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Confinamento do lado de fora da casa e redes sociais turbinam a audiência e as paixões do BBB 20

Ruas de grandes metrópoles desertas. O Papa Francisco fazendo uma missa para um imenso vazio no Vaticano. Andrea Bocelli cantando sem público na Catedral de Milão. São inúmeros os acontecimentos inusitados que testemunhamos, mesmo que à distância, anunciando um período estranho e perigoso do século 21. E como a realidade é bem mais estranha do que a ficção, o entretenimento corre para se adaptar.

A normalidade já não andava normal desde o fim do Carnaval, com o novo coronavírus se espalhando pelo país, mas o cancelamento das telenovelas e dos campeonatos de futebol — que ainda sequestram a atenção de multidões — foi um ponto alto na curva da estranheza. Duas coisas, porém, não pararam: o noticiário, claro, e a vigésima edição do "Big Brother Brasil". Agora, o reality parece ter se tornado o pequeno pedaço de corda a se agarrar e fugir, mesmo que seja por alguns minutos, da realidade da Covid-19 — de hospitais lotados, mortes sem adeus e distanciamento físico de quem amamos. Nunca foi tão reconfortante assistir à autoficção de participantes confinados dentro de uma casa chorando, gritando e se embebedando pelo prêmio de R$ 1,5 milhão.

A vigésima edição do programa começou alheia ao novo coronavírus, mas saiu ganhando ao apostar as fichas em um novo formato. Pela primeira vez no reality brasileiro, influencers digitais com milhões de seguidores disputam ao lado de desconhecidos o grande prêmio. A entrada de famosos poderia facilmente transformar o programa em um jogo de cartas marcadas, mas o desenrolar da narrativa dos participantes — todos intensos a ponto de garantir um bom show — compensou.

REALITY EM REDE SOCIAL

Hoje, as redes sociais são essenciais para o BBB, mas não foi sempre assim. Durante muitas edições do "Big Brother Brasil", não havia Twitter, WhatsApp ou Facebook para repercutir na internet o que acontecia na televisão. Assinar canal pay-per-view para ver tudo o que rolava na casa era um luxo para poucos, e a edição do programa filtrava as informações que o grande público recebia. No entanto, a ânsia para acompanhar a narrativa televisionada fez nascer uma subcultura de fóruns e blogs, alimentados pelas informações que não passavam na TV.

"Havia quase uma disputa entre quem conseguia fazer uma leitura mais apurada e sofisticada do que acontecia na casa, porque existia essa percepção de que o Big Brother era uma janela para a sociedade", observa Bruno Campanella, doutor em comunicação e cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autor do livro "Os Olhos do Grande Irmão - Uma etnografia dos fãs do Big Brother Brasil". Ele estudou a fundo esses espaços durante as edições 8 e 9, quando o esforço para eliminar ou manter alguém no jogo custava dinheiro. Nesse passado que parece muito distante, os votos eram feitos por telefone e tinham mais peso. A motivação, porém, já era a mesma. "Existe esse desejo de que os participantes sejam autênticos", observa.

"As pessoas estão atrás de quem tem uma visão de mundo parecida com a delas. É isso que mobiliza. É o afeto. Com algumas semanas do programa, você começa a se sentir íntimo. Depende de como aquele fã é afetado, mas o programa tem essa capacidade de afetar as pessoas de maneiras diferentes, em diferentes dimensões, sejam pessoais ou sociais."

Até meados da década de 2010, a TV ainda pautava a maioria das discussões, mas, como aconteceu com quase tudo que é televisionado, a internet também passou a influenciá-la, de fora para dentro. No BBB 20, parece que o jogo virou de verdade: mesmo quem nunca ligou a televisão para assistir ao reality consegue acompanhar os grandes temas do programa por meio da divulgação de vídeos e memes que a audiência compartilha, o dia todo, nas redes sociais. Os trending topics do Twitter (assuntos mais comentados do dia) e as ferramentas de métricas que permitem checar quais termos estão bombando na internet acabam virando, agora, termômetros para a edição do programa que vai ao ar.

"O Leifert usa muito a narrativa das redes sociais nos seus discursos, até por ser um cara mais da internet, ele tá bem mais ligado do que o Bial estaria, por exemplo. O quadro de humor do Rafael Portugal parecia uma thread [sequência de tuítes ou postagens nas redes sociais] das pessoas. Uma coisa acaba influenciando a outra", observa Chico Barney, colunista do UOL TV e Famosos.

OUTROS GRANDES IRMÃOS

"Quando a Globo anunciou que [o BBB 20] ia ter gente famosa, fiquei muito apreensivo, porque a tendência é todo mundo fazer um trabalho de relações públicas lá e ficar um negócio mais morno. Só que, graças a Deus, só entrou maluco ali", opina Barney. "Não sei se colocar convidados contra inscritos é a maneira mais justa de disputa, porque realmente tem uma galera com fãs e contratos milionários contra o Gilmar das Candongas de Belém do Pará. É injusto, mas o BBB também não tem essa missão de justiça que a gente acha que tem. É um programa — e dentro das narrativas que ele propõe, deu certo."

Na edição 20 do BBB, comentaristas como Chico Barney e Mauricio Stycer mobilizam tanto as torcidas e as equipes de mídia dos participantes quanto a curadoria de tretas exibida pelo programa na televisão. "Acompanhando o Twitter, a gente vê que acontece um jogo à parte do que acontece na televisão. É quase um Big Brother paralelo", diz ao TAB Beatriz Accioly Lins, antropóloga e pesquisadora de gênero, sexualidade e violência contra a mulher na USP (Universidade de São Paulo). "Existem muitos brasis dentro do Brasil — e nem todo mundo que assiste ao programa acompanha os desdobramentos via redes sociais —, mas essa diversidade de audiência ainda é o que faz com que tenhamos vencedoras tão diferentes como Gleici Damasceno (2018) e Paula von Sperling (2019) em anos consecutivos", observa.

Para a especialista, a repercussão do BBB 20 na internet mostra que nossa sociedade se transformou mais do que o próprio programa nos últimos 18 anos. "Jean Wyllys (BBB 5) e Vanessa Mesquita (BBB 14) se declararam LGBTQ+ abertamente e foram campeões da atração no passado", recorda.

"A televisão aberta tem precisado se adaptar ao surgimento de novas mídias e de novos debates por questões de sobrevivência. A linguagem de internet já é presente inclusive em outros programas da casa, como o 'Isso a Globo Não Mostra'. Não podemos esquecer que o BBB é um produto cultural, mas também é um negócio. O objetivo é, entre outros, lucrar. Então é claro que as discussões todas que entraram nessa edição — machismo, preconceito racial, preconceito de classe — são interessantes para alimentar o engajamento do público", conclui.

ENTRETENIMENTO POLARIZADO

No auge da distopia em que vivemos por causa do isolamento social imposto pelo novo coronavírus, é sintomático que o programa tenha batido seu recorde de participação popular — mais de 1,5 bilhão de votos — no paredão entre Felipe Prior, Manu Gavassi e Mari González. Se, por um lado, o fenômeno poderia ser explicado pelo espelhamento da população confinada em casa opinando sobre gente confinada na TV, por outro, a politização massiva da edição pode dizer muito sobre o episódio.

Desde as primeiras semanas da edição — quando comentários sexistas dos confinados levantaram discussões sobre machismo dentro e fora do programa — até os episódios em que Petrix Barbosa e Pyong Lee foram acusados de importunação sexual por tocar participantes de forma inapropriada, o BBB 20 tem sido lembrado, especialmente, por debates públicos relacionados a pautas identitárias.

No paredão recordista, não foi diferente. Antes mesmo da eclosão das acusações de estupro em anos anteriores, Prior já era desafeto de grande parte da audiência por posturas machistas no programa. Ainda assim, ele conquistou a simpatia de jogadores de futebol tão consagrados como Gabigol, Igor Gomes e até Neymar — justamente quando a pandemia provocou o cancelamento de campeonatos de futebol no mundo inteiro.

Se a torcida de futebol, ociosa, migrou para a frente da televisão para assistir ao BBB, é provável que a audiência das novelas também tenha sido atraída para o programa. Enquanto os jogadores agitavam suas torcidas para votar pela permanência de Prior na casa, a atriz Bruna Marquezine, uma das mais populares do Brasil, fazia campanha pela permanência de Gavassi no jogo. A junção de pandemia e falta de divertimento pode ter fermentado, e muito, esse bolo de pautas sociais que o BBB 20 articulou — e o resultado são as votações recordes. O ranking abaixo, formatado com dados fornecidos pela emissora para o período até 22 de abril, dá bem a dimensão do fenômeno (Mauricio Stycer trabalha com outro, que indica que essa pode ser a edição mais "engajada" da história).

VILÃO TAMBÉM É MOCINHO

O racismo sofrido por Babu Santana e Thelma Assis não se manifestou apenas no isolamento que ambos experimentaram em momentos críticos do jogo. Do lado de fora, as equipes de mídia desses participantes lidam com insultos diariamente — enquanto ativistas do movimento negro e celebridades como Anitta e Tatá Werneck defendem a vitória do ator, movimentando mais ainda o debate. Gabriela Monteiro, empresária de Babu Santana, lembra ao TAB que a teoria de vilões ou mocinhos na casa é uma falácia. "O próprio Babu se define como sendo do time dos imperfeitos. O BBB é um programa que tem o potencial de trazer à tona muitas questões de comportamento, de ética e princípios. Nesta edição, o programa fez o Brasil debater questões de machismo, racismo, gordofobia e segregação. Mas é fundamental que as pessoas procurem se aprofundar nas informações, apurar e contextualizar antes de dar o veredito", pondera.

Para Accioly, o crescimento de discussões identitárias não é, necessariamente, sinal de que o público do programa mudou. Prova disso é a popularidade de brothers politicamente incorretos nesta e em outras edições. "Nossos valores estão em constante formação. O que muitos chamam de 'evolução' se associa à ideia de que estamos caminhando para um futuro melhor. Mas isso não é verdade, porque a história é complexa — e ela caminha de forma cíclica, se transformando continuamente", afirma.

A construção das personagens funciona como uma espécie de espelho de quem assiste e se mobiliza para votar. A médica Marcela Mc Gowan, por exemplo, iniciou o BBB 20 como favorita ao prêmio de R$ 1,5 milhão — quando a casa parecia estar dividida entre o grupo de "fadas sensatas" contra "homens machistas". Mas Marcela acabou saindo no 12º paredão. Durante sua participação, o público enxergou a médica tanto como "fada sensata" quanto como alguém que merecia ser "cancelada".

"É muito curioso como as pessoas não enxergam a gente como humanos, mas como personagens de uma trama a que eles estão assistindo. Na cabeça e na narrativa, formam-se personagens e histórias. É a terra da internet. Comigo foi um cancelamento baseado em expectativas de coisas que eu nunca prometi", observa.

DE UM ISOLAMENTO PARA OUTRO

O isolamento é a chave de um reality show que se propõe explorar as relações humanas em situações adversas. Os participantes estão mais tempo em isolamento social que nós mesmos, do lado de fora — e vão sair de um isolamento voluntário para entrar em outro, dessa vez compulsório. "Foram cerca de treze dias de confinamento antes da estreia", relembra a cientista política Mara Telles, competidora do BBB18. "Ele não é feito apenas para que você não tenha contato com o público: é para ver sua capacidade de resistência ali dentro."

Marcela deixou o confinamento vigiado em 7 de abril e encontrou um mundo paralisado, sem festas ou abraços. "Minha reação foi muito ruim, fiquei muito chocada ao ver o pessoal da produção toda de máscara. Cheguei ao hotel todo vazio, novos procedimentos, ninguém encosta em ninguém. Depois conversei com meus colegas médicos para entender a real situação. É a primeira vez que vivencio algo tão chocante assim sendo médica."

Dentro da casa, a pressão não impede os brothers vez ou outra de surtar. Em cada edição há pelo menos um participante que decide raspar os descolorir os cabelos, falar sozinho ou simplesmente arrumar briga por qualquer coisa. Agora quarentenados, será que faríamos diferente?

Pedro Falcão, desenvolvedor de jogos e participante do BBB 17, fala da alienação: "Participar do BBB é como ficar bêbado por muito tempo. Não dizem que o álcool traz à tona a verdade? É a mesma coisa lá dentro, onde vai aflorando tudo que é verdade em você. Pode até soar meio triste falar isso, mas a sensação lá dentro, com a casa cheia de câmeras, é que você é o protagonista."

Ganhando ou não a competição, o final do arco narrativo dos participantes gira em torno da saída da casa e a reentrada ao mundo normal, desta vez colhendo os louros da fama. Pode ser uma fama positiva ou negativa, como acompanhamos em diferentes jornadas de participantes nas duas últimas décadas. Mas o que será agora das celebridades formadas no BBB, já que não há mais eventos, baladas e possibilidade de fazer aparições públicas?

Para mim, o BBB é o Coliseu moderno. Na Antiguidade, o grande valor na arena eram a morte e a vida dos participantes. Porque era o que valia na época, era uma questão fundamental. Hoje, é seu ego. Ele é construído e destruído no mesmo programa programa. Desde que saí da casa, vi que muitos ex-participantes sofrem ou sofreram de depressão profunda. Estar no programa muda a sua vida.

Pedro Falcão, Participante do BBB 17

RUMO AO ESQUECIMENTO?

Com a necessidade de reconstruir o próprio ego saindo da casa, como acredita Falcão, o fim de aparições públicas pode abalar ainda mais um ex-brother. "Acho que os participantes do BBB 20 serão mais rapidamente esquecidos porque não vão poder fazer aparição em baladas, eventos e coisas do tipo", opina.

Marcelo Dourado, educador físico, atleta e ganhador do BBB 10, é mais positivo com o distanciamento social imposto devido à pandemia. "Não é de todo ruim sair de um isolamento e ir para outro. Há dez anos, o que tinha para um participante recém-saído da casa era evento, presença VIP e viajar pelo país inteiro. Hoje em dia, o pessoal sai com milhões de seguidores. Isso dá um poder de barganha gigante, dá para tirar muito dinheiro. Eles não vão ter o proveito do contato humano como eu tive, mas vão poder fechar muito negócio virtual, online. Quem não trabalhava com isso vai ter uma oportunidade de começar a trabalhar. Na minha época, as redes sociais estavam começando, por isso não tenho tantos seguidores e esse poder de negociação que essa nova geração tem", comenta Dourado, que também participou da quarta edição do programa.

Para a recém-saída Marcela, a divisão entre anônimos e convidados se perdeu com a rotina dentro da casa. "Eles tinham um pouco mais de noção do que é a exposição, de como agir perante as publicidades lá dentro, enfim, saber o que pode falar, o que não pode falar", observa. No fim, o poder de influência do programa também nivelou a fama de todos dentro da casa, até para os influenciadores.

Além de deixarem prontos vídeos e fotos para alimentar as redes durante o confinamento — muitas vezes, vestindo os mesmos looks patrocinados nas postagens no Instagram durante o programa ao vivo —, os inscritos também tiveram um boom no número de seguidores a cada semana. Marcela hoje tem o mesmo número de seguidores que a cantora e atriz Manu Gavassi tinha ao entrar na casa. Sem deixar nenhum material preparado para postagem em suas redes sociais, viu seu curso online sobre autoconhecimento e sexualidade destinado às mulheres conquistar mais de duas mil novas alunas — faturando mais de R$ 1 milhão.

"A Globo acaba, de certa forma, equalizando todo mundo", analisa Chico Barney. "Por mais que a participante Boca Rosa tenha milhões de seguidores, ainda assim dá pra dizer que ela pertence a um nicho de youtubers de maquiagem. O próprio Pyong era de um nicho específico [youtuber de hipnose], então nada se compara ao tiro de canhão que é a TV."

Fora do BBB, a pandemia e o distanciamento social também fizeram o público questionar o papel dos influenciadores de lifestyle — celebridades cantando "Trem Bala" confinadas em suas mansões ou agradecendo ao novo coronavírus pelas oportunidades são atitudes que provocam a problematização, claro —, mas a percepção ainda não é forte o suficiente para abalar o sucesso que milhões de seguidores trazem para um ex-participante do BBB. A prova disso é que a maioria dos eliminados saiu com as redes sociais turbinadas, prontos para assinarem contratos milionários. Devem agarrar as oportunidades. É vida que segue — talvez um pouco menos sofrida do que a dos confinados na vida real, que ficarão órfãos do programa mais cativante de 2020.

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