PUBLICIDADE
Topo

Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Febre de playlists de lo-fi hip hop e vídeo POV são puro capitalismo tardio

Imagem do vídeo de lo-fi hip hop "Beats to study/work" - YouTube/Reprodução
Imagem do vídeo de lo-fi hip hop 'Beats to study/work' Imagem: YouTube/Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

01/01/2022 04h01

Em 2020, Mário Júnior extrapolou o TikTok para se tornar um meme nacional. Isso porque o influenciador digital seguia um modelo de conteúdo típico da plataforma, o POV (point of view). Traduzido como "ponto de vista", esse formato audiovisual geralmente aparece na aba "Para Você" no TikTok, que oferece conteúdos semelhantes aos vistos anteriormente

POV é uma estratégia de engajamento numa rede social que reforça o remix de outros vídeos, sons e memes. De modo a se destacar nesse oceano de conteúdos parecidos, o POV propõe-se mais "humano".

Usando trilhas sonoras que, muitas vezes, traduzem a mensagem que o criador quer compartilhar, os vídeos POV também são bem específicos: encenam desde situações constrangedoras e triviais entre adolescentes até a simulação de um relacionamento, como foi o caso de Mário Júnior.

Em última instância, como sugere esse artigo, os vídeos POV têm como premissa gerar empatia entre os usuários da rede e, assim, endereçar situações ou tópicos que são sensíveis a esse público, majoritariamente com menos de 34 anos. Esse, aliás, também é o perfil demográfico dos fãs de "lo-fi hip hop".

Canais no YouTube como Chillhop Music, ChilledCow e Mellowbeat Seeker são exemplos que têm publicado playlists ou transmissões contínuas desse gênero musical. As músicas transmitidas são caracterizadas pela sua baixa fidelidade (lo-fi), samples advindos de obras familiares e títulos que, muitas vezes, já expressam a intenção dessas rádios — é o caso de canções como "Things will be better by morning" (As coisas estarão melhores pela manhã) de Jonas Langer ou "I have love for everyone besides myself" (Amo a todos, exceto a mim mesmo) de barnesblvd.

Em outros casos, as próprias playlists sugerem sua finalidade, como é o caso da popular lofi hip hop radio - beats to relax/study to (rádio lo-fi hip hop - batidas para relaxar/estudar). A transmissão também ficou conhecida pelo uso de um vídeo em looping de uma garota estudando 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Desde 2015, esse tipo de conteúdo tem sido multiplicado pelo YouTube e Spotify, o que fez com que o gênero musical também ganhasse tração e influência sobre a indústria. Diferentemente de outras caixas de comentários internet afora, o chat desses canais é amigável e acolhedor.

No artigo "Beats to Relax/Study To: Contradiction and Paradox in Lofi Hip Hop", os pesquisadores Emma Winston e Lawrence Saywood afirmam que até microficções (ou confissões) são compartilhadas entre os usuários que, por sua vez, são respondidos com mensagens de apoio. No caso do canal College Music, há um robô programado para responder a um pedido de abraço automatizado (figura acima) ou então para contar uma piada.

Tanto no YouTube quanto no Spotify, playlists com funções específicas podem ter títulos como "pov: your sadness turned into anger" (POV: sua tristeza transformada em raiva) ou "pov: you're the villain with a tragic backstory" (POV: você é o vilão com uma história trágica).

O que Winston e Saywood argumentam é que o gênero lo-fi hip hop é, em si, uma contradição. Ao mesmo tempo em que essas playlists são feitas para que as pessoas tenham energia e concentração, ou mesmo para que alcançarem um humor específico, essas listas são, justamente, consequência do capitalismo tardio em que vivemos.

Ao usar samples de outras obras, bem como o fato de ser uma música de "baixa fidelidade" ou então propositalmente reduzida em sua qualidade, o lo-fi hip hop é um gênero que reforça a sensação de nostalgia, mesmo que o ouvinte não conheça a referência ali utilizada.

Winston e Saywood comentam no caso da música "I wonder if I'm dead" de Eevee, que usa um trecho de uma música da animação "The Legend of Korra", lançada em 2012. Os pesquisadores descobriram que a sensação de nostalgia acontece mesmo entre os ouvintes que nunca assistiram à animação, o que reforça o fato de o gênero musical se utilizar de recursos técnicos para provocar a impressão de um passado que, no entanto, não é o verdadeiro passado, mas um sentimento fabricado no presente. Nas palavras dos pesquisadores:

"...longe de ser um engajamento superficial com o passado, [o lo-fi hip hop] na verdade parece uma extensão e desdobramento do que Boym (2002) definiu como 'nostalgia reflexiva', a qual não visa apenas ao engajamento superficial com a nostalgia, nem à recriação de uma cópia perfeita de uma vida passada, mas ela engloba a fragmentação da memória e defere qualquer retorno verdadeiro, 'enamorando-se com a distância, não com a referência em si'. Sugerimos que o lo-fi hip hop engaja seus ouvintes e produtores simultaneamente em uma nostalgia pelas suas memórias de infância, mas também por aquilo que é reconhecido como um passado imaginado, não apenas inalcançável no presente, mas nunca vivenciado."

O lo-fi hip hop não é o único gênero musical que brinca com a nostalgia e a fabricação de memórias. Winston e Saywood mencionam os gêneros musicais "hauntology", "hypnagogic pop", "chillwave" e "vaporwave". No que diz respeito ao "hauntology", o gênero empresta o termo criado por Jacques Derrida, que combina "haunt" (assombrar) e "ontology" (ontologia) para evocar "a figura de um fantasma que não está nem presente, nem ausente, nem morto ou vivo."

Mark Fisher também trabalhou com esse conceito em um contexto político, enquanto Vermeulen e den Akker trouxeram um ponto de vista sociológico ao sugerir o surgimento de uma nova época — o metamodernismo, do qual já falei por aqui.

O metamodernismo adota uma postura de escárnio, só que, no fundo, há ainda um resquício de esperança, nostalgia e romantismo de que as coisas podem, um dia, ser melhores. Penso que esse é exatamente o tipo de humor cultivado pelos millennials e pela geração Z, especialmente quando vemos páginas como Melted Videos, que, inclusive, adota uma estética vaporwave em sua identidade de marca.

Agora, diferentemente dos POVs do TikTok em que há uma narrativa e um personagem explícitos, playlists são mais subjetivas. Ainda assim, é senso comum que músicas conseguem afetar nosso humor e são usadas em abordagens médicas — é o caso da musicoterapia.

O Hospital Israelita Albert Einstein até chegou a criar playlists específicas no Spotify, com títulos como "Momento mãe e filho". De forma semelhante, empresas de "music branding" criam playlists para experiências específicas (um casamento ou um evento corporativo, por exemplo), bem como para ajudar a controlar a ansiedade. Músicas têm sido compostas, justamente, com essa finalidade.

Durante a pandemia, streamings de lo-fi hip hop tornaram-se mais populares justamente pelo efeito de controle de ansiedade. Um ano antes, em 2019, o canal College Radio fez uma parceria com o Hospital Samaritano, em São Paulo, criando uma transmissão para oferecer recursos de saúde mental a estudantes. Em vez de incluir uma caixa de comentários, a transmissão usa uma caixa de bate-papo ao vivo, através da qual essas pessoas podem se comunicar.

Winston e Saywood chegam a mencionar que, nos últimos anos, o tempo de estadia na escola aumentou tanto quanto as tarefas de casa, o que reproduz a própria lógica do mercado de trabalho pós-fordista. Jovens estão sendo preparados não para fazer tarefas repetitivas, que foram automatizadas por máquinas, mas sim para ter um "trabalho afetivo".

Esse termo, sugerido pelo teórico Paolo Virno, diz respeito à maneira com que o trabalho atualmente se concentra em comunicação, emoção e intelecto, pensamentos e discursos de modo a funcionarmos como "máquinas produtivas". Não nos preparamos mais para tarefas repetitivas, mecânicas e previsíveis, mas para sermos cada vez mais adaptáveis em níveis emocionais e de investimento pessoal. De acordo com Malcolm Harris, citado por Winston e Saywood,

"...a crescente prevalência do trabalho afetivo no modelo econômico pós-fordista é acompanhada por um correspondente aumento na ênfase sobre a preparação para o mercado de trabalho que começa desde a infância; aqueles que são millennials ou mais jovens, argumenta Harris, estão sendo criados para trabalhar com suas emoções desde o começo da escola, treinados para entender que 'eficiência é o nosso propósito existencial'."

Para Winston e Saywood, o lo-fi hip hop, portanto, é um gênero musical que tenta apaziguar a lógica produtiva do capitalismo tardio, ao mesmo tempo em que continua funcionando de acordo com as regras desse sistema. As transmissões, afinal, são feitas em uma grande plataforma (YouTube ou Spotify) e alguns canais chegam a gerar receita a partir de anúncios ou pelo pagamento de taxas pela divulgação da música.

Ao fomentar o que os pesquisadores chamam de "audição ubíqua", essas transmissões reforçam uma "forma passiva e desatenta de audição que (...) é resultado da onipresença da música na vida contemporânea, caracterizada pelas pessoas 'vivendo em configurações industrializadas... ouvindo 'junto' ou simultaneamente enquanto fazem outras atividades.'"

Essa ubiquidade da música, das transmissões 24/7, pode, então, representar justamente essa não-linearidade da vida contemporânea, o que Winston e Saywood defendem como sendo uma característica do capitalismo tardio. Jonathan Crary chega a usar o termo capitalismo 24/7, uma vez que "não é simplesmente uma contínua ou sequencial captura da atenção, mas também um adensamento das camadas do tempo, nas quais múltiplas operações ou atrações podem ser atendidas quase simultaneamente, independentemente de onde se está ou o que se está fazendo". Daí para o famoso burnout é só um pulo.

Ver tendências estéticas como "Dark Academia" ou simplesmente "Academia" pipocarem em redes sociais como o Tumblr, Pinterest e TikTok apenas corrobora a análise de Winston e Saywood — mesmo porque, além da romantização dos ambientes acadêmicos, da leitura e do estudo, alguns usuários chegam a compartilhar desabafos sobre seus esforços para passar numa prova ou completar uma série de lições de casa, por exemplo. Por conta disso, os pesquisadores acreditam que o lo-fi hip hop (e eu estenderia também para as playlists POV), em sua própria contradição, expressa precisamente a mentalidade atual:

"Os estudantes que participam [da comunidade] lo-fi hip hop estão entre as primeiras gerações novas demais a se lembrar de um tempo anterior ao que Jonathan Crary chama de 'os paradoxos da expansão, a vida sem parada do capitalismo do século 21: inseparável das variáveis configurações de sono e despertar, iluminação e escuridão, justiça e terror e exposição, desproteção e vulnerabilidade'. Se a normalidade do século 21 é caracterizada por uma 'impossibilidade sistêmica', então, talvez engajar com o impossível através da cultura popular é simplesmente uma forma de achar sentido na vida cotidiana."

Lo-fi hip hop e as playlists POV surgem a partir dos mecanismos do capitalismo tardio (e dos algoritmos), ao mesmo tempo em que tentam apaziguar a audiência afetada por esses mesmos atores. Novamente Mark Fisher pode ser lembrado aqui quando argumenta, em "Capitalist Realism" (realismo capitalista, em tradução livre), que mesmo as expressões contrárias ao capitalismo são cooptadas pelo sistema e transformadas em produto — o próprio teórico se tornou um meme.

Só resta aos millennials e às gerações seguintes a postura metamoderna do "guilty pleasure" (prazer com culpa): rir e empatizar com os desafios do cotidiano, ao mesmo tempo em que deixar um like, comentar, seguir ou até fazer doações cimentam o funcionamento do capitalismo tardio e algorítmico.