FOGO E PAIXÃO

Filhas de políticos se envolvem com traficantes em meio à onda de violência na fronteira Brasil-Paraguai

Rodrigo Bertolotto (texto) e José Medeiros (fotos) Do TAB, de Pedro Juan Caballero (Paraguai)

Alianças, traições e vinganças são possíveis desenlaces, tanto nas relações amorosas quanto nas comerciais. E paixões e negócios ilícitos se misturam nas investigações policiais do atentado que chamou atenção para a crescente onda de violência na fronteira com o Paraguai, principal rota terrestre das drogas no Brasil.

Uma garota morre em uma chacina, junto com o namorado. Os principais suspeitos de mandar matar são a ex dele e seu companheiro atual. O enredo até seria convencional se as duas jovens não fossem filhas de políticos influentes e os homens, integrantes do narcotráfico.

Os detalhes dão sabor local. As evidências levaram a Faustino Aguayo, 44, e Mirna Romero, 22, flagrados em uma cela vip com televisão, mesa de bilhar e cama king size na penitenciária de Pedro Juan Caballero, município paraguaio que divide mesma zona urbana com Ponta Porã (MS).

Até se entregar à Justiça (e negociar ilegalmente as benesses prisionais), em maio, Aguayo era o traficante mais procurado do Paraguai. Mirna, que fazia uma visita íntima prolongada, é filha do atual secretário municipal de Saneamento, Oscar Romero, que já foi prefeito interino da cidade fronteiriça.

Mirna fora namorada de Osmar Álvarez, 29, até meados do ano, quando o suposto traficante começou a se relacionar com Haylee Acevedo, 21, filha mais velha do governador do Departamento de Amambay, Ronald Acevedo. O novo casal, junto com duas amigas brasileiras de Haylee, foi assassinado em outubro, quando entravam em um veículo, na saída de uma festa. A camioneta Chevrolet Trailblazer de placa brasileira (roubada em Navegantes, SC) que Álvarez dirigia naquela noite foi atingida com mais de 100 tiros. A polícia paraguaia suspeita que Aguayo tenha sido o mandante.

TERRA E PÓLVORA

No hiperlotado cemitério central de Pedro Juan Caballero, terra vermelha e pólvora se misturam. Os corredores não existem mais. Os coveiros fazem equilibrismo para levar os caixões, e os cortejos pisoteiam as lápides mais baixas.

Foi assim no enterro de Álvarez, principal alvo do quádruplo homicídio. Um funcionário aponta para sua sepultura coberta com porcelanato branco na base e cimento fresco no topo. Não há nada que o identifique, só coroas de flores secando e faixas de "sentidas condolências".

Haylee foi para o jazigo da família no cemitério de Ponta Porã. O clã Acevedo domina a política local. O pai é o mandatário regional, um tio (José Carlos) é prefeito da cidade há quatro mandatos (um total de 15 anos), e outro tio (Robert) foi deputado e senador, sobreviveu a um atentado patrocinado por traficantes brasileiros em 2010 para morrer de covid-19 em 2021.

Haylee estava no 4º ano de medicina e tinha ido à festa de aniversário de uma colega de classe na madrugada do sábado, 9 de outubro. Na saída, prometeu carona a duas amigas, que morreram no banco de trás da picape. Rhannye Borges, 18, foi enterrada em Cáceres (MT), e Kaline de Oliveira, 22, em Dourados (MS).

Álvarez estava do lado de fora quando foi, segundo a expressão dos jornais locais, "borrifado com balaços". Já Haylee tinha acabado de entrar no carro. O peso de seu corpo fez a porta só encostada abrir, e ela tombou na calçada entre os projéteis espalhados naquela esquina.

NARCOS COM ARMAS ESTATAIS

Enquanto sobreviventes corriam para todos os lados, um catador de latinhas se aproximou dos corpos. Na sequência veio o olheiro dos assassinos, Derlis López. Ele levou o celular de Álvarez e confirmou, com outro aparelho, as mortes para os comparsas que já tinham desaparecido no amanhecer.

Minutos depois, familiares chegaram ao local. O prefeito, tio de Haylee, chegou gritando "narco de mierda". Houve um empurra-empurra com parentes do morto. A família de Haylee não aprovava seu namoro com um homem de contatos com o PCC, temporadas na Bolívia e ostentação. Apaixonada, a jovem continuou passando as noites na casa dele. No velório, sua mãe, Mahiba, inclinou-se sobre o caixão e gritou: "Tantas vezes eu disse pra você não sair com esse cara".

Após o sepultamento, a família fez uma novena em memória da jovem na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde o governador, muito abatido, rezava com as mãos algemadas a um rosário.

"Sinto muita impotência e tristeza", disse ele ao TAB, usando uma camiseta estampada com a foto da filha morta. "O próprio governo paraguaio é cúmplice dessa gente, fornecendo armas, munições e celas vip para os criminosos. Como governador consigo fazer muito pouco, porque a polícia e a Justiça são nacionais, e meu orçamento é ínfimo."

Ronald Acevedo é do Partido Liberal e ataca o governo de Assunção, que está desde 2013 nas mãos do Partido Colorado, hegemônico na política do país nas últimas oito décadas. Não faltam evidências de corrupção estatal: o armamento usado no crime era do exército paraguaio, e o principal suspeito tinha vários privilégios (incluindo três celulares) no presídio de administração nacional.

BLINDADA, AMADA E MIMADA

Mirna Romero teve três ex-parceiros assassinados e o atual está preso. Em setembro de 2019, ela fez um casamento cheio de rosas vermelhas com Carlos Gustavo Rodríguez, um ex-agente da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas, principal órgão de combate no Paraguai) que renunciou ao cargo para se aliar ao PCC. Ele acabou morto com tiros de fuzil três meses após o matrimônio luxuoso.

Em agosto de 2021, foi a vez de Denis Servin, de quem Mirna foi amante, aparecer fuzilado na saída de um show de funk em Ponta Porã. O outro foi Álvarez, que a teria trocado pela filha do governador. Revanche amorosa é uma hipótese para a chacina. Outra explicação é que Álvarez tinha uma dívida monetária com Aguayo. Mirna e Haylee estudaram juntas no Colegio Parroquial Rosenstiel e eram amigas, até Álvarez entrar na história.

Em seu perfil no Instagram, Mirna se descreve como "blindada, amada e mimada" e arrisca um pensamento: "Se todas as pessoas usassem a língua para orar assim como julgam, o mundo seria diferente".

Em público, Mirna está sempre ao lado do cabeleireiro Emilio Villalba, que a chama de "maravilhosa" e "belíssima". Segundo a polícia, ele é uma espécie de segurança e informante de Aguayo. Um telefonema de Villalba para Álvarez pouco antes do atentado complicou ainda mais a situação do casal suspeito.

O pai de Mirna, Oscar Romero, era pedreiro e tinha uma bicicleta como principal posse, até virar funcionário público e viver uma meteórica ascensão social, chegando a principal colaborador do prefeito local. "A fronteira é complicada, mas nós confiamos em Deus e na Justiça", disse ele ao TAB por telefone, antes de desligar diante de mais perguntas e pedidos para falar com sua filha.

FRONTEIRA SANGUINÁRIA

Centenas de mortes em exposição pública. Assassinatos servindo de recados brutais com tiros, mutilações e bilhetes. Armamentos de guerra. Conivência de agentes do Estado. Casos nunca resolvidos. População aterrorizada. Facções da droga terceirizando a matança para grupos de extermínio. Os ingredientes da fronteira se parecem com os de outra zona limítrofe, a do México junto aos EUA.

Tanto o governador de Amambay, Ronald Acevedo, quanto o secretário de segurança de Ponta Porã (MS), Marcelino Nunes, apontam para uma "mexicanização" da região. "O poder público ainda se mantém presente, mas todo o resto dos fatores está na região", analisa Nunes. "Aqui é a nova Sinaloa", classifica Acevedo, comparando a região ao Estado mexicano conhecido por cartéis sanguinários.

Mesmo com essa opinião, o governador declara não acreditar que a morte da filha seja um recado a ele. "Ela estava no lugar errado com a pessoa errada."

O protagonismo dos matadores de aluguel é outra semelhança. O mais temido é Marcio Ariel Sánchez, vulgo Aguacate, apontado pelo prefeito de Pedro Juan Caballero como organizador do quádruplo homicídio. Não há nenhuma investigação ou ordem de captura contra ele nesse caso.

Aguacate era o chefe da segurança do "rei da fronteira" Jorge Rafaat, morto pelo PCC em 2016. Após sair ferido nesse ataque, retomou os contatos do finado patrão. Discreto, só anda pela fronteira em um comboio de três picapes blindadas e insufilmadas — a do meio é sempre a dele.

Entre os supostos autores materiais do crime, já estão presos o olheiro e mais seis brasileiros, encontrados com um arsenal em um sítio do lado paraguaio — perto dali foi incendiada a camionete usada no atentado.

Um dos pistoleiros, Derlis Ayala, 23, acabou com um tiro na cabeça e um bilhete na cintura, com o texto "3 meninas inocentes, que sirva de exemplo". Para a polícia, essa morte foi queima de arquivo. Naquele matagal se encerrou uma vida marcada pela tragédia: seis anos atrás, o então adolescente Ayala foi a principal testemunha na condenação de seu pai pelo assassinato da mãe, em Capitán Bado.

SALVO PELO TÚMULO

Outra chacina com quatro vítimas não ganhou tantas linhas de investigação. O pedreiro brasileiro Paulo César Pavão, 36, se refrescava tomando tereré na frente de casa com os amigos no começo da noite de 24 de agosto. Foi quando uma picape prata Volkswagen Amarok entrou na rua de terra daquela periferia de Pedro Juan Caballero e estacionou.

O vidro escuro se abriu. Dentro, três homens de uniforme camuflado e touca ninja. O motorista olhava o celular e depois para eles. Pela vestimenta, Paulo achou que eram agentes do Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), mas logo eles saíram do carro atirando.

Um amigo caiu morto entre as raízes de duas árvores. Outro correu, mas tombou sem vida na calçada de Ramón Vicente, vizinho surdo, que assistia à TV alheio ao tiroteio, aproximou-se da porta e levou um tiro no braço.

Paulo pulou da cadeira, derrubou seu mate gelado, levou seis tiros e ficou desacordado no quintal, bem ao lado do túmulo de seu irmão — no Paraguai, as famílias podem enterrar em casa as crianças que morrem no parto. "Meu irmãozinho me protegeu. Se eles quisessem, me matavam fácil."

Ao sair, os criminosos levantaram pelos cabelos a cabeça do morto entre as raízes e tiraram uma foto de seu rosto com o celular. "Tenho muito medo que me matem, mas preciso contar essa história. Todo mundo era colega de serviço. As pessoas precisam saber que tem muito inocente morrendo."

Depois de ficar hospitalizado por 15 dias, Paulo, de pai paulista e mãe paraguaia, voltou a trabalhar. Como centenas de outros, o caso foi encerrado sem culpados. "Quando vejo uma camionete na vizinhança, me vem uma tremedeira. Já imagino minha morte. Só peço que seja rápida, sem sequestro ou tortura."

Esse pensamento é comum nessa fronteira, onde os habitantes têm pesadelos com os olhos tão abertos quanto as armadilhas da região.

José Medeiros/UOL

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