Jornada noite adentro

Ninguém desliga de nada: temor pela covid-19 e trabalho extenuante nos fazem perder o sono

Arte/UOL

Dormir é imposição fisiológica, o corpo pede. Entretanto, estamos sempre lutando contra o sono, com medo de perder algo da vida vivida acordado. O que transforma uma necessidade tão básica quanto dormir em "luxo" é uma ordem, nem sempre consciente, de vigilância permanente.

Querendo ou não, essa ordem atravessa os corpos e produz cada vez mais confusão nas fronteiras borradas entre descanso, trabalho, lazer, consumo e entretenimento — fronteiras que se bifurcam em aparelhos eletrônicos que enviam notificações a qualquer hora do dia. E da noite. E da madrugada.

A divisão entre noite e dia é coisa do passado nas metrópoles que nunca dormem. Na crise do novo coronavírus, com a orientação expressa de trabalho remoto para muitos e a regra do distanciamento social, essas fronteiras se borraram de vez — e para um contingente ainda maior de pessoas conectadas e em busca de atualização permanente.

Trata-se, afinal, da primeira grande crise mundial desde a explosão de smartphones e das redes sociais. No colapso financeiro de 2008, por exemplo, o WhatsApp sequer existia. Hoje, de tanta ansiedade e mal-estar, há quem precise sair dos grupos de mensagens instantâneas para fugir da hiperinformação e manter a sanidade. Como manter o sono em dia quando o mundo que conhecemos parece desmoronar?

Se resiliência é a palavra da moda, que ensina a sobreviver em um mundo que nunca desliga, a insônia é o seu efeito rebote.

DORMIR É PARA OS FRACOS

No livro "24/7 : Capitalismo tardio e os fins do sono", o ensaísta Jonathan Crary investiga como o sono se tornou um entrave na lógica do desenvolvimento econômico. Afinal, ninguém produz nem consome tirando uma soneca. O empregado ideal é inspirado nos pardais de coroa branca, que voam acordados durante sete dias, em sua travessia do Alasca para o México durante o outono.

A atividade cerebral desses pássaros é objeto de estudo do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em parceria com pesquisadores de diversas universidades. O objetivo é descobrir como um combatente pode ficar dias sem dormir para cumprir missões completas, sem alterar seu desempenho físico e mental. O médico de pronto-socorro de hoje é o combatente de amanhã: "trabalhadores essenciais" durante a pandemia, suas jornadas de trabalho (e a de enfermeiros, atendentes, cientistas) se tornaram ainda mais extenuantes.

Sintomático é que essas técnicas tenham sido testadas primeiramente nos inimigos: a privação de sono era uma das muitas formas de tortura aplicadas a presos sob custódia dos EUA após os atentados de 11 de setembro de 2001. Quem passa noites em claro percebe como essa busca pelo soldado ou pelo trabalhador ideal respinga nos corpos que interagem no esquema 24/7 (24 horas, sete dias da semana), típico do ambiente digital e do mercado global.

Crary lembra que, se em meados do século 20 a afirmação de que "passamos um terço das nossas vidas dormindo" parecia uma certeza matemática, hoje o sono é visto como "vestígio do universo agrícola que começou a desaparecer há 400 anos".

Agora, dormir é para os "fracos". Como mostrou o neurocientista Sidarta Ribeiro, em entrevista ao TAB: estamos alienados do sonho na sociedade atual. Isso significa que "não utilizamos os sonhos como parte dos processos mentais que nos orientam", abrindo mão, assim, de uma "vida interior riquíssima que todo mundo tem e quase ninguém acessa".

TERROR DA LUZ AZUL

O sono não pode ser eliminado. Mas pode ser espoliado — e já é. Pequenas atitudes têm consumido um naco importante dos momentos de descanso, como o hábito de acordar durante a noite para consultar mensagens no celular. Trocar horas de sono por trabalho extra é algo mais ou menos voluntário.

Há uma explicação científica para a correlação entre insônia e uso excessivo de eletrônicos. Segundo o médico George Pinheiro, membro titular da Associação Brasileira do Sono, os celulares e tablets, assim como as TVs, deixam usuários expostos a um espectro de luz azul que manda mensagens ao sistema nervoso central através da retina, alertando que não é o momento de liberar melatonina, o hormônio do sono.

É por isso que, mesmo cansados, não conseguimos relaxar e dormir diante das telas que potencializam a excitação mental. Pinheiro explica que, para dormir, são necessárias condições que têm sido obstruídas pelo excesso de informação em forma de luz.

O nó, afirma ele, é que "vivemos em uma sociedade que não nos estimula a dormir". "O sono é visto como algo opcional, um obstáculo à nossa produtividade. Como dormir diante de uma pressão contrária a isso?"

Em situação de crise como a que estamos passando, dormir bem será uma tarefa difícil para muitas pessoas. "Acompanhar as notícias de novos casos gera um sensação de medo e ansiedade, que pode impactar no início e na manutenção do sono. Em casos extremos, pode até gerar pesadelos. Buscar o controle emocional é necessário para não comprometer a qualidade das noites de sono. Dormir é um dos elementos envolvidos na imunidade corporal. Então, o momento é de exercitar a racionalidade, controlar o medo, dormir e se alimentar bem para enfrentarmos a pandemia que hoje nos desafia", orienta Pinheiro.

DORMINDO COM O INIMIGO

A Associação Brasileira do Sono afirma que 75% da população brasileira apresenta queixas de sono; um terço (32%) sofre com insônia. Em 2019, segundo o aplicativo de vendas online Farmácias APP, os medicamentos da classe hipnótica e sedativa, indicados para o tratamento da insônia, tiveram um crescimento de 20% em relação a 2018. Outra pesquisa, divulgada em 2019 pela Royal Philips, mostrou que o sono de mais de um terço dos brasileiros (35%) é afetado pelo consumo de redes sociais e televisão.

Professora da rede pública em São Paulo, Raquel Foresti, de 36 anos, é um exemplo. Ela conta que começou a atravessar as noites nos primórdios da internet, quando a conexão ainda era feita por modem. A rede se transformou em um problema com a chegada dos smartphones. "A vida, desde 2013, ficou muito complicada. Sempre fui muito ativa politicamente, sempre estou em alerta para novas notícias e, às vezes, era a primeira a compartilhar. A galera dizia que gostava da minha página porque se informava, e eu me vi como uma espécie de produtora de conteúdo. Então o que era 'mexer na internet' esperando o busão virou algo diferente, fico toda hora olhando, e isso vai pirando um pouco."

Diagnosticada com depressão, Foresti conta que, nos momentos mais agudos de ansiedade, a internet virava muleta. A saída foi procurar um mosteiro para se desconectar. Nos três primeiros dias, ela sentia uma espécie de síndrome de abstinência. Mas voltou para lá nas últimas férias. Em casa, precisou mudar os hábitos: passou a deixar o celular descarregado antes de dormir e deixou de levar o aparelho nas aulas ou na acupuntura. Ela conta também ter comprado um despertador para evitar dormir com o inimigo no quarto.

Com a crise da covid-19, tudo voltou à estaca zero. "Vão ser meses em que dormir vai ser uma das coisas menos importantes. Não é a ansiedade que está me fazendo ficar na internet. É a indignação", conta ela, que tem pais idosos e se preocupa com um possível massacre. "Estamos naqueles segundos em que você vê o caminhão se aproximar antes do acidente."

DESPERTADOR MALUCO

Desconectar, em muitos casos, requer ajuda profissional. As principais universidades e hospitais do país possuem departamentos que pesquisam e tratam transtornos de sono. Há também centros de desintoxicação eletrônica, caso da UFRJ, que desde 2013 reúne, no Instituto Delete, especialistas para atender pacientes com problemas de "intoxicação digital".

O psicólogo Cristiano Nabuco, que coordena o Núcleo de Dependências Tecnológicas ligado à Faculdade de Medicina da USP, compara o uso excessivo de eletrônico ao vício em jogos de azar. Os programas são desenvolvidos de forma a criar engajamento, sensação de recompensa e movimentos repetitivos, provocando uma reação em cadeia com menos descanso, mais uso de eletrônicos, menos sono profundo, menos disposição no dia seguinte.

O ciclo é movido pela ânsia por novidades, sintoma de uma época marcada pela velocidade em tudo fica obsoleto. Como exemplo, Nabuco lembra de um pesquisador conhecido que decidiu pesquisar o Orkut; quando o estudo ficou pronto, depois de anos de rigor científico, a rede social já não existia.

Um adulto em idade produtiva deve dormir de sete a nove horas por noite, de acordo com o médico Edilson Zancanella, professor e coordenador do Serviço de Distúrbios do Sono do Hospital de Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e membro titular da American Academy of Sleep Medicine. Ele explica que a insônia pode se manifestar em quem tem dificuldade para começar o sono e também em quem desperta em vários momentos da noite e tem dificuldade em voltar a dormir.

BOTÃO DE DESLIGAR

Para fechar o diagnóstico, os sintomas de insônia devem manifestar ao menos três vezes por semana durante três meses — e não apenas em momentos de crises resultantes de luto ou ansiedade. Zancanella afirma que o impacto do uso de tecnologias móveis nas dinâmicas de sono, por serem um fenômeno relativamente recente, ainda não foram totalmente mensurados. É possível observar, porém, um aumento significativo desses transtornos. Ele conta que desde a invenção da energia elétrica, passamos a dormir, em média, duas horas a menos do que as gerações anteriores.

Em sua clínica, a queixa sobre dificuldades de se desligar é recorrente. "Não temos botão de liga e desliga. Não viemos com esse acessório, então para dormir é preciso ter ritmo, tranquilidade, ambiente adequado e rotina", diz. A parte mais difícil, segundo ele, é mudar os hábitos. Muitos relatam ansiedade em responder mensagens que chegam em momentos impróprios, uma obrigação que não existia antes.

Há relação entre insônia e crises políticas e econômicas. Isso tem mudado o perfil dos pacientes, com homens de cerca de 40 anos relatando de forma mais frequente problemas para dormir em razão da ansiedade e do medo de falência e da demissão.

A situação também se agrava no caso de mulheres com jornada dupla. "As preocupações com os filhos, a roupa, a comida fazem com que as horas de sono diminuam cada vez mais."

A insônia tem se intensificado também em uma época em que muitas profissões deixaram ou deixarão de existir em razão da automação. Um resultado dessa apreensão é o nível de agressividade na sociedade, do debate nas redes às interações usuais.

NINGUÉM DORME

A degradação do sono é resultado direto também das mudanças nas relações de trabalho. O publicitário Fellipe dos Santos, por exemplo, mora sozinho e trabalha de casa há três anos. "Fico sem ver gente e me debruço nas redes sociais para compensar. É uma necessidade de me manter atualizado, e não me sentir isolado", diz.

Ele conta que, com o novo coronavírus, a única coisa que mudou na rotina é passar ainda mais tempo em casa. "Costumava usar a saída para o almoço, a ida à padaria e ao supermercado para forçar um momento de espairecer. Agora, estando em casa o dia todo, esse momento não acontece e isso dá uma estressada maior na mente e no corpo." Para ele, o maior problema é o tsunami de pensamentos e reflexões que "não deveriam estar vindo comigo na hora de dormir".

Tudo poderia ser resolvido, segundo uma produtora cultural de São Paulo que pede para não ser identificada, se existisse um código de ética na relação dos empregadores com o trabalhador autônomo, "uma coisa mínima, com contrato, limites de horas". "As pessoas acham que o frila, o trabalhador autônomo, está 100% disponível. As coisas têm prazo de entrega mas não têm fim", acrescenta. Tanta tensão faz com que ela nunca durma mais de cinco horas por noite. "As tecnologias surgiram para deixar a gente mais refém." Com a pandemia, ela diz que a questão agora não é mais conseguir dormir: é não enlouquecer.

Outra produtora de eventos, que também prefere falar sob anonimato, conta que em algumas semanas chega a trabalhar em até oito projetos que ocorrem em cidades diferentes. Com uma equipe enxuta, o volume de trabalho é tão intenso que atravessa a noite — quando ocorrem os imprevistos na logística com hotéis, pagamentos, refeições, voos. "Meu celular particular se tornou corporativo. Não posso desligar nem se eu quiser. Acordo e olho várias vezes. Consequentemente, não durmo", diz ela, que trata há cinco anos de uma depressão associada à ansiedade. "A única solução é mudar de emprego. Mas o mercado não está tão bom. O jeito é me adaptar", diz a paulistana de 43 anos.

Nos últimos dias, ela conta que a empresa dispensou todos os colaboradores por conta do coronavírus. "Estamos em casa e, como nosso setor é de eventos, foi o mais prejudicado. Não temos reservas financeiras para segurar, já que a empresa está em recuperação judicial. Se recebermos no próximo mês, será por pura sorte. Mas continuo trabalhando de modo remoto. Eu lido com freelancers. O que sobrou pra mim é suportar o desespero de todos 24 horas por dia..."

TERROR NOTURNO

A insônia está se tornando o grande terror de todos os homens de vida ativa, cravou o advogado e acadêmico norte-americano Franklin Head em 1886, diante da "aniquilação do tempo e do espaço", da "consequente compressão do trabalho de meses em horas, ou mesmo minutos", da "extraordinária competição em todos os tipos de negócios" e da "intensa atividade mental gerada pela insana corrida por fama e riqueza".

O texto é bastante atual, mas foi escrito sob o impacto da eletricidade e da velocidade das ferrovias. "Insônia" também é o título de um livro de Graciliano Ramos, um inveterado insone. Fernando Pessoa também era um habitante da noite: "De dia sou nulo, de noite sou eu". O vazio noturno era o espaço da reflexão, da dúvida, da concentração.

A professora da Universidade de Chicago (EUA) Victoria Saramago Pádua estudou o papel da insônia nas obras de Graciliano Ramos e acha que a atual vigília noturna vai também criar sua literatura. "Essa maneira de nos relacionar com a tecnologia cria outras formas de subjetividade que são igualmente significativas." Não apenas a arte e nossos modos de viver estão sendo transformados: em tempos de covid-19, a vigília noturna talvez nos reconectará à solidariedade, à atenção com o outro, e criará outras formas de lidar com o isolamento obrigatório enquanto durar a pandemia, para nosso próprio benefício.

A jornada madrugada adentro é árdua. Boa noite e boa sorte para todos.

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