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Lidia Zuin

REPORTAGEM

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Biblioteca digital Tênebra é primeira a reunir contos obscuros brasileiros

Coleção "Medo Imortal", da Darkside - Divulgação
Coleção 'Medo Imortal', da Darkside Imagem: Divulgação
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

19/11/2021 04h01

Lançada em outubro, a Tênebra é a primeira biblioteca digital de narrativas obscuras brasileiras. Fundada por Júlio França e Oscar Nestarez, especialistas em literatura, a iniciativa também conta com a equipe técnica formada por Ana Resende, Laura Cardoso, Magda Oliveira e Maíra Kirovsky.

O que seriam narrativas obscuras? Estamos falando sobre histórias de terror, de horror ou góticas? Oscar me explicou que existe uma certa diferença entre essas taxonomias. "Apesar de gótico, horror ou terror serem muitas vezes empregados como sinônimos, na verdade, quando pesquisamos a historiografia da narrativas assustadoras, compreendemos que, embora haja inúmeros pontos de contato entre essas categorias, há distanciamentos também."

Oscar afirma que o gótico seria a matriz do gênero, uma vez que despontou como fenômeno cultural e literário na Europa do século 18. Nele se discutia o confronto entre passado e presente, entre outros temas. Mais tarde, o gótico se tornou uma poética, com tópicos e procedimentos retóricos específicos, entre eles o efeito do horror que, por sua vez, no século 20, acabou virando um gênero próprio. "É difícil apontar uma data específica para as publicações dessas vertentes aqui no Brasil, mas há um consenso a respeito de 'Noite na taverna' (1855), de Álvares de Azevedo, ser uma obra fundadora pelo que traz de elementos 'goticizantes', como as presenças fantasmagóricas do passado e personagens cruéis, além do uso do macabro e do violento", explica o escritor.

Segundo os fundadores da Tênebra, várias obras com elementos góticos acabaram, num primeiro momento, sendo vinculadas a outras correntes literárias, como o ultrarromantismo. Apesar de operarem no registro do gótico, algumas narrativas do século 19 foram vinculadas a outros movimentos como o decadentismo, o simbolismo ou mesmo o modernismo.

Para tornar a abordagem mais didática, Oscar se refere ao extenso período como "imaginário do horror", da metade do século 19 até as décadas de 1920 e 1930. No caso da distinção entre horror e terror, Oscar gosta de usar a referência de Ann Radcliffe, que diz que o horror, ou o "efeito do arrepio", será sempre a finalidade última e predominante de narrativas do gênero. O terror se encaixa nesse arcabouço.

Júlio ainda menciona que, mesmo antes de "Noite na Taverna", outras narrativas fundadoras do romance brasileiro, como "O Filho do Pescador", de Teixeira e Sousa, já traziam "elementos bastante acentuados da tradição gótica setecentista", mas esse é um estudo que ainda precisa ser aprofundado. A Tênebra surge como uma fonte para municiar a pesquisa literária brasileira. "Quando ouvi a ideia do Júlio pela primeira vez, eu mesmo percebi como fazia falta, à minha pesquisa, um repositório de textos literários 'de gênero' semelhante ao que existe na Espanha, por exemplo", comenta Oscar.

A Tênebra quer atender ao público leitor e a comunidade acadêmica, ao trazer textos sinistros de nomes consagrados da literatura brasileira, além de narrativas de nomes que não estão nem na Wikipédia. "Pensamos que isso pode ajudar a fortalecer a recepção crítica e acadêmica de um passado que jamais deveria ter ficado de fora das nossas cabeceiras. Fora isso, também queremos derrubar de vez a percepção de que escritores brasileiros eram 'grandes demais' para escrever literatura de gênero", finaliza Oscar.

O formato atual da Tênebra é somente um começo. Júlio diz que, depois desse primeiro momento de consolidação do acervo com obras em formato referenciável, há o desejo futuro de se estabelecerem parcerias com projetos educacionais. Fora isso, é importante ressaltar que a iniciativa tem uma característica multidisciplinar, uma vez que também conta com um trabalho de garimpo realizado por especialistas em historiografia da arte e filologia, por exemplo.

A plataforma é resultado de esforços de anos, por parte de Júlio e seu antigo grupo de estudos. Nesse ínterim, os pesquisadores chegaram a publicar uma pequena parte dos textos levantados em obras acadêmicas como o "Páginas Perversas" (2017), bem como obras comerciais como a antologia "Medo Imortal", organizada por Romeu Martins e publicada pela Darkside.

Com a Tênebra, os pesquisadores seguem fazendo prospecção de novas narrativas, tendo Magda como líder nesse setor. Ana e Laura cuidam da revisão, conferência e ortografia, enquanto Maíra fica encarregada de "fichar" as obras: todas são catalogadas em fichas descritivas, com traços genéricos, temáticos e estilísticos fundamentais. Em live no canal do YouTube "Fantasticursos", Júlio e Oscar disseram que, a partir desses esforços coletivos, a Tênebra pode, mais para frente, oferecer uma organização das narrativas a partir de temáticas, por exemplo.

Por se tratar de um projeto ambicioso, a Tênebra adota o termo "narrativas obscuras", mais abrangente, sem cometer anacronismos ou deslizes teóricos quanto à categorização. Oscar menciona o conto "Morte do palhaço", de Gonzaga Duque, história inquietante e sinistra de teor fortemente simbolista: "Seria um equívoco chamá-la de obra de horror. O mesmo pensamento vale para contos de Machado de Assis como 'Sem olhos' ou 'A causa secreta'." Para ambos os pesquisadores, o termo "obscuras" também possibilita que a Tênebra trate de obras desconhecidas da crítica e mesmo do público especializado.

Júlio comenta que há cada vez mais grupos de pesquisa registrados juntos ao CNPq dedicados à ficção fantástica e de horror no Brasil. Entre os exemplos citados pelo professor estão o grupo Vertentes do Fantástico na Literatura, o Nós do Insólito, o grupo de pesquisa de Marisa Martins Gama-Khalil na UFU (Universidade Federal de Uberlândia), além do grupo que ele próprio coordena junto com Luciana Colucci, o Estudos do Gótico. "Esses grupos reúnem professores, doutorandos, mestrandos e alunos de iniciação científica do Brasil todo e estão ligados em um grupo de trabalho da ANPOLL, o 'Vertentes do Insólito Ficcional'", explica. "São grupos universitários, mas os eventos que organizamos são abertos ao público, como foi o caso do 4º Seminário de Estudos do Gótico realizado junto à UFSC [Universidade Federal de Santa Catarina]."

Para quem ainda está começando a desbravar a literatura obscura brasileira, Oscar sugere alguns textos já publicados na Tênebra, como "Valsa fantástica", do mineiro Afonso Celso, no qual a natureza é apresentada de forma violenta e assombrosa. Já em "O estudante e os monges", do também mineiro Couto de Magalhães, encontramos um conto de horror vanguardista, com manuscritos arcanos e frades satânicos. O escritor também cita o conto "O estigma", de Monteiro Lobato, cujo tema é uma tragédia de contornos sobrenaturais, e "Gongo-Velho", de Rodrigo Otávio, que nada deve a alguns grandes momentos do gótico europeu.