A BRUXA ESTÁ SOLTA

Em um mundo acelerado, a bruxaria atrai adeptos prometendo reconexão aos ritmos da natureza

As espinhas assombravam a vida e o rosto de Nydja Lubia na adolescência. Para escondê-las, ela usava produtos químicos e muita maquiagem, que pioravam a situação. "Prometi que se um dia eu não tivesse mais espinhas eu não usaria mais maquiagem." A acne acabou. E, com isso, o uso dos cosméticos. Até que, já adulta, a naturóloga passou a habitar um mundo completamente diferente.

"Comecei a frequentar rituais em que as mulheres se arrumavam não para conquistar alguém, mas para ficarem bonitas para a Deusa", lembra. Os encontros despertaram a vontade de se pintar com cores que a conectassem com aquela força. Para não quebrar a promessa do passado, ela aproveitou seus conhecimentos sobre natureza e passou a misturar o que tinha na cozinha com óleo de coco para se maquiar. Os resultados se tornaram uma marca de produtos naturais, que une saberes ancestrais e rituais de cuidado pessoal.

Longe dos estereótipos medievais, a descoberta do poder pessoal e da sustentabilidade fazem parte do que se entende hoje por bruxaria. "Quando a gente fala no assunto todo mundo pensa em feitiçaria", explica Pam Gaya, que é sacerdotisa Wicca (religião politeísta inspirada em crenças anteriores ao Cristianismo). Mas magias e feitiços são só uma parte dentro da prática. "A base da bruxaria é a volta aos antepassados, ou seja, caminhar com a natureza", diz, lembrando da importância das celebrações que marcam as mudanças da Lua e das estações.

Onde moram os bruxos?

"Hoje, se debocha da crença da bruxaria, mas durante muito tempo ela foi uma realidade e não uma coisa aberta à discussão", lembra Carol Chiovatto, doutoranda de literatura em inglês na USP. No canal do YouTube "Que Bruxaria é Essa?", ela fala sobre semiótica e os estereótipos da figura da bruxa na literatura.

Até o século 17, com o surgimento do pensamento do filósofo francês René Descartes, que defendia uma visão científica e verificável dos fenômenos do Universo, o inexplicável era observado e entendido sem precisar achar razões, motivos e teses.

A nova forma materialista de ver o mundo contribuiu para o avanço da humanidade em incontáveis áreas e, ao mesmo tempo, relegou ao ridículo práticas ancestrais e crenças que não se encaixavam no modelo científico. O progresso, no entanto, nos permitiu entender que a ciência mais eficaz não é aquela que responde a perguntas, mas a que as formula. Ou, como afirmou o astrônomo Carl Sagan: "O mistério me excita, a certeza me aborrece".

Ao pensar em "magia" como algo relacionado à natureza e às conexões ainda inexplicáveis do universo (não como algo imediato e "harrypotteriano"), os bruxos modernos encontram brechas no racionalismo que acomodam um tipo de pensamento místico.

TERRA

A cura antes da doença

Para um dos ocultistas mais influentes de todos os tempos, Aleister Crowley, "mágica é a ciência e a arte de fazer mudanças ocorrerem em conformidade com nossa vontade". Logo, se vontade é intenção, os praticantes da bruxaria moderna acreditam que fazem mágica quando sentem inveja e ciúme ou desejam o bem para alguém (e para si mesmos). Para os místicos, é pela palavra que criamos a realidade ao nosso redor, pois nossas intenções encontram um excelente meio de transporte no verbo.

"Existem palavras de ordem e palavras de poder. Uma palavra de ordem é um feitiço, e a de poder, uma espécie de contra-feitiço", explica João Pentagna, mestre em psicologia clínica pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). "A palavra pode tanto nos libertar quanto nos amaldiçoar".

A bruxaria moderna (e qualquer tipo de busca por autoconhecimento) caminha no mesmo sentido dos conceitos de trauma e ressignificação da psicanálise. Mas, muito mais do que o sintoma, quem percorre o caminho da bruxaria parece preferir dar ênfase à prevenção, cercando-se de práticas e ambientes acolhedores que "curem" antes mesmo da chegada da doença.

Com a ajuda das redes sociais, a exploração da magia e de seus conhecimentos nunca pareceu tão disponível. A astróloga e taróloga Paula Mariá Riemer é uma das investigadoras desse universo. Riemer fala sobre seu processo e oferece leituras no Instagram. Apesar de notar a recente explosão da espiritualidade nas redes, ela afirma que essa conexão não é nova, mas um resgate de tradições.

"Foram vários os motivos que desfizeram nossos laços tanto com a intuição quanto com o mundo. Não temos muito contato com coisas básicas que trazem a magia naturalmente para a vida, as florestas, os bichos, o céu", afirma.

Uma das concepções que colaboram para essa percepção mais abrangente da espiritualidade é o tarô. Por meio de modelos de comportamento que todos trazem dentro de si (os arquétipos representados por figuras como o Louco ou a Papisa), o conjunto de 78 arcanos nos conta uma história: a trajetória de todos os seres humanos, do nascimento até a morte. Logo, o tarô se mostra uma ferramenta eficiente não para prever o futuro, mas para antecipar padrões de comportamento e pensamento.

Acreditar que as ferramentas místicas, como a astrologia e o tarô, trazem respostas rápidas para questões complexas é um reflexo do imediatismo de uma sociedade que tem o pé no acelerador. "Magia não é milagre", explica a sacerdotisa Pam Gaya. "As pessoas buscam curas imediatas, que sejam indolores e com sabor framboesa. Mas magia não é miojo, o Universo tem seu tempo. Se você precisa de dinheiro e faz seu trabalho, a magia vai encaminhar as coisas para que você colha seus frutos na hora certa. Não vai ser do nada."

Gabriel Cabral/UOL Gabriel Cabral/UOL

AR

Investigando o universo interior

Em um salão oval, mulheres sentam-se em círculo e conversam sobre como se sentem em cada fase da lua e suas conexões com o período menstrual. Esse é um dos ensinamentos do TeSer, workshop de formação de mulheres criado pelas terapeutas Maria Soledad e Tássia Félix, que trabalham com o tema há mais de 10 anos.

"Trata-se de reconhecer que nós somos uma unidade com a Terra e com a natureza, mesmo que nos últimos tempos nos sintamos maiores ou separados dela", conta Maria Soledad. Para ela, a união entre o feminismo e essa visão da "Mãe Terra" é essencial para fortalecer a subjetividade das mulheres e diminuir o desequilíbrio social dos gêneros.

A falta de conexão entre homens e natureza é uma das principais questões filosóficas da atualidade e é tema de pesquisa do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e da filósofa Déborah Danowski. No livro "Há Mundo Por Vir?", da Editora ISA, a dupla explora a noção de Antropoceno, a ideia de que as atividades humanas estão alterando de forma permanente e duradoura o equilíbrio da Terra, trazendo impacto para si e para outras espécies e criando uma nova era geológica.

A naturóloga Nydja Lúbia enxerga uma conexão entre a forma como tratamos a Terra e a forma como tratamos as próprias mulheres. "Dentro da bruxaria o que representa o corpo é o elemento terra. E o que fazem com as terras? Invadem, destroem, desmatam."

A mistura entre a autonomia espiritual e a busca da subjetividade é o caminho da publicitária Pam Ribeiro, que se apresenta também como bruxa preta. Pelo Instagram, a taróloga aborda a conexão entre o contexto social e humano da espiritualidade. "Muitas falas no mundo espiritual são sobre positividade, sobre atrair coisas boas, sobre um ideal de plenitude que é excludente. Eu vejo uma espiritualidade mais empática, que é convidativa para pessoas negras, periféricas e quem mais tiver sido excluído desse meio. A espiritualidade que existe hoje é muito branca", afirma Ribeiro, criticando o que ela chama de "positividade tóxica" atual, que desconsidera o contexto social e preconceitos estruturais.

A feiticeira Mel Bevacqua também acredita no viés autônomo e ressalta uma causa para essa bruxaria renovada. "Vejo muitas pessoas buscando outras leituras do mundo, por ver na sociedade somente estruturas decadentes, desatualizadas, dominadoras. A busca é por uma espiritualidade que sirva mais para a libertação, que se adapta a cada pessoa."

Grupos marginalizados que antes circulavam com vergonha por estruturas mais rígidas de espiritualidade (ou eram proibidos) hoje começam a formar seus próprios círculos. É o caso do Círculo da Viada Chama Púrpura, da atriz e astróloga Helena Agalenéa. "Acho a bruxaria completamente compatível com as pessoas trans. Um corpo que experimentou a dor da expulsão da norma, do que é certo, do que é normal, quando reconhece sua potência de criação de uma nova realidade, tem poder transformador", afirma a bruxa, que pratica o Sagrado Transviado, em um grupo formado majoritariamente por pessoas trans.

Gabriel Cabral/UOL Gabriel Cabral/UOL

ÁGUA

Correndo com as deusas

A psicóloga Maria Soledad cita o taoísmo como exemplo de filosofia em que masculino e feminino se integram para além dos estereótipos de gênero, como no conceito de yin e yang. "A água é o grande elemento das artes marciais, nas quais a principal força é a não-resistência, o acolher, o receber. Qualidades ligadas ao feminino [yin]."

Da mesma forma, homens que buscam um entendimento melhor de si se desvinculam de ideias pré-concebidas de masculinidade, como força e rigidez, para acessar características antes vinculadas exclusivamente às mulheres, como a sensibilidade e a intuição. Repensar o masculino de forma mais saudável faz parte dos estudos do terapeuta Eduardo Silva.

"Para o homem, é difícil se desvincular do patriarcado, mas percebo que se começarmos a nos olhar de forma sagrada, é mais fácil perceber as mulheres de outras formas." Para ele, mudar a chave de pensamento é um jeito de aliviar o peso que muitas vezes as mulheres carregam pela responsabilidade de mudança das estruturas sociais.

Em 1994, a bruxa Pat Devin colocou um pouco de lado seus afazeres como diretora do Covenant of the Goddess (uma das organizações Wicca mais antigas dos EUA) e aceitou o convite para trabalhar como consultora de um filme adolescente. Ela não teria como imaginar o explosivo sucesso de "Jovens Bruxas", um filme em que, pela primeira vez, a bruxaria foi retratada longe dos estereótipos medievais e de forma popular.

Não demorou para os adolescentes construírem seu próprio conceito de bruxaria, baseando-se em filmes, séries e livros simplistas de Wicca do tipo "faça você mesmo" que vieram na onda do longa. Ou seja, tudo o que os bruxos convencionais mais abominavam. Uma das razões para o descontentamento dos wiccanianos com a bruxaria pop é que ela era superficial demais para se comparar à filosofia de vida que praticavam. Mesmo que essas práticas nem fossem tão tradicionais assim.

"A religião da bruxaria moderna não está historicamente ligada ao fenômeno medieval de mesmo nome, mas sim às especulações sobre bruxaria que começaram a emergir depois que o próprio fenômeno tinha desaparecido", explicam Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander, no livro "História da Bruxaria", recentemente relançado pelo selo Goya, da Editora Aleph.

Isso porque quando os primeiros raios do capitalismo começaram a surgir no horizonte do século 15, a sociedade europeia já estava bastante familiarizada com um conceito que nem sempre existiu: o do "diabo".

FOGO

O início, o fim e o meio

A maior parte das mitologias acredita num princípio divino no qual bem e mal fazem parte da mesma representação. Dentro do mercado da fé, em religiões como o budismo, o hinduísmo e o candomblé, as deidades são figuras complexas e moralmente ambíguas. Assim como os seres humanos, nenhuma delas é totalmente boa ou totalmente má.

Pessoas com educação cristã podem ter dificuldade em entender a ideia de deuses invejosos e vingativos, porque, como religião dualista, o cristianismo postula a existência de dois princípios diferentes: um de bondade e luz, outro de maldade e trevas.

A dualidade ajuda a explicar um dos maiores dilemas da teologia judaico-cristã: como câncer, estupros e assassinatos podem existir em um mundo criado por um Deus bondoso? Uma resposta é que o mal é causado por um espírito maligno poderoso. Os hebreus o chamaram de "satan" — traduzido posteriormente para o latim como "diabolus", de onde vem o nosso "diabo".

Essa figura que fazia oposição ética e cósmica a Deus não era totalmente independente, mas ganhou um poder imenso no judaísmo. Assim, aqueles que não seguiam os princípios de Deus (ou seja, da Igreja Católica) eram vinculados ao demônio.

Por volta de 1300, o conceito da bruxaria satanista já estava formado. Não havia, no entanto, nenhum fato que justificasse essa associação, a não ser a oposição ao cristianismo. Mesmo assim, o medo já transbordava do coração dos europeus, transformando a caça às bruxas em uma obsessão febril entre os séculos 15 e 18.

Quem prestar atenção na data vai reparar que a história de que as bruxas foram perseguidas e mortas durante a Idade Média é absolutamente equivocada. A caça às bruxas é simultânea à Renascença e à reforma protestante. Segundo Russel e Alexander, entre 1450 e 1770, aproximadamente 110 mil pessoas foram torturadas sob acusação de bruxaria, sendo que entre 40 mil e 60 mil foram executadas.

As pessoas só começaram a perceber que existia alguma coisa errada em queimar mulheres vivas (grande maioria das vítimas) a partir do século 17, quando um novo modelo de pensamento passou a regular o mundo. Era a já citada lógica cartesiana e o posterior Iluminismo. Em um mundo racional, a crença na bruxaria seria "uma superstição estúpida" e não um inimigo temido, como analisaram Russell e Alexander.

Apesar de ser responsável por um genocídio injustificável, o medo que as pessoas sentiam era real e manipulado pelos poderosos, porque suas visões de mundo comportavam a ideia de mulheres que voavam, comiam criancinhas e transavam com o diabo. É por isso também que (a não ser pelo contato com a natureza e o conhecimento sobre ervas que muitas mulheres tinham) esse fenômeno tem pouco ou nada a ver com o que chamamos de bruxaria hoje.

Observando em uma perspectiva histórica ampla, quando há um período de decadência rápida e as instituições estabelecidas perdem credibilidade, a população se volta para outras fontes em busca de respostas. Foi assim no século 3, quando o Império Romano se enfraqueceu e o cristianismo se alastrou em seu território. Isso se repetiu no século 16, quando a sociedade medieval se desintegrou, e os protestantes desafiaram o poder do Vaticano. E cenário similar parece se repetir desde o final do século passado até agora.

Fundamentalismos e ocultismos têm florescido no mundo com as últimas crises econômicas, políticas e humanitárias, que concentraram renda e poder, desacreditaram partidos, instituições e governos e criaram cortinas de fumaça que escondem quem está nos centros de poder.

Acreditar em poderes secretos pessoais ou em leituras ao pé da letra de escrituras de mais de 20 séculos virou algo corriqueiro atualmente, assim como desconfiar de teorias científicas comprovadas e de fatos históricos amplamente registrados está na ordem do dia.

Ironicamente, o avanço da tecnologia também contribui para essa lógica, afinal, a maioria das pessoas não tem domínio técnico sobre as máquinas e desenvolvem um pensamento mágico diante dos confortos, facilidades e informações (ou desinformações) que os aparelhos oferecem, sem desconfiar das implicações para suas vidas e para a sociedade.

A bruxaria moderna, cuja faceta mais conhecida é a Wicca, cria uma impressão de se dividir entre uma religião e um estilo de vida. Apesar de seu fundador, o ocultista inglês Gerald Gardner afirmar que aprendeu a prática Wicca com uma líder secreta, investigações feitas por praticantes mostraram que a tradição foi criada pelo próprio Gardner.

"Não importa como a visão de Gardner sobre bruxaria tenha sido estabelecida, o movimento que surgiu a partir dela começou a crescer e a se modificar de maneira quase imediata", escrevem Russell e Alexander. "Por causa dessa permanente transformação, a bruxaria moderna é difícil de definir".

Existem cerca de 300 mil praticantes de Wicca no país, segundo a União Wicca do Brasil. Mas esse é apenas um dos vários tipos de bruxaria praticados por aqui. Muitas bruxas e bruxos acreditam que a identidade espiritual é algo a ser sentido, não explicado. "Existem bruxas na umbanda, no catimbó, na jurema. Aqui, a gente agrega em vez de segregar. Essa é a nossa força, essa é a beleza do Brasil", diz a professora de bruxaria Barbara Schrage.

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