Onde a gente vai valorizar as nossas semelhanças e as nossas diferenças?”, questiona.

 

E a ideia de brinquedos neutros? Para Bernardo, vale tomar cuidado para não criar uma terceira categoria. “É mais interessante pensar que brinquedos podem ter várias cores. Então, em vez de esquivar-se do azul ou o rosa, o que reitera essa divisão, silenciando ou evitando lidar com ela, talvez seja mais interessante pensar como a gente pode criar brinquedos azuis para todos, rosa pra todos, verdes etc.” 

Levando a reflexão para o mundo dos produtos adultos, talvez a solução não seja criar itens supostamente sem gênero. O foco pode ser estereotipar menos e considerar mais pessoas no desenho desses objetos. É a ideia de que multiplicidade é melhor que neutralidade.

Recentemente, a tradutora Samanta Alcardo só se deu conta que o jogo de montar comprado para seu filho era “de menina” quando chegou em casa. “Comprei esse brinquedo de início para o meu sobrinho e, como me diverti bastante com ele, acabei decorando as cores das peças. Resolvi comprar para o meu filho. Quando cheguei em casa, percebi que as cores eram diferentes: no do meu sobrinho não tinha rosa nem laranja. Achei estranho, olhei a caixa e vi que tinha uma menina na foto [indicando se tratar da ‘versão feminina’ do jogo]”, conta. “Acho não só que brinquedo não deveria ter diferenciação de gênero, como esse brinquedo é o mais ‘neutro’ possível. É um desserviço mesmo.”
 

Para ilustrar como o debate sobre papéis de homem e mulher é importante na criação de produtos e planejamento de espaços, a crítica britânica Alice Rawsthorn, colunista do jornal “The New York Times”, comparou a questão de gênero hoje com a pauta da acessibilidade para cadeirantes na década de 1990. “O design deve encontrar novos meios de permitir que os indivíduos expressem uma crescente fluidez e multiplicidade de nuances das identidades de gênero. Não somente em campos fáceis de customização como a moda e artes gráficas. O design é um agente de mudança”, disse ela em uma palestra no ano passado.

Alice pontua a transexualidade como um desafio para um novo desenho de mundo e produtos. “Para desenvolver uma linguagem visual mais diferenciada, precisamos ir além dos visuais opostos.” Isso também ajuda pessoas não binárias, que não se identificam com nenhum gênero ou que se identificam com ambos. A designer gráfica Neon Cunha, mulher trans, concorda com ela. “É só pensar que na minha casa tem um ou dois banheiros e nenhum tem plaquinha.”

 

Houve um debate sobre como criar o banheiro unissex na empresa em que trabalho, até que uma pessoa simplesmente tirou as placas e escreveu: 'banheiro'

Virgínia Stefanello, designer de experiência do usuário

O design estimulando o convívio como forma de ajudar na igualdade de gênero também é uma ideia defendida por Marina Harkot, socióloga e mestranda em urbanismo. “A sociedade tem de entender que o trabalho da família, da casa, não é uma coisa individual, mas coletiva”, diz ela. O cuidado dos filhos é tarefa exclusiva da mulher? Dificilmente você vai ouvir uma pessoa assumindo que acha isso hoje em dia, mas na prática o design de espaços estimula essa ideia.

É o que se subentende, por exemplo, ao não encontrar fraldários em banheiros masculinos, fato que aos poucos vem mudando: além do crescimento de espaços-família e de trocadores entre os sanitários, banheiros masculinos começam a instalar fraldários em seus ambientes.

Para Carine Roos, fundadora da UpWit (organização que debate gênero e tecnologia), essas soluções de melhorias de produtos e espaços ganham força com uma maior diversidade social, cultural, racial e de gênero em estúdios de design, cargos de desenvolvimento de produto e urbanismo. “Vai surgir um olhar novo quanto mais pessoas e realidades diferentes participarem.”

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